I do, i need you.
30 Aliança.
POV: PEETA MELLARK
Aproximadamente alguns minutos depois de Katniss ter saído de casa, ela retornou. Completamente silenciosa. Nos dias seguintes, tudo ficou estranho.
Ela não falava com ninguém, nem mesmo com Finnick Junior. Se trancou em nosso quarto e se movia apenas para o básico: tomar banho e comer. Sem nenhum diálogo.
Liguei para o médico e comuniquei sobre a conversa com a mãe, no que ele me informou que provavelmente ela estava dissociando a situação e pediu paciência. Tentei falar com a mãe dela para saber o conteúdo da conversa, mas ela também não falou nada. Apenas partiu para o centro da cidade alguns dias depois.
A casa de Katniss foi desocupada no mesmo dia em que Annie partiu para o distrito 4. Agora, sozinho com a versão deprimida e quieta de Katniss nessa casa enorme, novos gatilhos foram estabelecidos.
Porém, para minha grande sorte, eu tinha com o que me distrair agora. A padaria estava indo de vento em popa, e não consegui passar muito tempo amargurado pela ausência de Katniss. Apesar de doer.
Foi em um dia qualquer de domingo que eu acordei e ela não estava na cama. Eu imaginava que não estivesse porque seria o primeiro dia de sol no distrito depois de meses. Ela provavelmente estaria na floresta, e eu não tinha com o que me preocupar.
Deixei um recado anexado na geladeira, comunicando que voltava para o almoço, apesar de acreditar que ela não estivesse lá naquele horário também. Fui para a padaria e fiz o que sempre faço.
Perto do horário de almoço, voltei para casa e como esperado, Katniss não estava lá.
Não me espere para o almoço. Só retorno a noite. — Katniss.
Suspirei. Tudo bem.
Peguei uma comida congelada na geladeira e retemperei. Fiquei sentado enquanto ouvia o prato girar no microondas. Era o único som em casa.
Queria que ela falasse comigo.
Queria que ela fosse alguém mais fácil de lidar.
Queria não ficar preocupado todas as vezes que ela sai de casa, achando que ela vai fazer alguma loucura.
Queria voltar aos meus 16 anos e poder mudar o nosso destino. Não importa se só somos livres por causa dele. Custou muito caro.
Olho para o lado e vejo o sapatinho de Finnick que Annie acabou esquecendo na nossa casa.
Queria poder ter uma família. Porém o doutor já tinha explicado que a probabilidade de Katniss engravidar é baixíssima, por causa da quantidade de medicação que ela toma por dia, e por causa de mim também.
Olho para baixo e vejo meu pé mecânico. Queria poder acompanhar ela nas aventuras pela floresta sem ser um grande inferno. Sem me dar gatilho. Sem me lembrar da arena ou sem me lembrar de nada.
Claro que eu tenho a padaria e todo o resto. Mas no final do dia eu ainda sou Peeta Mellark, o menino telessequestrado no distrito 12. Um coitado.
Às vezes eu percebo as pessoas me olharem com pena, porque pareço demais com o meu pai, porque minha mãe ficaria satisfeita com o que construí, porque seria ótimo ter irmãos para compartilhar tudo isso. Mas estou sempre sozinho.
Queria que Katniss pudesse me acompanhar. Queria não ser uma bomba relógio e não viver com outra.
O microondas apita no mesmo momento em que sinto meu coração acelerar. Engulo em seco enquanto fico parado, sem conseguir me mexer, olhando para a máquina branca demais para tanta coisa sombria.
Se Katniss se matasse seria mesmo tão terrível assim? Quero dizer, eu já estou sempre sozinho. Onde ela está agora? Por que eu tenho que ser sempre o que segura a barra? Se eu me desmoronar agora, quem me segura?
Minha boca está seca e minhas mãos estão tremendo quando leva a cabeça, abaixando e me encolhendo o máximo que posso na cadeira.
Ouço o som dos gansos de Haymitch no jardim dele e uma risada irritante que eu sei que é de Effie. Como ele consegue conviver com tudo isso? Onde ele encontrou força? O que ele encontra quando está bêbado? Talvez eu precise de drogas, para além dos remédios, além do telessequestro. Algo que me leve daqui.
Me suicidar não é uma opção. O monstro em mim ama muito seu hospedeiro. Ele me quer vivo. Não tão saudável e com certeza não bem. Mas vivo.
Um. Dois. Três. Quarto. Cinco. Seis. Sete. Oito… o que vem depois do oito? Nove. Nove. Dez. Onze.
Um miado. Buttercup sentiu o cheiro de comida e está na cozinha. De olho fechado em posição fetal, não consigo vê-lo, mas imagino o gato de Prim andando ao redor da pia, procurando seu almoço.
Engulo saliva e ela dói.
Aperto minhas mãos e elas doem.
Não é uma crise ainda. Isso é diferente.
Não é uma crise. Eu estou bem.
Respiro fundo e também dói. Mas é um bom sinal, quando estou em crise, nada me dói.
Decido sentir tudo doer. Não sei quantos minutos fico dessa forma, mas minha respiração se acalma e o meu coração também. Quando estou seguro de minhas pernas, levanto e procuro o meu remédio. Fazia um tempo que não tomava esse. Ainda bem que não pedi para parar.
Depois, vou até o microondas e pego a comida. Está fria. Faço uma careta de desgosto.
"Você quer?" Pergunto a Buttercup, que mia alto. Coloco o prato na sua frente e subo para o banheiro. Nem notei que estava completamente ensopado de suor.
Tiro a perna mecanica e decido tomar banho sem absolutamente nada hoje. Sozinho e sem nada. Como eu sou quando ninguém está olhando.
Passo vários minutos sentido a água gelada no meu corpo, porque é ela que me acalma. Quando me dou por satisfeito, coloco de volta a perna e retorno para o quarto. Me seco e visto uma roupa limpa. Desço com a roupa suja e coloco dentro da maquina de lavar. Buttercup já esvaziou meu prato e está se lambendo em cima do sofá.
Saio de casa e volto para a padaria.
"Boa tarde, garoto" Haymitch entra na padaria.
"Boa tarde, quer alguma coisa?" Pergunto, sorrindo para ele. Haymitch ergue a sobrancelha para mim e eu retribuo. "Você parece ótimo. Fez as pazes com o barbeiro?" O cabelo dele está alguns centímetros mais curto. Ele dá de ombros.
"Effie disse que atrapalhava a minha visão dos meus bebês, então eu deixei ela cortar um pouco. Passei na sua casa e não tinha ninguém. Cadê a Katniss?"
"Imagino que Deus saiba, pois eu não sei." Notei que algumas pessoas ao redor começaram a prestar atenção na nossa conversa. A compreensão passou pelo rosto de Haymitch, que enfiou as mãos nos bolsos antes de concordar com a cabeça.
"Ah tá. Olha, coloca para mim uns 6 pães seus e dois cafés, por favor. Vou levar para Effie." Ele disse balançando os ombros. Concordei com a cabeça, mas um dos funcionários já estava colocando para ele, enquanto outro recebia o pagamento. "Obrigado. Te vejo depois, Peeta".
"Tchau, Haymitch."
Quando ele vai, volto para a parte de dentro da cozinha. Como hoje é domingo, não costuma ter muito movimento depois das 15h, pois a missa na igreja do distrito inicia as 17h, e quase todo mundo participa.
São 14h30 e eu estou dividindo os itens que foram feitos hoje para distribuição. Alguns vão para os funcionários, outros vão para o hospital.
Quando todos estão embalados, vou para o sistema em um computador moderno que temos, para ver as encomendas da segunda, para deixar já organizado.
"Chefe, o salão está vazio, a gente pode ir guardando as coisas?" Uma funcionária que deve ter aproximadamente 17 anos me pergunta. Afirmo que sim com a cabeça e ela sai.
Quando todas as encomendas estão organizadas para o dia seguinte, alinho as folgas da semana — meus funcionários trabalham dia sim e dois dias não — para saber com quem vou poder contar, e deixo no mural.
Volto para o salão e está tudo limpo e organizado, são 15h40 e as portas estão fechadas, alguns já trocaram de roupa. Distribuem entre si suas partes, me despeço deles e vou com o carrinho até o hospital.
Deixo com Delly todos os itens. Ela nota algo estranho em mim, mas nada comenta.
"Você vai a missa hoje?" Ela me pergunta pelo milionésimo domingo desde que a igreja foi aberta. Apenas reviro os olhos. Ela suspira. "Acho que faria bem a você, de verdade."
"Fico feliz que faça bem a você, minha amiga. Mas não é meu lugar. Mesmo assim, mande um abraço para o padre por mim." Eu sequer sei quem é o padre.
Volto para a padaria e todos já se foram. Termino de limpar o que sobra, limpo o caixa e levo para a parte de contabilidade.
Passo horas lá, organizando os pagamentos da semana seguinte, as entregas e os materiais que sempre recebemos na segunda. É o meu dia favorito porque não consigo pensar em nada.
Quando dou por mim, já são quase 18h30. Me levanto e volto para casa. Está tudo escuro.
Ótimo. Katniss não chegou.
Abro a porta e quase caio para trás. Surpreendido pelo mais inesperado momento, não consigo evitar minha boca de ficar escancarada.
No meio da minha sala de estar, algumas velas estão espalhadas estrategicamente, além de algumas flores que eu deveria ter sentido o cheiro antes, se tivesse prestando atenção. Katniss está sentada em cima de uma toalha vermelha, segurando duas taças e um vinho que eu sei que estava na minha adega a anos, antes mesmo de eu sonhar em morar nesse lugar.
Katniss veste um vestido de alcinhas branco com flores laranja, e está corada, parecendo constrangida pelo momento. Servido em cima da mesa, está um coelho muito bem assado e parecendo apetitoso, e um esquilo. Além de várias frutas e uma torta de amoras.
"Bem vindo de volta ao lar, querido" ela me fala como se aquele fosse um dia comum. Meu coração acelera em emoção e sinto que meus olhos estão cheio de lágrimas.
Ela tinha preparado tudo aquilo para mim. Ela não passou o dia me evitando, passou o dia preparando algo especial para nós dois.
"Eu que fiz a torta, não sei se está tão gostosa quanto a sua, mas é a única receita que eu sei. E o vinho eu peguei na sua adega, o Haymitch disse que era muito bom... você pode ir tomando banho enquanto eu... esquento a comida e... Eu fiz purê de batata também, com queijo gratinado. Está no forno..." Ela começou a falar rapidamente, ficando em pé. Notei que a minha falta de reação fez ela ficar receosa, então abri um sorriso.
"Você fez tudo isso pra gente? Katniss!" Me aproximei, de braços abertos. Aninhei minha amada em meus braços, sentindo uma emoção diferente me invadir.
"Fiz." Ela falou baixinho. Eu me inclinei e encostei meus lábios nos dela.
"Tomo banho e volto em 10 minutos. Me espere."
"Eu estou esperando." Ela riu, revirando os olhos.
Se eu pudesse correr eu teria corrido para tomar banho, mas fiz o que pude. Tomei um banho rápido e quando desci, Katniss já tinha trazido o purê para a toalha.
Me sentei junto a ela, quase saltitando.
"Primeiramente, eu quero pedir desculpa pelos últimos dias."
"Já está desculpada." Eu disse, dando de ombros. Ela balançou a cabeça, sorrindo.
"Não Peeta, você não pode me perdoar sempre sem sequer ouvir meu pedido de desculpas. O que eu fiz foi errado e eu merecia mesmo era que você nem olhasse para a minha cara. Mas fico feliz que você não faça isso."
"Nunca mais olhar para sua cara seria mais doloroso para mim do que para você. Não faz sentido nos torturar mais do que já fizeram. Está tudo bem."
"Preciso que você me prometa que, se eu sumir de novo, você vai me resgatar."
"Achei que você não quisesse ser salva. Parece que eu também preciso me desculpar." Senti meu rosto ficando vermelho. Ela negou rapidamente com a cabeça.
"Não se desculpe. Eu passei dias fingindo que você não existia."
"Mas hoje fez esse jantar incrível. Está tudo bem."
"Você faz jantares incríveis sempre."
"Não é uma competição."
"Eu perderia todas as competições com você porque você é incrível em absolutamente tudo que faz, Peeta." Ela disse e eu parei.
Não era comum ouvir Katniss se declarar. Não era comum Katniss cozinhar. Não era comum ela ser romântica. Tinha alguma coisa errada. Engoli em seco, olhando ao redor, procurando algum sinal de que isso era um sonho.
"O que aconteceu?"
"Nada."
"Isso é real?" Eu perguntei. Depois de muitos meses, eu perguntei novamente.
Olhei nos olhos de Katniss no mesmo momento em que ela abriu um sorriso para mim, que nada tinha a ver com o demônio. Meu coração se aqueceu.
"Sim. Isso é real."
"E não tem nada de errado?"
"Na verdade tem."
Katniss se virou e pegou um pacote atrás dela e me estendeu, suas mãos tremiam. Fiquei nervoso.
"O que?"
"Abre."
Abri com as mãos igualmente tremendo, bem se aquilo fosse um sonho que ia se tornar pesadelo, eu ia morrer agora.
Mas dentro do pacote havia uma caixinha, e dentro da caixinha dois anéis de prata brilhavam. Olhei para a caixa e depois para Katniss, incrédulo.
"Você quer casar comigo?"
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