ID Anjo
1 O Presente
Notas iniciais
Ver a morte é tão comum. Ela estava ali, na nossa cara. Para simplificar, onde tinha vida, também tinha morte. Eu nunca chorei por perdas. Sabia que tudo é parte do ciclo da vida. Porém, quando acontece tão perto de você, é um pouco duro. Depois de um tempo, você percebe que nunca mais vai falar com a certa pessoa de novo.
Imagine meus pais quando perderam minha irmã. Até hoje eles guardam segredo de mim sobre a morte dela. Minha mãe fala dela de vez em quando. Hoje foi um dia desses. Eu fingia dormir, enquanto escutava sua conversa com uma das amigas pelo Skype. Ela amava um telefone.
– Eu fiz uma promessa com ela!– Escutei mamãe falando, com uma voz triste – Morreu perto de quando Maika nasceu. Estávamos tão felizes por seu nascimento, que deixamos nossa outra filha de lado. Lembro que, colocamos uma colagem de fotos da bebê na parede e ela brincou, dizendo que queria uma também.
Lacrimejei ouvindo aquilo. Eu me sentia feliz e triste quando ouvia falar dela. Sentia orgulho de ter tido uma irmã tão legal. Descobri que ela amava cantar, tinha muitos amigos e era gentil. Vivia agarrada com a mamãe e o papai, até mesmo na rua. Minha mãe disse que teve uma vez que quase expulsam elas de uma loja, por pensarem que as duas eram lésbicas.
Bem que eu podia ter uma máquina do tempo. Adoraria voltar e fazer amizade com minha irmã. Sei que muitos não gostam dos irmãos mais velhos. Eles são mandões e se acham no direito de te importunar. Tiro de exemplo a Rin, uma amiga minha, com o Len, seu irmão. Olha que eles dois são gêmeos, mas a Rin insiste em dizer que ela é a mais velha e por isso Len tem que obedecer.
Eu sinto que a minha não seria assim. Ela seria do tipo que me sufocaria de amor, não deixaria eu sair de casa se não soubesse pra onde, me seguiria, me mantendo longe dos garotos e de encrenca.Como uma protetora, uma guarda. Acho que se ela estivesse aqui, do meu lado o tempo todo, eu já teria me livrado de muitos problemas. Digamos que eu sou um tanto azarada.
– Tô indo. – Minha mãe abriu a porta do quarto escuro onde eu me encontrava.
– Bom trabalho. – Sorri para ela, me cobrindo com o lençol.
– É melhor você estar arrumada para a festa de Natal quando eu voltar. – Ela me fitou com um olhar doce e ligou a luz.
– Meus olhos! – Gemi de dor, como se fosse uma vampira.
– Exagerada. – Suspirou, revirando os olhos. – Sério. Não vá se produzir depois da hora.
– Me produzir? Só vou entrar em um vestido que a senhora escolheu, pentear o cabelo e só. Não é uma missão impossível. – Bufei, coçando os olhos.
– Você vai ter que usar maquiagem. Se chegar na festa parecendo uma mendiga todos vão brigar comigo. Eu, a cara da riqueza, e minha filha parecendo que está em casa.
– É só um jantar. Apenas gente da nossa família– Expliquei, cansada.
– Ok. Agora, tô indo...– Beijou minha bochecha e saiu.
Tempo é dinheiro. Dinheiro é o Deus da Terra. Eu acredito que os médicos sabem mesmo a fórmula da imortalidade. Só com dinheiro, as pessoas ricas podem provar da fonte da juventude.
Quando liguei meu pc, vi que uma pessoa tinha falado comigo. Yohio, meu BFF, que ficou bonito e faz academia. Nós éramos os dois novatos da escola. Somos parecidos. Gostamos de ser estranhos.
Vou explicar a parte extranha. Fazemos brincadeiras assustadoras. Tipo a do copo, que você se comunica com fantasmas. Não sei como topo isso. Sou super medrosa. Yohio era wicca e acreditava em coisas que eu sempre acreditei, como fadas. Até viu uma. Dizem que ele bebe ou usa drogas para imaginar essas coisas, mas é mentira.
A mensagem era "oi, tudo bem?". Eu respondi "sim, me ajuda?". Ele respondeu com um emoticon de um gato meio unicórnio. Notei que queria desviar minha atenção. "Feliz Natal", ainda teve a cara de pau de mudar de assunto. "Para você também. Agora, help!", digitei rapidamente e enviei. "What?", perguntou. Ele estava rindo, tenho certeza. "Vai ver!", mandei uma mensagem de voz, enquanto ria malignamente.
Estava esperando ele no pátio do meu prédio. É incrível, ele mora no prédio da frente. Todas as coisas estavam com enfeites natalinos. Crianças que passavam,me olhavam esquisito. Meus cabelos são brancos e nas pontas rosa. Só isso basta para aflorar a mente de uma criança. Elas estavam achando que eu era uma ET.
– Que demora, né?– Gritei quando o loiro de farmácia chegou.
– Quê?!– Ele gritou, sem entender. Motivo:fones no ouvido.
– Tira isso –Puxei os fones dele meio violentamente –Cover de Wrecking Ball?– Perguntei, séria, mas me segurando para não rir, escutando.
– Eu gosto dessa música. Me julgue. – Estufou o peito, pegando os fones e bagunçando meus cabelos.
Cantei de uma forma super desafinada, fazendo dueto com o cara que cantava no cover que Yohio estava ouvindo, até que percebi algo.
– Você notou –Ele tremeu, rindo da minha cara assustada.
– É você cantando?! – Gritei, batendo no ombro dele de leve.
– Talvez –Desligou o celular, me encarando com seriedade agora –Quer o quê?
– Você nu– Abri os braços, fazendo uma expressão safada.
– Fala sério, troço!
– Precisamos fazer a brincadeira do copo. Quero falar com minha irmã. – Me esforcei para pedir.
– Não posso ajudar– Ele olhou para o nada, com medo de me olhare acabar chorando.
– Ótimo– Cruzei os braços, desanimada.
– Devia pedir ela de presente– Sugeriu, rindo alto.
Depois de conversarmos, nós nos separamos. Me arrumei bem rápido,da forma que minha mãe queria que estivesse. Ela ainda demoraria. Fiquei com uma vontade louca de saber mais sobre minha irmã, foi aí que eu sai procurando na casa toda até achar coisas dela. Tinha uma foto dela com meus pais. Seus cabelos eram loiros brancos e ela tinha olhos azuis. Até achei um papel dizendo seu aniversário. Pode ser irônico, porém, ela havia nascido nesse mesmo dia. 24 de Dezembro.
Escutei uma batida na porta. Já sabia que era o meu amigo. Ele entrou e eu quase morri de rir. Ele estava vestindo um terno e parecia um pinguim. Eu estava parecendo uma puta com o vestido que minha mãe escolheu. Apertava minha cintura e fazia meus peitos parecerem maiores.
– Como você está diva– Brincou, apertando minha bochecha até doer.
– Olha você. Te comia todinho– Devolvi.
– Quando vai ser sua festa de Natal? – Perguntou, entrando.
– Não sei e não quero ir– Soprei minha franja.
– Não vá. Também vou fugir da minha. Estou planejando sair com a galera. – Falou como se fosse rebelde.
– Você tem "galera"? – Ri dele, incrédula.
– Sim – Deu de ombros– Topa uma fuga romântica? – Pegou minha mão e beijou.
– Certo. Minha mãe diria que passou vergonha por mim se eu fosse. Ela quer que eu seja uma mini ela. Mini perua. – Adoro a mãe, porém essa é a verdade.
– Vamos...Para o karaokê! – Yohio gritou, apontando para o além.
Escrevi um bilhete e preguei na porta da geladeira. Impossível meus pais não verem. "Pais, estou no karaokê com amigos. Os presentes do amigo secreto estão no sofá e eu tirei a minha prima mais nova. Não esqueçam. Amo vocês, mas não quero fazer a mamãe passar vergonha, já que eu pareço uma mendiga. Beijo, Maika!". Melhor bilhete de todos.
Estava curiosa para falar com a turma do Yohio. Eram pessoas cantando, subindo em cadeiras. Eu ri antes de entrar na sala. O loiro me puxou pela mão. Havia uma garota de cabelos verdes, sentada e parada, que usava óculos vermelhos e tinha um ar sombrio. Os barulhentos eram garotos. O de cabelo azul era o que mais chamava atenção. Até que era bonito. Não prestei muita atenção nos outros.
– Pessoal, essa aqui é a Maika– Yohio me abraçou por trás, enquanto me apresentava.
– Todos vocês estão fugindo de festas de Natal chatas com parentes que fazem a piada do pavê? – Uma loira perguntou, apertando um coelhode pelúcia estranho.
– Sim– Respondi, achando graça de como ela tinha falado.
Havia comida boa, pessoas legais e música alta. O que mais posso querer? Ah, um namorado. Percebi que nenhum deles estava com celular, o que era bem estranho. E muito mais divertido. É horrível que celulares fazem todos se desligarem do mundo. É doente e me faz ficar com medo.
– Celular? – A garota de cabelos verdes e curtos pediu.
Olhei em volta, sorrindo de uma forma nervosa. Nem estava usando.
– Vou guardar. Minha mãe é psicóloga. Em festas pessoas não deveriam usar isso. Deveriam se comunicar umas com as outras cara a cara. É bem mais saudável– Sorriu, pegando o celular que eu havia acabado de tirar da bolsa– Espero que goste da festa.
– Já estou gostando– Vi Kaito, que eu descobri ser o gostoso de cabelo azul, dando uma piscada para mim. E claro que eu retribuí.
Procurei Yohio. Estava levando uma fatia de bolo de morango para ele. Do lado dele tinha um garoto de cabelos rosa, que era altão e sorriu para mim e acenou. Acenei de volta, confusa. Aquelas pessoas eram meio estranhas. Onde Yohio havia os achado? Alguém acabou se batendo contra mim, já ia gritar, porém era o irmão mais novo do Yohio, Oliver? Como deixaram uma criança entrar?
– Disseram que eu só podia vir se trouxesse ele– O mais velho bateu na própria testa, segurando na mão do pirralho.
– Acho que eu vi uma estrela cadente – Yuuma, o de cabelos rosa,estava olhando o céu pela janela.
Todos nos apertamos para vere fazer um desejo. Pedi para ter uma chance de conhecer minha irmã. É, quase nunca mudo de ideia. Quando abri os olhos, todos os outros estavam com eles fechados. Sorri. Eram gente boa.
– Desculpa a demora!– Escutei uma voz fina atrás de nós.
Imagina se eu me virasse e fosse minha irmã? Todos diriam "pegadinha", as câmeras sairiam e meus pais estariam rindo de mim, dizendo que minha irmã nunca morreu. Yohio bateria na minha cabeça e me chamaria de idiota, enquanto brindava com minha irmã viva. Claro que isso não aconteceu. Era só uma garota de cabelos azuis esverdeados.
– Oh, garota nova? – Ela perguntou, olhando para mim e abraçando Kaito.
– Sim. Essa é a Maika, amor. Yohio trouxe ela – Kaito deu um beijo na boca dela e eu fiquei enjoada.
– Prazer– Disse, tossindo.
– Claro que é. Sou Hatsune Miku. – Ela pegou minha mão e apertou.
– Acho que tá tarde. Preciso ir – Bocejei, fingindo que estava com sono para sair. Aquela Hatsune me dava arrepios.
– Eu te dou carona!– Yohio pegou as chaves do seu carro novo e saiu comigo e Oliver.
Estávamos na estrada há horas, pois pegamos um engarrafamento. O motorista ficou escutando aquelas músicas eletrônicas que me dão vontade de ir pra balada. Quando chegamos, meus pais ainda não haviam voltado. Liguei para eles e o pai parecia bêbado. Bem estranho, já que ele não bebe. Avisei que havia chegado em casa e que queria chocolate. Meu BFF foi embora e eu praticamente desmaiei na cama.
Acordei com dor de cabeça, luz no rosto e com uma caixa no meu quarto. O presente se mexia. Ainda estava dormindo? Fui lavar o rosto no banheiro e quando voltei, a caixa ainda estava lá. Será que Yohio me drogou? Entrei em pânico. Procurei meus pais, porém não estavam lá. Vi um bilhete na geladeira. Que imitões. "Querida, já que você foi para uma festa sozinha, nós resolvemos fazer o mesmo!". Como eu amo essa família.
Eles não mencionaram o embrulho gigante.
Quando abri aquilo, uma coisa saltou em minha direção. Era minha irmã com asas grandes e brancas.
Fale com o autor