I will find you
24 Cante comigo.
Notas iniciais
Durante o resto da tarde, Irie, Sekine e eu ajudamos Iwasawa na sala de fisioterapia. Ela estava recuperando os movimentos rapidamente, creio que porque a afasia já havia desaparecido. O apoio que recebera das meninas era incrível, já que além das palavras de coragem, rimos bastante também. Iwasawa gostava muito desses momentos em que nos divertíamos, costumava dizer que “Oh sim, isso é muito rock!” e eu apenas ria baixinho, revirando os olhos. Infelizmente, o dia estava próximo a escurecer e nossas pombinhas tinham que voltar para os dormitórios.
— Ehhh! Já está tarde assim? Logo quando conseguimos fazer a Iwasawa-senpai andar... – A loira bateu o pé no chão, cruzando os braços e fazendo uma típica cara emburrada.
— Soo... Se nos apressarmos, tem chance de não nos atrasarmos, querida... – Irie disse baixinho, quase inaudível pela costumeira timidez que sempre carregou.
— Pensem no lado bom, meninas... – Iwasawa disse com um sorriso aparentemente fofo. Eu arqueei a sobrancelha e cruzei os braços.
— Qual o lado bom disso..? – Indaguei ao encará-la, com uma expressão gentil e curiosa em minha face.
— Ah, pensa bem, Hisako... – Ouvi atentamente cada palavra que ela pronunciou com um leve ar sedutor. Yui me dizia que a voz da nossa vocalista preferida era ‘forte’, de fato, era diferente de tudo o que eu já tinha ouvido na minha vida. No entanto, às vezes ouvi-la falar me causava arrepios na espinha. Principalmente quando ela me chamava pelo nome. – Agora elas podem ter um momento só para elas. Namorados gostam disso, não é? – Ela piscou de um jeito inocente, me desmontando inteira por dentro. Oh Deus... Desde quando ela entende tanto de romances?
— Haa? Como você sabe disso? – Respirei rápido e mantive minha postura séria, tentando disfarçar meu embaraço com a situação.
— É só o que parece... – Ela coçou o queixo, pendendo a cabeça para o lado. Meu Kami, como ela consegue ser adorável depois de tudo isso? – Estou errada, gente?
— B-Bom... – Irie ficou visivelmente corada e se encolheu atrás da loira, tímida demais para responder tal pergunta.
— A senpai tem toda a razão! É embaraçoso ficar beijando na frente de vocês duas. – A baixista mostrou a língua, fazendo deboche.
— Vocês tem uma ótima química. – Uma gota desceu pela minha testa acompanhada do meu olhar de completo desprezo.
— Vocês se completam assim como a guitarra da Hisako me faz cantar com mais emoção... – Mas o que Iwasawa estava dizendo..? Todos esses flertes que ela nem faz ideia que são!
— Iwasawa... – Eu corei mais que um tomate e apoiei as mãos na maca, atrás de mim, enquanto virava o rosto para o lado numa tentativa de esconder minhas bochechas ferventes com a franja salvadora que eu insistia em manter na lateral do meu rosto.
— Vocês fazem uma química perfeita, hehehe! – Sekine disse zombeteira e fazendo corações com os dedos no ar.
— Para de falar besteira! Idiota! – Cruzei os braços e engrossei a voz como de costume, essa loira sempre tenta fazer a gente de boba quando dá.
— Uhhh! Hisako-senpai ficou vermelha! – Ela deu um pulinho, rindo maliciosamente.
— Calma... – Iwasawa tentou se retrair, coçando a nuca.
— Meu amor... Deixe-as, vamos voltar... – Irie puxou a camisa da loira, levando-a até a porta e acenando. – Até depois, Hisako-senpai, Iwasawa-senpai..!
— Ehhh?? Logo quando estava ficando divertido... – A baixista se debatia um pouco, resmungando ao sair do quarto. Ficamos a ouvir o escândalo dela até o elevador.
— Se você parar de reclamar, eu até deixo você segurar meus peitos dessa vez. – O que a Irie estava dizendo..?
— Woooo! Vou ficar super quietinha, Irie-chi! – A Sekine ficou animada com isso... Mas que diabos..? No instante em que tudo ficou silencioso, ouvi risadinhas. Iwasawa estava rindo disso? Hoje o dia estava sendo realmente diferente.
— O que houve Masa..? – Eu perguntei baixinho, ainda com o rosto virado para o lado. Ainda não estava preparada para mostrar esse maldito sangue que insistia em tingir minhas bochechas.
— Elas são bonitinhas juntas. – Senti o peso de Iwasawa no tecido da maca, sentando-se após ter terminado os seus exercícios fisioterápicos. Respirei fundo e me dei por vencida, acabando por sentar ao lado dela, cruzando as pernas em posição de lótus.
— É verdade, elas são... – Tentei ao máximo não reproduzir minha vergonha, meu coração parecia que ia explodir. – Então...
— Sei que não esperava que eu fosse dizer isso, mas de alguma maneira a gente já sente quando o sentimento entre pessoas tão próximas acontecem... – Ela olhou para o alto, balançando as pernas torneadas. – O amor é algo engraçado, não é...? Todos falam dele... O amor é como solos de guitarra que entram e tocam nos seus nervos...
— Talvez você esteja certa... – Que estranho, como Iwasawa sabe dessas coisas...?
— Falando em amor... – Ela mudou o assunto de alguma maneira, me deixando aliviada e mais ansiosa ao mesmo tempo. – Meus pais não vieram me ver nesse tempo...?
— Oh... – Suspirei baixo, receosa em dar a resposta, mas sei que ela já esperava isso. – Eles não apareceram...
— Imaginei... – Ela baixou o olhar, enquanto uma expressão dolorosa surgia em sua face pálida. – Eu nunca fui importante pra eles... — Instantaneamente eu tomei seu corpo num abraço necessitado, o que lhe causou surpresa por uma fração de segundos.
— Iwasawa... Foi por causa deles que você veio parar aqui. Você acha que eles merecem algo? – Sussurrei baixo em sua orelha coberta pela mecha tom magenta que exalava um cheiro incrível de dálias. – Eu não sei se isso é o suficiente... Mas você é mais do que importante pra mim... Você me salvou... Você e sua música...
— É por isso que não me sinto mais sozinha... – Ela sorriu, deitando seu rosto no meu peito que pulsava com uma rapidez tremenda. – Obrigada, Hisako... Se não fosse você, eu não estaria de pé hoje...
— Não estaríamos aqui se não tivéssemos nos conhecido... – Eu sorri calmamente e levei meus lábios até sua testa, dando um beijo demorado na fronte. – Você é muito especial pra mim... Os seus solos de violão entraram nos meus ouvidos e tocaram meus nervos. Por isso nossa música se completa.
— Hisako... – Ela abriu um sorriso magnífico e segurou meus ombros, me olhando nos olhos com uma animação que eu já conhecia. – Mas é claro! Vamos tocar juntas agora? Me conceda este momento, por favor... – Oh, aquele olhar... Não tinha como resistir àquele par de olhos rosados implorando por uma música.
— Não tem como negar com você fazendo esse olhar pra cima de mim. – Balancei o rosto, tentando me desprender daquela olhar que sugava toda a minha atenção, mas quem disse que isso era possível? – Vou pegar nossos violões.
Iwasawa quase deu um pulo e me abraçou com mais força. Eu acariciei seus curtos cabelos quase roxos, sentindo o perfume que os envolvia, preenchendo minhas narinas. Poderia dormir mais feliz só com isso esta noite. Enquanto eu ia pegar os violões, ela se esforçou para ir sozinha até o terraço do prédio, em poucos minutos eu já estava lá ao lado dela. Sentamos nas plataformas nas laterais e avistamos o céu estrelado que clamava por uma canção.
— E a composição que você deixou comigo? – Perguntei ao retirar a folha de papel do meu bolso da camisa, entregando em suas mãos. Ela sorriu e analisou a folha, voltando-a para as minhas mãos e começou os acordes no violão que ela tanto amava.
— Como eu poderia esquecer...? Vamos ajudar o céu a dar seu espetáculo... – Iwasawa pareceu brilhar ao dizer aquilo, o brilho das estrelas que acabavam de nascer combinava bem com seus olhos.
— Hai. – Apenas a me ver concordar, ela iniciou a canção, fazendo-me acompanhá-la nos solos. Oh sim, isto é rock.
Eu tenho certeza de que as estrelas brilharam ainda mais quando Iwasawa soltou sua voz, doce e cheia de sentimento. Ela não desafinava uma nota. Meu coração acelerava no contraste da base com meus dedilhados acelerados. Era o cenário perfeito. E eu não pude deixar de cantar os refrãos junto a ela. O sorriso que transparecia a cada frase me fazia sorrir junto, a magia da música dela era infecciosa demais.
No último solo, a rosada ficou a me olhar com uma leve surpresa estampada em sua face. Eu havia treinado muito pra ficar perfeito. Creio que na guitarra seria mais simples por conta do rifle, mas me dei bem de qualquer maneira desta vez.
— Wow, é como se você tivesse escrito... – Cocei a nuca em nervosismo e embaraço ao ouvi-la.
— Yui fez a versão dela dessa música, é claro que não ficou a mesma coisa, mas eu dei o meu melhor... – Olhei distante, o céu parecia o mesmo de todas as noites de shows que já passamos. Vimos um asteroide cruzar o céu no mesmo momento.
— Hisako! Vamos fazer um pedido. – A vocalista se levantou com um pouco de dificuldade, mas se mantivera de pé, expondo o dedo mindinho em minha direção.
— Claro... Mas, isso é uma promessa também? – Arqueei a sobrancelha, levando a mão em direção até a dela devagar. Meu coração se agitou um pouco no peito.
— Sim... Nós vamos estar nos palcos novamente. Juntas... – Senti a firmeza nas palavras dela, eu abri um pequeno sorriso de canto em retribuição.
— Eu prometo, Iwasawa... – Ao fazer os meus olhos se encontrarem com os dela, juntamos os dedos, selando nossa promessa.
Naquela noite eu realmente fui dormir mais feliz, depois de ter ficado ali sentada no terraço, olhando o céu estrelado e ouvindo Iwasawa tocar. Era como sentir que nada mais faltava. O ar que respirava parecia mais puro, o vento brincando com as mechas rosadas dela, o contraste do seu rosto com as estrelas. Eu poderia ficar assim pra sempre. Infelizmente, a noite virou madrugada e tive que levar uma vocalista sonolenta para a cama.
Preparei o jantar com alguns ingredientes que peguei no mercado antes de chegar ao hospital. Fiz um yakisoba desta vez, não poderia deixar de colocar alimentos nutritivos na dieta de Iwasawa que já estava se recuperando e se esforçando mais. Depois de comermos, acabamos por cair no sono, exaustas.
Na manhã seguinte, acordei mais cedo pra não me atrasar pras aulas. A rosada dormia feito um anjo, seu semblante tranquilo, suas mãos jogadas para os lados, ao que ela estava deitada de barriga para cima. Era impossível acordá-la desta maneira, seria uma violação... Tentei me sentar ao seu lado cuidadosamente para que não fizesse barulho.
Observei atentamente seu rosto sereno... Os lábios finos meio entreabertos, o peito que subia e descia com sua respiração pouco acelerada... Era como se estivesse pedindo para ser beijada. Portanto, nada fiz. Apenas acariciei seus cabelos e seu rosto morno, macio. Ela era linda demais e eu não poderia me aproveitar de tal entidade angelical... Contentei-me em levar essa imagem em minha mente enquanto me dirigia até o colégio. Os raios do Sol pairavam sobre os prédios que arranhavam o celeste azul e um sorriso animador apareceu nos meus lábios. De alguma maneira eu sentia que hoje seria um dia muito melhor.
Ao chegar à sala, me deparei com uma cena muito nostálgica. Hinata e Yuri conversando como nos velhos tempos, até com os tapas costumeiros e os gritos.
— Hisako! Finalmente você chegou! – Yurippe me puxou logo pra carteira e sentou-se sobre ela, cruzando os braços e abrindo aquele sorriso convincente que já indicava que iríamos ‘iniciar uma operação’ em breve.
— Olá Hisako! Há quanto tempo! – Hinata fez um aceno de mão e eu retribuí assim que joguei minha mochila ao lado da minha cadeira.
— Oe Yurippe-san, Hinata-kun. O que manda de novo?
— Hoje vamos começar a formar o nosso time para o beisebol. E é claro, vamos treinar bastante! – Ela levantou o punho no ar, reforçando o sorriso. – Fiquei sabendo que se ganharmos, já teremos equipamentos garantidos para a nossa sala do clube. Não podemos perder isso de maneira alguma!
— Nós ainda não temos um clube? Como assim, Yurippe? – Hinata cruzou os braços, coçando a nuca nervosamente.
— Não tivemos tempo para procurar uma sala e montar o clube. Faltavam membros quando cheguei aqui. – A líder suspirou e cruzou os braços, pensativa.
— Vai dar tudo certo, galera. Nós temos bons atletas aqui, não é verdade? – Eu me recostei para trás, nas costas da cadeira e sorri ao lembrar-me das aventuras que tive nos jogos junto com nossa turma. Eu me divertia bastante com toda aquela correria.
No intervalo, nos reunimos na quadra junto com Sekine, Irie e TK. Yuri trouxe os equipamos junto a Hinata e nos colocamos a pensar.
— Hinata, você já sabe que vai ficar como lançador, certo? – A líder colocou as mãos na cintura, jogando a luva para o garoto.
— Sim, sem problemas. Vai ser moleza!
— Hisako, já que você tem multifunções por aqui, vai ficar como rebatedora. – Arqueei a sobrancelha e concordei. Afinal, eu nunca me gabei de me dar bem em esportes, mas eu sei que me adaptava bem a qualquer situação.
— Hai, Yurippe! – Peguei o bastão e fui para o meu lugar.
— TK, você vai ficar bem não é? Com esse lenço nos olhos... – Ele riu e acenou como sempre.
— I’m okay, girl! — O loiro sorriu calmamente, ficando atrás de mim enquanto colocava a luva.
— Sem problemas! Irie e Sekine, vocês vão ficar na reserva. Tudo bem? — Yuri piscou e as duas concordaram, indo até os bancos ao lado. — Ótimo, vamos começar galera!
O treino começou bacana, Yurippe não era uma má líder, ela sempre nos faz dar o melhor de nós mesmos porque sua ambição também é muito forte. Consegui rebater muitas bolas, sorte que eu também conseguia correr rápido e passar por todos os cantos do diamante. Hinata também era um lançador incrível, tinha ótimas opções de jogada e isso deixou o jogo mais emocionante ainda.
Fico pensando como será esse campeonato...
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