A sala era grande, mas éramos tantos que ficou pequena. Tinha cores claras nas paredes e cortinas brancas, com um tecido leve, apropriado para um verão quente, permitindo que o ar gelado da noite que acabava de chegar. A energia que eu já tinha me acostumado com sua ausência me deixou sem jeito por um segundo. Tudo tão claro, tudo tão às claras. Quase como uma confraternização, todos se encaixavam em cada ponto da sala bonita.

Tinha a decoração simples, como uma mãe que tem crianças em casa iria decorar. Nenhuma foto, mas tinha dois jarros com flores silvestres em criados mudos em cada canto da sala. Dois sofás grandes marrons e uma poltrona de couro preta, daquelas que inclinam. Meu pai tinha uma na fazenda.

Rick foi o primeiro a falar, ele estava com uma camiseta branca limpa e calças jeans. Estava barbeado e limpo na minha frente. Bem diferente do que eu estava acostumada.

— Consegue nos dizer o que aconteceu?

— Eu acho que sim...eu...- Daryl entrou e me interrompeu. O vi caminhar ate a janela que estava mais próxima a mim. Eu estava no sofá de 3 lugares com Megan e CaRol. Queria tanto levantar dali e ficar mais próxima a ele, mas eu sabia a importância de explicar tudo, então tentei focar no Rick.

— Não sei nem por onde começar- Disse mais para mim, como reflexão. Com um sorriso sincero, porem sem graça.

—Talvez por partes e do inicio seja mais simples.- Carol com um olhar gentil, tentou me dar uma direção .

— Tudo bem. Vocês me deixaram no hospital após eu ser baleada. — Era uma afirmação, mas ficou no tom de acusação.

— Tínhamos certeza que você estava morta. Eu sinto muito. – Megan chorava ao segurar forte a minha mão.

— Eu sei, doutor me explicou isso. Ele também achou, quem não acharia? Fui baleada na cabeça. Foi meio que uma loucura sabe?!. Ele me disse que vocês não estavam pensando direito. Que queriam ir embora carregando meu corpo. Mas ele convenceu vocês que me dariam um funeral e que era melhor assim. Andar carregar um corpo pela cidade até a floresta mais próxima não é uma ideia inteligente. No final foi minha salvação.

Meggie segurou mais forte minha mão e eu olhei para ela. – Foi à coisa mais difícil que eu já fiz. Te deixar ali. Mas eu não sabia o que fazer. Ninguém conseguia pensar direito . Daryl não queria soltar você.

Não pude evitar olhar para ele. Estava olhando pela janela a chuva bater forte contra o vidro fechado agora. Sua pose parecia descontraído apoiado no parapeito. Conseguia ver metade de seu rosto na luz da sala.

— Imagino que deve ter sido difícil.- Queria que ele olhasse para mim, queria confortar ele.

— O que aconteceu depois que saímos?- Rick me tirou de meus pensamentos.

— Me levaram para o necrotério, e lá o doutor decidiu limpar meu rosto, foi então que ele percebeu que eu ainda estava sangrando. Decidiu fazer alguns testes só por precaução e eu estava viva. Cuidou de mim, e segundo ele fiquei um mês em coma. Acordei com uma pequena sequela e uma grande cicatriz na cabeça.- Disse levantando meus ombros, como se eu disse-se que perdi o ônibus.

—Sequela? – Meu corpo todo respondeu aquela voz. Há quanto tempo eu não ouvia sua voz? Agora ele me olhava atentamente e eu conseguia ver seu rosto completo. Minha respiração estava aumentando e aumentando e eu não sei se tinha vontade de chorar ou gritar, então decidi desviar o olhar e olhar para baixo com a esperança de reformular minha cabeça.

— Eu perdi a minha memória. Por um tempo.

— O que te fez lembrar?- Karl estava tão diferente que eu quase não reconheci sua voz.

— Eu tive um sonho. Depois tudo foi voltando.

— Quando você lembrou-se de tudo veio atrás da gente?

— Sim – respondi para minha irmã- Assim que consegui ficar de pé e consegui lembrar das coisas eu sai a procura de vocês.

— Como nos achou? — Glenn queria saber.

— Procurei padrões nas trilhas, foi difícil, mas consegui.

— Como o que?

— Como furos de 2 cm no meio da cabeça dos walkers.... E isso!- Levei a minha mão ate minha perna e tirei 5 flechas velhas e desgastadas que perfurariam somente os walkers podres, que estavam presas na minha bota.

— Você rastreou o Daryl! Isso é genial.

Todos olhavam para mim com surpresa. Claro que não acreditavam que a antiga Beth pudesse fazer algo parecido. Mas as coisas mudam, pessoas mudam e eles ficariam surpresos com o que eu passei. Na verdade eu mesma não me conheceria se me visse por fora.

A porta se abriu novamente e todos olhamos para a entrada. Uma mulher branca e loira entrou na sala com um homem que tinha o mesmo padrão gentil em sua expressão. Presumi que fossem mãe e filho. Eles não entraram hesitantes ou como se não quisessem ser notados. Estavam muito confortáveis com a atenção. Mas a atenção deles estava em mim.