Ice and Fire
1 Capítulo 1: Encontros e Desencontros
Imersa na taiga russo-escandinava e abrigando tanto os bosques mistos de Sarmático, quanto os bosques montanhosos de Vidoeiros, a Finlândia não era apenas mais um compartilhamento de regiões árticas. Há muitos anos, sobrepujando glutões, alces e renas*, os lobos-cinza haviam se tornado a espécie mais abundante e rica – geneticamente – do país; e, muito provavelmente, da Europa. Isso fizera da região um território quase que completamente desabitados por seres humanos puros, os quais passaram a restringir-se ao neotrópico.
Algumas subespécies eram bastante conhecidas por sua vasta distribuição, mas ainda era desconhecido o porquê de a natureza ter começado a, aparentemente, respeitar os territórios sociopolíticos mundiais humanos: as raças passaram a ser típicas de países, não de regiões. Os animais pareciam ter não apenas ensinado ao animal racional os seus avançados conceitos de sociedade: em troca, deram-lhe a sua humildade em reconhecer que delimitar territórios poderia realmente ser benéfico para seu próprio sistema hierárquico. O fato de que as espécies não respeitariam, jamais, limites humanos, tornara-se uma teoria refutada pelos mais conceituados especialistas em etologia ao redor do globo.
Atravessando os limites das terras de seus pais, territórios correspondentes à Itália e às ilhas de Sardegna e Sicília, Rebecca decidira que era a hora de explorar novos horizontes e territórios. Desafiara os perigos de uma vida solitária aos vinte e quatro anos para esvair-se da guerra e da predestinação de seu futuro, desenhado para ser vivido ao lado de um também jovem macho alfa – que ela conheceria apenas no primeiro dia do ritual do casamento, mas que sabia, pelas más línguas das harpias, atender pelo mesmo nome do mitológico deus do trovão –, de cujos filhos fora prometida para ser zelosa mãe. Transformada na mulher de pele amorenada e longos cabelos ondulados e castanho-escuros, como seus belos olhos, conseguira refúgio nos veículos dos benfeitores que a levaram para os extremos da civilização – visto que, felizmente, alguns cientistas ainda viajavam em expedições aos polos e regiões parcialmente congeladas durante o ano. Na forma da loba marrom de olhos amarelados, um típico exemplar de Canis lupus italicus, alternara passadas e corridas em meio à natureza selvagem. Arriscara a própria vida, saboreando a aventura, até que a fome e o frio se tornassem seus companheiros: fora então, que no auge de sua fraqueza, abaixara a cabeça perante seu igual a fim de não esmorecer. Na verdade, não tão igual: aquele era um Canis lupus lupus e, disso, ela estava certa.
– Qual é o seu nome? – a voz rouca e baixa perguntara, ao contrário das expectativas de Rebecca, gentilmente e em tom de preocupação; uma preocupação de nuance tão sutil, a ponto de ser quase contrastada com o espectro de uma súplica.
A fêmea de lobo sentira o polegar do macho em seu queixo delgado, transfigurado em uma forma humana, e erguera os olhos castanhos para fitar os dele com a coragem de emitir um breve suspiro. Aprendera a baixar a cabeça perante os machos, principalmente em virtude da convivência com os familiares adeptos ao sistema patriarcal, onde o machismo era prática comum: na alcateia da famiglia Faccini, liderada pelo pai de Rebecca, as lobas sempre seriam consideradas como seres inferiores. Assim sendo, surpreendera-se por ter, aparentemente, obtido permissão para olhar nos olhos azuis do homem a sua frente.
– Eu sou Rebecca Faccini, de Itália. – respondera, o sotaque forte anseando por compreensão, percebendo que poderia confiar-lhe aquele pequeno segredo: o porquê de ter adentrado as terras que pareciam pertencer-lhe.
Todavia, aquela era também a sua única e última oportunidade de deixar aquela fortaleza de gelo com vida.
– Meu tio se virou contra meu pai... Minha família está em guerra e, por isso, busquei por uma pátria que pudesse me acolher. Um abrigo é tudo de que necessito. – tanto por frio, quanto por medo, os lábios da jovem estremeceram ao final de suas palavras.
Diferentemente dos familiares de Rebecca, Ernest fora ensinado a tratar todas as lobas de sua tribo como verdadeiras deusas – era como se fossem, cada uma delas, a reencarnação da própria Gaia na Terra, as representantes de Gaia na alcateia. Sempre vira o seu pai tratar a sua mãe assim, como uma verdadeira rainha, e prometera a si mesmo que faria isso com a sua esposa no futuro. Deixara de tocar a mulher desconhecida, quando ela tornara a fitá-lo diretamente, e correspondera ao sorriso dela de forma discreta e um pouco torta — não era habituado a sorrir muito e talvez, por isso, o seu sorriso fosse um pouco diferente, apesar de sincero.
– Itália?! Por Gaia... Você deve estar exausta. Como chegou até aqui? – não soubera, no momento, como ela aguentara caminhar tanto e ficara surpreso; era óbvio que não caminhara todo o trajeto, mas as estradas mais próximas estavam há quilômetros daquele lugar.
– Minha alcateia fica muito longe daqui. Você precisará descansar, antes de irmos para lá. – suspirara e tomara a liberdade de segurar uma das mãos dela, puxando-a até o lago com delicadeza.
Ele pensara em oferecer-lhe um pouco de água, ficara com medo de que ela passasse mal ou desmaiasse, ficara preocupado com ela. Era cortês, um gentleman sem igual em terras marcadas por sangue e garras afiadas. A loba percebera que ele não era como seus familiares, tampouco como os outros lupinos que ela conhecera, porém não conseguira agir de outro modo em virtude da educação que recebera. Observara-o, com toda uma riqueza de detalhes, até conseguir responder friamente:
– Sim, Itália. Tive medo de ficar por perto e acabarem me matando, estou caminhando há dias... – ainda assim, com toda a desconfiança, aceitara a cortesia dele e aproximara-se do lago.
– Compreendo. – ele respondera, ao passo em que a deixara livre para executar seus movimentos e apreciar aquele líquido puro, ainda não afetado pela atividade antrópica. Quando se levantara, seus olhos foram dirigidos diretamente aos do homem-lobo.
– Sua alcateia... irá aceitar uma estranha? – ela questionara, insegura mais uma vez.
Ernest correspondera ao olhar dela, agora com uma das sobrancelhas arqueada; desviara o olhar após alguns segundos, pensando ele próprio a respeito da situação.
– Você precisa de ajuda e eu não vou deixá-la sozinha em um momento como esse... É chegada a hora de eles respeitarem as minhas vontades. Se não a aceitarem, demonstrarão não ser dignos de continuar a integrar a minha alcateia. – Talvez, ainda não tivesse sido tão decidido a ponto de dizer algo com tanta imponência e ousadia. Era chegada, enfim, a hora de amadurecer.
– Você não pode brigar com sua alcatéia por minha causa, eu sou apenas uma desconhecida. É melhor eu procurar outro lugar, pelo menos, por enquanto. Não quero que outra guerra aconteça, ainda mais em meu nome. – a moça respondera, em um suspiro.
– Você é uma desconhecida, mas... Se entrou na minha vida, com certeza, há algum propósito. Gaia não faz nada por acaso. – arqueara uma das sobrancelhas e tornara a olhar para ela.
– A propósito, muito prazer, Rebecca. Eu sou Ernest. — meneara a cabeça de forma diferente para cumprimentá-la. Se estivesse na forma de lobo, provavelmente, baixaria um pouco o focinho para fazê-lo.
– Prazer, Ernest. Você é homem de bom coração e diferente dos muitos que conheci. – dissera, correspondendo ao movimento dele, ainda observando-o.
– Digno de um líder. – entre um pequeno sorriso e um muxoxo, contornara a dor nos pés movendo-os discretamente sobre a relva.
– Obrigado. – Ernest correspondera ao sorriso dela de forma discreta, observando os movimentos da lupina.
Percebera que ela parecera inquieta e pensara que talvez pudesse estar realmente com dor, devido ao fato de ter caminhando tanto: sempre fora bom em compreender os anseios alheios. Oferecera-se, então, para tomá-la pela mão e levá-la até o lugar atrás da árvore a qual fornecia sombra para o lago. Era uma árvore enorme e logo abaixo dela havia um grande número de folhas, o que formara um leito natural bastante macio, onde ele costumava se deitar e até mesmo dormir às vezes.
– Deite aqui, irá se sentir melhor. – pensara que ali seria um bom lugar para que ela repousasse.
Somente algum tempo depois, o lobo meneara a cabeça de forma negativa e arqueara uma das sobrancelhas a fim de responder à afirmação de Rebecca.
– Sou o filho do líder, estou sendo treinado para sucedê-lo. – confessara, sem muita emoção.
A ideia de ter de liderar grandes batalhas e de ser o protagonista de um casamento arranjado, pelas imposições de seu pai, era normal para os outros lobos, mas não para Ernest.
– Entendo, eu também seria a líder após a morte de meu pai. Se ainda houvesse uma matilha... – a lupina baixara a cabeça, em um longo suspiro, conforme a cama de folhas tomara a forma de seu corpo delgado.
O tom de lamento, porém, dera lugar à respiração pesada e às pupilas dilatadas: sentira, nitidamente, que não estavam mais a sós.
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