I am still yours
1 I am still yours
Ela havia implorado para que ele não fosse embora.
Ela disse que eles encontrariam uma forma de derrotar Makishima Shogo, juntos, mas Kogami não lhe deu ouvidos. Não que ele não tenha levado minhas palavras em consideração. Ele só...
Quando Kogami decidiu que seria daquela maneira, Tsunemori percebeu que não poderia fazer mais nada. A decisão estava tomada e seus esforços provavelmente seriam em vão. Dessa forma, sua única escolha foi ajudar.
Ela fez o possível para ajudar Kogami com o plano, mesmo com uma sensação incômoda no peito.
Romance não era proibido naquele tipo de emprego, mas sempre seria melhor ser evitado. Ainda mais quando você sabe que está apaixonada por um Justiceiro.
Quando ir para o trabalho deixou de ser mais uma obrigação, quando o desejo de se encontrar com Kogami se tornou frequente e ele era tudo o que se passava em sua mente antes de dormir, Tsunemori ficou realmente amedrontada. Quer dizer, eu sabia que várias pessoas mantinham um relacionamento, incluindo a Shion com a Yayoi, mas era simplesmente inimaginável me ver com o Kogami.
Embora todos os sinais estivessem lá, Tsunemori aceitou que a melhor coisa seria ignorar aqueles sentimentos. Sim. Todos os sinais estavam lá. Ele me protegia quando não era obrigação dele. Ele me ensinava coisas que nunca ensinou a ninguém e deixava claro que a minha presença o agradava. Ele confiou em mim ao dizer que faria de tudo para derrotar Makishima Shogo.
Quando o plano começou a ser executado, o arrependimento a atingiu em cheio. Tsunemori entendeu que depois que tudo estivesse acabado, ela jamais veria Kogami novamente. O Sistema Sibyl colocaria uma recomensa para quem capturasse o rapaz e ele seria condenado à morte se fosse preso. Estava acabado.
"...mori."
A caneta rolava entre seus dedos enquanto seus olhos continuavam fixos na tela do computador.
"...emori."
Mordendo o lábio inferior, Tsunemori respirou fundo. Quase dois anos. Faz quase dois anos que ele sumiu.
"Tsunemori!"
A voz e a mão que a balançou fez com que o pulo da cadeira fosse inevitável. Um breve grito deixou sua garganta e sua mão foi diretamente para a Dominator em sua cintura.
"Calma, calma!" A mão de alguém segurou seu pulso, impedindo-a de sacar a arma. "Desculpe por falar alto. É que você não estava me ouvindo."
Piscando algumas vezes, a Inspetora relaxou o braço, soltando a Dominator e correspondendo o aperto da mão que a impedia de se mover.
"Ginoza-san..." Seus olhos se encontraram e ela sorriu brevemente. "Por que está tão escuro? Onde o pessoal está?"
"Tsunemori, já passou das duas da manhã. Todo mundo foi para casa." Ginoza soltou a mão da Inspetora lentamente, voltando a ficar em pé corretamente.
"Duas da manhã?! Por que não me avisaram que estavam indo embora? Por que você não foi também, Ginoza-san?" Tsunemori olhou para o relógio no computador e se levantou logo em seguida, ficando de frente para o Justiceiro.
"Eles avisaram que estavam indo, Tsunemori, mas você não ouviu. Eu disse para eles que ficaria aqui até você terminar o que estava fazendo. Pareceu ser importante, então resolvemos não atrapalhar." Ginoza passou a mão pelo cabelo e olhou em volta. "Eu só te chamei agora porque faz tempo que você estava olhando para o computador. Pensei que estava em duvida em algo."
"Ah... Não. Não, obrigada Ginoza-san, mas eu estou bem." Tsunemori sentiu seu rosto aquecer. "Sinto muito por fazer você ficar aqui até agora. Eu estava só... Pensando."
O Justiceiro se aproximou um pouco mais da tela do computador e leu as teorias e relações que haviam sido coletadas por Tsunemori. Seus olhos agiam com velocidade enquanto sua mão direita apertava seu ombro esquerdo. Ele não merecia. O Ginoza-san não merecia ser um Justiceiro. Ele deveria continuar como Inspertor.
"Você tem coisas interessantes aqui. O problema, realmente, é conseguir juntar todas as nossas opções e informações para chegar a um ponto em comum." Ginoza usou o cursor do computador para salvar os arquivos e desligar o aparelho. "Mas faça isso amanhã. Você precisa descansar."
"Obrigada, Ginoza-san." As palavras saíram sem serem pensadas. Seus lábios se moveram sem sua permissão e Tsunemori sabia que as intenções por trás daquele agradecimento estavam óbvias. "Q-quer dizer..."
O homem de cabelos negros abaixou o olhar, encarando o chão. Sua atenção logo se desviou para o seu relógio de pulso e ele finalmente suspirou, encarando sua Inspetora. Por favor... Não agora.
"Então... Daqui a algumas horas será um ano completamente novo." O Justiceiro deixou que um sorriso triste se espalhasse por seus lábios. "Estaremos mais perto de completar dois anos sem ele."
Tsunemori suspirou. Seus olhos também foram de encontro ao chão e permaneceram assim. Ele também perdeu muito. Não foi totalmente culpa do Kogami, mas o Coeficiente Criminal do Ginoza-san também piorou um pouco porque ele estava preocupado com o amigo. Nenhum de nós queria que isso tivesse acontecido.
"Ginoza-san, eu..."
"Eu não me arrependo." Ele a impediu de continuar a falar, deixando claro o que pensava. "Eu não me arrependo de ter me tornado um Justiceiro. Agora eu entendo o que o Kogami dizia. Sobre o Sistema Sibyl e todas as outras coisas. Eu estava cego pelo poder e o julguei de uma forma que não deveria."
"Todos nós o julgamos como não deveríamos."
"Pelo menos, depois de tudo, eu ainda posso ajudá-lo no que ele realmente quer."
Seus olhares se encontraram e Tsunemori prendeu a respiração.
"Ajudá-lo..."
"Antes de ir se encontrar com Makishima, ele e eu conversamos. Na verdade, ele falou e eu ouvi. Ele sabia no que estava se metendo e sabia que não voltaria para casa no fim do dia. Entretanto, havia uma coisa que ele não poderia deixar para trás se não estivesse segura."
Com a mente trabalhando a mil por hora, a Inspetora fazia um mapa mental, reunindo todos os fragmentos de memórias que tinha com Kogami. Algo que ele não poderia deixar se não estivesse seguro. O que seria isso? Por que ele não me contou?
"Não pense que ele não te contou porque não confiava em você." A voz de Ginoza a trouxe de volta à realidade. "Ele não te contou porque era um Justiceiro e sabia que relacionamentos entre Justiceiros e Inspetores são proibidos. Ele sabia que você, Tsunemori, estaria em risco."
"Ginoza-san, eu-"
"Eu não deveria estar te contando isso, sabe? Ele me pediu para cuidar de você em segredo. 'Por favor, cuide dela. Eu sei que é um pedido egoísta, mas você é o único em quem confio.' foram suas exatas palavras." Coçando o cabelo, Ginoza deu um passo para o lado, puxando a cadeira e voltando a se sentar. "Mas, mesmo que ele não me pedisse, eu o teria feito. Eu não estou cuidando de você por obrigação. Estou cuidando porque quero."
A sala voltou para o silêncio de antes. Apenas as luzes do corredor estavam acesas, e Tsunemori agradeceu mentalmente por isso. Assim é mais difícil de ver minha expressão.
"Quando eu te vi pela primeira vez, sabia que seu potencial como Inspetora era enorme. Seu desenvolvimento com o passar do tempo me surpreendeu e hoje eu me sinto honrado em ser Justiceiro de uma Inspetora como você. Não apenas Justiceiro, mas amigo." Mesmo na escuridão, Tsunemori jurou ter visto um meio sorriso. "Ou pelo menos é o que você deixa parecer."
"É claro que você é meu amigo!" Sua voz ecoou pelo local vazio enquanto sua mão se fechava com força. "Eu não sabia de nada disso. Sobre o que você passou, sobre o pedido dele... Eu não sabia. E, mesmo assim, eu mantive o egoísmo de achar que só eu estava sofrendo por ele. Que só eu o conhecia de verdade. Eu sinto muito, Ginoza-san..."
"Não se desculpe. Uma Inspetora jamais deve se curvar perante um Justiceiro."
"Quando estamos sozinhos, eu nunca estarei acima de você." Seus olhos estavam determinados e Tsunemori não ousou se mover.
"Nós nunca estamos sozinhos. Você sabe disso, Inspetora."
Ambos os olhares se voltaram para as câmeras de segurança, que piscavam ritmadamente. Nunca estamos sozinhos, não é, Sistema Sibyl?
"Tsunemori."
"Sim?"
"Eu a acompanharei até em casa. Você precisa descansar." Ginoza voltou a ficar em pé, ajeitando a gravata e o terno.
Passando os olhos pela sala de trabalho, Tsunemori suspirou mais uma vez. Seu coração estava apertado e sua garganta parecia estar presa. Eu queria falar tantas coisas, mas sei que não sou digna de dizer nada disso.
"Sim. Vamos para casa."
x
A noite se passou mais lenta do que o necessário.
Seus olhos não se fecharam em momento algum e Tsunemori só desistiu de dormir quando o relógio marcou quatro e meia da manhã.
Seus pés tocaram o chão e ela caminhou lentamente até a escrivaninha, puxando a cadeira e abrindo o laptop. O frio da noite a obrigou a projetar um casaco sobre si, tentando deixar aquele momento mais confortável.
"Akane-san, é necessário descansar para que sua saúde permaneça bem e para que seu Coeficiente Criminal permaneça azul." A projeção de água viva apareceu ao seu lado, falando baixo para que ela não se assustasse.
"Eu estou bem. É para o trabalho. Eu gostaria de uma xícara de café. E, se possível, deixe o ambiente com um leve cheiro de cigarro." Ignorando o rubor em suas bochechas, Tsunemori deixou que seus dedos começassem a trabalhar com velocidade, procurando novos arquivos e projetos que revelassem o criminoso daquela investigação.
"Entendido. Sua xícara de café ficará pronta em poucos minutos e o odor do ambiente será mudado aos poucos, por favor, aguarde."
Os arquivos que estavam disponíveis eram os mesmos da Secretaria de Segurança. Tem algo errado. Como um civil qualquer teria acesso aos mesmos arquivos que a Secretaria? Talvez eu já esteja logada. Com pouco mais de quatro cliques, o computador apitou, avisando que o acesso não era permitido sem que o login estivesse conectado. Então eu não estou logada. O que é isso...?
Colocando sua senha nos arquivos do sistema, Tsunemori tentou fazer sua pesquisa afundar mais ainda. Sem êxito. O Sistema está me bloqueando. Ele só está liberando arquivos que não contém muitas informações. Por isso um civil qualquer pode acessar. Não há assunto confidencial nisso. Por que eu não posso acessar informações maiores, Sistema Sibyl? Kogami, como você lidaria com isso?!
"Akane-san, houve uma alteração de 0,001% no seu Coeficiente Criminal." O aviso veio de seu holograma pessoal, assustando-a levemente.
"Não é necessário relatar uma alteração tão pequena." Um suspiro cruzou seus lábios enquanto sua mão alcançava a xícara de café que estava ao seu lado. Eu não vi a xícara aqui.
Assim que o líquido tocou seus lábios, Tsunemori precisou se obrigar a não cuspi-lo.
"Está frio. Por que está frio?"
"O café está aí há três horas, Akane-san."
"O que? Mas eu acabei de..." Seus olhos foram pra o relógio do laptop, constatando que o dia já havia amanhecido. Já são sete e meia e eu não percebi.
Só então, olhando para os arquivos abertos, Tsunemori percebera o quanto trabalhara durante a madrugada. Se eu estiver com olheiras no trabalho, as perguntas não vão parar.
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"Bom dia, Inspetora."
"Bom dia, Yayoi-san." Passando a mão pelo cabelo e caminhando até seu computador pessoal. "Onde estão os outros?"
"Houve um chamado, um pouco antes de você chegar. Ginoza pediu para avisar que mexeu no seu computador para alterar algumas informações incorretas e que discutiria sobre isso mais tarde." Os olhos de Yayoi permaneceram fixos no trabalho o tempo todo, sem deixar transparecer nada mais do que competência profissional.
"Entendido. Muito obrigada."
A resposta não veio e isso fez Tsunemori sorrir antes de ligar a tela do aparelho. Havia um ícone piscando e a Inspetora não hesitou em clicar nele, para descobrir o que estava acontecendo.
"Hoje, todos os Justiceiros e Inspetores serão liberados mais cedo.
Permaneça aqui com a desculpa de que
vai trabalhar. -Ginoza"
A mensagem foi lida mais duas vezes antes que a realização a atingisse em cheio. É claro que seremos liberados mais cedo. É véspera de ano novo.
Em silêncio, Tsunemori voltou a trabalhar, fazendo pesquisas nos arquivos do Sistema Sibyl que poderiam comprometer seu cargo. 'Não seja como eu. Não se apresse. Sua capacidade está acima disso.'
A voz de Kogami preencheu sua mente e um arrepio percorreu sua espinha. Por que eu não posso ser como você? Por que eu não consigo?
'Porque eu não gostaria de vê-la como Justiceira.'
A resposta veio logo em seguida, acompanhada pelo cheiro de cigarro. Tsunemori fechou os olhos, apoiando a testa em ambas as mãos e suspirando. Sua mente costumava fazer isso. Travar diálogos com Kogami, mesmo sabendo que não era realmente ele. Eu só estou conversando comigo mesma, pensando nele. Isso é ridículo.
Com o passar das horas, todos os integrantes da Divisão Um retornaram para a Secretaria.
O assunto voltou para o atual caso que estava sendo investigado, sobre um homem sem memórias cujo Coeficiente Criminal permanecia extremamente alto. Não tem como uma pessoa sem memórias ter o Coeficiente tão alto.
Várias ideias foram compartilhadas, mas nenhuma ajudou, realmente, no caso. Eles sentiam como se estivessem andando em círculos e o caso só foi deixado de lado — temporariamente — quando a campainha de anúncios tocou, informando que os trabalhadores que não estavam escalados para o plantão poderiam voltar para casa.
Passando a mão pelo pescoço e constatando que era pouco mais que oito da noite, Tsunemori precisou segurar para não rir. Esse é o 'liberar mais cedo' deles? Estão nos liberando quatro horas mais cedo.
"Bom descanso pessoal, Feliz Ano Novo." Sabendo que não havia como argumentar contra aquilo, a Inspetora apenas sorriu e desejou o melhor para todos. "Eu vou ficar aqui mais um pouco."
Sem suspeitar de nada, todos eles se retiraram, com exceção de Ginoza. O Justiceiro permaneceu sentado, digitando freneticamente e olhando para a tela do computador como se tentasse absorver algo.
"Ginoza-san...?"
"Só um momento." Seus dedos pararam de se mover e ele leu algo mais uma vez antes de desligar o computador. "Pronto. Podemos ir?"
"Para onde estamos indo? Isso é sobre o caso?" Colocando o casaco marrom que estava pendurado em sua cadeira, Tsunemori começou a seguir Ginoza para fora da Secretaria.
"Não, mas também não quero falar sobre isso."
Seus olhos fixaram-se brevemente em uma das câmeras de segurança e isso foi o suficiente para que Tsunemori entendesse o recado. Nunca estamos verdadeiramente sozinhos.
Assim que chegaram ao estacionamento e entraram no carro de Ginoza, o Justiceiro olhou para ambos os lados, certificando-se de que estavam realmente sozinhos. O que está acontecendo?
"Olha, eu preciso que você confie em mim, Tsunemori. Nós vamos fazer uma viagem de três horas, mas eu não posso dizer para onde estamos indo, nem deixar que você veja o caminho." Quando seus olhares se encontraram, Tsunemori teve certeza que Ginoza estava fazendo algo errado. "Você poderia fazer isso?"
Uma faixa foi estendida em sua direção e a Inspetora não hesitou nenhum segundo antes de segurá-la e amarrá-la firmemente em volta dos olhos. Tudo ficou escuro e ela realmente não conseguia ver nada.
"Eu gostaria que você dormisse durante o caminho, porque é visível que você não dormiu noite passada, então não vamos conversar. Eu vou ligar o som e você deve permanecer quietinha, tentando dormir." Aquele tom na voz de Ginoza fez com que Tsunemori se lembrasse da época em que ele era um Inspetor também. Eu consigo sentir a confiança fluindo de suas palavras.
"Obrigada Ginoza-san."
"Por que está me agradecendo?"
"Por você estar me protegendo."
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Ela só percebeu que dormiu quando abriu os olhos e enxergou o mar. Seu corpo estava deitado em um chão de pedra plana e suas costas estavam sendo apoiadas por outro corpo, que a abraçava com carinho.
"G-Ginoza-san...?"
"Um pouco rude chamar o nome de um homem quando está nos braços de outro."
Aquela voz fez com que as palavras fugissem de sua boca.
Seu corpo se retesou e Tsunemori pode sentir sua garganta se fechar. O ar lhe faltava e seus lábios secavam levemente enquanto a respiração saía alterada por sua boca. Não pode ser.
"Não..."
"Eu também senti sua falta, Tsunemori."
Virando o corpo abruptamente, a Inspetora pode ficar frente a frente com a pessoa que a assombrou durante um ano e meio.
"Kogami..."
"Fugindo do Sistema Sibyl e armando esquemas com outro Justiceiro para que ele trouxesse uma certa Inspetora até mim. Sim, sou eu."
Automaticamente seus olhos correram pelo local onde estavam. Não havia sinal de que Ginoza estivesse por perto e ela não fazia ideia de como chegara lá.
"Eu e ele precisamos ser muito discretos." Kogami voltou a falar. "O Gin e eu planejamos isso hoje e se não desse certo seria um problema. Vocês dois poderiam ser seguidos e todos nós acabaríamos sendo executados."
"Por que eu não pude ver o caminho?" A realização a atingiu em cheio e Tsunemori se afastou dos braços de Kogami assim que começou a fazer perguntas. "Por que você não manteve contato comigo?"
"Tsunemori..."
"Por que você manteve contato com o Ginoza-san? Por que não me disse que estava vivo? Ao menos isso!"
"Eu mantive contato com ele porque ele é meu amigo."
"E eu sou o que?!"
A resposta não veio e aos poucos sua respiração começou a se estabilizar. Suas mãos tremiam e todo o seu corpo implorava para se perder nos braços de Kogami. Mas eu não vou fazer isso até obter respostas.
"Eu não podia dizer a você que estava vivo. Você permaneceu esse tempo todo com a incerteza da minha situação e veja como progrediu." Kogami acendeu um cigarro e se inclinou na direção da Inspetora. "Se descobrisse que eu estava vivo, você provavelmente largaria tudo e tentaria me encontrar. Certo?"
Respirando fundo, Tsunemori se sentou corretamente, deixando que suas mãos repousassem sobre seu colo. Eu senti falta disso. Do cheiro do cigarro, do som de sua voz, do modo como ele me olha, do cabelo bagunçado. Eu senti falta dele.
"Tudo o que eu menos quero nessa vida é ver você como uma fugitiva do Sistema Sibyl."
"E como você acha que eu me sinto?" A contra resposta veio no mesmo instante e o arrependimento chegou logo em seguida. Eu estou agindo como criança.
"Eu sei como você se sente. Sei como você se sente desde o começo." Um sorriso cansado despontou em seus lábios e Kogami apagou o cigarro, jogando-o para o outro lado do penhasco. "Também sei que não sou digno dos seus sentimentos."
"Você é o mais digno de todos."
Seus olhares se encontraram e Kogami não fez esforço algum para esconder a expressão de surpresa.
"Você é a pessoa mais digna desse mundo. Meus sentimentos jamais seriam direcionados para outra pessoa senão você. Eu jamais o vi como um Justiceiro. Eu o via como Kogami Shinya, o detetive mais honrado e inteligente que já conheci. A pessoa mais sincera e batalhadora e que merecia reconhecimento. Esse era e é você."
"Tsunemori." Ficando em pé e fazendo sinal para que a Inspetora o seguisse, Kogami se aproximou de uma parede de pedras, que ficava ali perto. "Você sabe que nós não temos um futuro."
"Eu sei." Seu coração estava apertado, mas ela jamais iria contra a própria mente.
"Melhor dizendo: eu não tenho um futuro. Você tem milhares de possibilidades pela frente e sua capacidade de realizá-las não é pequena. Eu tenho muitas expectativas em você." Segurando sua mão e puxando-a para mais perto, Kogami deixou que seu braço se acomodasse na cintura da moça. "Correr o risco de encontrá-la aqui, hoje, foi porque eu não tinha mais expectativas em mim mesmo. Eu precisava ver o seu rosto e me certificar de que tudo o que eu fiz não foi em vão. Me certificar de que seus sentimentos por mim não mudaram nem um pouco."
Sentindo lágrimas se acumularem nos cantos de seus olhos, Tsunemori deixou de lado a timidez e abraçou Kogami com todas as suas forças, escondendo o rosto em seu peito. Por favor, não. Eu não quero que essa seja a última vez que eu o verei. Por favor Kogami.
"Eu não sou um homem de palavras e agora não sou a melhor pessoa para lhe dizer isso, mas você era correspondida, Tsunemori Akane." O tom de voz denunciava um sorriso e Tsunemori lutou contra todas as suas vergonhas para poder olhá-lo nos olhos. Eu queria vê-lo sorrir mais uma vez.
"Por que agora...?" Sua voz demonstrava o quanto ela fazia força para não chorar.
"Porque pode não haver uma próxima vez."
Com aquela frase, Kogami deixou que seu corpo se aproximasse ainda mais do de Tsunemori, fazendo com que seus lábios se encontrassem em um beijo necessitado.
Ela precisava daquilo. Eu sonhei com esse momento. Eu achei que isso jamais aconteceria e agora que aconteceu... Eu queria que não tivesse acontecido.
Lágrimas escorreram de seus olhos, fazendo Kogami parar o beijo.
"Eu beijo tão mal assim?" Ele perguntou enquanto limpava as lágrimas da Inspetora.
"Não. Não, Kogami, eu..." Um soluço escapou enquanto ela tentava se recompor. "Por favor, me leve com você. Não importa pra onde seja. Não me deixe aqui sozinha. Não de novo."
"Tsunemori, eu não posso fazer isso. Você é importante demais para que eu a impeça de viver."
"O que você vai fazer agora? Como eu vou saber que você está bem?"
"Eu não sei. Mas vou deixar de manter contato com o Gin também. É arriscado e ele pode se encrencar por minha causa."
"Kogami!"
Aproximando os lábios da orelha de Tsunemori, o ex-Justiceiro começou a sussurrar.
"Eu não vou dizer. Não vou dizer aquelas três palavras porque não quero prendê-la a mim. Você precisa viver, Tsunemori. Assim, no futuro, nós poderemos nos encontrar novamente, sem empecilho algum."
"Eu já estou presa a você há muito tempo." Lágrimas escorreram novamente, mas ela conseguiu controlá-las.
"Então é hora de dizer adeus."
"Não. Por favor, não."
"Obrigado, Tsunemori. Por me fazer lembrar como é ser um humano. Com sentimentos e emoções. Tudo isso — tudo o que eu sou, tudo o que eu sinto — é tudo seu. Eu pertenço a você, jamais se esqueça disso."
Fogos despontaram no céu, anunciando o início de um novo ano. A luminosidade dos fogos de artifício parecia insignificante se comparadas àquele momento e Tsunemori sentiu raiva de si mesma. Eu não posso chorar. Isso é tão difícil para ele quanto para mim.
Erguendo o rosto e depositando mais um único beijo nos lábios de Kogami, a Inspetora fez o possível para se afastar dos braços dele sem parecer desesperada.
"Todos os fins de ano. Ao menos todos os fins de ano, deixe-me saber que você ainda está vivo e bem."
"É a nossa promessa."
"É a nossa promessa." Ela repetiu.
"Adeus, Tsunemori Akane."
"Adeus... Kogami Shinya." Um sorriso cansado tomou conta de seus lábios e ela lutou contra a urgência de voltar para perto de Kogami. "Obrigada."
Não houve resposta. O frio da noite a assustava. Os fogos a assustavam e somente uma pessoa poderia afastar todos aqueles medos de sua mente. Mas ele não está aqui. Ele não vai estar aqui nunca mais.
Assim que avistou o carro de Ginoza, seus passos aumentaram de velocidade. Ele está parado do lado de fora, me esperando.
"Pronta?" Ele perguntou assim que ambos estavam próximos o suficiente.
Sua pulseira apitou, informando que havia uma nova mensagem em sua caixa de entrada.
"Feliz Ano Novo. Estou vivo e bem.
E meus sentimentos continuam
sendo seus."
Quando seu olhar se encontrou com o de Ginoza, Tsunemori tinha certeza do que deveria fazer. Eu preciso seguir em frente.
"Pronta."
Notas finais
Essa fanfic foi feita especialmente para a minha friend e irmã, Isanami. Ela e eu shippamos loucamente este casal e eu me arrisquei a escrever algo com esses dois.
Não, o final não foi feliz porque todos nós - ao menos eu espero que vocês saibam disso - conhecemos o universo de Psycho Pass e vemos que é um pouco impossível eles ficarem juntos nos termos que estamos.
Ainda assim, espero que tenham aproveitado a leitura tanto quanto eu aproveite escrever :D
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