ILHA DOS DESEJOS

1 Capitulo 1- O HOMEM QUE NÃO QUERIA VISITAS


Capítulo 1 — O homem que não queria visitas


O pequeno avião parecia frágil demais para enfrentar o vento que soprava sobre o Caribe.

Sarah segurou com mais força o apoio do banco quando a aeronave inclinou para a esquerda, permitindo que ela enxergasse pela janela a extensão azul-turquesa que se espalhava muitos metros abaixo. O mar era tão transparente que, mesmo daquela altura, algumas manchas escuras dos recifes podiam ser vistas sob a superfície.

E, no meio daquela imensidão, surgiu a ilha.

Pequena.

Verde.

Isolada.

Linda o suficiente para parecer irreal.

— Aquela é Saint Claire? — perguntou Sarah, inclinando-se para frente.

O piloto assentiu.

— Sim, senhorita Clearwater. Ou, pelo menos, era esse o nome antes de o senhor Black comprar praticamente tudo.

Sarah franziu a testa.

— Praticamente tudo?

O homem soltou uma risada.

— Digamos que, quando Jacob Black quer alguma coisa, geralmente consegue.

Sarah recostou-se no banco.

Aquela era provavelmente a décima vez que ouvia alguma versão daquela frase desde que aceitara o trabalho.

Jacob Black.

Trinta anos. Empresário. Herdeiro de uma fortuna que havia transformado em algo ainda maior. Dono de empresas espalhadas pelos Estados Unidos e de investimentos suficientes para que revistas econômicas mencionassem seu nome com frequência irritante.

E, aparentemente, dono de uma ilha.

Ou quase.

Sarah não sabia exatamente o que esperar dele.

As fotografias que encontrara na internet mostravam um homem alto, de cabelos negros, pele morena e expressão quase sempre fechada. Em algumas imagens, aparecia usando ternos impecáveis. Em outras, estava entrando em carros que custavam mais do que ela provavelmente ganharia durante a vida inteira.

Em nenhuma delas ele sorria.

Aquilo deveria ter servido de aviso.

O avião começou a perder altitude.

Sarah respirou fundo.

Aos vinte e cinco anos, ela imaginara que sua carreira tomaria muitos caminhos.

Nenhum deles incluía atravessar metade do continente para trabalhar durante três meses em uma ilha particular.

Mas a proposta era boa.

Boa demais.

E ela precisava daquele dinheiro.

Poucos minutos depois, as rodas tocaram uma pequena pista cercada por vegetação tropical.

Quando a porta foi aberta, uma onda de calor invadiu a cabine.

Sarah desceu.

O vento imediatamente lançou alguns fios de seus longos cabelos negros contra seu rosto. Ela os afastou e colocou os óculos escuros.

Usava um vestido leve azul-claro que terminava pouco acima dos joelhos e sandálias baixas. Uma pequena mala estava pendurada em seu ombro, enquanto as outras seriam retiradas do compartimento do avião.

Ela olhou ao redor.

Nenhum aeroporto.

Nenhum terminal.

Apenas uma pista particular, algumas construções pequenas e um jipe estacionado.

Ao lado dele estava um homem.

Sarah parou.

Mesmo à distância, soube imediatamente quem era.

Jacob Black.

Ele não usava terno.

Na verdade, estava muito longe da imagem corporativa das fotografias.

Vestia uma camiseta preta simples que marcava os ombros largos, bermuda bege e botas. Os braços estavam cruzados sobre o peito enquanto observava o avião.

Sarah caminhou em sua direção.

Jacob não se moveu.

Somente quando ela estava a poucos passos ele retirou os óculos escuros.

Sarah descobriu que fotografias não faziam justiça àquele homem.

Os olhos escuros eram intensos.

E a maneira como ele a observava fez com que ela tivesse a estranha sensação de estar sendo avaliada.

— Sarah Clearwater?

— Depende.

Uma sobrancelha dele se ergueu.

— De quê?

— Você é Jacob Black?

— Sou.

Sarah estendeu a mão.

— Então sou Sarah Clearwater.

Por um segundo, Jacob apenas olhou para a mão dela.

Depois a apertou.

A mão dele era grande e quente.

Quente demais.

Sarah tentou ignorar a sensação estranha que percorreu seu braço.

Jacob soltou-a primeiro.

— Houve um erro.

Sarah piscou.

— Perdão?

— Houve um erro na contratação.

— Isso é alguma espécie de brincadeira?

— Não costumo brincar.

— Percebi.

Jacob estreitou os olhos.

Sarah cruzou os braços.

— Viajei quase oito horas para chegar até aqui. Então talvez você possa explicar qual exatamente foi o erro.

— Pedi um profissional com experiência.

— Tenho experiência.

— Pedi alguém que pudesse permanecer na ilha durante três meses.

— Posso permanecer três meses.

— Pedi alguém...

Ele hesitou.

Sarah inclinou ligeiramente a cabeça.

— Continue.

Jacob soltou o ar lentamente.

— Eu esperava alguém diferente.

Sarah encarou-o por alguns segundos.

Então compreendeu.

— Um homem.

Jacob permaneceu em silêncio.

— Você pediu especificamente um homem?

— Não.

— Então sua assistente não cometeu erro nenhum.

— Tecnicamente, não.

— Ótimo.

Sarah virou-se e começou a caminhar em direção às malas.

— O que está fazendo?

Ela olhou por cima do ombro.

— Pegando minha bagagem.

— Senhorita Clearwater...

— Sarah.

— Senhorita Clearwater, acho que você não entendeu.

Ela se virou completamente.

— Não. Acho que quem não entendeu foi você.

Jacob ficou imóvel.

Sarah caminhou novamente até ele.

Precisou erguer o rosto para encará-lo.

— Eu assinei um contrato. Sua empresa pagou minha passagem. Eu deixei minha casa, reorganizei minha vida e atravessei milhares de quilômetros porque você precisava de alguém para coordenar a reforma e reorganização da propriedade principal durante os próximos três meses.

— Eu sei.

— Então qual é o problema?

Jacob sustentou o olhar dela.

— A ilha é isolada.

— Eu vi o oceano durante a viagem.

— Há poucas pessoas aqui.

— Melhor ainda.

— A propriedade fica afastada da vila.

— Também estava no contrato.

A mandíbula dele se contraiu.

Sarah quase sorriu.

— Alguma outra objeção?

— Muitas.

— Alguma que esteja no contrato?

Silêncio.

— Foi o que pensei.

Ela voltou para buscar a mala.

Dessa vez Jacob foi atrás dela.

— Você sempre é assim?

Sarah pegou a alça.

— Assim como?

Jacob tomou a mala de sua mão antes que ela pudesse protestar.

— Teimosa.

— Apenas quando homens que acabaram de me conhecer decidem que não sou capaz de fazer meu trabalho.

— Eu não disse que você não é capaz.

— Não precisou.

Ele colocou a mala no jipe.

— Você interpreta demais.

— E você fala de menos.

Jacob fechou a porta traseira com força.

Os dois ficaram frente a frente.

Por alguns segundos, nenhum falou.

Então Sarah percebeu algo.

Havia diversão escondida nos olhos dele.

Muito discreta.

Quase inexistente.

Mas estava ali.

— Você está rindo de mim? — perguntou.

— Não.

— Está.

— Eu não estou rindo.

— Seus olhos estão.

Jacob desviou o rosto.

— Entre no carro.

Sarah sorriu.

— Acertei.

— Sarah.

— Sim?

— Entre no carro.

Ela entrou.


A estrada atravessava uma vegetação exuberante.

De um lado, montanhas cobertas por árvores. Do outro, o oceano aparecia ocasionalmente entre coqueiros e pequenas falésias.

Sarah observava tudo com fascínio.

— É maravilhosa.

Jacob dirigia com uma das mãos apoiada no volante.

— A ilha?

— Não. A estrada cheia de buracos.

Ele lançou-lhe um olhar.

Sarah sorriu.

— Claro que a ilha.

— Você se acostuma.

— Acho difícil alguém se acostumar com isso.

Passaram por uma praia praticamente deserta.

A areia era branca.

O mar, transparente.

Sarah virou-se no banco para continuar olhando.

— Aquela praia também é sua?

— Tecnicamente, praias não podem ser privadas aqui. Mas o acesso passa pela propriedade.

— Portanto, na prática...

— Quase ninguém aparece.

Sarah voltou a encará-lo.

— Você realmente gosta de ficar sozinho.

A expressão de Jacob mudou.

Foi uma alteração pequena, mas perceptível.

— Gosto de tranquilidade.

— Não é a mesma coisa.

— Para mim é.

Sarah percebeu que havia tocado em alguma coisa.

Decidiu não insistir.

Ainda.

Depois de quase vinte minutos, a vegetação se abriu.

E Sarah ficou sem palavras.

A casa estava construída sobre uma elevação diante do oceano.

Era enorme, mas não ostentosa. Pedra clara, madeira escura e enormes paredes de vidro integravam a construção à paisagem.

Uma piscina parecia terminar diretamente no horizonte.

— Meu Deus...

Jacob estacionou.

— Esse comentário geralmente significa que a pessoa gostou.

Sarah saiu do carro.

— Isso é uma casa?

— Normalmente é.

— Parece um hotel.

— Foi construída para minha família.

A resposta saiu mais fria do que as anteriores.

Sarah olhou para ele.

Outra porta fechada.

Outro assunto proibido.

Começava a perceber que Jacob Black era feito de silêncios.

Um homem apareceu na entrada da casa.

— Finalmente!

Era alto, moreno e tinha um sorriso fácil.

Desceu os degraus e abriu os braços.

— Você deve ser Sarah.

— Sou.

— Embry Call.

Ele apertou a mão dela.

— Administrador da ilha, motorista quando necessário, mecânico quando Jacob destrói alguma coisa e psicólogo não remunerado desse sujeito.

Sarah riu.

Jacob pegou as malas.

— Ignore o Embry.

— Todo mundo diz isso até precisar de mim.

Embry aproximou-se de Sarah como se fosse contar um segredo.

— Ele estava nervoso esperando você.

Jacob parou.

— Embry.

— O quê?

— Vá trabalhar.

Sarah olhou para Jacob.

— Nervoso?

— Não.

Embry sorriu.

— Muito.

— Embry.

— Estou indo.

Ele afastou-se rindo.

Sarah acompanhou-o com os olhos antes de voltar-se para Jacob.

— Então você estava nervoso.

— Não estava.

— Interessante.

— O quê?

— Você mente mal.

Jacob aproximou-se.

Dessa vez não havia humor em sua expressão.

Ele parou muito perto dela.

Perto o suficiente para Sarah perceber novamente o calor incomum que parecia irradiar do corpo dele.

— Há algumas regras enquanto estiver aqui.

Sarah ergueu o queixo.

— Naturalmente.

— A ala oeste é privada.

— Certo.

— Meu escritório também.

— Certo.

— Se precisar sair da propriedade, avise Embry.

— Posso perguntar por quê?

— Porque algumas regiões da ilha não têm sinal de telefone e há áreas de mata onde turistas já se perderam.

— Eu não sou turista.

— Continua podendo se perder.

Sarah cruzou os braços.

— Mais alguma regra?

Jacob hesitou.

— Não nade sozinha depois do pôr do sol.

Ela franziu a testa.

— Tubarões?

— Correntes marítimas.

— Entendido.

— E...

Ele parou.

— E?

Os olhos dele encontraram os dela.

Por algum motivo, o ar pareceu diferente.

— Nada.

Sarah observou-o.

— Você ia dizer alguma coisa.

— Mudei de ideia.

— Isso acontece frequentemente?

— Desde que você chegou, mais do que eu gostaria.

Ela sorriu.

Jacob desviou os olhos.

— Vou mostrar seu quarto.


O quarto de Sarah ficava no segundo andar.

Era maior que o apartamento inteiro onde ela morava.

Havia uma cama enorme, uma pequena sala, banheiro revestido de pedra clara e portas de vidro que davam acesso a uma varanda.

Sarah caminhou até lá.

O oceano ocupava todo o horizonte.

O vento movimentou seus cabelos.

— É inacreditável.

Jacob permaneceu próximo à porta.

— Espero que seja confortável.

Sarah virou-se.

— Jacob?

— Sim?

— Por que você realmente não queria uma mulher trabalhando aqui?

Ele ficou em silêncio.

Ela esperou.

— Porque três meses é muito tempo.

Sarah franziu a testa.

— Não entendi.

Jacob a observou por alguns segundos.

Havia alguma coisa diferente naquele olhar.

Alguma coisa que não estava presente quando se encontraram na pista.

— Não precisa entender.

Ele se virou.

— Jantamos às oito.

— Isso é uma ordem?

Jacob parou no corredor.

Olhou para trás.

— Um convite.

— Talvez eu aceite.

— Você vai aceitar.

Sarah ergueu uma sobrancelha.

— Muito convencido.

Pela primeira vez, ela viu claramente.

Jacob sorriu.

Foi rápido.

Quase imperceptível.

Mas transformou completamente seu rosto.

— Oito horas, Sarah.

E desapareceu pelo corredor.

Sarah ficou parada.

Alguns segundos depois, aproximou-se novamente da varanda.

Lá embaixo, as ondas quebravam contra as pedras.

O lugar era paradisíaco.

Tranquilo.

Isolado.

Perfeito.

Então Sarah percebeu uma coisa que deveria tê-la preocupado muito mais.

Ela estava em uma ilha praticamente particular, a milhares de quilômetros de casa, onde permaneceria durante três meses.

Com um homem que claramente escondia alguma coisa.

Um homem que não a queria ali.

E que, pela maneira como a olhara segundos antes, talvez tivesse acabado de descobrir que também não queria que ela fosse embora.

Sarah fechou os olhos quando o vento quente tocou seu rosto.

Ainda não sabia.

Mas aquele seria o último dia em que conseguiria pensar em Jacob Black como apenas seu contratante.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.