I Wish You Love
6 Capítulo VI
Notas iniciais
Tem gente que vai querer me matar, mas vá lá hein...
Um mês depois do último show em Tokyo, Yuki e Asuka arrumavam-se em casa, esperando Ruki vir buscá-las para o casamento de Kai.
— Yuki, você nunca me contou o que aconteceu de verdade aquele dia em Kamakura. — disse a mais velha.
— Você viu o rímel? — perguntou a morena.
— Não desvia. — disse Asuka entregando o tubinho de rimel para Yuki.
— Não aconteceu nada, Asuka, sério. E se aconteceu não importa mais, porque já passou. — a campainha tocou — Deve ser o Ruki.
— Salva pelo gongo. — Asuka saiu do banheiro e foi atender a porta.
— Gongo não, pela campainha. — Yuki disse em voz alta indo buscar sua sandália no quarto. — Asuka! Você viu minha sandália? — ela berrou com a cabeça enfiada embaixo da cama à procura da sandália.
— Perdendo coisas como sempre, hein menina? — disse uma voz masculina.
Yuki olhou para a porta e o viu apoiado ali, de smoking preto com as mãos nos bolsos, ficou feliz em vê-lo.
— Uru! Eu não sabia que você vinha... — ela disse, sorrindo e levantando sem graça.
— Eu achei que você ia se sentir meio excluída chegando sozinha com o casal, então resolvi vir te fazer companhia.
— Ah, obrigada. Não precisava, mas mesmo assim, obrigada. Assim que eu achar minhas sandálias eu deixo você me fazer companhia. — ela riu.
— Quer ajuda pra procurar? — ele se ofereceu.
— Não precisa, elas devem estar em algum lugar aqui no meu armário. — disse a moça, abrindo a porta e jogando todos os calçados pra fora. Ele riu baixo da cena — Ah! Achei! — ela sentou na cama para calçar as sandálias e viu que ele ria — Que foi? Pelo menos eu achei elas tá?
— Você vai deixar os calçados daquele jeito? — ele apontou a pilha no chão quando ela se levantou e veio na direção dele, ajeitando o vestido.
— Vou. — ela respondeu, ele arqueou a sobrancelha e riu em resposta — Ah, larga de ser chato, garoto! Depois eu arrumo... — ela o empurrou pelo peito — Vamos que a gente tá atrasado.
— Tá. — ele continuou rindo — O braço do chato aqui é bom o suficiente pra você ou vai fazer birra? — ele ofereceu o braço como fizera naquele dia em Kamakura.
— Sabia que é ainda mais engraçado quando você se faz de coitado? — ela sorriu e deu o braço à ele.
— A propósito, você tá linda. — ele disse, pouco antes de chegarem à sala.
— Ah, obrigada. — ela sorriu encostando o queixo no ombro direito. — Você também tá muito bonito.
— Dá pros dois pararem de babar ovo um pro outro e se apressarem? — disse Asuka, rindo dos dois amigos.
Os quatro foram no carro de Ruki até a igreja. No caminho Uruha pedira à Yuki para ajeitar sua gravata. Ele quase acabou enforcado mas no fim sua gravata ficou reta. Ele chamou Yuki de assassina e recebeu um beliscão em resposta. Ruki e Asuka olharam os dois pelo retrovisor, se entreolharam e sorriram enquanto eles brigavam feito duas crianças no banco de trás.
A cerimônia foi linda, como era de se esperar. Yuki chorou durante os votos, mas não de tristeza, e sim de emoção. Casamentos sempre mexiam com ela. Yuriko estava linda, vestida de branco com luvas, véu, um vestido de saia volumosa cheia de babados e flores bordadas. Todas as flores da igreja eram brancas, sobre os noivos havia um arco de flores brancas. A cerimônia estava impecável.
No caminho para a festa, que seria em um clube requintado em Ginza, Ruki, Asuka, Yuki e Uruha comentavam a cerimônia.
— Foi lindo mesmo. — disse Yuki.
— Eu não costumo me impressionar com casamentos, mas realmente estava muito bonito. — comentou Asuka.
— Muito mesmo. — a morena completou.
— É, eu até te vi chorando. — Uruha riu da moça.
— Qual é graça? — ela lhe lançou um olhar repreensivo.
— A graça é que eu sempre supus que você fosse o tipo que chora em casamentos. — ele respondeu.
— Essa foi boa, Uruha! Eu sempre digo pra ela que ela não engana ninguém, tentando fingir que não é manteiga derretida, mas ela não me houve. — disse a ruiva.
— Ah, não é pra tanto... eu não sou uma manteiga derretida. — ela cruzou os braços e encarou os joelhos.
— Claro que não, e o Uruha odeia roxo. — disse o vocalista, que até então dirigia em silêncio.
— Até você, Ruki? Se uniram contra mim, é?
Os três riram da cara da mais nova. Durante o jantar, Aoi fez o brinde ao casal, todos desejaram-lhe felicidades. Yuki sentiu vontade de chorar de novo durante a valsa dos noivos. Mas notou que Uruha a olhava e ria dos seus olhos molhados.
— Seu insensível. — ela enxugou uma lágrima que escorreu.
— Vem dançar. — ele sussurrou e levantou, puxando-a pela mão.
— Uruha! — ela nem teve tempo de reagir, quando se deu conta eles já estavam no meio da pista junto com Kai e Yuriko e Aoi e a moça amiga da noiva que havia entrado com ele na igreja.
— Não reclama e dança, sua chata. — ele a puxou pela cintura e começou a conduzi-la.
— Não sabia que você dançava. — ela disse, sem graça, devido à proximidade de seus rostos.
— Nem eu sabia que gostava tanto assim de você. — ele disse, mergulhando no castanho do olho da moça.
— Uru..ha... — ela gaguejou e pisou no pé dele.
Ele simplesmente riu baixo e encostou o queixo nos cabelos dela, trazendo-a mais pra perto de si. O chão pareceu sumir sob os pés de Yuki, tudo desapareceu de sua consciência, os convidados, os casais dançando a valsa, as mesas ao redor, as flores da decoração, até mesmo a música, tudo. Só o que restou foi aquela mão gentil em suas costas. E foi nesse momento que ela se deu conta que aquele toque não representava a segurança de um amigo, mas sim a segurança de um homem, aquele tipo de proteção de que uma mulher precisa, a certeza de saber que sempre haverá um cavalheiro para ampará-la. Yuki repassou os últimos meses de sua vida em pensamento, a constancia da presença dele lhe confortou de uma certa forma, mas lhe fez sentir um tanto tola de outra. Mas isso já não importava mais. Deixou-o guiá-la pelo salão, confiou naquelas mãos como sempre confiara.
Quando a valsa terminou Yuki retomou consciência dos outros casais, do chão, da música, das vozes e da mão de Uruha a soltando devagar. A morena achou que seus joelhos não fossem mais capazes te mantê-la em pé a não ser que ele a segurasse, mas para seu alívio ele deixou que ela continuasse segurando sua mão enquanto caminhavam até a mesa. Ruki e Asuka também voltavam à mesa, Yuki nem havia notado que os dois também haviam se juntado à valsa.
— Yuki, tá tudo bem? — disse a ruiva, sentando à mesa seguida do namorado. — Você tá meio pálida.
— Eu tô bem, só preciso tomar alguma coisa. — Yuki mal conseguia disfarçar a desordem de seus pensamentos.
— Eu vou buscar alguma coisa pra você. — Uruha levantou-se, sorrindo. — Uma água?
— Aham. — Yuki murmurou a resposta e balançou a cabeça. Ele se afastou em direção ao garçom que estava parado perto de uma mesa próxima.
— Tem certeza que tá tudo bem, Yuki? — Asuka voltou a perguntar. Yuki ainda acompanhava o guitarrista com os olhos.
— Tenho. — ela respondeu, sorrindo sem perceber.
— Yuki-san, sumimasen — uma das damas de honra se aproximou da mesa — Desculpa incomodar mas...
— Não está incomodando. — Yuki sorriu gentilmente.
— Gostaríamos que você tocasse alguma coisa ao piano para o noivos, você se importa?
— Será um prazer. — Yuki concordou. — Estarei lá em um minuto.
— Ah, arigatou. — a moça fez uma reverência suave e saiu.
— Vai tocar piano? — Uruha voltava trazendo uma taça com água.
— Sim. — ela respondeu, pegando a taça e tomando um gole.
Alguns minutos depois, Aoi veio chamar Yuki para ir até o piano. Os convidados a aplaudiram quando ela se sentou em frente ao instrumento. Yuki sabia uma música perfeita para a ocasião. Tocou as teclas e por um momento pensou em Kamakura. Olhou para a mesa dos noivos e viu que Kai e Yuriko sorriam e ele acariciava a mão dela sobre a mesa. Voltou a olhar para mesa onde estava sentada e viu Uruha a assistindo com um sorriso. "I wish you blue birds in the spring, to give your heart a song to sing" Seu peito aqueceu quando o notou que o olhar dele não desviava dela. "And then a kiss but more than this, I wish you love" As mães dos noivos choravam e enxugavam as lágrimas com lencinhos bordados. "And in July a lemonade, to cool you in some leafy glade. I wish you health and more than wealth, I wish you love" A música ecoava suave pelo salão e prendia os convidados à sua melodia lenta e romântica. "I wish you shelter from the storm and a cozy fire to keep you warm and most of all, when snowflakes fall, I wish you love." Yuki tocou a última nota e tirou as mãos das teclas. Um instante de silêncio emocionado tomou conta do lugar, antecedendo as palmas.
Yuki achou que seria educado ir até a mesa dos noivos e parabenizar-lhes e dar-lhes a oportunidade de agradecer pelo gesto. E assim o fez. Yuriko chorava, abraçou Yuki longamente e agradeceu. Yuki sorriu em resposta e desejou-lhe, olhando nos olhos, toda a felicidade do mundo. Kai tinha o rosto molhado, Yuki riu um pouco do embaraço dele, segurou-lhe as duas mãos e sorriu, encarando o fundo dos olhos dele. Ele retribuiu o sorriso e a abraçou. Yuki apertou-lhe os ombros amigavelmente quando ele agradeceu um pouco choroso. A moça voltou à sua mesa sentou-se com os outros três.
— Foi lindo. — disse Uruha, quando a morena se sentou ao seu lado.
— Obrigada. — ela sorriu.
— Foi bonito mesmo. — disse Asuka.
— Obrigada. Quer que eu toque no seu casamento também? — Yuki riu ao ver o casal corar com o seu comentário.
— Você tem um piano? — o guitarrista perguntou, desviando o assunto.
— Não. — Yuki respondeu — Não tenho muitas oportunidades de tocar. Infelizmente, eu não tenho espaço e nem grana pra um piano. Mas eu não perco as esperanças.
A festa do casamento foi animada. Yuki não perdeu a oportunidade de fazer os dois ruivos corarem de novo quando disse para Asuka ir tentar pegar o buquê. Uruha e Yuki continuaram juntos durante a festa, como bons amigos que eram, dançando, rindo e bebendo juntos, mas por algum motivo essa noite Uruha parecia mais encantador do que nunca.
Já era muito tarde e restavam poucos familiares dos noivos e os membros da banda na festa, Yuki encarava a taça de champagne, sentada com os cotovelos apoiados sobre a mesa, já meio sonolenta. Era como se as bolhas da bebida pudessem de uma hora pra outra mostrar-lhe o que deveria fazer agora. O dilema das bolhas foi interrompido por uma sombra alta atrás de Yuki. Ela virou-se para olhar.
— Miyavi. – ela sorriu ao ver o amigo.
— E aí? – ele se sentou ao lado dela. – Uma moeda pelos seus pensamentos.
— Não valem nem meia moeda, acredite. – a moça riu de sua própria resposta.
— Sabe, eu não sou muito chegado à essas coisas sentimentais e blá blá blá, mas numa coisa eu acredito: todas as respostas que você precisa estão no seu coração, basta você ouvi-las.
— Nossa, falou bonito hein, garoto? – Yuki riu e deu um tapinha gentil no ombro do rapaz.
— É sério. – ele tentou, sem êxito, não rir.
— Tá bom. – disse Yuki, bocejando.
— Já passou da hora de criança dormir, sabia? – ele disse.
— Eu tô morta. – ela sorriu um meio sorriso, apoiando o rosto na mão.
— Eu sei. Você e o Uruha não pararam de dançar nem um segundo.
— Ouvi alguém falar de mim. – o guitarrista chegava com um copo de soda na mão.
— É... – disse Miyavi – A gente tava falando do exímio dançarino que você é.
— A Yuki também não fica atrás. – disse o loiro, sentando ao lado de Miyavi.
— O Kai e a Yuriko já foram? – a moça perguntou.
— Já. O Kai quis evitar aquela história toda do arroz e eles saíram escondidos. – respondeu Uruha.
— Sábia decisão. – Yuki murmurou.
— Por quê? – Miyavi perguntou.
— Eu faria exatamente a mesma coisa no meu casamento. – a morena murmurou a resposta. Viu Uruha baixar a cabeça e sorrir sozinho.
— Concordo. – disse o vocalista – Não que eu pretenda casar, é claro. Mas se pretendesse eu também evitaria essa parte do arroz.
— Mais alguém afim de ir pra casa? – disse Asuka, que chegava seguida de Ruki.
— Adivinhou meus pensamentos. – disse a mais nova, levantando.
— Eu também vou. – o guitarrista se levantou – Miyavi, quer carona?
— Não, obrigada. Eu combinei de ir com o Reita, só preciso achar ele. – o vocalista se levantou e saiu à procura do baixista.
Os quatro saíram juntos. Ruki e Asuka andavam abraçados um pouco à frente, enquanto Yuki andava calada, encarando o chão, ao lado de Uruha. Ele abriu a porta do carro e a esperou entrar. Yuki sentou-se ao lado da janela e apoiou a cabeça no vidro. As luzes da cidade passavam deixando rastros coloridos e brilhantes no ar. Yuki se perdia em previsões e caía no sono no caminho pra casa.
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