Ice Cream
5 Beije-me,minha fera.
Separamos então nossos lábios, ela deitou-se ao lado de minha cabeça, se escondendo,como que se estivesse com vergonha,mesmo não sendo coisa que Jaqueline sentia.
–Desculpe-me, mas eu acho que me apaixonei por você, e a cada minuto que fico longe de ti, sinto que vou enlouquecer. Você aceita ser minha? -Ela disse em um tom baixo, com a cabeça ainda escondida ao lado da minha.
Eu então virei-me de lado, para que pudesse enxergar seus olhos, e vi que ela derramava algumas lágrimas. Ela estava tão linda, seu rosto ficava ainda mais infantil daquela forma. Não consegui então me conter, beije-a então novamente, mas dessa vez era diferente,era como se meu coração estivesse fazendo totalmente o contrário do que minha mente desejava, era como se eu fosse uma fera, e Jaqueline estivesse me acalmando lentamente,sem nem mesmo que eu percebesse.
Quando paramos de nos beijar, Jaqueline chorava feito uma criança que se perdera de sua mãe. Aquilo era uma cena cômica, mas eu não entendia o que a fazia chorar daquela forma.
–Ora ora, quem é a criança dessa vez? — Eu disse enxugando suas lágrimas, e acariciando seu belo rosto lacrimado.
–Obrigada por aceitar meus sentimentos. -Ela disse esfregando os olhos.
–É melhor, quero poupar minha vida, não sei nem o que você faria comigo se eu te dissesse um não. -Eu disse rindo. Ela então soltou uma rápida gargalhada.
–E se você contar do que houve aqui, sua vida não será poupada. -Ela disse daquele jeito meigo e mandão. Com os braços cruzados e a cabeça virada de lado.
–Mas é claro, como se eu tivesse memória pra tal coisa. -Respondi, virando seu rosto de lado e lhe dando um beijo na testa.
–À partir de hoje, eu irei te proteger, minha pequena. -Eu disse segurando em sua mão.
–O quê? A única pessoa que precisa de proteção aqui é a senhorita. Vamos, já está ficando tarde,não quero que você seja roubada. -Ela disse se levantando e batendo a mão em sua roupa, retirando a grama que havia grudado. E me puxando logo em seguida.
Nos despedimos ali mesmo, foi um beijo longo e carinhoso. Minha cabeça estava rodando, eu não sabia o quê estava fazendo, nunca imaginaria que uma garota se apaixonaria por mim, e muito menos que eu corresponderia a tal sentimento. Eu ainda gostaria de voltar para a minha cidade natal, mas uma outra parte de mim queria ficar, pra ver o final dessa história.
Cheguei em casa e minha mãe estava sentada na mesa, quase dormindo.
–Mãe. -Eu gritei, para que pudesse assustá-la.
–Que isso menina, isso não é coisa que se faça. -Ela acordou de seu cochilo irritada. E eu só ria da situação.
–E aonde você esteve a todo esse momento? Já são quase oito da noite. -Disse ela, levantando-se da mesa e puxando a cadeira.
–Ah,eu tive que ficar até mais tarde na escola, queria terminar o trabalho hoje mesmo, pra tirar o final de semana. -Eu jamais contaria a verdade a ela.
–Você não está com cara de quem ficou na escola a tarde inteira...Está feliz demais pra isso. -Ela disse com um sorriso malicioso, aquele que só as mães sabem fazer.
–M-mãe!! -Exclamei, franzindo as sobrancelhas. Ela então riu.
Já subindo as escadas, ela disse:
–Ah, filha, o Carlos ligou. — E deu-me uma pequena piscadela.
Nesse momento meu coração gelou. Carlos era o namorado que eu havia deixado na cidade de onde vira.
–A-aé, e o que ele queria? -Perguntei, gaguejando.
–Falar com a namorada dele,talvez?! -Ela respondeu. -Retorne a ligação dele, ele disse que não iria dormir enquanto não recebesse uma ligação sua. Boa noite. -Disse ela em seguida, terminando de subir as escadas e entrando em seu quarto.
Virei-me e vi em cima da mesa o nosso novo telefone residencial, com o número de Carlos num papel logo abaixo. O telefone era branco, mas não mais branco do que eu naquele momento. A sensação de culpa tomou conta de meu corpo. E eu não sabia o que iria fazer. Peguei então o telefone e subi até meu quarto. Tomei o banho mais longo de minha vida, deite-me na cama com os pés para cima, e liguei para Carlos.
–Alô? -Soou a voz daquele garoto loiro e grandalhão. A voz que antes me acalmava, e nesse momento só me deixava cada vez mais espantada.
–O-oi,amor, sou eu. Recebi o recado de minha mãe pedindo para te ligar. -Eu disse,sem graça.
–Oi meu amor, como senti tua falta, como vão as coisas por aí? Já se acostumou com o pessoal caipira? Eles gritam "Yuhu" quando tiram o leite da vaca também? -Disse ele animado, num tom grotesco ao meu ver. Não acreditava que esse era meu pensamento nos primeiros dias em que estava aqui. Não aguentei com aquilo, e então o respondi no mesmo nível.
–Olha, nós já saímos do século vinte, a mesma industrialização que tem aí temos aqui também. Eu acho que os únicos caipiras que existem são vocês que não sabem respeitar a cultura de outros lugares. -Suspirei fundo, imaginando a encrenca que me metera.
–Ha ha, meu amor está bravo. Estou vendo que o clima daí está danificando sua cabeça, cuidado, hein! Assim que eu tiver um tempo eu vou lhe visitar, e prometo que faço a cabeça de sua mãe e de seu pai para te trazer aqui comigo, Te amo. -Respondeu ele, nem ligando ao que eu acabara de dizer.
–Você não precisa vir. -Eu disse, mas já era tarde demais, ele havia desligado o telefone já em sua última palavra. Respirei fundo. Mordia minha camisa de raiva, eu não queria mais ver aquele garoto em minha frente, ou com certeza teria uma recaída. Não, definitivamente não era o que eu queria.
Fui então me preparar para dormir, e quando coloquei meu uniforme para lavar, vi que havia caído um papelzinho, era de Jaqueline, dizia: "Se você não lavar esse papel, você conseguirá ver. Se precisar falar comigo, aqui está meu número." Ela havia deixado seu número, seguido de vários coraçãozinhos. Aquilo me fez sorrir abobadamente por alguns minutos. Resolvi então chamá-la para sair,como no dia seguinte seria sábado.
Mandei um SMS perguntando se ela estaria ocupada no dia seguinte, ela então respondeu:
"Estarei sim. Vou estar com você. Me encontre na frente da sorveteria às 15:30.Sem atrasos" Não para minha surpresa, ela que estava no controle novamente. Sorri e segurei o telefone em meu peito. E pensei comigo mesma: "Com certeza estarei lá,minha pequena Bela."
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