Notas iniciais
... Eu tinha que escrever algo aqui... AH sim; aos leitores da outra fic, mil desculpas; vários acontecimentos levaram a demora para escrever e postar que não vale a pena gastar tempo explicando.
So, obrigada pela leitura e aproveite.

Aquilo não era nada como na TV ou nos filmes, era muito, cem vezes pior. Tiago via sangue em quase toda a rua e ainda não conseguia acreditar, a garota que atravessava há minutos atrás estava agora a metros do carro que havia batido contra ela violentamente, também pudera com a velocidade com que o motorista estava descendo a rua; o moreno sabia que fora um erro de calculo feito tanto pela garota que pensava dar tempo de atravessar a rua quanto do motorista que praticamente em cima da hora tentou frear.

Ele foi um dos poucos que teve coragem de se aproximar da vitima, alguns curiosos se arrependiam da decisão rapidamente se afastando com a mão na boca, definitivamente não era uma imagem agradável de ver. Ela havia batido a cabeça contra o asfalto, o sangue não cessava, era notável o osso quebrado da perna que estava numa posição incomum, as roupas consistiam em um short curto e uma regata, deixando mais lugares expostos a ralados e cortes profundos, o peito da mesma subia e descia com certa dificuldade, ficando mais pausado a cada instante, estava inconsciente desde o momento que havia batido a cabeça.

Tiago notou varias pessoas ligando para a emergência tentando explicar o ocorrido do jeito que podiam, ele olhou novamente para ela, parecia ter sua idade, menos de 20; ó céus, ele não conseguiria imaginar o que seria perder a vida agora, mesmo que ela não estivesse morta, aquilo com certeza mudaria a vida dela para sempre, e provavelmente não de um jeito bom. Ela era pálida... Ou estava pálida por causa do acidente, ainda sim, era branca com os cabelos negros um pouco abaixo dos ombros.

Sirenes o fizeram pular, ele ainda não acreditava na cena que vira; a ambulância chegou rapidamente levando em conta com o tempo de uma normal em sua cidade, mas bem, aquela não era sua cidade, era uma menor com menos de 20 mil habitantes. Os paramédicos rapidamente a imobilizaram e a transportaram para a ambulância, o moreno via atentamente cada movimento que eles faziam com ela. Tiago estava intrigado pela garota e seu destino.

(...)

3° Dia após o acidente.

Tiago acordara quarenta minutos antes de o celular despertar, era seu primeiro dia na nova escola e ele continuara a pensar na garota. Mal dormiu nesses últimos dias e acordou várias vezes com a visão do acidente. Sem querer voltar a cochilar, se levantou e começou a se arrumar para o dia letivo. No espelho se decepciona com as olheiras e a ameaça de se tornarem mais profundas. “Terá uma bela primeira impressão, amigo” ele pensou consigo mesmo. Saindo do cômodo em direção à cozinha, ele encontra sua mãe já preparando o café, ela o olha e percebe sua aparência cansada.

— O que aconteceu querido?! —

Perguntou a mulher preocupada, ela colocou um prato com torradas na mesa em frente ao filho quando este se sentou.

— não dormi muito bem... Muita coisa na cabeça —

Respondeu ele pegando uma torrada, ao invés de comer o moreno ficou simplesmente olhando para o pão quase enojado.

— Já te falei para parar de pensar nisso; o que aconteceu, aconteceu, e você não pode fazer nada a respeito... Sei que é difícil e ela era jovem; mas tente esquecer, ficar remoendo não vai te fazer bem, acredite. —

Sua mãe se sentou ao seu lado e começou a passar a mão em seu ombro e nuca de uma maneira reconfortante enquanto falava. Ele sabia que era verdade, mas não mudava o fato de que ele havia se sentido mal com tudo aquilo. O garoto suspirou e se levantou.

— Vou pra escola... Não quero me atrasar no primeiro dia. —

Ele deixou a cozinha antes que a mulher protestaste. Ele não estava com fome, não quando a imagem da garota quebrada não saia de sua cabeça. Voltou até seu quarto onde pegou seu material e foi para a escola pensando que pelo menos as aulas seriam uma boa distração.

(...)

Não foi difícil achar sua sala depois da explicação de uma das coordenadoras, todos estavam ocupados e iam de lá para cá; por isso ele não foi apresentado formalmente para sua turma e quando entrou na sala os poucos alunos que lá estavam o olhou curiosos, Tiago então foi até o fundo da sala e se sentou na última cadeira da penúltima fileira.

— Hey, é aluno novo? —

Perguntou um garoto de cabelos castanhos se sentando na mesa da frente e colocando os pés em cima da cadeira desocupada; ele parecia ser do tipo que se enturma fácil e provavelmente ocupava o cargo de representante da turma.

— Sim, minha família se mudou pra cá há alguns dias... —

Respondeu Tiago se encostando contra a cadeira, o cansaço o alcançou a este ponto e ele se preocupou com a possibilidade de acabar dormindo na sala em seu primeiro dia na nova escola; o outro ia perguntar outra coisa quando três meninas entraram na sala praticamente aos berros, dizendo coisas do tipo: “como isso pode acontecer?” ou “tomara que ela se recupere.” O garoto a sua frente suspirou triste e viu o olhar confuso de Tiago.

— Manu foi atropelada há alguns dias atrás, ela sentava ali e... Bem, era amiga das meninas; na verdade era amiga de todo mundo, nenhum rancor com ninguém. —

Disse ele olhando para a última cadeira da última fila ao lado da de Tiago que só conseguia pensar em quão pequena era aquela cidade e em como o destino era traiçoeiro; toda a cena o fez voltar a pensar nela, que agora sabia ser Manu...

— Manu?! É apelido de Emanuela?! —

Questionou o moreno sem se conter, ele estava lá na hora do acidente e agora estava lá na sala da garota, por que não se permitir ser curioso?! O outro balançou a cabeça e apoiou os braços nas pernas.

— Emanuelly... Seria legal se vocês se conhecessem, ela também era meio que novata, chegou quase no inicio do ano, era um pouco na dela, mas muito divertida. —

A expressão do outro começou a variar, parecia que a medida que pensava, a ficha de que a garota estava no hospital e não iria sair tão cedo (se é que sairia) começava a cair.

—... Mas, não vamos falar de quem não esta aqui, não é?! Victor Luiz, a propósito; vice-representante da turma. —

Victor logo mudou de assunto para a infelicidade de Tiago; droga, como ele queria saber mais sobre ela, mesmo que ele soubesse que teria muitas chances pra isso estando naquela sala.

— Tiago- —

O moreno não pode terminar a frase, já que assim que dito seu nome o sino bateu e vários outros alunos entraram seguidos de uma professora baixinha de cabelos grisalhos, alguns livros nos braços. Victor rapidamente saiu da mesa em que estava e se sentou numa das carteiras da frente, uma menina ocupando a carteira em que ele estava em segundos.

— Acho que todos já sabem o que aconteceu com a Emanuelly, e como nós já oramos quando eu dou a primeira aula, vamos adicionar ela nas nossas orações, para que se recupere e tudo mais... —

A professora dizia enquanto um por um os alunos iam se levantando e abaixando suas cabeças, todos fizeram a oração do pai nosso em uníssono, era possível notar a voz de alguns mais baixas, murmuradas ou mais profundas que de outros. Assim que terminaram a sala ficou muda por dois segundos, até todos começarem a falar, formando uma grande algazarra de teorias e boatos sobre como aconteceu. Alguns diziam que o motorista estava bêbado, outros que na verdade Manu e o motorista se conheciam e ele havia a atropelado de propósito, Tiago não iria se meter em nenhum dos comentários, até ouvir uma garota dizer que ela havia se jogado na frente do carro, ele ainda não sabe o porquê, mas naquele momento ele viu tudo vermelho.

— Ela não tentou suicídio! —

Ele praticamente gritou chamando a atenção de todos para si, olhos arregalados e outros curiosos o olhavam e o moreno notou estar respirando pesadamente, a garota que havia dito o olhava desafiadora.

— Eu vi o acidente e não passou disso, um acidente; tanto ela quanto o motorista tentaram impedir, mas já era tarde. —

Ele começou a falar novamente desabando toda a frase de maneira rápida, notou alguns alunos sorrindo para ele e soube que esses eram os verdadeiros amigos de Manu, que não acreditavam que ela faria algo assim e orgulhosos por saberem que alguém a iria defender, mesmo que esse alguém nem a conhecesse.

— Ok, classe; já passou o momento e ninguém tem nada haver com isso... Desculpe, mas quem é você?! —

Perguntou a professora percebendo que o aluno era estranho, ela também parecia agradecida por alguém ter se oposto a teoria desagradável (a todas elas na verdade).

— É aluno novo professora, Tiago, a família dele se mudou pra cá. —

Victor prontamente respondeu antes mesmo de Tiago pensar, o garoto ainda estava nervoso e confuso com o próprio surto momentâneo.

Depois de uma rápida apresentação da sala para Tiago e de Tiago para a sala, a professora (que agora ele sabia ser Prof.ª Luce, uma doce senhora que amava dar aulas de português.) voltou para sua rotina e começou a passar seu conteúdo.

(...)

Durante as aulas, Tiago descobriu que Lorenzo, Bruna (ou Bruh como preferia) e Sophie eram os mais próximos de Manu e que Lorenzo e Sophie moravam perto de sua casa. E no intervalo eles decidiram ir ao hospital durante o horário de visitas.

Ele soube de mais coisas sobre a morena: ela tinha 17, tinha um irmão mais velho que havia se casado e ficado na cidade em que eles estavam antes de se mudarem para a nova, onde o pai dela havia recebido promoção para gerente de um dos bancos da cidade; que ela era muito boa em redações e português, tinha um ótimo gosto musical (em sua opinião já que era o mesmo que o seu próprio) e que tinha fandoms na qual era fiel até o fim (e alguns também em comum com os dele) como: The Avengers, Supernatural, Harry Potter, Sherlock Holmes e alguns outros; Tiago ficava cada vez mais interessado na garota que agora sabia estar em coma.

Eram duas e trinta e cinco quando Lorenzo o chamou em sua casa, Tiago rapidamente se despediu de sua mãe e saiu com certo nervosismo plantado na boca do estômago, cenas do acidente voltavam a rondar sua mente; ele iria vê-la de novo... E ela não saberia, mesmo se estivesse acordada não iria saber quem era ele e como ela o estava mudando por dentro.

Eles chegaram ao hospital às três horas em ponto; apesar da cidade ser pequena, seus locais públicos eram grandes e bem equipados para o conforto e bem-estar da população; em sua maioria o hospital era usado por pessoas transferidas de outras cidades nas quais os hospitais já estavam lotados ou algo do tipo, e apenas por esse detalhe as alas do grande hospital eram usadas (já que muitos moradores de cidades próximas preferiam vir para a cidade do que enfrentar as filas do próprio hospital para exames); alas como a psiquiátrica e neurocirurgia são exemplos das menos usadas assim como qualquer outra ligada a casos muito delicados. Claro, geralmente havia um caso ou outro na UTI de algum bêbado que passou da conta, ou algum louco que decidiu fazer bungee jumping sem corda na ponte da cidade (Victor disse que já acontecera duas vezes em menos de um ano).

Bruna, que havia se juntado ao trio no meio do caminho, se aproximou do balcão de atendimento e perguntou para a recepcionista sobre a amiga.

— Ela já foi movida para um quarto particular, mas está sob acompanhamento e é preciso que não façam muito barulho. Quarto 77, segundo andar. —

Respondeu a mulher loira depois de digitar em seu computador, a morena agradeceu e foi com os outros para o elevador, Tiago estava vibrando e ele nem sabia o motivo. No quarto, havia um casal e um enfermeiro; o casal vigiava atentamente a figura imóvel na cama e o enfermeiro por sua vez trocava alguns curativos no rosto da paciente. O moreno ficou parado na porta enquanto os outros três entraram e cumprimentaram o casal (Tiago imaginou serem os pais da garota), mal prestando atenção quando eles apresentaram suas condolências.

Seus olhos encontraram os fechados da morena na cama e ele ficou estático, ela estava menos inchada e mais pálida do que se lembrava, sem o sangue manchando sua face, curativos cobriam grande parte da pele exposta dos braços, pescoço e rosto, ele mal havia notado esses ferimentos no dia; Tiago foi retirado de seu estupor quando Lorenzo o chamou e o apresentou para os pais de Emanuelly, Sophie contou que ele havia visto o acidente e o moreno teve que relatar todo o acontecido novamente, cuidadoso com as palavras e expressões que usava.

—... Eu queria ter conhecido ela antes... —

Terminou com outro olhar em direção a garota presa a vários aparelhos.

(...)

Quinze minutos depois os três jovens foram embora deixando Tiago com Celia e Bernardo, os pais de Emanuelly; eles conversaram um pouco sobre motoristas imprudentes e riscos do trânsito, o enfermeiro também se retirou e o garoto notou a mulher e o marido ficando apreensivos e tensos.

— Algum problema? —

Ele perguntou curioso, eles se entreolharam preocupados pareciam em dúvida entre alguma coisa e não compartilharam com moreno antes de um último olhar para a filha.

— Nós praticamente não deixamos o hospital, e temos que resolver algumas coisas... Mas não queremos deixá-la... —

Bernardo dizia grave tocando levemente a mão da morena; Tiago começou a pensar o quanto machucava ver um filho nesse estado, sem poder fazer algo, sem saber se ela iria voltar, sem saber até quando ela ficaria inconsciente, sem ouvir novamente a voz que uma vez o acordou durante a noite, que uma vez o chamou de ‘Pai’ ou ‘Papai’ ou ‘Paizinho’, que uma vez te disse ‘Eu te amo’.

— Eu... Eu não tenho nada pra fazer, se quiserem posso ficar com ela até voltarem, ligo pra vocês caso precise... —

Propôs o moreno depois de fungar espantando algumas lágrimas queimando atrás dos olhos, de repente com uma vontade de abraçar tanto os pais dela quanto os seus próprios. Ele percebeu novamente que ambos os adultos estavam em conflito interno e ele não os culpava.

— Eu volto assim que puder... —

Disse a mulher depois de um tempo, ela pegou sua bolsa, beijou a testa da filha e saiu apressada do quarto, Tiago imaginava facilmente o porquê, Bernardo por sua vez entregou um cartão de visitas para o moreno dizendo poder ligar a qualquer momento, ele beijou a filha como a esposa fez.

— Vamos falar com a recepcionista, provavelmente vão te dar um crachá para que fique depois do horário de visita... Obrigado, rapaz. —

O patriarca agradeceu da porta e saiu atrás da mulher. Tiago então se encontrou sozinho com Emanuelly como secretamente queria até alguns minutos, quando uma enfermeira loira entrou.

— Olá, o Sr. Oswald solicitou outra permissão de acompanhamento em nome de Tiago Sherazytter, seria o senhor?! —

Perguntou ela com uma educação incomum para alguém que geralmente atende as mesmas pessoas todos os dias. Tiago acenou e a mulher prontamente lhe entregou um formulário preenchido para assinar e um crachá de acompanhante. A enfermeira agradeceu e verificou algumas coisas no aparelho da morena rapidamente antes de sair.

O garoto olhou ao redor um pouco perdido e finalmente se aproximou de Emanuelly, só então ele percebeu que não sabia o que fazer, queria encontrá-la, queria vê-la e agora que estava ali com ela em sua frente, ele não sabia mais o que queria, ela estava ali afinal. Ambos estavam, porém ele era o único que sabia.

— Oi... O meu nome é Tiago e minha família se mudou para a cidade há alguns dias... Eu estou na sua turma- hãn... É- eu vim com a Sophie, Bruna e Lorenzo, eles se importam bastante contigo, acho que é importante você saber que tem gente esperando você acordar... Sophie e Lorenzo parecem bem agitados com a ideia... —

Era isso então, ele decidiu deixá-la saber que ele estava ali também, que ela não estava sozinha e que pessoas que gostavam dela tinham esperança em sua recuperação; Tiago puxou uma cadeira para mais perto da cama e continuou.

— Os professores também parecem sentir sua falta, você deve ser uma boa aluna. O professor Júlio contou alguns mitos gregos, por algum motivo me lembrei de você quando ele contou a do Ícaro, filho de Dédalo, sabe?!... Eu realmente não sei por que relacionei vocês dois, é estranho, não é?! Eu nem te conheço direito e... Bem... Eu gosto desse conto. —

Tiago se soltava ao falar retoricamente com a morena, não sabia se ela estava ouvindo, pois não entendia muito bem sobre coma e tudo mais, mas se sentia na obrigação de contar aquelas coisas, de compartilhar seus pensamentos sobre ela, e agora ele sabia que não iria parar de pensar nela, no acidente talvez parasse, mas nela nunca. Emanuelly Oswald se tornou seu sol e ele voaria em direção sem se importar com o mar de realidade abaixo de si.

Notas finais
Dedicações: Para minha querida beta Kell, que ficou na minha cola para escrever. (Thanks sweetie)
Para Marcia Bito e Sawada San que já se prontificaram em ler as duas fics. Força ein meninas.

Novamente obrigada pela leitura, próximo cap de Everything is going to be okay sai assim que possível.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.