Ice Heart
38 Você tem escolha
Notas iniciais
POV- Thalia
Nico se virou para mim com um olhar pensativo e avaliativo e antes que eu pudesse perguntar o que ele tinha concluído ele suspirou e foi como se tudo que ele refletia desmoronasse e ele não precisasse mais daquilo.
— Vamos voltar. – Ele disse e eu assenti, não queria ficar discutindo estratégias e nem queria provocar a mente bipolar do moreno, mas então uma curiosidade me veio em mente.
— Aonde ficava o reino que eu vivia? – Questionei segurando seu braço de leve e ele assentiu parecendo entender minha curiosidade.
Nico se posicionou atrás de mim e levou novamente suas mãos a minha cintura, girando meu corpo com delicadeza e ainda se mantendo atrás de mim, ele apontou para um buraco no meio das árvores, um lago no meio do nada.
— Bem ali. – O moreno disse em meu ouvido, tão baixo como um sussurro, fazendo que meu corpo se arrepiasse.
— E o chalé? – Perguntei no mesmo tom que ele tinha usado e o moreno me girou novamente com a mesma delicadeza de antes e apontou para um local perto do rio que dividia o território.
— Ali. – Ele falou em um sussurro em meu ouvido.
Forcei a visão na falha tentativa de ver algo diferente, mas a mata densa impossibilitava que eu tivesse sucesso de ver aonde tinha passado dias com ele.
— Você não vai conseguir ver, o feitiço não deixa, aos olhos comuns aquele local é completamente invisível. – Ele explicou parecendo entender que eu tentava enxergar o chalé e eu assenti decepcionada.
Deixei que meus olhos vagassem por todo o território que tinha a minha frente, sabendo que nunca conheceria nem um terço do que o mundo tinha a me oferecer, virei-me e ele deixou que eu fizesse e meu coração disparou.
O castelo tomava grande parte da minha visão, mas atrás do castelo, ao longe eu conseguia ver, destruição, ruinas de construções, uma área inteira queimada.
— O que...? – Questionei e ele respirou.
— Aquilo foi apenas um dos milhares de atos que meu pai realizou, sempre quis entender o porquê disso, mas ele nunca me respondeu. – O garoto falou seguindo meu olhar de espanto.
— Isso tudo é tão ridículo e para que? – Disse me virando para ele, encarando-o no fundo dos seus olhos. – Para que tudo isso?
— Não sei o porque dele o fazer. – Nico disse me encarando sério, como se entendesse minha revolta, mas não gostasse de eu o estar questionando sobre isto.
— E porque você o fez? – Perguntei frustrada e irritada e ele revirou os olhos.
— Novamente a culpa veio para mim. – Ele disse colocando a mão no bolso de sua jaqueta e se afastando um passo de mim.
— O que esperava? – Perguntei me afastando dele, me recostando em uma pedra. – Porque destrói as coisas Nico? – Deixei que a curiosidade trasbordasse em minha voz junto com o tom indignado e cansando.
— Não tenho que te dar satisfação. – O moreno disse sério e eu revirei os olhos não aguentando mais.
— É claro que não. Não estou querendo satisfação eu quero entender, entender tudo isso, te entender. – Disse me aproximando dele encarando no fundo de seus olhos. – Não sou cega Nico, vejo o quanto odeia isso, vejo o quanto odeia tudo que seu pai fez, mas não entendo do porque você fazer.
Eu não sabia o porquê estava chorando, as lágrimas simplesmente transbordaram para fora dos meus olhos junto com a raiva, a raiva de tudo ao meu redor, nenhuma resposta clara, apenas destruição, dor, coisas desnecessária e tudo que eu conseguia fazer era encara-lo, provavelmente estava gritando, pois via que algumas pessoas lá embaixo observavam o que acontecia com um ar de curiosidade.
— Não é tão simples. – Nico disse começando a se irritar, sua voz ficando mais séria e ríspida e era isso que eu queria, odiava isso, odiava o jeito que ele agia, odiava sua indiferença precisava de algum sentimento, nem que fosse raiva.
— Não é tão simples? Está de brincadeira, Nico!? — Gritei irritada. – Porque? Porque não seria tão simples? Suas estratégias? Sua mente racional não pode não machucar as pessoas? Sua mente com estratégias mirabolantes tem que repetir os mesmos atos que seu pai?
Nico estava mais próximo de mim agora, em menos de um segundo meu pescoço estava em suas mãos e sua espada na outra, sentia ele me sufocando, mas isso não me calou.
— Vai quase me matar de novo? Ou dessa vez vai ser de verdade? – Perguntei irritada, Percy tinha fugido e se eu fugisse o que iria fazer? Ele era dono de metade do mundo e a outra metade de um tirano igual a ele. – Isso só me prova o quão monstro você é...
— Você não me conhece. – Ele disse e eu pude ver seus olhos assumindo o tom avermelhado e as presas crescendo.
— Não, não conheço e teria nojo de conhecer, o que eu vi do seu pai é o mesmo que vi de você, destruição, mortes, fogo... – Disse cada palavra com nojo evidente na voz. – E assim como ele você tem escolha, você é o rei, você pode até fazer melhor para seu povo, mas não faz para o mundo.
O cabo da espada bateu em minha cabeça e meu corpo foi ao chão, ele não se preocupou em me segurar. Ele girou a espada que agora pegava fogo na mão e eu podia ver o ódio.
— Eu não sou igual meu pai.
— É? E porque faz o que faz Nico...?
— Eu tenho que fazer. Acha que é simples governar isso tudo? Acha que é simples garantir que cada pessoa aqui fique segura com a quantidade de inimigos que meu pai acumulou? Eu tenho que mostrar poder, tenho que garantir que cada ser vivo que possa demostrar perigo seja eliminado...
— Não Nico, não é por isso, você gosta do poder, gosta do que o fogo faz com você, o que cada coisa, cada grito, cada lágrima que for derramada seja você o motivo.
— Acha mesmo que sou assim? – Ele perguntou incrédulo.
— Novamente Nico, você é o rei, você tem escolhas, você manda em você mesmo, pode fazer o que bem entender, tomar a melhor decisão, uma que não acabe em mortes.
— Não posso, porque não tem uma escolha que não acabe em mortes, todas acabam com pessoas queimadas, decapitadas, empaladas, afogadas. – Ele disse baixo e se virou respirando fundo. – Minha única escolha é a melhor para...
— Você... – Disse enojada. – Já conheci esse seu lado Nico. – Me levantei enquanto falava. – Conheci muitos lados seus.
Ele olhou por cima do ombro, me encarando sério.
— Você...
— Eu não te conheço. – Disse revirando os olhos e encostando em seu braço. – Conheço esse discurso.
— O que você quer Thalia? – Ele perguntou se virando para mim, arrastando a espada no chão.
— Já te disse. – Olhei em seus olhos negros, que me encaravam confusos.
— Porque é assim? Sempre mexe com minha curiosidade? – Perguntou ele e eu ri leve.
— Você deixa que eu o faça, porque precisa disso, precisa de alguém que possa ver.
— Ver o que? – Ele questionou confuso.
— Ver que você não é o rei que queria ser, ver que a princípio você nem queria ser um. – Disse passando a mão de leve pelo seu braço.
Ele gargalhou alto e levantou a espada, agora sem fogo, passando-a pelo meu corpo.
— Fala que sou difícil de entender, mas estava poucos segundos me acusando de monstro, de ser igual meu pai, de eu mesmo poder fazer minhas escolhas, de eu ser o rei, mas agora diz que não sou o rei que eu queria ser. – Ele riu novamente me observando.
— Não retiro as acusações Nico, mas também acho que tem algo mais, você vê tudo o que eu disse, sabe qual é a verdade, mas precisa que alguém o fale, fale que tem escolha, fale que deve ter outra saída. – Disse e ele riu.
— Sua imaginação fértil me comove. – Nico falou me encarando, a poucos centímetros de mim, nossos olhos se cruzaram.
— Sua tentativa de fingir que não se importa me comove. – Falei irritada, sustentando seu olhar.
— Quanto tempo acha que esses joguinhos se provocações vão te manter viva? – Ele disse subindo a espada pela minha perna, conseguia sentir ela arranhando minha pele levemente.
— Eu cheguei a um pontoo em que não me importo mais se vivo ou não, quero apenas sair desse inferno, nem que seja indo para outro. – Respondi olhando a espada que subiu de leve minha saia.
— Então não teria medo se eu colocasse essa espada em seu pescoço e arrancasse sua cabeça fora? – Ele questionou colocando a espada em minha cintura e me puxando com ela para mais perto do seu corpo.
— Já aceitei que vou morrer Di Ângelo, seja pela sua espada ou pela de alguém que guerrear com você. – Falei mantendo meus braços contra seu abdômen, separando-nos. – Seu pai acumulou inimigos, mas já pensou que você os duplicou? Todos os aliados dos seu pai se viraram contra você ou estão se virando, os antigos querem seu poder, querem vingança, uma hora alguém vai vir atrás de você.
— Eu estarei pronto para enfrentar quem quer que seja. – Ele falou e eu sorri leve.
— Não está pronto agora e se a guerra for hoje, já pensou quem arrancaria sua cabeça?
Fale com o autor