I don't

1 Prólogo


Sábado, 14 de maio de 2016

2:07 p.m.

Retiro meu olhar da rua e redireciono a observação para o guarda-costas designado a mim pelo Sr. Palmer, que se mantém firme no seu posto ao lado da porta da sacristia, calado e com o olhar fixo adiante. As mãos do tamanho de raquetes de tênis estão sobrepostas diante do seu corpanzil e o armário humano não mexe nem mesmo um mísero músculo desde que chegamos aqui. Em vista desse comportamento discreto, ele facilmente poderia se misturar à mobília. Isso, caso sua presença não fosse tão imponente. Quero dizer, é praticamente impossível ignorar um homem de amplas proporções como as dele.

Ewan não parece se importar com meu escrutínio, nem sequer se abala por eu o estar encarando diretamente. Logo que fomos apresentados um ao outro, há um par de semanas, tentei, em determinadas oportunidades, travar assuntos corriqueiros com ele na esperança de não ser engolfada pelo tédio, já que na maior parte do tempo o segurança é minha única companhia. Todavia, não obtive muito sucesso. Ewan não faz o tipo simpático e falante. Ao contrário disso, me ignora sempre que pode ou lança olhares de desaprovação, como se eu não passasse de um troço repugnante pelo qual é obrigado a zelar.

Torno a fitar a paisagem. É impressionante como o céu cinzento e carregado de Londres combina adequadamente com meu humor atual. Não sei exatamente há quanto tempo me encontro parada diante dessa imponente janela de vitrais, mas estou vagamente consciente do vestido champagne com tules, rendas e seda, de um modelo de trinta anos atrás, que se molda perfeitamente às curvas do meu corpo, muito embora ele tenha sido confeccionado para o casamento da minha mãe. Também tenho consciência de que as circunstâncias de celebração desse grande dia tão importante para ela, são totalmente opostas as que me trouxeram até aqui.

Uma agitação anormal se forma no pátio da Catedral de Westminster, não porque este é um dos principais pontos turísticos da cidade. O que traz todas aquelas pessoas lá fora – fotógrafos, câmeras e grupos que erguem cartazes e gritam afoitamente – é a expectativa do início da cerimônia de matrimônio de Jason Palmer, o grande vocalista da banda pop mundialmente famosa The Feelings e, bem... eu, a garota latina não-famosa, que levava uma vida absurdamente corriqueira e cursava o quinto semestre da faculdade no Brasil.

Minha atenção é desviada para a entrada da sacristia, de onde uma esbaforida Abby acaba de despontar aos tropeços.

“Sempre tão estabanada, patinha...”

Não posso conter um riso baixo. Esta é minha irmã: desengonçada e excessivamente empolgada com as mais simples situações. Imagino como ela se sente hoje, quando está prestes a conhecer, ao vivo e a cores, todos os integrantes da banda The Feelings, da qual é fã desde o início da sua formação.

Ela me avalia dos pés à cabeça, prendendo-se nos detalhes da minha produção. Em consequência, suspira e abre um enorme sorriso aprovador. Abby está deslumbrante nesse vestido verde claro, que contrasta com sua pele morena e acentua a silhueta com belas curvas. Os olhos amendoados cintilam de excitação e os dedos inquietos cruzam-se diante do corpo, demonstrando seu nervosismo devido à estreia como madrinha de casamento.

— Marina, você é a noiva mais bonita que eu já vi! — Minha irmã caçula bate palminhas de tão animada. — Ah, mana, você tem tanta sorte! — Ela vence a distância entre nós e, ao me contornar e postar-se à minha frente, ajeita a presilha que prende o coque no alto da minha cabeça. — Já caiu a ficha que logo estará oficialmente casada com Jason Palmer? Quantas mulheres não matariam para estar em seu lugar?! Eu mesma…

A partir daí, perco o fio da meada e me desligo do seu discurso enfastioso a respeito do quanto ela me considera sortuda. Um sorriso mecânico está gravado no meu rosto à medida que eu a ouço, sem realmente assimilar suas palavras, e de tal maneira que sinto dores musculares.

Enquanto isso, por dentro, remoo pensamentos.

Meu desespero é tamanho que, nas últimas horas, cheguei a cogitar uma fuga. Felizmente, logo descartei tal abstração insana. Se optasse por esse caminho, minha família ficaria nas mãos de gente perigosa, pessoas da laia dele. Já ultrapassei minha cota de besteiras para toda vida, não deixarei meu pai e minha irmã em maus lençóis de novo.

O ocorrido com minha mãe foi um aviso do que eles são capazes de fazer.

A maioria das pessoas não sabe de nada. Pelo menos, não tem conhecimento da parte perversa dos fatos. À primeira vista, sou a noiva apaixonada de um dos homens mais desejados do mundo. Nossos parentes, amigos, fãs dele e de sua banda estão reunidos desde cedo no salão da catedral, aguardando a celebração do evento do ano. Foram gastos rios de dinheiro para este festejo, mas se eu tivesse uma única oportunidade, sairia correndo daqui com meu pai e minha irmã e ia me refugiar em algum lugar do Polo Norte.

Em contrapartida, Abby, na inocência dos seus 17 anos, pensa que essa cerimônia matrimonial é o ápice da realização de um conto de fadas.

— Poxa, Mari, você precisa demonstrar mais empolgação — ela resmunga e franze a testa como se ralhasse comigo. — Nem parece feliz com seu casamento.

— Eu estou! — garanto num tom de voz exagerado e falso. — Talvez seja por causa do nervosismo. Você sabe, toda aquela gente lá fora e essa história de morar em Londres e ficar longe de casa.

Abby revolve os olhos, impaciente.

— Ah, qual é, Mari?! Essa ladainha de novo? Apesar do clima, essa cidade é um paraíso, um outro mundo. Verá que logo estará adaptada. Tenho certeza que Jason não se importará de te esquentar durante as noites frias. — Dá uma piscadinha maliciosa e morde o lábio.

— Abby! — exclamo, horrorizada. — Desde quando ficou atrevida desse jeito?

— Desculpa, mana, mas seu marido me induz às ideias impróprias.

— Ele não é meu marido — retruco com infantilidade, querendo me agarrar a esse fato até o limite possível. Contudo, me recomponho ao perceber a desconfiança atravessar o semblante da minha irmã. — Ainda. — acrescento com bom humor.

Mesmo assim, ela não parece convencida. Segura meus ombros e crava seu olhar desconcertante em mim, aquele que de tão intenso consegue perfurar a superfície e invadir minha alma, de forma a me persuadir a despejar a verdade. Porém, não dessa vez.

— Mari, tem alguma coisa que queira me contar antes do casamento? — Sua fisionomia transborda preocupação.

Minha boca fica seca.

— Mesmo que tivesse, seria tarde demais, porque agora sou praticamente uma mulher casada, certo?

— Mas está feliz com isso? — Antes que eu possa respondê-la com mais uma mentira, Abby libera uma risadinha e beija minha testa. — Ora, o que eu estou pensando?! Claro que está feliz! Vai se casar com o homem da sua vida!

Toda sua animação costumeira retorna. Ela encontra-se em êxtase outra vez e, definitivamente, se esquece da minha hesitação. Comenta acerca da festa, da lista de músicas que ela preparou para o DJ tocar, menciona um tal cantor famoso, amigo de Jason, que fará uma apresentação especial e exclusiva para o nosso casamento. Capto apenas parte do que ela diz e aceno aleatoriamente, concordando.

Um minuto depois, cá estou eu, com lágrimas que pinicam e, a seguir, acumulam-se no canto dos meus olhos. Pisco algumas vezes e respiro fundo, tentando dissipá-las.

— Ah, que emocionante! — Abby guincha, envolve os braços em torno da minha cintura e descansa o queixo no meu ombro. — Você está tão feliz, não está? Isso é tão lindo, Mari!

Repentinamente, aperto-a de encontro ao meu peito. A princípio, minha irmã fica estagnada em decorrência da surpresa, mas rapidamente retribui o gesto carinhoso e inesperado. Normalmente, não sou dada às demonstrações de afeto. Essa é uma, dentre as típicas características da minha irmã e da nossa mãe, ou melhor, era típica de nossa mãe.

— Pode me prometer uma coisa? — sussurro no seu ouvido para que o segurança não escute a conversa.

— Claro — arfa, sufocada.

Amenizo a força do meu abraço e digo:

— Você tem que me prometer que só se casará quando estiver certa de que ama de verdade e for correspondida na mesma medida.

— Mari, o que…? — Abby tenta se desvencilhar dos meus braços, porém eu prendo-a com urgência e impeço-a de se distanciar.

— Apenas prometa e não se esqueça disso.

— Ok, eu prometo — aquiesce.

Nesse ponto, qualquer um se perguntaria por que não estou contente como minha irmã, visto que, daqui a poucas horas, subirei ao altar com uma celebridade cobiçada, tanto por seu talento nos palcos quanto na coxia, arrebatando os corações das fãs. Bom, na verdade, não existe um único motivo propriamente dito que me faça repelir nossa união, e sim muitas razões para eu desejar uma considerável distância dele.

Em primeiro lugar, Jason é o homem mais egocêntrico do qual a humanidade tem conhecimento. Em segundo lugar, nós tivemos um breve relacionamento alguns anos atrás, e adivinhem! Pois é, não terminou nada bem. Em terceiro lugar, e a razão mais relevante: ele é filho do assassino da minha mãe.