I see the sound of both of us.
3 She didn't see me.
Notas iniciais
Os aplausos não cessavam, assovios e gritos deixando as maçãs do rosto da jovem da mesma cor de seus cabelos. Ela sorria e não desviava o olhar do público.
– Obrigada, obrigada... Vocês são muito gentis. Agora vamos buscar uma mais do fundo do baú? – a mão foi levada perdida ao ar em busca do banquinho, quando sentiu o metal frio na palma de sua mão ela se sentou, ajeitou o vestido e começou a dedilhar o violão. Algumas pessoas assobiaram ao reconhecer o toque. E quando as cordas agitadas deram a deixa, a voz doce da jovem silenciou mais uma vez a todos.
– “ Oh — thinkin' about all our younger years. There was only you and me we were young and wild and free.” – A música era de Bryan Adams, Heaven. De acordo que seus dedos agitavam as cordas do violão sua voz tomava conta da plateia, nem comer eles conseguiam, os garçons tinham dificuldades para se concentrar, pois não queriam tirar os olhos dela, mas não podiam desviar o foco do trabalho.
Victor não conseguia tirar os olhos dela, estava secando uma jarra a mais de dois minutos, concentrado no movimento que os lábios da jovem faziam.
– Ei, usa o pano pra secar a boca, está escorrendo aí. – Brair deu nele um leve tapa na nuca que pôde ser ouvido pelas duas mesas ali próximas.
– Que nada seu idiota! Ela apenas canta benzinho, nada demais e olha... – ele apontou o dedo. – Ela desafinou ali, ô.
Os dois riram e voltaram aos seus afazeres. Brair foi para a cozinha lavar as louças e Victor também. Mesmo na cozinha, juntando a louça, ele não tirava os olhos da misteriosa cantora. Ficava observando-a pelo pequeno pedaço de vidro nas portas de metais da cozinha. A cada segundo que se passava ele percebia mais e mais que ela não poderia ser uma simples humana, não mesmo, Deus deveria ter mandado um de seus anjos para aquele restaurante naquela noite. Ele era ateu, não acreditava em Deus, muito menos em anjos, mas daquela noite em diante, começaria a repensar suas crenças a respeito dos seres angelicais e cidades celestiais, com certeza ela veio de lá.
As horas passavam e o restaurante aos poucos foi se esvaziando, mas ela continuou cantando até o último sair, quando ele saiu à mulher vestida de social, uma saia azul marinho, apertada que a fazia andar trançando as pernas e um blazer da mesma cor, abotoado com dois botões dourados, se aproximou da menina e pegou seu violão e nessa hora, Victor estava na porta e quando viu que ela estava olhando em sua direção sorriu e levantou a mão para ela, mas a jovem não retribuiu e desceu do palco com a ajuda da mulher. Irritado o rapaz entrou com o rosto corado cozinha adentro, mas foi impedido de sair pelo velho dono do restaurante. Ele parou em frente ao jovem com aquela barriga enorme, ele roçava os dedos sobre o umbigo naquele exato momento.
– Onde vai? Tem uma mesa para servir ainda. – ele apontou para a menina que estava no saguão.
O rapaz não disse nada, respirou fundo, pegou a bandeja com os dois pratos e com a outra mão levou a jarra de suco. Quando ele entrou no saguão percebeu que ela estava sozinha na mesa, isso o deixou desestabilizado. Ele tremia, sentia algo subir e descer por seus braços e pernas, mas se manteve forte. Borboletas voavam em seu estomago e ele sentia sua mão suar por baixo da bandeja. A mesa estava forrada por um tecido branco e no centro uma pequena escultura de cristal com uma rosa dentro. O rapaz colocou a jarra na mesa ao lado e arredou a escultura, colocou no centro uma pequena caixinha de madeira onde estavam o azeite, sal, pimenta e os guardanapos, e colocou o prato na frente da jovem, os copos que estavam na bandeja ele ajeitou ao centro da mesa e ao se virar para buscar a jarra, olhou para a menina que nem se quer olhava para ele.
– Bom apetite. – disse ele em um tom arrogante ao servir o suco e se virou para sair.
– Ei, moço. – a voz dela mesmo quando falada era gostosa de ouvir. – Poderia me trazer o suco?
Ele a olhou com descrença, mas respondeu com calma. – Já servi o suco de laranja que me foi pedido. – deu as costas e parou com mais uma pergunta.
– Ah, claro, obrigada, mas poderia me passar o guardanapo, por favor? – ela ainda não olhava para ele e isso o irritou.
– Está na sua frente, só estenda a mão e pegue! – ele não conseguiu esconder a arrogância na voz, mas se surpreendeu com a resposta.
– É...pode ser mais especifico? – ela apontou para os olhos. – Eu não consigo ver. – e ela sorriu e procurou de onde vinha o som da respiração do rapaz.
Isso o fez engasgar, um nó ficou preso em sua garganta e sentiu sua boca ficar seca, aquela sensação de culpa que ele nunca havia sentido tomou conta de sua mente, de seu corpo.
– Me perdoe, eu, eu não sabia. – e ele estendeu a mão e pegou o guardanapo, segurou frente a jovem. – está aqui, só levantar a mão.
Ela assim o fez, mas sem querer suas mãos se chocaram e ele a segurou.
Uma explosão aconteceu ali no corpo dele. O toque dela era macio, quente, ele não conseguia entender o que era tudo aquilo que ela despertava nele. Parecia que a conhecia de algum lugar, vidas passadas? Não, ele era totalmente descrente a essa religião, mas que explicação teria para aquilo que ele sentia ao olhar pra ela, ao tocar ela, mas antes que chegasse a uma conclusão, ele foi interrompido pela mulher que se aproximou.
– Opa! Está tudo bem aqui?
– SIM! – gritou ele assustado soltando a mão dela. – Eu só estava dando a ela o guardanapo.
Ele saiu de repente carregando a bandeja, apressado tropeçando nos próprios passos.
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