I will never forget you.
44 Um pingo de esperança no meio de um mar em caos.
Notas iniciais

** Quarto da Alice***
“ O dia não estava fácil para mim, eu iria te contar que minha mãe tinha acabado de morrer por causa do câncer, que sei que não te contei, e não sei o porquê de ter escondido isso de você. Eu estava transtornado, não queria nada naquele momento, só queria que você deixasse eu deitar em seu colo e me acalentasse como sempre fazia. Mas, você me jogou a bomba de que eu iria ser pai, eu enlouqueci, não foi o melhor momento para eu ficar sabendo disso, pois juro, se fosse em outra ocasião, eu teria de abraçado tanto, te enchido de beijos e nunca mais iria querer te largar.
Mas não foi assim, e não uso a morte de minha mãe como desculpa, sei que fui um otário, e tudo que fiz não me atormentou durante os quatro anos seguintes. Confesso que nem cheguei a lembrar que em algum lugar do mundo eu tinha um filho precisando de mim.
Mas não foi porque eu sou um completo sem coração. Foi porque eu me viciei, entrei no mundo das drogas depois que me vi sozinho. Não tinha mais você, não tinha mais minha mãe e meu pai sumiu depois de tudo. Eu precisava de algo que me deixasse feliz, que me desligasse de tudo.
Na minha mente eu estava feliz, estava completo, não precisava mais de nada. Mas um dia, eu me vi voltando para o quartel, me vi novamente aonde eu sempre quis estar, me vi fazendo algo que eu queria.
Depois de ter virado um oficial, demorei um ano para reencontrar você. Não foi minha intenção, foram as consequências. Mas meu coração se encheu no momento que vi Lucca, me senti o pior ser humano em ter o abandonado, senti que precisava fazer algo para recompensar o tempo perdido.
Mas aí eu fiquei sabendo que ele já tinha um outro pai, um que fez o que eu não fiz, e hoje sei muito bem que ele foi muito melhor do que eu poderia ter sido.
Sabe, foram poucos os momentos que tive com Lucca, mas foram maravilhosos, intensos, realmente mágicos, e nunca poderei recompensar o que fiz para vocês dois, mas de qualquer maneira, parabéns por não ter me escutado, sei que não ia, você é uma pessoa extraordinária e merece o melhor e sei que aquele que você escolheu para ser pai do Lucca, é o melhor que você poderia ter. Mil vezes melhor que eu.
Mesmo sabendo que você não vai me perdoar, mesmo nem sabendo se vai ler essa carta, quero pedir desculpas. Desculpa por ter te deixado, desculpa por não ter ido no primeiro ultrassom, desculpa por não passar as noites em claro com você, me desculpe por não ter sido o homem que deveria ser. Me desculpe pela minha covardia.
— Miguel”
Uma coisa que acabei de aprender é que: O perdão não faz a outra pessoa correta, te faz livre.
— Sendo assim, eu te perdoo, Miguel. – Falo para os céus, mesmo sabendo que ele pode nunca saber disso.
—**-
Três, três meses se passaram e nada mudou. Nenhuma notícia, nada.
Eu já nem sei mais o que falar para Lucca, ele está começando a imaginar coisas, está associando conversas. Mais cedo ou mais tarde ele vai descobrir, e não consigo imaginar o estrago que vai acontecer. Ele é uma criança, como vai ficar a cabeça dele?
— Manu, eu preciso sair da cidade. – Anuncio e ela me olha confusa.
— Como assim?
— Luquinha está associando as coisas, está perguntando demais. Não posso contar para ele que o pai foi para a guerra.
— Mas você vai ir embora para onde? Sua gravidez já está quase no final, não pode ir assim. – Argumenta e eu pondero por alguns segundos.
— Aí, eu não sei. Não sei mais de nada! – Exclamo e me jogo em seus braços.
— Calma, amiga.- Pede
— Como eu vou ter calma? – Pergunto – Lucca está em uma guerra! Eu não sei se ele vai voltar! Como vou lidar com dois filhos? Se ele morrer eu não sei o que vai ser de mim! Eu preciso dele! – Grito já com as lágrimas descendo copiosamente pela minha face.
— So...- ela começa mas é interrompida pelo toque do meu telefone.
— Atende, por favor. – Peço e ela obedece.
Enquanto ela fala ao telefone, me perco com os chutes que Alice não para de proferir em minha barriga. Sei que ela sente tudo o que sinto, e não é justo eu deixar uma criança que nem nasceu estressada.
— Desculpa, princesa. – Sussurro para a minha barriga. – Mamãe promete ficar mais calma.
Minha conversa com Alice é interrompida pelo som do telefone caindo no chão. Me viro bruscamente até onde Manu se encontra e tudo que vejo em seu rosto são lágrimas. Lágrimas de desespero. Meu coração se acelera tanto que começa a doer.
— Manu. – Chamo com um nó na garganta.
— Eles...eles... – gagueja e cai no chão com as mãos entre a cabeça.
— O que aconteceu? – Indago gritando.
— O Rafa...e o Lucca – Começa e as lágrimas descem de meu rosto com mais rapidez – Eles foram...baleados
POV Lucca:
Estar na guerra não é nada do que eu imaginava. É pior do que qualquer coisa que já vivenciei em minha vida. Não é matar um inimigo. É matar qualquer um. Qualquer um que apareça na sua frente. Você pode estar salvando sua vida, mas está tirando milhares, e isso não é nada reconfortante, isso tira o melhor de cada pessoa. Tira sua essência. Você vira um assassino. Você apenas não é preso em uma cadeia. Mas o rosto de cada pessoa que você tira a vida, fica preso em sua mente.
Dormir. Desconheço.
Felicidade. Desconheço.
Saudade. Daria de tudo só para poder ter meu filho e Sophia nos meus braços.
— Cara, eu não aguento mais. – Rafa se senta ao meu lado, derrotado.
— Eu não sei como aguentei até aqui. – Confesso, tentando colocar um pouco de comida na boca.
— Eu preciso arrumar um jeito de voltar para a casa. Preciso ver meus amigos, meu pais, a Manu.
— Se você arrumar esse jeito me fala. Se eu tiver que matar mais uma pessoa eu não sei o que vai acontecer.
— Eu não entendo. – Fala se deitando na cama improvisada. – Ninguém está ganhando nada com isso. Tudo o que eu consigo ver quando fecho os olhos são pessoas mortas! Pessoas que eu matei! – Grita e vejo seus olhos se enchendo de lágrimas.
— Rafa- O chamo quando uma ideia louca atinge meus pensamentos.
— Fala.
— Se a gente ficar ferido, em estado crítico, a gente volta para o Brasil? – Indago e ele me olha sério, ele já entendeu onde eu quero chegar.
— O Santos voltou depois daquele acidente. – Comenta e me olha com um fio de esperança.
É uma ideia suicida, mas se planejarmos bem, conseguiremos voltar para a casa e vivos. Precisamos arriscar.
POV Sophia:
A espera é angustiante, sufocante. Manu está agarrada aos meus braços, e ambas esperamos por Lucca e Rafa.
Eles foram baleados em zona de guerra. O exército disse que estão vivos, mas os ferimentos são graves, por isso decidiram mandar eles e mais alguns feridos de volta, para receber tratamento necessário.
O aeroporto está lotado, nos designaram a ficar em uma área reservada junto de outros familiares. Eu só preciso ver ele, ver que ele respira.
Então, finalmente as portas se abrem. E nos mostram uma fila de macas, que saem a todo vapor em direção as ambulâncias que as aguarda do lado de fora. Os médicos saem gritando o nome dos soldados para que os parentes possam os acompanhar até a ambulância.
— Rafael Marques. – Anuncia um médico fazendo com que Manu corra em sua direção.
Não posso sair daqui pois tenho que esperar por Lucca. Mas pelo vislumbre que tive de Rafa, as coisas não estão boas. Preciso que eles saiam bem dessa.
Fico atenta as dezenas de nomes que são anunciados, fico cada vez mais aflita ao ver os ferimentos de cada soltado.
— Lucca Corrêa. – Anuncia outro médico, meu coração dispara.
Ele está aqui.
Meus olhos vagam pelo saguão e encontro o dono da voz. Lá está ele, estirado sobre uma maca, desacordado.
Corro totalmente desajeitada, por conta da barriga, até aquela maca, e meus olhos não acreditam no que veem.
Está com várias partes do corpo enfaixadas, seus hematomas estão por toda a parte, mas seu peito sobe e desce. Ele vai sair dessa.
Minha mão não solta da sua durante o percurso até o hospital. Nada parece ser real, ainda não acredito que ele finalmente voltou, e está do meu lado. Vivo.
— Chegamos. – Grita um dos paramédicos e em segundos, sua mão desgruda da minha, sinto um vazio enorme.
— Sinto muito, mas a senhora não pode ir a diante. – O médico me informa, quando estão o levando para a sala cirúrgica.
Vai achando que vou me separar dele agora.
Tenho a sorte de estar no hospital que trabalho, e vou assistir essa cirurgia de qualquer jeito.
Depois de colocar meu uniforme em um piscar de olhos, passo pela catraca e vou o mais rápido possível até o centro cirúrgico.
Identifico a sala e entro, infelizmente só posso assistir pela galeria.
Vejo uma equipe de seis pessoas trabalhando no caso dele. A bala atingiu a região do tórax, e seria um eufemismo eu dizer que a cirurgia é complicada. É praticamente impossível. Mas ele está aqui, e não vai ser agora que irei perder as esperanças.
Bisturi pra cá, medicamento para lá, separador acolá. E meu coração parecia sair do peito a cada disparada no monitor cardíaco, eu mesma não estou acreditando no que estou vendo.
Cinco horas de cirurgia.
Vou a passos lentos até o quarto em que Lucca se recupera. Não foi permitida a entrada de parentes, mas ninguém precisa saber que ele é meu noivo, certo?
Abro a porta e lá está ele. Vestido com aquela roupa azul ridícula de hospital, vários fios ligados a ele e soro entrando por sua veia e mesmo que desacordado pela anestesia, seu rosto está assombrado, não parece nada com aquele cara sorridente de meses atrás. O trauma foi grande, mas agora ele está aqui, e vou fazer o possível e o impossível para traze-lo de volta.
Isso tudo ainda não foi processado pelo meu cérebro, ainda não parece que ele está aqui, do meu lado, vivo.
Me aproximo de seu corpo, minhas mãos passeiam pela pele gélida de seu corpo, sobem até seu ralo cabelo e param ao chegar em seus lábios carnudos.
Que se danem as regras.
Meus lábios se aproximam dos seus e lá permanecem por longos segundos. Me afasto e me sento ao seu lado na maca. Acaricio sua mão tomada pelos hematomas e decido começar a conversar com ele.
— Eu nem estou acreditando que você está comigo. – Confesso soltando algumas lágrimas. – Aconteceram tantas coisas esses meses. Você vai ser pai de novo. – Revelo mesmo sabendo que ele não escuta. – Nossa Alice vai nascer daqui um mês, e não sabe como eu estou aliviada em ter você aqui. – Com delicadeza consigo colocar sua mão sobre a minha barriga, e sinto Alice toda animada lá dentro. – A gente sentiu muita saudade. Lucca não vê a hora de poder te encontrar. Tanta coisa aconteceu com ele, está crescendo cada dia mais. Tinha tanto medo de você perder tudo isso. Mas não vai, certo? Você vai aguentar firme por nós, a gente não consegue viver sem você! – Exclamo já tomada pelas lágrimas.
— Tem tanta coisa para acontecer ainda. Nossa menina vai nascer, e não se esqueça que me pediu em casamento. – O lembro – Não vai fugir de mim tão fácil. – Solto uma risada fraca e sinto algo na minha barriga.
Sua mão está se mexendo sobre meu ventre. Pisco diversas vezes para ter certeza de que não estou alucinando ou algo do tipo. A mão dele está realmente se mexendo.
— Lucca? – O chamo
Nada.
— Lucca? – Tento novamente, dessa vez mexendo em seu rosto.
Nada.
— Você está acordado? Fala comigo! – Exijo e vejo seus olhos se mexendo.
— Eu nunca fugiria de você. – Fala com a voz rouca. Meu coração dispara.
— Meu Deus! – Exclamo e me jogo em cima dele.
Mas nesse instante, algo acontece. O monitor cardíaco começa a apitar incessantemente. Ataque cardíaco.
Sou tomada pelo desespero, ele está imóvel. Preciso acorda-lo! E com o intuito de traze-lo de volta a vida, começo a fazer uma massagem cardíaca nele.
— Lucca, acorda! – Ordeno enquanto impulsiono minhas mãos sobre seu coração.
— Sophia? O que está fazendo aqui? – Pergunta doutor César que adentrou como um raio no quarto.
— Ajuda ele, por favor! – Imploro desesperada.
— Você precisa sair daqui, iremos fazer de tudo. – Afirma e no mesmo segundo sou levada dali por um par de braços fortes.
—**-
— Amiga, vai dar tudo certo. – Joana tenta me reconfortar. – O doutor César é o melhor cardiologista do país, eles vão salva-lo.
— Eu preciso de notícias! Ninguém vem me falar nada. – Exclamo caída em um corredor qualquer.
— Você precisa se acalmar, assim eu vou lá dentro e te trago notícias.
— Vai agora, por favor. – Imploro e ela assente.
Estava tudo indo tão bem, a cirurgia foi um sucesso, ele estava acordando. Por que o coração dele tinha que fazer isso? Porque nada nunca dá certo?
— Ele acabou de voltar da guerra! – Grito para os céus. – Porque não pode ter um pouco de piedade? O que você quer de mim? Já não me castigou bastante?
— Sophia. – Joana aparece afobada na minha frente.
— Como ele está? Ele vai sobreviver né? – Pergunto e tudo que espero escutar é um “sim”.
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