Ice and Fire
1 O dragão faz sua última dança e o lobo se esconde
— I —
Era um dia ensolarado, como todos os outros. O Sul era sempre quente e o inverno ainda demoraria muito a chegar a Westeros. Representantes de todas as casas estavam presentes para o torneio de Harrenhal, o torneio de cavaleiros em que duas pessoas se encontrariam. Duas almas que poderiam mudar todo o destino de um lugar, e mudaram.
Rhaegar Targaryen, herdeiro do Trono de Ferro e Príncipe da Pedra do dragão, estaria participando do evento. Mas no momento se encontrava entre as pessoas normais, não entre os nobres, a quem julgavam que ele deveria conviver fielmente. Mas Rhaegar não se importava com crenças da realeza, ele gostava de ser ele mesmo.
Nunca fora como os outros nobres da época. Não gostava de se mostrar superior, muito menos de tentar conquistar meio mundo de mulheres e tê-las. Mas não era necessário, todas pareciam se arrastar atrás dele, atraídas pela sua beleza natural. Era alto e de cabelos quase brancos, além dos olhos púrpura, típico de um Targaryen.
Primogênito de Aerys e Rhaella, nascido no dia da tragédia de Solarestival, era visto como uma pessoa melancólica, sempre de luto pelas perdas do mesmo dia de seu nome. Diferentemente do que todos pensam, Rhaegar não nasceu com a alma de um cavaleiro. Seus interesses eram mais ligados a literatura e a música. Quando criança sofria piadas por ser fissurado em livros, principalmente sobre a história de Solarestival. Aos dezessete se tornou cavaleiro, um dos melhores, hábil e notável, além de ser extremamente inteligente e um ótimo estrategista.
Teria sido um bom rei, o melhor de todos, muitas pessoas arriscavam dizer. Ele era bom e se importava com os outros. Mas essa visão acabou se perdendo com o tempo, levada junto com as mentiras que passaram a contar ao seu respeito.
Durante o Torneio de Harrenhal, Rhaegar Targaryen parecia invencível. Recebia mais aplausos que o próprio Rei. Todos os olhares estavam voltados para ele. Mas o Príncipe só conseguia se concentrar em um par de olhos em meio a todas aquelas pessoas.
A mulher que estava roubando toda a sua atenção deveria ser a sua própria esposa, Elia Martell, com quem tinha dois filhos e um casamento arruinado. Não que não sentisse mais nada por ela, Elia era uma pessoa incrível e ele sempre a admiraria, mas nunca a amou de verdade.
Mas quem tinha sua total admiração era a filha do Norte. O frio deslocado que se encontrava em meio ao Sul quente. A garota mais bela que Rhaegar já vira na vida. E Lyanna Stark realmente fazia jus ao que todos diziam dela. Era uma boa mulher, cuidadosa, mas era forte e determinada, não se deixaria ser rebaixada por um homem e era extremamente bonita. Seus cabelos tão negros quanto a noite, totalmente diferentes dos fios loiros do Príncipe. O Targaryen estava fascinado.
Não entendia como ela ainda poderia suportar se posar ao lado de Robert Baratheon. Ele poderia até a amar, mas não a respeitava o suficiente, não o tanto que Rhaegar pensava ser o necessário. Todos sabiam que ele se esgueirava com mulheres ao seu colo às escondidas de Lyanna, que não era uma das pessoas mais educadas do mundo. Mas a loba continuava ao seu lado.
E isso estava levando Rhaegar a loucura. Não que estivesse apaixonado pela Stark, talvez não estivesse, não naquele momento. Dez dias não era o suficiente para se entregar por completo a uma pessoa. Mas era o suficiente para conhecer o mínimo necessário para entender que uma mulher daquelas não deveria estar presa a um casamento mal-arranjado como aquele.
O Príncipe sentia vontade de arrancar aquele sorriso presunçoso do rosto do Baratheon, de mostrar que ele não era o melhor para aquela garota. E foi o que fez, ao passar direto pela sua própria esposa e coroar Lyanna como a Rainha do Amor e da Beleza. Entregando-lhe uma coroa de rosas do inverno, que combinavam perfeitamente com ela.
— II —
No mesmo dia em que havia sido coroada por Rhaegar, Lyanna o procurou. Tiraria satisfações pelo que ele fez, algo que lhe rendeu um acesso de raiva de Robert, que já estava jurando o herdeiro do Trono à morte.
Ela o encontrou em meio aos plebeus, vestido comumente e não com todo aquele ouro que certamente o circundava. Antes mesmo de o conhecer, Lyanna já o admirava. Já havia escutado histórias a seu respeito, e tinha certa convicção de que eram todas verdadeiras. Rhaegar era uma pessoa com a alma pura e isso apenas se comprovava ao decorrer dos dias de festival.
Quando a viu o encarando, o Príncipe sorriu, algo considerado não muito comum, devido a sua personalidade.
— Não deverias estar junto a sua esposa? – Lyanna perguntou, se apresentando ao seu lado.
— Certamente, mas também preciso de um tempo com essas pessoas que mereciam mais do tempo dos nobres. – Respondeu simplesmente. – Elia compreende o que eu faço.
— Ela também compreende o porquê de ter me coroado? – Perguntou sem rodeios, não queria ser grossa, mas sua curiosidade era maior que a elegância. Não sentia raiva por ele ter lhe dado a coroa de rosas, talvez surpresa e até um pouco aflita.
— Sabes porque lhe dei a coroa, Lady Lyanna.
Ela viu o pequeno sorriso em seus lábios, mas seu olhar era sério, confirmando o que havia falado. Ele definitivamente não estava brincando com ela. Passou pelo Targaryen, seguindo para um dos jardins muito bem preservados que havia ali por perto. Tinha certeza que ele a seguiria.
— Não sei o que queres com isso, príncipe Dragão, começar uma guerra talvez? – Proferiu baixo, andando pelo jardim, sendo seguida por Rhaegar.
— Meus planos não são o de começar uma guerra, filha do Norte. – Respondeu com sinceridade. – Mas me deixa curioso saber o porquê de ainda estar ao lado de um homem como o Baratheon.
Lyanna demorou a responder. Sabia muito bem o que falar, mas as vezes não parecia o suficiente, até mesmo ela compreendia o que Rhaegar estava insinuando com todo esse jogo que ele estava fazendo. E ele era um excelente jogador.
— Ele me ama.
— Não duvido disso, é perceptível no olhar do homem. Robert apenas não lhe trata como deveria. – Vendo que ela não responderia diante isso, continuou. – Não deverias gastar seu tempo com um homem que te ama, mas não lhe respeita o suficiente. Você não é como as outras mulheres, Lady Lyanna. Não sei se já tive o prazer de conhecer alguma com tanta beleza e determinação. És realmente uma loba, forte, sabes exatamente o caminho em que tem que seguir. Realmente não compreendendo por se apresentar ao lado de uma presa, um animal tão fraco.
Novamente, ela não sabia o que responder. Mal tinha consciência se o que ele disse era uma crítica ou um elogio. Mas ela mesma acreditava nas palavras dele, sabia que eram verdadeiras.
Nos dez dias do torneio de Harrenhal, Lyanna e Rhaegar não se apaixonaram mortalmente, como alguns especularam. Eles apenas viram um companheirismo complexo que poderia deixar o outro sem argumentos em segundos. O príncipe da Pedra do Dragão enxergava a verdadeira guerreira que a loba era e ela mesma via como ele conseguia controlar o animal indomável dentro dele.
Fogo e gelo, dois elementos que sempre tentariam extinguir o outro. Mas eles queriam o impossível e teriam o impossível.
— III —
Um ano se passou antes do tão falado sequestro de Lyanna por Rhaegar. O que acabou por ser o estopim para realmente começar uma guerra que já estava totalmente traçada e planejada. Era uma bela desculpa para tentar colocar os 7 reinos a baixo.
Nesse um ano os dois não se viram uma única vez, mas os corvos faziam seu trabalho cruzando os céus. O príncipe era bom com as palavras, poderiam ter sido elas a convencer Lyanna de cometer a atrocidade de fugir com ele, mas ela se conhecia o suficiente para saber que a decisão era totalmente dela e não uma manipulação.
O que era apenas um entendimento sobre a realidade entre os dois, acabou se tornando um carinho imenso pelo que continham nas poucas palavras que escreviam por vez. Talvez fosse amor o que Lyanna sentia por ele no momento em que subiu no cavalo, junto ao seu príncipe e deixou para trás o Norte, a sua casa. Mas talvez fosse a adrenalina de pôr uma vez na vida fazer o que realmente queria e não ser subjugada como uma mulher que deveria apenas servir ao seu marido.
Os dois se mantiveram juntos, foram felizes, sorriram, fugiram de tudo. Estavam libertando o animal selvagem que tinham dentro de si. E em algum ponto perceberam que tudo aquilo não poderia ser apenas uma forma de liberdade, deveria ser algo mais. Os dois estavam realmente apaixonados e saberiam que morreriam um pelo outro. Tinham consciência de que isso aconteceria em algum futuro próximo.
Se amaram e o fruto disso era um filho que Lyanna carregava. A guerra estava em seus calcanhares, Rhaegar precisava voltar e assumir seu posto, seu sumiço apenas fortificavam as mentiras ao seu respeito e sobre ter ido à loucura ao raptar uma mulher prometida a se casar.
Mas não poderia morrer sem saber que sua amada era sua de todas as maneiras. Na mesma noite em que se separaram, a mesma noite em que se viram pela última vez, foi nela em que trocaram seus votos.
Diante uma árvore coração prestaram seus juramentos um ao outro e aos deuses antigos. Rhaegar não acreditava nos deuses sem nome, mas acreditava em Lyanna e no que sentia por ela. Ele acreditava na profecia e em destino.
— Com esse beijo eu juro meu amor, e tomo você como meu príncipe e marido.
— Com esse beijo eu juro meu amor, e tomo você como minha princesa e mulher. – Os dois se amavam e agora estavam juntos, para sempre, mesmo que suas histórias fossem durar poucos meses. – Eu vou te proteger, vou manter nós três a salvo.
Lyanna sorriu fraco, queria acreditar no que o herdeiro ao Trono dizia, mas ambos sabiam que era mentira. Não que significasse que Rhaegar não tentaria.
— Espero que os deuses sejam bons conosco. – Ela disse por fim.
Mas eles não foram.
— IV —
Nos meses que se seguiram a guerra se alastrava por todo o reino. Milhares morriam, pessoas importantes para ambos estavam agora entregues aos deuses. Eles mesmos sabiam que seu tempo chegaria.
Príncipe Rhaegar Targaryen, filho mais velho do Rei Aerys II, herdeiro do Trono de Ferro e Príncipe de Pedra do Dragão, morreu sozinho, morreu em combate, pelas mãos do homem que também amou a mesma mulher que ele. Morto por um animal mais fraco, uma presa fácil.
A pessoa que tinha tudo em suas mãos, o povo, um reinado e o poder. Mas perdeu sua vida se importando apenas com o fato de finalmente ter encontrado amor em meio ao luto em que sempre viveu. Não se arrependia de nada, mesmo quando o sangue lhe deixava o corpo. Sua profecia se concretizaria, a terceira cabeça do dragão Targaryen agora existia. O príncipe prometido, a criança que cantaria a canção do gelo e do fogo.
No mesmo dia, Lyanna também viria a falecer. Atormentada pelas várias perdas que lhe atingiram ao decorrer dos últimos meses. Mas não morria sozinha como seu amado, seu irmão estava ao seu lado e junto a sua presença, uma promessa.
— Prometa-me, Ned. – Ela suplicava fraca, sentindo sua vida deixar seu corpo. – Prometa-me que vai protege-lo, que não vai deixar nada de ruim acontecer ao meu filho. Prometa-me que não vai permitir que matem o meu pequeno dragão, meu pequeno Jaehaerys. – Ela chorava, sentia medo naquele momento, como nunca havia sentido antes. Sentia medo pelo pequeno bebê, pelo próprio Rhaegar e por ela mesma. – Cuide dele, ensine-o a ser um bom lobo e quando chegar a hora, conte-o a verdade. Ele crescerá como filho do inverno, mas algum dia terá que aprender a ser um dragão. Prometa-me.
Então a escuridão a tomou por completo, suas palavras não passavam de um eco agora. Talvez, para onde quer que sua alma fosse ela pudesse encontrar o fogo ardente de seu príncipe. Talvez eles pudessem ser felizes.
Algum dia as pessoas entenderiam a verdade. Saberiam que Rhaegar nunca faria mal a Lyanna. Compreenderiam que ela não foi sequestrada e abusada, certamente não, a loba era muito forte para se deixar ser atacada dessa maneira e o príncipe era muito bom para se deixar cometer atrocidades a esse nível. Veriam que o dragão morreu fazendo a sua última dança, que ele tentou a todo custo proteger a quem amava e que os lobos se esconderam, levando consigo uma das últimas chamas do legado Targaryen.
Talvez algum dia a história dos dois se transformaria em uma canção, que poderia vir a ser cantada por um bastardo.
Notas finais
2. Rhaegar poderia não ter um casamento fracassado e Lyanna poderia não ter um casamento 'mal-arranjado', mas faz sentido para o que eu quis na one. Não entendam como se isso fosse a verdade absoluta.
3. Eu não tenho a mínima se eles se casaram de verdade, mas como os Targaryen permitem poligamia não seria tão absurdo que Rhaegar tivesse duas esposas.
4. Como o Jon é um Targaryen ele com certeza tem um nome Targaryen, Jaehaerys é uma boa especulação, mas nada confirmado.
Espero que tenham gostado e não se esqueçam de comentar, por favor!
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