“Amor, você não vem deitar?”

“Já estou indo.“

Era tarde e já ia amanhecer, mas fui pega por um momento de nostalgia e simplesmente não conseguia dormir. Estava encarando a janela, mas não olhava para nada especifico. Apenas observava a escuridão ir embora e a luz alaranjada tomar seu lugar enquanto minha mente viajava há alguns meses atrás.

Minha vida havia mudado drasticamente em muito pouco tempo. Em uma hora eu estava morando com alguém e certa de que era a pessoa com quem iria me casar, na outra, estava completamente apaixonada por alguém que nunca me daria bola. Tá, eu sei que como eu estava em um relacionamento, não poderia nem cogitar a ideia de sair com outra pessoa, mas simplesmente não pude controlar aquele sentimento, ele era mais forte do que eu. Se não fosse àquela hora extra... Minha vida não teria dado essa reviravolta.

“Preciso desse roteiro pronto até amanhã de manhã. Eu sei que esta tarde e seu turno já terminou, mas eu realmente preciso gravar isto até amanhã à noite. Pagarei a mais por isso.”

“Argh, assim espero.”

Droga! Vou perder aula de novo, mas fazer o quê? Ele é meu chefe, por mais folgado que possa ser.

Fechei todas as janelas abertas de internet e todas as coisas que poderiam me atrapalhar. Ia desligar o celular também, mas antes, quis enviar uma mensagem para o Guilherme. Ele já havia saído à duas horas e provavelmente já estava em casa enfiado no sofá, jogando videogame com o Thor e o Loki encima dele.

Amor,

Vou me atrasar. Tive de ficar aqui para terminar uns roteiros e vou desligar o celular para que nada me atrapalhe.

Desculpe, quando chegar eu te recompenso de alguma forma. Cuide bem do Ricardo enquanto eu estiver fora, viu?

Beijos, amo você.

A resposta dele veio dez segundos depois:

Tudo bem, mas só porque sou um cara muito legal.

Ok, ele vai chegar daqui a pouco. Queria que estivesse aqui comigo para recebê-lo, mas acho que vou aprontar uma com ele ao invés disso.

Boa sorte amor e se perceber que vai terminar muito tarde, deixe isso aí e venha para casa, Felipe que se dane. É muito perigoso ficar andando por aí muito tarde.

Eu te amo e já estou com saudades, Thor e o Loki também.

Beijos minha princesa.

Meus lábios formaram um sorriso que não pude conter. Desliguei o celular e o coloquei na mesa ao lado do computador.

O ruim de trabalhar em hora extra é que normalmente só fica você e o porteiro que não oferece muita ajuda, psicologicamente e fisicamente, no prédio todo. Por mais introvertida que eu pudesse ser, não me agradava nem um pouco passar mais de quatro horas em um edifício completamente abandonado no meio da noite com a alma viva mais próxima à 100 metros e dois andares abaixo, tirando um belo e invejado cochilo.

Coloquei em uma playlist randômica de musica no computador para quebrar o silêncio ensurdecedor que me oprimia.

Passada uma hora ouvindo musicas disco e trabalhando feito uma condenada, ouvi passos vindos do corredor. Me arrepiei inteira e aparentemente, perdi completamente a habilidade de me mover.

Minha pele ficou mais pálida do que já era, o que me fez pensar por um momento que iria desaparecer devido a falta de pigmentação no meu corpo. Os passos foram ficando mais próximos e comecei a pensar que era meu fim. Imaginei os piores tipos de monstros e mortes possíveis. Foi então que ouvi uma voz familiar.

“Oi Satty! O que está fazendo aqui? Você está bem?? Parece que viu um fantasma!”

Era a Malena. Acho que nunca me senti tão aliviada na vida.

“O-oi M-Malena – suspirei em alivio – Não tem noção da felicidade que estou sentindo por ser você!”

“Han? O que quer dizer com isso? Achou que eu fosse algum fantasma e iria comer sua alma?” Falou ironicamente.

“Na verdade, foi exatamente isso o que pensei.”

“HAHAHA Relaxa, única coisa que como de pessoas é... Na verdade, nada haha. Mas, o que está fazendo aqui? Já está bem tarde.”

“Eu te pergunto o mesmo! Tenho de terminar uns roteiros para amanhã. Felipe Neto sabe como ser um chefe mandão às vezes.”

“Shi, ele atacou novamente? Haha. Estava fazendo o mesmo que você, só que lá no andar de baixo. Tinha de terminar umas edições urgentes.”

“E eu achando que era a Cavaleira solitária da Paramaker haha”

“Ah, você pode ser uma Cavaleira solitária com uma ajudante.”

“Mas aí não seria mais solitária, não acha?”

“Ah, isso são detalhes haha.”

“Hahaha. E então, imagino que esteja indo embora.”

“Eu estava mesmo, mas não posso te deixar aqui sozinha. Além do mais, se eu te ajudar você termina mais rápido.”

“Você não precisa fazer isso por mim. Você deve estar cansada e já já eu acabo. Só faltam mais... quatro roteiros.”

“Deixa de ser boba, ficar com você aqui durante esta linda noite seria um privilégio. “

“Ah, mesmo assim não acho certo.”

“Relaxa, então, sobre o que está fazendo agora?”

“Obrigada então. Esse é para o Plantão TGS dessa semana que vai ser gravado amanhã. Por isso tenho de correr para terminá-lo.”

“Mas não deveriam ser as pessoas da TGS que teriam de fazer isso? Tipo o seu namorado? Haha”

“Sim, deveriam, mas o Gui anda muito ocupado ultimamente, então resolvi ajudar ele.”

“Como se você não estivesse ocupada... Mas ok, o que tenho de fazer?”

“Ah, você pode escrever algo sobre esse jogo e...”

Malena e eu começamos a trabalhar juntas e logo chegamos ao ultimo roteiro.

“ALELUIA! Esse é o ultimo.”

“Viu? Falei que iríamos mais rápido se fizéssemos juntas.”

“Obrigada. Sem você, eu ainda estaria no terceiro.”

“Não tem de quê. Agora, vamos terminar logo isso para irmos embora.”

Logo após ela terminar aquela frase, a luz apagou no prédio inteiro.

“Ah, se tá de zoera! Me fala que é zoera, PELO AMOR DE DEUS!”

“Você salvou os outros roteiros?”

“Salvei, ainda bem! Acho que vou usar o notebook do Snaizen para terminar o ultimo roteiro e me envio ele por e-mail usando meu celular como roteador wi-fi;.”

“Boa ideia. Mas temos de ser rápidas, antes que a bateria acabe.”

“Mas e quanto a escuridão?” Perguntei

“Vamos procurar a caixa de força. Mas antes, temos de achar umas lanternas.”

“Acho que na mesa do Pit tem uma.”

Caminhamos até a mesa dele usando o celular como fonte provisória de luz. Quando abrimos as gavetas, encontramos uma daquelas luzes de emergência.

“Caramba, não acredito que ele guardava um troço desses!” Exclamou ela.

“Ele é do tipo medroso. Depois de jogar Slender, ele pegou trauma de escuro e carrega essas lanternas por tudo quanto é canto.”

“Graças a Deus pelas loucuras dele então.”

“Vamos, temos de procurar a caixa de força.”

Caminhamos pelo prédio inteiro atrás da bendita caixa de força, mas não conseguimos achar.

“Por que não chamamos o porteiro? Afinal, esse é o trabalho dele.”

“Tem razão, vamos tentar. Mas não acho que ele vá querer impedir o sono dele só porque acabou a luz no prédio sendo que só há nós duas nele.”

Descemos até a portaria e tentamos acordá-lo, mas nada de uma resposta.

“Cretino!” Xingou ela.

“Deixa, vamos voltar lá para cima. Ou você quer ir embora?”

“O que você vai fazer?”

“Tenho de terminar o roteiro...”

“Então eu fico.”

“Por que está fazendo todo esse esforço por mim?”

“Porque... Não quero que algo ruim aconteça a você.”

Ela me pareceu um pouco envergonhada, mas acho que era impressão.

“Ah... obrigada por sua preocupação comigo.”

“Vamos, temos de subir logo.”

Voltamos lá para cima e pegamos o notebook do Snaizen. Por sorte, a senha dele era óbvia o suficiente para até uma idosa de noventa anos acertar.

“Como sabe a senha dele?” Perguntou ela enquanto eu a digitava.

“Ele ama Splinter Cell. A senha dele só poderia ser essa.”

“Bem estupida, por sinal.”

“Haha, é o Snaizen, o que você esperava? haha. Hey, vamos sentar ali? — Disse apontando para o canto da sala — eu gosto de sentar no chão.”

“É claro.”

Andamos até o canto direito da sala, onde as duas paredes se encontravam e nos sentamos. Uma hora se passou até que finalmente terminamos. Olhei para o horário no meu celular, eram 01:30.

“Caraca, olha o horário!” Disse.

“Ah, pelo menos terminamos. Vamos embora?”

“Deixa só eu enviar o e-mail para o Felipe e vamos. Mas se você quiser indo, não tem problema. Você já ficou até agora aqui comigo.”

“Não — Malena começou a balançar a perna frenéticamente -, sério, depois de todo esse tempo aqui, acha que simplesmente vou embora?”

“Imaginei que diria isso, haha. Pronto — disse abaixando a tela do notebook -, podemos ir.”

Comecei a me levantar, mas Malena segurou meu braço e me puxou para baixo.

“Mas o q-” Comecei a falar, mas minha fala foi impedida quando Malena segurou meu maxilar com sua mão direita e me deu um beijo gentil.

Arregalei os olhos por um instante, mas depois me deixei levar. O beijo não durou mais que dez segundos, mas foi o bastante para me fazer perder os sentidos por um momento.

“Me desculpe. — Disse ela se afastando de mim e levantando em seguida. — Acho melhor eu ir andando. Desculpe por isso, de verdade. Até mais.”

“Malena, espera!!” Disse em uma tentativa falha de para-la, mas ela já estava longe.

Andava rápido, estava quase correndo. Em instantes já estava no elevador. Me lançou um ultimo olhar assustado e então a porta se fechou.

O que acabara de acontecer? A Malena… Ela gosta de mim? Porque estou sorrindo? Meu Deus! E porque eu correspondi o beijo? Será que gosto dela ou foi só a adrenalina do momento? Meu Deus!!!

Notas finais
Não é a melhor história do mundo, mas, só quis contar um pouco das bobagens que circulam pela minha mente =D
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.