I am the monster
1 Todos temos segredos, meu querido.
Notas iniciais
Deve ser algo horrível ser a “excluída” do grupo, da turma, da escola, da cidade, excluída da sua própria vida... Deve ser realmente, realmente horrível ser coadjuvante da sua própria vida, não? Pois é, essa sou eu.
Mas... Imagina só ser essa pessoa “excluída” no século XV?(15). Acho eu, que deve ser 1000 vezes pior.
É o que eu vivo. Em meados do ano 1401, no início do século XV, eu sou aquele tipo de garota que você não quer por perto. Aquele tipo de garota que você sinceramente não iria querer que sentasse com você no almoço; não iria querer que falasse com você, que olhasse pra você, que respirasse perto de você. Eu era, ou melhor, eu sou, aquele tipo de garota.
Por que eu não tenho uma fala rebuscada? Você vai entender. Eu me lembro muito bem do meu primeiro dia de aula.
— Esse colégio parece estranho. — Disse a mim mesma. — Quem iria querer estudar aqui? — Me perguntei.
Eu parei na frente da enorme construção de madeira e olhei para o céu. Vai chover. Pensei. De repente meus pensamentos são interrompidos por um empurrão. Como eu irei ouvi-los chegando? Levantei-me e dei de cara com uma garota. Cabelos loiros, clássico.
— Hum... Então é você a aluna nova? Foi isso mesmo que eu ouvi? — Ela disse com um sorriso maldoso.
Não respondi, não sei bem o que aconteceu comigo, eu parei. Congelei no lugar onde estava. Fiquei apenas olhando fixamente para aqueles grandes olhos verdes e aquele longo vestido também verde, clássica vestimenta da época, certamente.
— Estou esperando uma resposta! — Ela gritou cerrando os dentes.
Um pouco de raiva alcançou minha cabeça.
— Eu gostaria de saber quem é você para agir e falar assim comigo? — Pergunto extremamente irritada.
— Oh! Então a monstrinha fala! — Seus amigos riram.
Mas que engraçado, realmente isso é hilário. Ironizei em minha cabeça.
— Para o seu conhecimento, eu sou a Joana, como você não me conhece eu presumo que seja nova. Só... Fique longe de mim, está bem? Não vai ser bom para minha reputação ser vista com uma bastarda qualquer.
Como eu vou deixar uma babaca falar assim comigo?!
— Escuta aqui, senhorita! Eu não sou nenhuma bastarda, para começar! Agora que eu sei quem você é, e realmente não gostei de saber, vamos ter uma conversa séria. Você não pode falar nesse tom e com essas palavras comigo! — Disse olhando fixamente dentro, bem no fundo dos seus olhos.
Eu, naquele momento, por mais idiotas que fossem minhas palavras, estava passando a sensação de medo. Eu comecei a sentir medo de mim mesma. Não importa o que eu falava, minhas palavras ficavam cada vez mais assustadoras. Com ameaças e coisas que nem eu mesma soube identificar. O que estava acontecendo? Minha mente estava se tornando escura, achei que, por um momento, estivesse perdendo minha sanidade. Não sei bem o que falei para ela, mas sei que ela saiu correndo.
Caí no chão, tonta e com fortes dores na cabeça. Acabei sentada na calçada tentando respirar regularmente.
Sim... Esse dia não foi o melhor da minha vida. Mas, é o que dizem, não é? As memórias ruins são as que prevalecem. Bem, se aquela garota parou de me perturbar? Não, claro que não.
Sim, isso vai ser cheio de memórias.
Eu entrei no grande salão para comer. O prédio de madeira velho e gasto, rangia ao soar dos meus passos. Olhei pela janela e vi a chuva escorrendo pelos antigos vitrais. Aquilo era bonito... Não são só os humanos que choram. Eu procurei algum lugar para sentar. Olhei ao redor e não vi sequer uma cadeira livre. Não sei se realmente estava cheio ou se foi apenas minha mente tentando fazer com que eu me sentisse pior do que já estava.
Eu passei por entre as mesas, escutando pedaços de conversas, algumas palavras aleatórias, até que ouvi algo que me interessava.
— Aquela garota só pode ser completamente maluca. — Ouvi alguém dizer — Qual o problema dela? Por que disse aquelas coisas? Eu nem fui tão pesada com ela. Mas bem que poderia ter sido. Talvez eu faça uma ótima recepção. Para mostrar o quão gratos somos por tê-la em nosso colégio. Por que claro, gostamos muito dela. — Eles riram.
Por que são hipnotizados por ela? O que ela tem? Só é uma babaca.
Eu corri dali e acabei sentando no chão em um dos cantos do galpão. Aliás, nada confortável. Novamente senti aquela sensação de insuficiência. Minha respiração ficou ofegante, meu coração acelerou e eu comecei a delirar.
Olhei para o teto. Sombras e criaturas começaram a se formar diante dos meus olhos. Tentei manter minha sanidade dessa vez. Não podia me passar por louca novamente. Aquelas sombras dançavam sobre meus olhos. Rostos e formas acabavam saindo de toda aquela loucura. Não eram apenas demônios, era mais do que isso. Era algo que... Que me deixava completamente louca. Eu tentei, tentei lutar contra a escuridão, mas cada vez mais ela lutava para se tornar parte de mim.
— Eu só espero... — Minha respiração ficou cada vez pior. — Que eu seja forte.
Sobre essas criaturas, as coisas que eu vejo nos meus ataques de loucura, é algo que eu tenho faz algum tempo. Como eu não tenho ninguém, fica cada vez mais difícil me estabilizar. Eu tenho medo que algum dia eu não... Eu não consiga mais retornar ao meu estado mental. Tenho medo de ficar presa para sempre nessa eterna escuridão.
Será que as pessoas gostariam disso? Será que elas se sentiriam mais seguras se soubessem que eu fui para uma ala psiquiátrica?
Procuro não pensar nisso, manter minha mente afastada. Aquela Joana não parava de me incomodar. Todos os dias ela me matava cada vez mais por dentro. Talvez eu devesse sair daquela escola, mas alguma coisa me disse para ficar, enfrentá-la e não fugir.
Hoje em dia eu tento. Houve uma vez, uma certa vez, que ela fez algum imperdoável. Acho que foi mais ou menos aí que eu perdi minha sanidade.
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