INTERATIVA - Sem Alma
5 Caminhantes
Notas iniciais
Victoria Ford e Kantu Myers — Caminhantes
Desde que Victoria Ford conversou com o Reverendo Prescott, ficou claro que ela não permaneceria na Espada, não por falta de habilidades, muito pelo contrário, era exatamente por haver tantas que o pastor a “mandara” embora, uma missão, como ele mesmo gostava tanto de frisar. A jovem estava em busca de uma cura para a humanidade, um tanto egocêntrico de sua parte, admitia, mas para isso deveria seguir os passos que o sacerdote de Deus lhe ordenasse.
Ele lhe dera uma bolsa de porte médio para a viagem, mandou que ela pegasse os alimentos que precisava para se manter viva, algumas aspirinas e apenas isto. Victoria sentiu-se indignada por não lhe darem nada com que pudesse se defender, contudo segundo o Reverendo Prescott;
— Tenho certeza de que Deus olhara por você, irmã. Não se atente a coisas infundadas como armas de fogo. O espírito do Senhor está dentro de todos nós, com certeza ele lhe defenderá, não permitindo que mal algum caía sobre você durante sua jornada.
A única proteção que lhe foi dada foi uma benção e oração do sacerdote.
Defender uma ova. Pensa ela enquanto arruma a Glock 9mm dentro da bolsa. Victoria encontrou aquela arma numa das cabanas espalhadas ao redor da matriz, aquele lugar é que era amaldiçoado. Tivera sorte que um dos guardas preguiçosos que trocava de turno para ficar na frente dos portões, não aguentou e caiu num sono profundo que lhe rendeu um bom sermão por parte do Reverendo. Todavia também, os soldados não tinham um segundo de paz. A todo momento para lá e para cá, em busca de novas formas de demonstrar sua fé, ou se esforçando em treinos pesados para sair a caça dos sem almas e os exterminar. Todos dentro da Espada haviam sido doutrinados a pensarem assim; que o mundo fora jogado numa maldição por culpa do excesso de pecadores e agora cabia aos verdadeiros fieis mandá-los para o inferno, tudo em nome de Deus.
Enfim, era estranho dizer que qualquer lugar seria melhor do que onde Victoria estava, por que não era exatamente verdade, afinal, qualquer efêmero ambiente envolto em proteção seria mais seguro e sensato do que o mundo externo, entretanto, Vick sentia-se melhor saindo de lá.
De repente aquela sensação de estar sendo observada captura seus sentidos. De canto de olho ela avista alguém. Confusa com o olhar fixo, ela sente-se incomodada com aquele rapaz de pé há alguns passos de distância, ele coça uma das mãos copiosamente, quase frenético, mais um pouco e ela veria os tendões se mexerem.
—Não acho que esses caras curtiriam você roubando eles.
O estranho esta mais do que certo. Assistira em certo momento eles jogarem um dos seus do lado de fora como forma de expurgo quando o pobre coitado se recusou a brincar de tiro ao alvo com uma sem alma no corpo de uma adolescente, a qual atravessava por perto dos muros. Não que o mundo estivesse imerso na civilidade, mas aquilo realmente parecia mexer com o jovem expurgado. Quando escutou o mesmo gritar do outro lado dos portões, ela teve certeza que seu lugar não era ali.
—Não roubei ninguém. — vocifera, torcendo para que o desconhecido não tivesse visto a arma, esperando não abrir a boca para ninguém, ou o mataria com as próprias mãos. — Quem pensa que é pra me acusar? Nem sabe o que tô fazendo.
O rapaz possuí uma longa cicatriz desde a bochecha até uma orelha que não existia, e uma katana presa a seu corpo, comunicando que matá-lo não seria tão fácil. Jessel a encara sucinto e ela lhe devolve num longo olhar desdenhoso.
—Opa, só brinquei. — sua boca se remexe em palavras inaudíveis, quando por alguma distração encara o espaço vazio ao seu lado. — Claro que não, porque eu diria isso? Provavelmente não foi eu.
Victoria repara em certas características especificas no dono da katana. Percebendo que não o vira na congregação antes, e pelo mesmo carregar uma arma tão afiada, era de se esperar que o Reverendo Prescott o teria convocado também. Suas roupas rasgadas e escuras denunciam que se trata de um viajante. A maneira de agir a deixa ligeiramente desconfortável.
—O que você tem? — pergunta sem pensar. O questionamento pega o jovem Jessel de surpresa. Ele comenta baixo com alguém invisível.
—Eu? Nada, eu não disse nada, você disse alguma... — hesitante, solta uma longa respiração controlada — Eu só vou usar o banheiro.
Os olhares fixos dele causam um impacto negativo, como se pudesse enxergar os segredos de sua alma, ou tramava um ataque sanguinolento, algo que levaria a dor a um novo patamar.
—Sei... Vai lá então. Xauzinho. — despede com um aceno, a outra mão escondendo o conteúdo dentro da mala
Jessel dá de ombros e caminha para longe. Victoria fecha o zíper e arruma os fios da trança loura que caem frente ao rosto. Encara sua feição no espelho pendurado na cabana, os olhos azulados e seu rosto angelical, enganavam uma esperteza que ela fazia questão de esconder, longe de observadores sagazes.
O ar ao sair da cabana é tão seco que a faz tossir, tudo se dispunha de uma cor avermelhada imergindo a igreja num ponto de referencia macabro. A cruz ao topo chama atenção por si só, os corvos sempre pousando na ponta do adorno, penas como breu caiam lá de cima, o que forçava as mulheres a varrerem o chão com certa frequência, não trazia bom agouro as aves por perto, porém, os habitantes da Espada fingiam muito bem que os corvos não estavam ali.
O tom enevoado que a atmosfera tomou, escurece o azul pintado nas paredes da matriz, levantar a cabeça para olhar toda sua estrutura lhe dá arrepios, como se tudo estivesse de cabeça para baixo, igual a vida de todos.
O toque de uma mão no ombro a faz pular para trás, recua pronta para atacar quem estiver tentando lhe ferir, mas só encontra o guarda de cavanhaque estudando-a de cima a baixo, sua metralhadora em punho, como se Victoria fosse causar problemas a qualquer instante. O olhar frio lhe acomete a uma lembrança ruim. Como quando julgada por seus pais, uma decepção vívida durante um recital de piano a qual esquecera completamente a melodia, transformando a canção num completo desastre, Victoria se trancou no quarto por dias evitando encontrar os parentes pela mansão.
—Já está pronta? — pergunta o guardinha apático. Era conhecido como o soldado mais leal do Reverendo, sua postura dizia que o homem estava pronto para matar quem quer que fosse só com um piscar de olhos do pastor, Victoria sempre o odiou.
—Você me assustou, mas já estou sim. — mais uma longa olhada de escárnio, argh, mesmo no meio de um apocalipse meus pais ainda me deixam mal. E aquele guarda é seu lembrete.
Estranho pensar nos familiares depois de tanto tempo, estavam sempre lá no fundo de sua mente, rondando com falas ruins, olhares gélidos como o clima, sempre com comentários que insatisfatório. Pai e mãe haviam sidos deixados para trás quando ela sacou seus pertences e fugiu da poderosa mansão dos Ford, pelo visto Victoria tinha mania em abandonar grandes casas protegidas. Depois disso, nunca mais se teve noticia dos pais, nem se dera ao trabalho de ir procurar.
Eles seguem rumo a saída. Victoria segura sua bolsa com firmeza quando é olhada por outros soldados, mirando seu andar ou na calça justa que molda as pernas delineadas, esse tipo de atenção não é exatamente o que Victoria pretende conseguir, por mais homens de Deus que eles possam ser, a humanidade havia enlouquecido e junto dela pensamentos ruins tem mais chance de serem concretizados. Para uma mulher esbelta como Victoria Ford, todo o perigo foi multiplicado.
Passinhos atravessam a visão periférica, uma criança com madeixas loiras e olhar manhoso ia de encontro a uma mulher com o mesmo tom de cabelo, os traços condiziam que ela seria sua mãe, seus frágeis braços enlaçam a cintura da mais velha, tal atitude fazem os olhos de Victoria marejarem. O menino de uns oito anos possuía a inocência de seu meio irmão Philip, que saudades que aquele peste fazia. Por ele Vick voltaria. O peito apertou ao pensar nisso, qualquer informação de que ainda fosse vivo era um sonho.
Agora mais do que tudo deveria se manter forte, iria ir para fora daqueles altos muros protetores, estaria a mercê de qualquer bicho que viesse a passear pela rua, seria obrigada a ter cuidado redobrado.
Afastada o suficiente para que o guarda no forte não possa vê-la, a jovem encontra sua Glock 9mm, a qual já havia sido carregada com o primeiro cartuxo. Se certificou de trazer o máximo que achou, esperava que fosse suficiente.
O vento corta como facas afiadas. Ela coloca os fones grossos e felpudos nas orelhas, por um lado é ruim abafar sons externos, mas estaria fadada a morrer de hipotermia se não os usasse. Já basta as mãos congeladas e sua blusa pouco eficiente.
Olha através dos pontos de referência que o pastor havia lhe indicado. Uma limusine preta estacionada a esquina da direita no primeiro farol, deslocada dentre os carros mais humildes. Victoria suspirou ao pensar no conforto do acolchoado, relembrando o estofamento do seu porche.
Continua, avistando a loja de noivas alguns passos mais a frente, tão majestosa quanto o nome, Ateliê Noiva de Safira, a vidraça da fachada se encontra estilhaçada, manequins pela metade com seus vestidos brancos em detalhes de diamantes, esparramados pela calçada. Ao passar diante do ateliê, Victoria fica maravilhada com mais vestidos, apenas alguns pendurados devido a alguma confusão que destruiu metade do ambiente. Se não estivesse tão sujo e cheirando a carne velha, Victoria imaginou escolhendo o seu próprio vestido empedrado a cristais que usaria em seu casamento com Jude... Quer dizer com o antigo noivo. Ah Jude, você ainda não foi embora.
Vick esbraveja um palavrão pela lembrança da melhor amiga e e avança ao próximo ponto de referência.
Mais ruas e quarteirões, por sorte passando por lugares tranquilos, apenas se deparando com dois sem almas, completamente letárgicos escorados numa parede de um edifício destroçado, deveriam estar ali para observar, mas em algum momento abandonaram a ideia. Um deles muito trivial, mesmo longe, Victoria repara bem na estatura, pequeno com um rosto difícil de decifrar, ainda mais por suas deformações. Ela esgueira através dos carros e postes da longa avenida, a densa nevoa ajuda a manter o anonimato.
Não sabia há quanto tempo estava andando e muito menos se o anoitecer viria rápido, num alerta indicando o risco, afinal as ruas não possuem energia elétrica, a qual os postes em sua maioria danificados. A barriga reclama de fome. Victoria analisaco um buraco pequeno numa parede que ia para dentro de uma loja de conveniência, a porta de ferro e a vidraça tapada por tabuas e pregos, seria o suficiente para passar a noite e comer alguma coisa.
Entra com dificuldade, o ambiente é escuro, prateleiras vazias de alimentos e muitas embalagens pisoteadas no chão, moedas de cobre jogadas sob o balcão pequeno. Chapéus e óculos de material barato se encontrava pendurados atrás de onde um balconista deveria trabalhar antigamente. Victoria liga sua lanterna e procura por alguma bateria entre as prateleiras de ferro, poderia vir a calhar em alguma hora.
Algo rosna na escuridão.
Victoria chuta uma lata de ervilhas na escuridão. A respiração oscila, o ar não conseguindo passar por seus pulmões depois que o medo instaura no estomago. A arma pesa na mão leve, seus dedos apertando com veemência o cabo da Glock, quase como uma bigorna.
Victoria caminha cautelosa atrás de uma das estantes, a bolsa também pesando nas costas. Tenta segurar a arma e a lanterna como se via em filmes de policiais, mas em meio a escuridão e o rosnado, ela se esquece como fazer. Peleja uma calma patética, forçando uma inspiração baixa, controlando a pressão arterial de suas veias. A barriga dói e Vick não tem ideia do que a espreita.
Estática atrás do suporte, patas correm em sua direção. Numa ínfima fração de segundos sua luz clareia um corpo escuro e peludo, o latido raivoso a faz tremer. Num rápido movimento e com uma força inconsciente, empurra a estante para frente, o objeto pesado não cai sob o animal, mas o faz se assustar num choro dolorido.
—Porra! CÃO! — chama uma voz masculina.
O cachorro corre loucamente para seu dono, se deslocando entre suas pernas. A luz forte incomoda os olhos claros de Victoria a qual responde com a luminescência de sua lanterna na face do caminhante. O rosto do homem na escuridão reluz com uma expressão irritadiça.
—Que pensa que tá fazendo? Podia ter machucado ele.
—Ah? — a mulher demora a entender em meio ao bambear das pernas, de susto passado ela procura se acalmar, abaixa a lanterna e repousa a arma contra a coxa. — Ele que podia ter me machucado, inferno. Pensei que fosse algum sem alma.
O garoto ri do outro lado da saleta. Comenta algo com seu amigo para ver se está tudo bem. Verificado, averigua pelas frestas da janela o lado de fora, aparentemente ninguém os escutou.
—Não tem nenhum aqui dentro, menina. — diz num ultraje. — Quem é você?
O pastor alemão já mais calmo, brinca com os dedos de seu dono, lambendo a mão como se fosse um doce apetitoso. Victoria hesita, refletindo na pergunta, a barriga ainda ronca, avisando que a fome ainda não passou depois do susto.
—Victoria. — responde crua.
O jovem pondera. Acende algumas luzes estratégicas o suficiente para ambos se verem. Ela pisca sentindo os olhos arderem e desliga sua claridade. O pastor alemão deita seu forte corpo num colchão estendido próximo ao frizzer dos fundos e espreguiça fechando os olhos.
—Eae Vick. — cantarola mordendo o lábio — Kantu. — apresenta-se numa referência exagerada.
—Me faça um favor e não me chama assim. É Victoria.
A repreensão gera um olhar jocoso por parte do homem de cabelos pretos compridos, ele os prende num rabo-de-cavalo alto, revelando um brilho de limpeza excepcionalmente difícil de encontrar hoje em dia.
—Veio direto da Espada, né, não? — afirma mais do que questiona, um piscar indicando camaradagem, mas evidente do contrário.
—Como sabe?
—Hm.
A conversa cessa, o Cão levanta sua cabeça rapidamente, acordando de um falso sono. As orelhas mexem como antenas de rádio, captando sinais do lado de fora, um rosnado escapa do fundo da garganta, seguidamente de um choro, sua cabeça abaixa e o animal encolhe as patas dianteiras. Kantu se arrasta entre as prateleiras, apagando as luzes que havia acendido tão repentinamente quanto antes. Victoria fica em guarda também, recuperando a postura ereta com sua Glock levantada a qualquer movimento capcioso.
—Aí ó. — diz sinalizando com a cabeça. — Tava sendo seguida, Vick. — ao seu encalço a viajante morde a bochecha raivosa pelo apelido — Tá bem na cara que você estava morando lá. Deixa eu adivinhar, te mandaram pra uma missão divina.
O sussurro carregado de sarcasmo incomoda Victoria. Ambos avistam três homens fardados com armas pesadas em mãos, escondendo-se entre passos carregados num baque típico as de botas de couro. O pastor alemão chora novamente, e Kantu apressa o passo até o animal, acariciando seu pelo tão sedoso quanto o próprio cabelo.
—Shii Cão. Vai chamar atenção dos homens maus. — Victoria os vê se afastarem da loja de conveniência. — Acho que o Cão tem mais medo desse bando do que dos sem alma.
Ela concorda sem perceber, ainda encarando as frestas, o medo consumindo seu corpo, será que descobriram que ela pegou a arma deles? A pergunta lhe corroe por dentro, estariam atrás dela como fizeram com outros que os roubaram? Não, não poderia, ela era útil, afinal, não iriam se irritar a ponto de saírem de seu aconchego seguro, para vir atrás dela e matá-la num tiro pelas costas. Covardes.
—Relaxa, não vieram pegar a arma, alias, ela bem bonita.
Victoria pisca repetidas vezes com a resposta de uma pergunta que não fez. Olhando-o da distância que estavam, era possível perceber certa beleza. O nariz curto e pontudo, lábios finos e relaxados, olhos de um cinza hipnotizante. Aquele rapaz a lembrava muito do ex noivo, contudo, não existindo qualquer química romântica com aquele desconhecido cínico. Todas as vezes que um homem aparecia para ela de maneira romântica, era Jude quem vinha mostrar seu lugar fixo. Inferno de garota. Deveria gostar de homens, todavia em grande parte da vida a rejeição era quase automática.
—Não sei como conhece tanto deles.
—Sabe, Vick, não é preciso ser um grande gênio pra entender gente como eles. — a cada segundo fica obvio que além de não respeitar a vontade de Victoria com seu apelido odioso, o mesmo é um andante daquelas terra a mais tempo do que deixava mostrar.
Kantu apoia a bochecha no punho fechado sob o joelho ao se agachar, o Cão já tinha retornado a seu estado de sono.
—Sem contar que essa Glock 9mm é uma arma militar, então, só liguei os pontos. Não há muitos crentes por aqui que não esteja na Espada. Provavelmente estão te seguindo pra encontrarem o acampamento da Eleonor.
O nome pisca como um vaga-lume. Reverendo Prescott havia lhe contado sobre a mulher, disse o motivo pela busca por ela, mas tudo era muito nublado quanto a seus motivos de fazer alguma coisa. Victoria sentia que não haviam dito tudo, mas qualquer coisa era o suficiente para tirá-la da Espada sem parecer uma ingrata ou influenciada pelo inimigo. Respirou profundamente quando escapou dos portões da "salvação", e com a vinda dos soldados, o receio de quando estava dentro, voltou com força total.
—Sabe onde ela fica? — questiona deixando a urgência transparecer.
—Logico que sei. — o obvio estampado em sua expressão entediada. Ela aguarda uma resposta, enquanto o mesmo se mantém despreocupado alisando as costas do amigo peludo — Não é a primeira vez que aquele mané manda alguém encontrar a Elo. Acho que ele não teve muita sorte até agora.
—Isso é ridículo, ele me disse aonde ir, se fosse desse jeito já teria ido lá e pegado ela.
Kantu ri, mais para ele do que pelas palavras, como se contado uma piada super engraçada. Victoria não compreende seu escárnio e tão pouco o motivo da graça, mas se mantém a bonança por fora.
—Certo, então eles resolveram te seguir por uma arminha besta? Quando tem tantas outras na base?
Ela pondera, jogando os cabelos para trás que teimava em soltar da trança embutida. De repente a frase do garoto com a katana invade os pensamentos, a frase reverbera num mantra.
—Talvez eles não tolerem roubo. — corrige a moça incerta. Kantu reage a afirmação, pela primeira vez parece prestar devida atenção.
—Hm. — geme numa afirmação ao virar sua cabeça. O pastor alemão se comporta da mesma maneira que o dono, Victoria teria achado graça em outra circunstancia. — Você é esperta. Ok. Vamos lá, vou te levar até a Eleonor.
O cachorro se prontifica a ficar de pé, a língua para fora em busca de água, Kantu sorri para seu velho amigo em resposta, encontrando uma garrafa d'água que permaneceu ao lado do colchonete durante todo o tempo de conversa. O liquido deixa o Cão contente, balançando amistoso o rabinho para o dono.
Victoria não pode perguntar o que fez Kantu mudar de ideia, já que as tabuas das janelas são jogadas com violência, acertando a perna e a cabeça da menina, que cai pela dor. Estando tão próxima da vidraça, seu corpo também fora arremessado pela gravidade do baque.
O cachorro late incessante para fora, os rosnados são como um alerta para a ameaça. A mulher sente a testa úmida, e a tontura incomoda. Tudo rodopia, sabe que não deve desmaiar agora. Victoria vê Kantu encontrar seu facão a qual estava com ele todo o tempo, escondido em algum canto de seu corpo, talvez debaixo da grande capa que usava, difícil saber, mais difícil ainda para Vick enxergar seus movimentos ou do Cão.
Ela sente o corpo tombar no chão gelado, a cabeça bate outra vez, seus braços não estão fortes o bastante para segurar a queda. Simplesmente desfalece assistindo dois sem almas gritarem a todo pulmão na direção dos três, o ódio estampado em cada face desfigurada, um deles é um garotinho, um menino muito novo que parece seu meio irmão. O cérebro desliga e a última coisa que Victoria pode fazer é apertar o gatilho, mirando na testa daquela coisa, Philip não era um sem alma, ela não mancharia a memória dele chorando por um monstro que o lembrava.
Ela torce para que seu ato antes de apagar tenha ajudado Kantu de alguma maneira.
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