Ibuki
2 Capítulo 2
Um movimento suave, e a lamina da espada cortou o ar gentilmente, desenhando uma linha perfeita no ar. Uma linha prateada reluzente e sutil, com um pouco mais de um metro de extensão, subindo e descendo graciosamente, partindo em fraçoes perfeitas o ar perfumado do Templo Zen.
O lugar era escuro, a madeira corrida do piso fazia suavens sons a cada passo do espadachim habilidoso. Ele deslizava sobre o chão tão limpo que chegava a refletir sua imagem. Ao redor, murais pintados, apoios para incensos e muitas, muitas estatuas de Buda. Uma delas, a maior, feita em bronze, estava logo atras do altar de meia altura. Um monumento humano deitado de lado, a cabeça de grandes orelhas apoiada numa das mãos metalicas. Buda observava o prodigio dançar em seu Templo, executando nas sombras um baile mortal e silencioso.
Os cabelos louros frouxamente presos por uma fita de seda preta, eram muito longos e lisos, um véu de ouro acompanhando as manobras precisas de Shaka, jovem aluno do Dojo Ibuki, em Edo.
Os olhos, sempre fechados, escondidos pela franja desigual. No meio da testa, um diminuto bindi escarlate adornava seu rosto.
Com precisão cirurgica e firmeza fatal, ele cortava e perfurava o ar com a katana que herdou de seu avô, um honrado defensor do bushi-do nos tempos feudais. Usava um kimono de cor clara, a parte de cima de um azul muito suave adornado por desenhos retilineos em linha de seda. A calça de kendo, tambem azul, mas em um tom escuro e fechado. Usando meias brancas perfeitamente limpas, deixava os pés escorregarem sobre a madeira lisa, mas num movimento rapido, virou-se, deu um forte pisão, e partiu ao meio seu inimigo imaginario com um corte vertical impecavel.
O combate havia cessado. embainhou a arma na cintura, se inclinou em respeito a seu adversario invisivel. Neste momento, um jovem monge entrava para acender as lamparinas das paredes, e segurava uma enorme haste acesa na ponta. Cumprimentaram-se silenciosamente, Shaka já deveria ir embora, a noite caiu.
No entando, algo o fez parar. Alguem mais estava ali dentro. Acariciando o cabo de sua espada embainhada com o polegar, Shaka esperou em silencio que os pesados passos se aproximassem de onde ele estava.
– Desde quando está me observando, Shion?
O herdeiro de Ibuki entrou no salão sob os olhos de Buda. Tambem louro, mas com cabelos arrepiados e soltos, o tibetano sustentava um olhar incisivo e vivo, a expressão seria e dura que apenas os grandes generais sustentavam. Havia sido um grande homem em outra vida, Shaka sabia de alguma maneria. E renasceu para ser ainda maior.
Usando vestes parecidas com as de Shaka, mas em tom verde musgoso com adornos negros circulares, Shion estava desarmado, mas comportava-se como se consigo trouxesse todas as espadas do mundo. Talvez porque isso fosse de alguma maneira verdade.
– Não muito tempo. O suficiente para entender um pouco mais sobre voce.
– Sobre mim? — Shaka fingia não conhecer sua loclização fisica, e mirava o rosto em direção diferente.- Não há segredos, Shion. Voce é seguidor da mesma religião que eu. Meus Mestres são seus Mestres. Sabe o que é necessario para chegar onde estou.
Os olhos purpura do outro aprendiz se afiaram. Ele não se deixou enganar pela falsa postura do indiano. Sabia exatamente do que ele era capaz. E por isso, não gostava nada dele. Parou ha alguns metros de distancia, encarando-o diretamente. Shion era um pouco mais alto que seu colega de estudos, mas seus musculos muito desenvolvidos o tornavam bem maior.
– Está dizendo que Buda aprova derramento de sangue, Shaka? Que, matando aquelas pessoas, voce seguia os preceitos de Ilias?
– Voce chama de ‘pessoas’ aqueles que entraram em nosso caminho. Se não fosse por mim, Shion, todos estariamos mortos. Existem nuances nos ensinamentos de Buda e Ilias que voce não conhece, ou se recusa a aceitar… Não é por menos que eu sou o unico Prodigio.
– Ilias jamais aceitaria seus atos. — Shion deu um passo à frente, os braços se entreabrindo, punhos cerrados. Eram claras para o indiano suas intençoes hostis. Aquele tibetano tolo ainda nutria sentimentos pesados de culpa e remorso pelo massacre da Vila Suzuki. — … Voce mata por prazer, Shaka. Isso não condiz com a filosofia Ibuki. É uma transgressão do Caminho do Guerreiro.
O jovem monge que entrou ali para acender as lamparinas começou a se assustar. Ele deu um passo atras, mas então parou, oprimido pela gravidade pesada aquele lugar.
Shaka sorriu ligeiramente, zombando do discurso moralista de seu colega.
– Voce ignora os prazeres da morte, Shion… O sabor do sangue e a supremacia da espada saciada. Matar é poder. Basta esvaziar sua mente, pense na serenidade do Paraíso, reze e encomende as almas que repousam sobre seus ombros. Afinal de contas… — O sorriso se alargou.- Gostando de matar ou não, voce faz o mesmo que eu… Ou pior.
Todos haviam participado do Massacre. Shion e Shaka foram responsaveis pela maior quantidade de assassinatos naquela noite. O unico cujo numero de mortes permanecia desconhecido era Defteros, porque uma vez que ele terminava, era impossivel discernir o numero de cadaveres nas pilhas de carne. As palavras de Shaka atingiram o tibetano de maneira dolorosa, acendendo sua já crescente vontade de combater aquele transgressor dos Codigos.
Num movimento rapido, Shion puxou a haste de madeira da mão do pobre monge, e segurando como um cajado de combate, sorriu de volta para o indiano.
– Vamos ver então, quem está com a razão, ‘Prodigio’. Eu o desafio.
– Admito, Shion… — Shaka retirou a espada ainda embainhada da cintura e se colocou em popsição de combate.- Que espero pelo desempate ha algum tempo.
Os dois avançaram ao mesmo tempo. Shion com o cajado, Shaka coma espada embainhada. Movimentos rapidos a doreita, a esquerda. Um giro e inverteram de posição. Shion passou o cajado rente ao chão, tentando derrubar seu adversario, mas Shaka foi rapido e saltou por cima da haste. O choque das armas era sonoro, ecoava pelo imenso salão de madeira do templo. Nas paredes repletas de pinturas sagradas, as sombras projetadas pelas lamparinas tremulavam. Ambos eram rapidos demais, desviavam-se, corriam, se encaravam, sorriam e bradavam antes de golpear.
Shion era habituado a armas de longo alcance, usava cajado para perfurar e cortar. Mas Shaka era experiente com sua katana, e, desviando-se de um lado a outro com agilidade incrivel, golpeava de maneira praticamente indefensavel.
Do outro lado do jardim, do lado de fora do Templo, Ilias os observava. Como um leão silencioso, julgava-os. Havia-os treinado muito bem.
Mais um choque entre espada e cajado. A arma de Shion, que não foi construida para esse fim, partiu-se ao meio. Estavam agora em igualdade de armas. Shaka sorriu mais, sabendo de sua vantagem.
Shion nao pensou duas vezes. Pegou a outra metade caída da haste com a outra mão e avançou, armado duplamente. Golpeava como se batesse em um imenso tambor, girou no ar e bateu com tanta força que Shaka precisou recuar. O indiano investiu outra vez, achando que aquele combate estava demorando tempo demais. Ele sabia que já deveria ter vencido. então, popr que Shion ainda estava de pé?
Golpearam-se sem cansar, nunca acertando um ao outro. Rapidos demais, habeis demais. Até que, num ultimo giro, Shaka encontrou o ponto fraco de Shion no flanco esquerdo, e Shion encontrou a falha de Shaka, quase imperceptivel, no flanco direito. bateram um no outro ao mesmo tempo, e caíram, cada um de um lado, com as pernas pra cima.
Deitados no chão, fizeram silencio por um longo tempo. A dor que infringiram um ao outro era tamanha que nenhum deles conseguiu se levantar para se declarar vencedor. Foi depois desse silencio dolorido que Shion começou a rir. E Shaka o seguiu.
Sob as risadas dos dos guerreiros vencidos, o monge saiu do templo, assustado.
Eram loucos, esses alunos de Ilias. Todos loucos.
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