I Wouldn't Mind: Vulnerable
1 True Blue
Minha mãe costumava dizer que eu era um ótimo motorista desde o primeiro dia em que peguei minha habilitação. Me recordo da primeira vez que passei pela ponte principal da cidade; minhas pernas tremiam tanto que quase conseguia sentir meu coração explodindo dentro do peito, enquanto minha mãe, com seu tom de voz tranquilo, me dizia para manter a calma. Sua voz era firme e instrutiva, diferente das vezes que meu pai me dava aulas de volante. Lembro de olhar as grandes estruturas metálicas recém-reformadas e, logo depois, para a imensidão do rio que estava abaixo de nós. A sensação era de que, a qualquer momento, eu seria sugado para dentro da água.
Cada canto dessa cidade me trazia a sensação de morte, como se eu tivesse que ficar em estado de alerta o tempo todo, e cada célula do meu corpo levava esse comando a sério. Esse lugar já havia me dado motivos demais para duvidar de qualquer permanência e constância. Eu estava sempre preparado para o pior, mesmo que ficasse surpreso. Há alguns anos, descobri que meu pai não era meu pai, minha mãe era uma mentirosa, e tudo que eu havia de permanente nesse lugar não passava de ilusão.
Passar por essa ponte sempre me despertava lembranças dolorosas, que gritavam que eu sempre estaria atado a esse lugar, mesmo que tentasse sair. Algo sempre me puxava de volta para cá, para me relembrar do acidente que quase havia matado Miranda e estragado a vida dela, de toda a situação com a minha família e de como eu estava destinado a estar sozinho.
Comparativamente, anos atrás, as grandes estruturas que se erguiam na lateral da ponte estavam enferrujadas e velhas. A grande ponte estava parada no tempo, junto com qualquer coisa boa que essa cidade poderia oferecer.
Meu telefone toca e estico a mão até o banco do passageiro, atendendo no viva-voz uma impaciente Carter que dizia:
— Você está atrasado, Tobias!
Acelero o carro o máximo que a via permitia enquanto penso em alguma desculpa esfarrapada, mas Carter me conhecia muito bem, ao ponto de não acreditar em qualquer coisa que saísse da minha boca quando estou encurralado. Deveria ser mais fácil depois de todas as situações mais fodidas que passamos juntos na Europa, nessa merda de cidade e na faculdade.
— Poderia dar um desconto ao seu melhor amigo que trabalhou o turno da noite inteiro na Tric e passou o dia corrigindo provas? — respondo, prestando atenção na estrada, com as mãos firmes no volante.
— Poderia dar um desconto para a sua melhor amiga que teve que aguentar a senhora Mitchy o dia inteiro me fazendo digitar mais de cem contratos e precisa estar em vinte minutos naquela porra de evento para conseguir a grana pra quitar o resto do aluguel?
ACELERA!
Não consigo conter uma risada ao escutá-la apreensiva daquela forma. Carter era intensa. E por isso fazíamos tudo juntos desde a adolescência. Íamos aos mesmos lugares, estudávamos na mesma escola, tínhamos problemas com os pais, faculdade concluída e uma infinidade de visões utópicas de que seríamos bem-sucedidos... E juntos, na realidade, eu era um professor que mal ganhava um salário decente pra pagar o aluguel e ela uma ex-empresária falida.
Chego no emprego de Carter e a vejo impaciente, com a alça da bolsa quase despencando do ombro. Suas feições apresentavam uma Carter exausta e à beira do colapso; seus cabelos, agora mais longos, esvoaçavam.
— Em minha defesa, a casa estava uma bagunça... E hoje era meu dia de faxina.
— Você acredita que aquela vadia da Sra. Mitchy promoveu o imbecil do Amber para o cargo de supervisor? Aquele imbecil só sabe fingir que está trabalhando o dia inteiro, mal sabe redigir um documento ou respirar sem soltar uma reclamação... Além de sempre estar com a roupa amarrotada. — Carter ajeita o cabelo e começa a passar um batom rosa bem clarinho. — E ainda fez um discurso patético de que ele poderia aproveitar dos meus talentos para quando estivesse sobrecarregado... Vadia do caralho! Vai ver meu talento quando eu arrancar aquela peruca no tapa.
— Uou, trocou de corpo com a Birdy ou tá de TPM? — retruco, enquanto vejo se realmente estou seguindo a direção correta que o mapa estava me indicando.
— Engraçado, muito engraçado... Falando em Birdy, conseguiu falar com ela?
— Ela disse que vai direto pra lá, ia pegar uma carona com um colega depois do turno no mercado. — digo, acelerando o máximo que consigo, fazendo com que Carter borrasse o batom que estava sendo retocado. O olhar dela já me diz tudo: ou chego naquela galeria em alguns minutos ou estarei morto antes mesmo que consiga corrigir a pilha de provas que está depositada na mesa velha da nossa sala compartilhada.
◄►
Ao chegar no evento, estaciono meu carro velho o mais longe possível dos outros carros de luxo que rodeavam o local. As grandes pilastras de mármore que moldavam o grande salão da galeria se elevavam até uma grande estrutura metálica horizontal que recobria todo o espaço, dando abertura para uma grande porta que recebia toda a elite dessa cidade medíocre. Consigo reconhecer o senador Willian e sua esposa Marisa vestidos em trajes quase da mesma cor, em completa sintonia, exceto pelo casamento de fachada que os dois tinham.
Trabalhar com Carter aos finais de semana nesses eventos tinha sim seus privilégios. Segredos. Além disso, quem diria que servir champagne para gente rica seria mais bem pago do que estar à frente de uma sala de aula aguentando adolescentes insuportáveis?
O grande salão da galeria estava repleto do pior tipo de gente que eu poderia imaginar: universitários tapados fingindo que entendem de arte para puxar saco dos financiadores, políticos se vangloriando de seus feitos mínimos.
— Juro que se eu tiver que ir até lá servir aquele velho novamente, eu vou vomitar... — escuto a voz de Birdy se aproximando e, ao me virar, vejo ela segurando uma bandeja com algumas taças vazias. Ela estava usando um terno parecido com o meu, exceto pelo detalhe nas mangas. Suas bochechas estavam rosadas e seus lábios corados com um batom parecido com o de Carter.
— Ah, o perfume dele nem deve ser tão ruim assim.
— Não? Então fique à vontade para ir lá na próxima rodada, bonitão. — Ela vai se afastando em direção ao espaço onde pegávamos as garrafas de vinho e champagne.
Dou mais uma olhada no salão em busca de Carter, mas não a vejo. As grandes divisórias tabuladas no chão da galeria eram um empecilho para que eu conseguisse encontrá-la, ainda mais com um amontoado de pessoas admirando grandes quadros rabiscados e fotografias elitistas que só provavam uma coisa: não consigo suportar nada que esteja ligado a essa cidade.
Perco toda a noção de tempo à medida que a noite vai passando, meus pés doem de tanto andar por todo o salão, fingindo um sorriso no rosto enquanto embebedava todos esses babacas. Esbarro com Carter e Birdy, pouco tempo suficiente para comentarmos que estávamos cansados.
Passo por um corredor rodeado de fotografias impressas nos mais diferentes tipos de materiais e telas. Uma foto chama minha atenção.
Um céu azul gigantesco está em contraste com um grande farol que se estende por quase toda a fotografia, deixando parte do que poderia ser lindo opaco e obscuro, como se estivesse impedindo de ver o que estava do outro lado.
Fixo meu olhar na fotografia e abaixo a bandeja vazia que estava segurando. Algo naquela fotografia me trouxe a sensação de caos, mesmo sendo algo estático e consistente. Minha visão estava bloqueada para ver o restante do céu, e isso me incomoda.
— Fotografia favorita até agora? — uma voz masculina se aproxima e vejo o rapaz com um leve sorriso no rosto me observar. Seu terno completamente bem justo, sua barba bem feita, sua pele sedosa e viscosa entravam em contraste com a visão que ele estaria tendo de mim: um homem cansado e cheio de olheiras que mal tinha tempo para fazer a barba com tanto cuidado assim.
— Legalzinha, mas deve ter outras mais expressivas por aqui... — digo e vou me afastando, mas o rapaz parecia decidido a manter o assunto.
— Expressiva em que sentido? Estou vendo o céu, o relance da luz do farol mesmo com o dia claro e iluminado... Saturado e iluminado em harmonia.
Solto uma risada irônica, não tinha nenhum interesse em manter a conversa, mas havia algo que me prendia ali, a forma que o garoto falava, como se tivéssemos tido a mesma visão, mas ideias completamente divergentes do que estava à nossa frente.
— Azul demais, e aposto que o fotógrafo... Ah, deixe-me ver... — procuro o nome do fotógrafo no pequeno box ao lado do limite da foto. — Kayn Sullyvers estava um pouco trêmulo, olha isso... — aponto para uma pequena distorção no canto inferior direito da fotografia, como se a ondulação fosse um erro de impressão ou da própria captura.
— Não acho que seja azul demais... Isso é o real, só é saturado demais, iluminado demais.
— Isso é o que detesto nisso... Prefiro algo mais preto e branco e sem toda essa iluminação. Além disso, tenho certeza que se ele andasse mais uns trinta passos ele alcançaria o farol e teria uma visão mais ampla do pier.
— Continuaria iluminado demais. — o rapaz solta uma risada e abaixa a cabeça. — Mas acho que vai gostar daquelas outras ali... — ele aponta para onde um grupo de pessoas estavam amontoadas observando um monte de rabiscos sem nexo. — Quer tomar um ar?
A pergunta flutua até mim como um sussurro fora de lugar. Por um momento, penso em recusar. Fingir que não ouvi. Voltar para dentro e me esconder entre taças e o trabalho.
Mas tem algo no modo como ele pergunta. Um ritmo que não soa casual. Quase como se soubesse que eu precisava sair dali antes mesmo que eu soubesse.
— Claro. — digo, com um fio de voz. Como quem aceita uma oferta de paz.
Atravessamos o salão em silêncio. Ele caminha com a segurança de quem pertence ao lugar. Eu, com o desconcerto de quem só quer escapar de dentro da própria pele.
O ar fresco me acerta como um tapa gentil. Estamos no terraço. O som abafado da música e das vozes se curva diante do céu noturno.
— Estranho como o silêncio é bom as vezes, não acha? — ele pergunta, encostando-se no parapeito.
— Muito bom.
Ele sorri.
— Diferente dali de dentro.
— A pessoas querem ser vistas o tempo todo... Por isso não calam a boca — murmuro. — Mesmo quando não tem nada pra dizer.
Ficamos em silêncio de novo. Mas é um silêncio que não pesa.
— Você olhou aquela foto por muito tempo. — ele diz. — O que viu nela?
Penso antes de responder.
— Um bloqueio. Um farol que deveria guiar, mas que parece esconder. A luz é tanta que cega. O azul é quase um grito. Como se alguém tentasse mostrar beleza, mas não soubesse como. Ou não quisesse que víssemos tudo.
Ele me observa com atenção. Como se estivesse pensando no que responder.
— E você? — pergunto. — O que vê?
Ele olha para o céu por um instante, antes de responder.
— Vejo o exato momento em que alguém quase ultrapassou o limite, mas parou. . A câmera tremula no canto da imagem. O horizonte é interrompido. Não é erro.
É medo.
Minha respiração prende no peito.
— Medo de quê?
— De ver o que tem do outro lado da luz.
— E o que você acha que tem?
Ele não responde de imediato.
— Talvez... uma verdade. Ou uma ausência.
Baixo os olhos, observando o rapaz e imaginando o que uma pessoa de fora falaria desse papo de maluco.
— Você fala como quem já viu demais. — sussurro.
— E você como quem quer esquecer tudo que viu.
— Talvez eu queira mesmo. — admito. — Mas esquecer não é tão simples. Ainda ouço tudo. Ainda vejo tudo. Mesmo quando fecho os olhos.
Ele se aproxima e consigo sentir o perfume do mesmo. Um arrepio percorre todo meu corpo e ficamos em silêncio por alguns segundos.
Ele começa a se afastar, voltando em direção ao salão.
Mas antes de entrar, vira o rosto por sobre o ombro e diz, como quem deixa cair uma carta sobre a mesa:
— Aquela foto... É minha.
Meus olhos se fixam nele, como se a imagem do farol e da luz agora tivessem voz. — Meu nome é Kayn. — ele completa. — Kayn Sullyvers.
E desaparece porta adentro, enquanto seu nome ainda paira entre as pedras frias do terraço.
◄►
Voltei pro salão com a cabeça meio embaralhada, mas a noite estava longe do fim.
Carter limpava uma bandeja com cara de que não suportava mais aquela lugar enquanto. Olhei em volta e percebi a ausência de Birdy.
— Birdy sumiu — comentei com ela.
— Disse que ia tomar um ar, mas já faz tempo. — Carter franzia a testa, desconfiada. — Vai ver foi fumar um cigarro e ficou por lá mesmo.
Dentro, tudo seguia igual. As luzes fortes demais, os risos forçados, a música ambiente. O tipo de lugar que parece luxuoso até você trabalhar nele. Peguei uma nova bandeja e voltei a circular entre os convidados.
O mesmo vinho. As mesmas mãos estendidas. Alguém reclamou que o espumante estava quente. Outra queria saber se o canapé tinha nozes.
Eu respondia tudo no automático.
Foi então que, enquanto passava por um grupo perto do centro da galeria, senti um peso familiar no ar. Um incômodo conhecido. A sensação de que o tempo havia decidido parar por alguns segundos — só pra me encarar.
Olhei sem querer. E vi.
Não dava pra negar. Não dava pra confundir. Os cabelos ruivos, agora mais longos. A postura ereta. O vestido de cor neutra, elegante, discreto.
Miranda.
Não me aproximei. Nem pensei em chamar seu nome.
Só fiquei ali, parado, com a bandeja na mão, enquanto todas as memórias voltavam como um único sopro maldito no peito.
Ela estava ali.
◄►
FLASH FORWARD – 5 MESES DEPOIS
O ar está denso.
Meus joelhos raspam no asfalto áspero da ponte enquanto tento me levantar, mas o mundo gira, cambaleante. A cabeça pesa, e tem algo quente escorrendo pela lateral do meu rosto. Sangue, talvez.
Minha visão falha. Tudo parece enevoado, como se eu estivesse dentro de um pesadelo de onde não consigo acordar.
As luzes da ponte oscilam no alto, lançando sombras alongadas sobre o chão molhado.
Meus ouvidos zunem.
Silhuetas.
Cinco… seis? Uma delas se move bruscamente. Alguém grita. Tento focar, entender, mas minha visão vacila mais uma vez.
E então, acontece.
Um corpo é lançado.
Sem hesitação. Sem luta. Só o impulso seco do empurrão e a queda brutal.
SPLASH.
O som da água rasgada pelo impacto me atravessa como um choque elétrico. Meu peito trava. A respiração engasga.
Quem foi?
Não consigo... não consigo ver...
Tento levantar e, e é nesse momento que tudo vira um caos
Três disparos. Tiros reais. Claros. Próximos.
As silhuetas se dispersam como sombras fugindo da luz. Uma dela cai no chão instantaneamente. Não sei se atiraram em mim, mas uma forte dor em meu quadril irradia para todos os lados. Tudo o que sei é que meu corpo para de responder.
Meus braços falham.
Minhas pernas cedem.
O chão me acolhe outra vez.
As luzes da cidade ao longe dançam no horizonte, borradas e distantes como se fossem de outro mundo. Tento manter os olhos abertos, mas o peso é maior. Tudo gira, tudo apaga, uma visão turva de uma cor azul bem forte antes do silêncio e da escuridão.
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