I kissed a girl
1 Capítulo único
Isso nunca foi como eu planejei
Não era minha intenção
Eu fiquei tão corajosa, bebida na mão
Perdi minha discrição
Não é o que eu estou acostumada a fazer
Só quero te experimentar
Eu estou curiosa sobre você
Atraiu minha atenção
Eu beijei uma garota e gostei
Do gosto do brilho labial de cereja dela
Eu beijei uma garota só para experimentar
— Katy Perry, “I kissed a Girl”.
O som da cerveja sendo derramada calculadamente numa torre de copos com perfeição demonstrava a competência do simpático garçom que as atendia. O barulho das vozes já exaltadas no bar dificultava escutar as palavras alegres cantaroladas por ele.
Shayera observa a cena com interesse fingido, sorrindo sempre que o homem lhe lançava um olhar e soltava uma exclamação perplexa sobre como era à primeira vez que via duas mulheres tão resistentes a álcool. Claro que o fato dele estar demorando não tinha nenhuma relação com o fato delas serem estonteantes e parecerem interessadas em algo mais que conversar.
Babaca presunçoso. Na verdade, ele não era nem tão bonito assim.
Com muito custo, ela conteve um suspiro irritado.
Shayera ainda tentava entender como tinha acabado saindo com Diana depois de um dia cansativo na liga. Não que elas não fossem amigas, mas o temperamento de ambas era muito parecido: explosivo e, muitas vezes, inflexível. Isso fez com que criassem um vínculo de respeito, não de amizade.
Agora, ela segurava a borda da mesa com tanta força que temia estar estragando-a. Teria que aguentar o espanto do garçom e a presunção de Diana caso isso acontecesse.
— Você não tem argumento? — perguntou Diana, enquanto olhava o garçom se distanciar lançando-lhes piscadelas.
“Argh, não se fazem mais homens como antigamente” lamentou, temendo que o imbecil tivesse quebrado alguns de seus argumentos.
— Não é questão de argumento, eu já te disse. É tudo sobre preferência — respondeu, tomando um longo gole de cerveja.
Ela não gostava de cerveja, preferia uma boa dose de whiskey, mas não queria ser mal educada e aceitou o convite para comer na discreta cervejaria artesanal. Era isso que acontecia quando tentava ser simpática e agradável.
A mulher-maravilha deu um sorrisinho desdenhoso, como se estivesse saboreando a vitória.
— Como você sabe que não gosta se nunca experimentou? — O sorriso de Diana foi sujo e cheio de segundas intenções.
O desconforto de Shayera tornou-se ainda maior, e ela se remexeu na cadeira, estranhando o fato de estar tão por fora. Não era a primeira vez que recebia uma insinuação de outra mulher. Talvez fosse porque aquela era a mulher-maravilha, a heroína do mundo, a mártir por amor.
Nada ali parecia certo.
— Se eu gostasse, sentiria algum impulso. Nunca tive vontade de beijar uma mulher, a ideia nunca nem me passou pela cabeça.
Mentirosa, seu subconsciente gritou. Cale a boca!
Não conseguia lembrar-se como aquela conversa surgiu. Estavam conversando amenidades sobre o comportamento infantil dos companheiros e, quando viu, debatiam acaloradamente se mulheres eram melhores na cama que os homens. Diana jurava que sim, assinalando que a ilha de Themyscira não era chamada de paraíso à toa.
Shayera, por sua vez, zombou e disse que não achava que poderia ser tão bom assim. Seria pra quem gostasse, pra quem cão curtia, era irrelevante. Diana concordou quem não eram todas as mulheres que gostavam, então ela não entendia o ponto da discussão. Shayera era uma daquelas que não curtiam e fim.
E não, ela nunca sentiu atração por outras mulheres! Desejou sentir, mas não sentiu. Infelizmente. Pare de se enganar, mulher.
— Eu não entendo o porquê de você está insistindo tanto no assunto. — Colocou um pãozinho na boca e sentiu os olhos azuis de sua acompanhante vibrarem, se demorando ali. Engoliu a seco. — Diana?
— Hum? — Ela levantou os olhos, parecendo distraída. — Bem, eu apenas tenho a impressão...
— Isso não é julgar com base de como você me percebe? — rebateu Shayera, feliz por ter a palavra final pela primeira vez naquela conversa. — É tudo que você vive criticando com veemência há anos.
Ela estava um tanto nervosa, como não se lembrava de estar há décadas.
— Bem, já que você está tão na defensiva... — Diana pausou um pouco, parecendo procurar as palavras certas. Shayera sentiu um arrepio, sabendo que algo ali iria fazê-la desmoronar. — ... é que toda vez que tocamos no assunto, você se esquiva, parecendo desconfortável e até amedrontada, eu diria.
“Achei que era preconceito, por isso te detestei por algum tempo; não gosto de gente com mentalidade pequena, você sabe. Só que isso só acontecia quando colocavamos em cheque a possibilidade de você se relacionar com outra mulher. Pensei: algum trauma do passado ou desejo reprimido?”
Quando Shayera abriu a boca para replicar, Diana continuou:
— Claro que isso é apenas uma conjectura minha, por isso que estou perguntando.
“Vou fingir que não tem nada a ver com o fato de te desejar todas as noites” pensou a Mulher-maravilha, mordendo de leve os lábios. Ela torcia para que a negativa da mulher gavião minasse de vez suas esperanças.
Shayera abriu a boca diversas vezes, porém não achava nada coerente para falar.
— Todo mundo pensa assim? — perguntou, por fim.
Diana voltou os olhos para a cerveja, parecendo interessada nas palavras escritas da garrafa.
— Ah, minha nossa. — Shayera riu, desconsertada. Sempre tentou ser sensata e autocrítica, mas levava a fama de enrustida?
— Não que a gente ache que você é lésbica ou bissexual. É só um tópico que aparece quando estamos entediados — explicou Diana, piorando ainda mais as coisas.
Elas ficaram alguns minutos em um silêncio pesado.
Diana se repreendeu mentalmente por ter abordado o assunto, e torcia para que fossem embora logo. Shayera analisava qual era a melhor forma de resolver o assunto: chamaria todos e exclamaria que se conhecia bem demais e por isso sabia? Deixaria para lá ou...?
— Acho que já deu por hoje — anunciou ela, levantando-se da mesa e pedindo a conta.
Diana concordou, aliviada por poder ir embora.
Naquele momento, Shayera já duvidava de seus argumentos. Perguntava-se se os companheiros não tinham razão. Nunca se questionou quanto a própria hesitação em beijar outras mulheres, era algo comum em todo o universo.
Enquanto andavam de volta, ela tentava recordar de algum evento traumático envolvendo mulheres na suas muitas vidas. Nada vinha na sua mente. Nada que justificasse, pelo menos.
Shayera parou no meio da rua. Elas estavam perto da sede terrena da liga e conseguiam ver o edifício brilhante dali com clareza. Tomada por uma súbita vontade de… entender a si mesma, ela andou a passos gatunos até sua acompanhante.
— Diga-me, Diana, existe alguma razão a mais para sua curiosidade ou não passa disso? — questionou em tom cortante e, mesmo não tendo certeza de quais consequências aquilo acarretaria, tomou uma decisão.
Diana apenas a encarou, não sabendo ao certo se deveria responder ou não àquela pergunta sinceramente. Depois de muito tempo, tinha conseguido abrir uma pequena fresta no muro de civilidade superficial dela e não estava disposta a perdê-la.
— Eu… apenas quero saber — respondeu com relutância. Não gostava de mentir.
“Um passo de cada vez”.
Shayera aproximou-se ainda mais, parando a um palmo de distância. Percebeu, com certa satisfação, que os olhos de Diana ficaram arregalados pela surpresa. Percebeu, também, como a boca dela era bem desenhada, num formato charmoso de cupido. O rosto dela ficou mais claro, como se ela houvesse enxergado-o por um vidro fumê todo aquele tempo. E Diana era quente, pensou com assombro; podia sentir o calor dali, assim como uma vibração estranha que tomou seu corpo.
Antes que se acovarda-se, colou sua boca na dela. De início, foi algo estranho e desconsertado, mas depois que entendeu que beijo era beijo, deixou a língua dela adentrar na sua.
Era macio e mais suave no geral, entendeu, as curvas eram muito similares as suas, porém gostou. Seus pelos eriçaram e ela sentiu um leve pulsar entre as pernas. Tudo ali parecia mais intenso: o cheiro herbal dela, a maciez da pele, a brisa noturna.
As mãos de Daiana contornaram sua cintura e uma subiu para seu pescoço devagar, fazendo carícias lentas e constantes. Shayera arfou um pouco ao sentir uma mão apalpar sua bunda e dar um leve beliscão. Sua pélvis encaixou na da mulher-maravilha quase com perfeição e seu quadril ondulou levemente em busca de alívio imediato.
Shayera pensou que se não estivesse na rua, não ligaria se Diana descesse um pouco mais com os lábios e mordiscasse seu pescoço, lambesse seus seios e lhe chupasse até que perdesse os sentidos. Não se importaria de fazer mesmo também; de vê-la nua e de um modo único. Sentiu-se ainda mais umida com a imagem vivida e erótica.
Elas continuaram por um tempo indefinível e quebraram o beijo por seus pulmões estarem protestando.
Diana piscou, aturdia, ainda sem realmente acreditar que Shayera Hall acabara de lhe proporcionar um dos melhores beijos da sua extensa vida. Talvez estivesse sonhando e não percebia? Parecia mais provável, mais aceitável.
— Shayera…? — perguntou com hesitação, pois ela estava com uma expressão indecifrável.
— Você tem razão: foi bom — comentou casualmente. — Agora, acho que nós precisamos ir.
Shayera poderia aparentar tranquilidade por fora, mas sua cabeça rugia e seu sangue fervilhava, seu corpo parecia querer entrar em ebulição a qualquer segundo. Ela tinha mesmo beijado uma garota e tinha gostado! Foi com esse pensamento repetido que entrou dentro da sede da liga, deixando para trás uma mulher-maravilha embasbacada. Foi com esse pensamento que passou a noite insone:
Eu beijei uma garota e gostei.
Notas finais
Espero que não tenha ficado muito confuso e que tenham apreciado. Sei que o final ficou um tanto apressado, porém não queria transformar isso em outra longfic não terminada.
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