I Will Be Your Home.

1 Capítulo Único.


Notas iniciais
Olá pessoal!
Esta é a minha primeira fanfiction sobre Devil May Cry, meu mais novo amor! ♥
Espero que gostem!

Essa história também foi postada no Social Spirit. Dante não me pertence, mas Lyanna foi inteiramente criada por mim, assim como essa história!

Obs: Eu sei que a frase da sinopse é de Bleach, porém eu achei que ela ficaria perfeita com a história, por isso escolhi-a.

"Se existe um começo, existe um fim.
Isso é regra.
Pode até ser triste, mas ficar triste só porque é o fim não faz meu tipo.
Por ser o fim, é melhor bagunçar ainda mais.
Assim, independente de como seja o final, podemos terminar sorrindo."

O sangue inundava minha visão. O corpo estava a apenas alguns metros, rodeado pelo líquido vermelho escuro. Sua espada bem ao lado, assim como suas duas pistolas. Eu sentia as lágrimas escorrerem pelo meu rosto e meu corpo tremer. A voz em meu interior repetia que ele não estava morto, e eu me arrastava para chegar até lá.

A ponta de seus cabelos prateados estava manchada e eu não podia ver seu rosto que estava encostado no chão frio. Eu sentia meu corpo reclamar e sentia uma terrível dor, mas não conseguia parar. Eu precisava saber. Precisava saber se Dante estava vivo. E algo me dizia que eu não, causando ainda mais lágrimas e desespero.

Eu usava as unhas para puxar meu corpo, tão cansado que não tinha forças para se levantar. Minha espada estava longe, tão encharcada de sangue quanto o corpo de Dante. Dante. Senti nossos sangues se misturarem quando me aproximei. Com extrema dificuldade, me ajoelhei e com delicadeza virei seu rosto. Os olhos de um azul antes intenso estava fraco e quase morto.Morto. Meu coração queria parar junto ao dele.

- Dante... – Minha voz soou tão fraca que eu quis me bater. Eu deveria lhe dar força, não ficar chorando. – Dante, olhe para mim!

- Lyanna... – A voz grossa dele me fez sorrir e sentir o gosto salgado de minhas lágrimas. Ainda sim, ela estava fraca e trêmula. – Você precisa ir embora.

- Não! – Eu gritei, mas tinha certeza de que não tinha força para tal. – Não vou te deixar aqui, Dante! Nunca!

- Esse lugar será destruído em breve. – Ele estava calmo, como se estivesse acostumado a se sacrificar. Eu havia acomodado sua cabeça em minhas coxas e nossos olhos se cruzavam com intensidade. – Eu não posso sobreviver, mas você...

- Não! – Minhas lágrimas caíram em sua bochecha e deram a impressão de que ele chorava. Ao nosso redor, o lugar antes cheio de colunas e belíssimas estátuas gregas e valiosas havia se tornado um caos cheio de sangue, blocos quebrados e corpos destroçados. – Eu não posso te deixar desse jeito.

Ele deu um sorriso fraco e eu senti meu coração se despedaçar. Dante quase nunca sorria, mas agora, perto de sua morte ele insistia em me fazer ama-lo ainda mais. Ouvi um pedaço de concreto cair do teto e a vi a poeira que nos rodeava. Não tínhamos muito tempo. Dante levantou seu braço pesarosamente e tocou o colar que enfeitava meu busto. Admirou o dourado e o formato oval, para depois abri-lo e encarar a pedra valiosa que ele continha.

- Quando nos encontramos pela primeira vez... – Ele tossiu e mais sangue saiu de sua boca. – Eu nunca pensei que as coisas acabariam assim...

- Dante!

- Silêncio. – Ele repreendeu sem alterar seu tom de voz. – Você nunca me deixa falar, sempre mandando isso e aquilo... Pelo menos agora me deixe terminar.

Segurei um gemido de dor e um soluço. Imagens rodeavam minha mente com insistência me fazendo lembrar aquele dia chuvoso, tantos anos antes.

Eu tinha pouco mais de 17 anos na época e estava perdida no meio do nada, caída perto de um rio de sangue no meio da chuva, respirando com dificuldade. Ao meu redor tudo estava destruído e eu sabia que logo os demônios que me perseguiam estariam ali. Levantei sentindo meus joelhos ralados, mas meu corpo cansado não resistiu e voltou ao chão. Ouvi o rugido a poucos metros de mim e virei o rosto apenas para me arrepender. Um ser gigantesco surgia de trás de do prédio, com suas garras assustadoras e seus dentes afiados.

Sem pensar muito, ele pulou e parou em minha frente. Senti um arrepio percorrer meu corpo inteiro, o medo e a adrenalina se instalando em cada célula. Ele moveu um braço para atacar e eu rolei pelo chão, desviando e me machucando ainda mais. Tentei levantar mais uma vez e só levei outro tombo, parando na margem do rio. Estava pensando que poderia pular ali, quando notei outro ser saindo encharcado de sangue dali. Eu estava presa entre os dois, não conseguiria escapar.

Fechei os olhos e deixei uma lágrima escapar. O terror me invadiu, assim como a aceitação. Depois de tanto tempo sofrendo, estava finalmente acabado. Eu não teria mais de sofrer com esses jogos psicóticos, neste lugar maluco. Ajoelhei e fiquei ali esperando pelos golpes. Até senti o vento quando a pata do monstro se moveu e me abracei com força. Mas não senti dor, e nem me machuquei. Apenas urros de dor e sofrimento. Assustada, abri os olhos e vi uma capa vermelha balançando, um corpo musculoso que segurava uma espada cheia de sangue e o corpo do monstro a sua frente. Abri a boca com admiração, mas antes que eu pudesse dizer algo, ele se virou e apontou duas pistolas em minha direção.

- Espere! – Eu tive tempo de gritar antes que ele atirasse, mas poucos segundos depois ouvi o estrondo de balas passando bem perto de mim. Quando abri os olhos novamente, percebi que estava inteira, mas exatamente atrás de mim havia um corpo escuro estraçalhado.

- Quem é você? – Eu perguntei com minha visão começando a ficar embaçada. Meu corpo doía e percebi que estava muito cansada.

- Eu que lhe pergunto o que está fazendo aqui! – Ele respondeu com uma voz grossa, máscula. Seu rosto era belo, com olhos azuis-acinzentados e cabelos prateados até seu ombro.

- O quê? – Perguntei incrédula.

- O que uma Devil Hunter está fazendo no Limbo? Como me trouxe para cá?

- Devil Hunter? – Eu o encarei surpresa. Não fazia ideia do que ele queria me dizer. – Limbo?

- Onde estão suas armas?

- Eu não tenho nenhuma arma. – Respondi com paciência.

- O quê? – Ele se aproximou alguns metros de mim, analisando-me com severidade. – Quantos anos você tem, criança?

- Eu não sou uma criança! – Respondi com firmeza. – Tenho dezessete anos! E gostaria de saber quem é você e do que está falando!

- Não pode ser... Como você chegou aqui?

- Eu também não sei. – Estava ficando com raiva daquele homem que insistia em me ignorar. – Agora será que poderia me explicar o que é Limbo? O que significa Devil Hunter?

- O lugar onde estamos se chama Limbo, doçura. É uma dimensão que existe paralelamente ao mundo dos humanos, mas que é controlada por demônios. Alguém como você não deveria estar aqui.

- Demônios? – Senti um espasmo e notei que minhas roupas estavam rasgadas e meu corpo cheio de cortes. – Aquelas coisas são demônios?

- Sim. – Ele respondeu calmo e então olhou para o horizonte, como se visse algo que eu não podia. – Precisamos sair daqui. Mais deles estão vindo.

- Oh não. – Respirei fundo. Estava tão cansada de fugir... Mas usei todas as minhas forças para levantar. Percebi seu olhar sobre meu corpo e estranhei o fato, até que ele tirou o casaco e jogou em minha direção. Não pude deixar de admirar seu corpo musculoso. – Se vista.

Fiz como mandado, ao perceber que minhas roupas estavam transparentes e rasgadas em lugares um pouco expostos demais. O casaco ficou gigantesco em mim, mas consegui acomoda-lo em meu corpo. Ele me aqueceu um pouco, e evitou que a chuva me molhasse ainda mais. O homem deu as costas para mim e começou a andar. Sem ter escolha, o segui.

- Então... – Resolvi cortar o silêncio esmagador. – Qual é o seu nome?

- Dante.

- Eu sou Lyanna. – Escolhi esconder meu sobrenome, pois ele não havia me contado o seu. – Como você chegou aqui? Todas as vezes que vim a esse lugar, nunca vi ninguém humano...

Ele parou abruptamente e eu quase bati em suas costas largas. Dante virou seu rosto e me encarou com intensa surpresa.

- O que quer dizer com todas as vezes que veio aqui?

- Esta não é a primeira vez que fico presa neste... Lugar. — Respondi calmamente, mexendo em meus cabelos. – Desde pequena eu sou “sugada” para esse mundo.

- Você vive aqui há anos?

- Não. É algo muito estranho. Eu entro e saio desse lugar sem o meu controle. Às vezes estou andando normalmente e então o ar começa a ficar denso e eu apareço aqui. Eu nunca entendi como o processo funcionava e as pessoas me chamavam de louca quando eu falava estas coisas, então eu... – Respirei por alguns segundos. Eu havia passado muitos anos fugindo de monstros e daquele lugar; mas sempre acabava voltando. – Parei de lutar contra isso. Eu considerava um tipo de punição.

- Como você sobrevivia aqui?

- Eu fugia deles. Algumas vezes por algumas horas, outras vezes por dias.

Eu sentia seus olhos sobre mim, e sabia que ele analisava a verdade em cada uma de minhas palavras.

- Como você saia do Limbo?

- Depois de um tempo, era a mesma coisa. De repente tudo havia desaparecido e eu estava de volta ao mundo humano. Às vezes quando eu estava prestes a morrer por um monstro, outras em momentos aleatórios.

Ele ficou em silêncio por alguns minutos, pensado. Então voltou a andar.

- Eles são demônios. Por isso a nomenclatura Devil Hunter.

- Caçador de Demônios? – Traduzi. – Você é um Devil Hunter?

- Sim. E achei que você fosse também, para estar neste lugar. – Pouco tempo depois entramos em o que parecia ser um restaurante, mas que estava completamente destruído. Um cenário desolador para qualquer pessoa normal, mas eu já estava acostumada. Podia até mesmo ver as sombras dos seres humanos que provavelmente estavam no mesmo lugar, porém no mundo humano. Gostaria de estar com eles.

- Precisamos encontrar uma maneira de sair daqui. Você tem certeza de que não pode fazer nada, doçura? – Estranhei a maneira com que ele falou, mas preferi ignorar. Era melhor não discutir com o homem musculoso que havia acabado de salvar minha vida.

- Tenho. Nada faz sentido neste lugar. – Ele sentou-se em uma cadeira e apontou uma em sua frente para mim. Obedeci. – Eu me esqueci de lhe agradecer por salvar minha vida. Se você não tivesse chegado a tempo, eu...

- Sem problemas.

Vi que ele pingava e suas roupas estavam completamente encharcadas.

- Você não quer seu casaco de volta? Você deve estar com frio.

- Não se preocupe. No momento tudo que temos de nos preocupar é sair daqui. Aliás, você parece bem cansada. Durma um pouco, eu cuidarei das coisas por aqui.

- Mas e se algum demônio aparecer?

- Eu cuidarei dele. – Ele apontou para a espada, encostada na parede. Eu me senti um pouco mais protegida e resolvi aceitar seu conselho. Estava presa naquele lugar há mais de 16 horas e não havia pregado os olhos. Andei até um canto e apesar do desconforto, dormi mais rápido do que imaginava.

Quando acordei o lugar estava vazio. Não havia sinal de Dante, de sua espada ou de suas armas. Levantei assustada, acreditando que aquele homem havia sido apenas parte de um sonho, mas relaxei quando percebi que ainda estava enrolada em seu casaco. Olhei para as escadas de madeira quando ouvi passos ao longe. Agora eu andava com mais facilidade e cheguei à laje do estabelecimento rapidamente. Tudo o que pude ver, foi Dante cortando um demônio gigantesco ao meio.

- Finalmente acordou, doçura? – Ele perguntou com um sorriso travesso no rosto. Suas roupas estavam encharcadas de sangue.

- Dante! – Gritei quando outro demônio apareceu atrás dele. Dante pegou suas duas pistolas e acabou com ele em poucos movimentos. Devolveu-as ao cinto e andou até mim. – Você estava lutando até agora? Porque não me acordou?

- Não é como se você pudesse lutar no meu lugar. – Ele respondeu calmamente; então parou para olhar ao redor e soltou um palavrão.

- O que foi?

- Um dos grandes está vindo. Fique atrás de mim, e não se envolva na luta, não importa o que aconteça, entendeu?

- Mas...

- Entendeu? – Ele perguntou com um tom mais forte e eu não tive escolha. Confirmei com a cabeça. E um sorriso surgiu em seu rosto. Poucos minutos depois consegui vi um enorme demônio surgir do céu e atacar o prédio com suas garras gigantescas.

- A festa começou, baby. — Dante atirava diversas vezes, mas a pele escura do demônio parecia ser mais forte do que a pele de outros.

Uma onda de ataques e defesas começou enquanto eu assistia extasiada a tudo aquilo. Os movimentos em sincronia, os tiros ágeis e certeiros, as escapadas que Dante conseguia. O demônio urrava enquanto o prateado mantia o sorriso divertido em seu rosto. Um dos tiros acabou acertando o olho do demônio e Dante aproveitou para tirar a espada das costas e deu um salto, cortando um dos braços do demônio. Sangue jorrou e ele voltou ao chão, se defendendo dos ataques do monstro.

Mais alguns minutos daquela dança sangrenta ocorreram, e eu assistia maravilhada. Dante então conseguiu cortar o outro braço do ser, que voou enquanto fazia barulhos ensurdecedores. Ele voltou a sacar suas armas e atirar até que o bicho caiu muitos metros longe, destruindo prédios e ruas.

- E então? Mereço um beijo de agradecimento, não? – Ele deu um sorriso malicioso e eu senti meu rosto esquentar. A proposta era indecente, mas a voz dele causava sensações nem um pouco inocentes em mim.

- Você foi demais. – Não pude evitar demonstrar minha admiração. Aquela era a primeira vez que via uma luta tão emocionante.

- Eu sempre sou. – Ele deu um sorriso convencido. Ele agia um pouco mais descontraído do que no dia anterior, talvez porque tivesse se acostumado com minha presença.

Não pude dizer mais nada, porque quando notei já era tarde demais. A boca do demônio havia agarrado o braço de Dante e arrastado seu corpo para longe de mim. Dei um grito desesperado enquanto via sangue escorrer pelo chão.

- Dante! – Eu comecei a correr atrás de ambos, mas sabia que não conseguiria salva-lo. Ele havia notado a presença do monstro atrás de meu corpo, e para me empurrou para me salvar, enquanto ele levava o golpe. Senti uma dor em meu coração ao ter a mesma sensação de quando meus pais haviam morrido. Mas eu não podia deixar que aquilo acontecesse de novo. Não poderia! – Dante!

Gritei mais uma vez, minha voz soando tão desesperada quanto eu estava. Cai de joelhos e gritei mais uma vez seu nome, não me importando com mais nada. Se pudesse, destruiria todo aquele lugar como eu sempre quisera. Destruiria todos os demônios, estraçalhando seus corpos horríveis e retirando suas entranhas enquanto eles ainda respiravam. A raiva emanava de meu corpo de uma maneira que eu nunca havia sentido.

Quando abri os olhos, o mundo ao meu redor despedaçava. O ar antes denso se tornava uma neblina e os prédios iam desaparecendo ao meu redor. Eu não conseguia mais ver os demônios, nem Dante. Sentia que meu corpo recebia golpes duros em todas as partes e eu poderia dormir por mil anos apenas para me aliviar daquele cansaço. Quando tudo acabou, eu estava no mundo humano novamente, deitada na grama e sentindo a chuva me cobrir.

- Lyanna! – Vi o rosto sangrento de Dante, e senti suas mãos tocarem minhas costas e minhas pernas. Tive a sensação de estar sendo carregada e de que ele tentava me manter acordada, o que não deu certo, pois poucos minutos depois meus olhos se fecharam e eu pude apreciar o silêncio e a escuridão. Novamente estava sozinha.

Acordei com o meu corpo inteiro latejando. Apesar de estar deitada em algo macio, sentia como se tivesse dormido em uma cama de pregos. Espere! Uma cama? Olhei ao redor com surpresa. Estava deitada em uma cama de casal, em um quarto cheio de pacotes de comida, caixas de pizza e latinhas de cerveja e refrigerante, além de outras bebidas que eu não conhecia. Pisei no chão descalça e desviei dos objetos, com medo de descobrir seres nojentos em algum deles ou de acabar me machucando.

Abri a porta e encontrei uma escada onde desci com cuidado e encontrei uma sala grande, com uma mesa de biliar, um jukebox, alguns sofás e uma escrivaninha de madeira no centro com um telefone, uma caixa e algumas revistas. Eu não fazia ideia de onde estava.

- Finalmente acordou? – A voz fez minha espinha se arrepiar. Dante. Então não fora um sonho. Eu realmente havia estado no Limbo e sido atacada por demônios. Dante provavelmente perdera um braço e eu agradecia mentalmente que ele estivesse vivo.

- Você está bem? – Eu me surpreendi ao encontrar seu corpo intacto, sem quaisquer arranhões ou machucados.

- Sim. – Ele fez um gesto de descaso. – E você está se sentindo melhor? Dormiu por quase três dias.

- Sim... Mas tudo está tão confuso...

- Sente-se. – Ele apontou para um dos sofás, pegou uma caixa de pizza de cima da escrivaninha e um engradado de bebidas, vindo se sentar ao meu lado. – Você deve estar com fome, criança. Coma.

- Eu já disse que não sou uma criança! – Resmunguei, mas ele deu um sorriso convencido ao ouvir minha barriga roncar. Não tive escolha e peguei uma fatia. Depois de alguns minutos, apenas nós dois havíamos devorado os oito pedaços e bebido quase o engradado inteiro.

- Você tem um grande apetite. – Ele riu.

- Isso não é da sua conta! – Respondi enquanto tomava o último gole da bebida. Fechei os olhos e respirei fundo. – Onde estamos?

- Devil May Cry. Minha loja.

- Eu preciso ir para casa. – Levantei apressadamente. – Obrigada por salvar minha vida e por cuidar de mim nesses dias, mas eu realmente preciso ir. Foi um prazer conhece-lo! – Eu fui em direção a porta, mas após o primeiro passo ele puxou meu pulso e me fez voltar ao sofá, dessa vez mais próximo de seu corpo.

- Você vai ficar bem perto de mim, por enquanto. – Sua voz era rouca e sedutora e eu estaria mentindo se dissesse que não fiquei feliz por ele estar me tocando. Eu sabia que nossas coxas se encostavam assim como nossos ombros. Ele me segurava com força e nossos olhos se encontraram. Eu tentei me afastar, mas ele era muito mais forte do que eu. – Não tenha medo, não irei te machucar. A não ser que queira.

Se aquilo continuasse por muito tempo, eu sabia que uma besteira aconteceria, não importando se eu o conhecia bem ou não. Alguma coisa nele, na sua voz criava sensações completamente novas para mim. E eu tinha medo delas. Por sorte, a porta se abriu naquele exato momento, interrompendo o momento de tensão.

- Ah! – Uma mulher de cabelos escuros exclamou. – Desculpe, eu não sabia que estava interrompendo alguma coisa! Volto depois!

- Espere! – Eu gritei sentindo meu rosto quente. – Você não interrompeu nada! – Me soltei de Dante e sentei do outro lado do sofá, a uma distância que considerava segura.

- Eu que te chamei, Lady. – Dante levantou e andou até a mulher. — Trouxe o que eu pedi?

- É claro! – Ela deu um sorriso. – Devo comentar que o preço está acrescido em suas dívidas!

- Dívidas? – Encarava a mulher com curiosidade. Ela era muito bonita, com cabelos escuros e curtos, olhos bicolores e um corpo escultural; não parecia passar dos 25 anos.

- Olá, garota! – Ela olhou em minha direção. – Como se chama?

- Lyanna.

- Sou Lady. – Ela se aproximou, até que sua boca encostasse-se a meu ouvido. Dante mexia em alguns pacotes que ela trouxera. – Se fosse você, ficava bem longe dele. Dante pode até ser bonito, mas não vale o trabalho.

- O quê? –Eu fiquei ainda mais vermelha. – Eu não tenho esse tipo de intenção!

- Não? – Ela me olhou com surpresa. – Então porque está vestida desta maneira?

Eu olhei para baixo nervosa com o que encontraria. Meu corpo estava coberto apenas por uma camisa social preta masculina que cobria até metade de minhas coxas. Quando voltei a olhar para Lady, ela deu uma piscadela insinuante. Naquele momento tudo que pude pensar foi em quem havia trocado minhas roupas, e fiquei ainda mais vermelha. Foi quando eu senti alguns tecidos acertarem meu rosto e lancei um olhar raivoso para Dante.

- Não me olhe com essa cara, doçura. Estava esperando Lady para te dar roupas femininas. Ao contrário do que você pensa, eu não sou um tarado que guarda roupas desse tipo aqui em casa.

Eu agarrei as peças e desviei o olhar, mais por vergonha do que por raiva; já que o que ele dissera fazia sentido. Andei até o quarto dele e decidi tomar um banho. Depois de terminar de me arrumar, voltei a descer.

- Eu acredito que tenhamos algumas respostas para você, criança.

- Eu já disse para parar de me chamar assim! Sou poucos anos mais nova do que você!

Ele se limitou a lançar um olhar de desprezo, o que me deixou com ainda mais raiva.

- De qualquer maneira, as coisas podem melhorar para você agora. – Lady disse com um sorriso.

- O que quer dizer com isso?

- Descobrimos a razão de você ir para o Limbo.

- Como?

- Nos dias em que você estava dormindo eu fiquei a procura de informações. – Dante disse calmamente e fez com que minha raiva por ele diminuísse. – Falei com alguns Devil Hunters que conhecia e consegui encontrar isso. – Ele mostrou um livro grosso para mim, com um sorriso presunçoso enfeitando seu belo rosto.

- E o que é isso?

- Abra e leia. A razão do que acontece com você está toda escrita aí. – Ele me deu um livro e eu me senti frágil com ele. Havia passado tanto tempo sem saber nada sobre mim e de repente toda a verdade estava ali, pronta para ser descoberta.

- Eu não posso. – Devolvi o livro a Dante que estava surpreso. – Preciso de um ar.

Antes que eles pudessem protestar, sai da loja e sentei na escada respirando fundo. Nenhum dos dois veio atrás de mim por algum tempo. Eu estava um pouco mais tranquila quando Dante abriu a porta e sentou-se ao meu lado sem falar nada. Parecia aproveitar o momento de paz.

- Talvez eu seja realmente uma criança. – Reclamei, sem saber muito bem porque dizia isto justamente para ele.

- Eu sabia que estava certo.

- Isso não está ajudando em nada!

- Eu nunca disse que iria te animar. – Ele deu um sorriso travesso e então olhou seriamente para mim. – Só irei te dizer uma verdade: Saber sobre si e seu passado pode ser ruim, mas pode ser ainda pior não saber.

Eu parei para pensar em suas palavras e soube que ele estava certo. Era infantil fugir da verdade, não importando o quão difícil ela fosse. E eu não poderia continuar sendo uma criança para sempre. Levantei e entrei, sabendo que ele me seguia. O livro de capa dura e detalhes dourados, me desafiava em cima da mesa. Andei até ele e comecei a ler; finalmente conseguiria descobrir sobre quem eu realmente era.

- Eu sou uma humana com descendência de sacerdotisas que faziam pactos com demônios. – Repeti aquela frase pela 10° vez enquanto apertava o colar. – O fato de eu conseguir atravessar o Limbo é um traço característico da família Du Lac. Eu deveria poder controlar quando entro e quando saio.

- Aparentemente é isto. – Dante mordia um pedaço de pizza estirado no sofá. – O colar que você está segurando é um tipo de herança de família, que marca aqueles com habilidades especiais.

- Isso não faz o menor sentindo! Foi a minha mãe que me deu e a minha mãe... – Eu parei de falar.

- O que tem sua mãe?

- Eu não sei. – Olhei para a janela. – Não me lembro dela. – Dante parou de mastigar. – De qualquer maneira, o que eu deveria fazer agora?

Ele levantou e andou até mim. Parou a poucos centímetros, seu rosto sério.

- Se torne uma Devil Hunter.

- O quê?

- Seus poderes seriam úteis, se você treinasse. Você pode se tornar tão forte quanto eu ou Lady.

- Mas...

- Existe algo que a mantenha longe deste trabalho? Ou você tem medo?

- Não é isso! – Exclamei. – É só que eu não sei se estou preparada para algo do tipo... Meus pais morreram por minha causa, e eu não quero que isso se repita nunca. Eu não sei se quero desenvolver essa habilidade.

Dante me encarou sem fazer nenhuma pergunta e eu o agradeci mentalmente por isso. Precisava de meu tempo para conseguir conversar com ele, para falar sobre isso.

- A primeira vez que fui para o Limbo, eu tinha por volta de oito anos. Antes disso, eu só costumava ter horríveis pesadelos com monstros. E quando eu disse que não me lembrava de minha mãe, é porque essa é a única lembrança que tenho antes do “incidente”. Ela me deu o colar e disse que se eu sempre o usasse, não teria mais pesadelos. – Apertei ainda mais o colar. — Até hoje eu não sei muito bem o que aconteceu, apenas que em um momento eu estava na sala com os dois e de repente tudo havia se tornado obscuro e macabro. Eu fui inconscientemente para o Limbo, e o pior de tudo: arrastei os dois comigo.

Respirei fundo, me preparando mentalmente pelo que vinha pela frente. Eu nunca havia dividido aquelas memórias com ninguém. Nunca havia dito aquelas palavras a ninguém. Lá fora, uma leve chuva começava e ficava cada vez mais escuro. Dante esperava paciente.

- Como você sabe, o Limbo não é um lugar receptivo para os humanos. Imediatamente estávamos cercados por demônios. Eu era apenas uma criança... E os meus pais fizeram a única coisa que estava ao alcance deles: eles lutaram para que eu pudesse sobreviver. Eles se sacrificaram e me mandaram fugir. E eu não pude fazer absolutamente nada, além de correr enquanto eles morriam por minha causa.

Uma lágrima caiu do meu olho direito e eu percebi o quanto aquelas poucas palavras me machucavam. Ouvi Dante se levantar do sofá e se aproximar.

- Eu tenho certeza que eles fizeram isso porque lhe amavam.

- Eu não tenho dúvidas. Eles me amavam e como eu retribui? Sendo a causa da morte deles! – Fechei meus punhos com raiva e soquei o batente da janela. – O que aconteceu foi minha culpa! Porque EU não podia controlar meus poderes!

- Não foi sua culpa, doçura. – Ele tocou meu ombro com delicadeza, coisa que eu achava impossível vindo dele. – Mas você pode mudar isso agora, você pode evitar que mais pessoas se machuquem. – Ele tocou meu colar, o observando atentamente. – Você não sabia nada sobre seus poderes, mas agora...

- Mas agora eu sei. – Fechei os olhos e limpei a lágrima. – E não vou permitir que mais ninguém se machuque por minha causa!

- É assim que se diz. – Ele deu um sorriso travesso.

- E você irá me ajudar!

- E eu irei... – Ele parou de falar. – Nada disso! Isso não é um problema meu!

- Foi você que disse que eu deveria me tornar uma Devil Hunter! Agora não pode fugir assim! Terá que me treinar!

- Lady pode fazer isso. Ou alguma outra pessoa. Sinto muito, mas eu não quero problemas para o meu lado, doçura.

- Você a salvou Dante. Lide com ela agora. – Lady surgiu de uma porta com uma expressão séria. – Você já me deve muito, e eu já ajudei com as informações. Agora tenho que ir.

- Espere!

- Aproveitem enquanto eu estiver fora! – Ela piscou maliciosa enquanto fechava a porta e fugiu descaradamente.

- O que ela quis dizer com aquilo? – Perguntei inocentemente. – De qualquer maneira, somos apenas nós dois agora Dante e você não pode fugir!

- Eu nunca disse que queria fugir. – Ele deu um sorriso travesso. – E existem maravilhas que podemos fazer a dois.

- Não foi o que eu quis dizer! – Senti meu rosto esquentar e sabia que estava vermelha pela maneira que ele ria. – Você irá me treinar até que eu me torne uma Devil Hunter. E isso será um acordo.

- Parece que não tenho escolha. – Ele suspirou cansado. Então levantou e ofereceu sua mão. – É um acordo.

Deu um sorriso enquanto sacudíamos nossas mãos. A partir daquele momento, eu finalmente poderia fazer a coisa certa.

- Eu posso te treinar de outras maneiras também, se quiser.

- Dante! – Resmunguei dando as costas a ele. Depois de alguns minutos congelei onde estava. – Me diga que você tem outro quarto, por favor.

- Porque eu teria? Sou um caçador solitário, há não ser por algumas visitas especiais que ficam exatamente onde você acordou esta manhã. – Preferi não encara-lo, pois sabia que ele riria de minha expressão envergonhada.

- Como um ótimo cavalheiro você irá dormir no sofá, não é mesmo? – Perguntei sabendo que minha voz soava insegura e nervosa.

- Quem lhe disse que eu sou um cavalheiro? – Sua voz rouca fez com que minha espinha se arrepiasse de uma maneira diferente. – Como eu estava dizendo antes... Existem maravilhas que podemos fazer a dois.

- Você era tão inocente naquela época... – A voz fraca dele me fez voltar ao presente. Dante não estava fazendo piadas de duplo sentido, nem mesmo rindo de minhas reações. Ele estava morrendo em meu colo e eu não podia fazer nada para evitar.

- Eu ainda sou... – Respondi com um sorriso fraco.

- Eu não acredito... – Ele também sorriu, mas foi interrompido por um acesso de tosse e expeliu sangue. Mais lágrimas se formaram em meus olhos. – Eu a corrompi, doçura.

Não pude evitar rir, mesmo estando no meio daquele gigantesco desastre.

O Limbo queria nos engolir, desmoronando e criando buracos ao nosso redor. Os corpos dos demônios caiam assim como tudo que estava ali. Eu e Dante estávamos no meio de tudo aquilo, segurando um ao outro. Tentando evitar o inevitável.

Mais algumas imagens vieram a minha mente. Nelas, Dante e eu discutíamos sobre futilidades, ou comíamos pizza. Algumas vezes ele brigava comigo, dizendo que se eu não conseguisse me concentrar nunca poderia entrar ou sair do Limbo. Outras ele brigava dizendo que eu tinha uma péssima mira e que deveria desistir de usar revolveres. Em outra lembrança, dois anos depois de nosso encontro, ele me presenteava com uma espada. Uma espada maravilhosamente bela, com o punho, a bainha e a lâmina de um branco puro e parecido com gelo; e que mais tarde foi a razão dela receber o nome “Ice”.

- Isso é culpa minha, seu eu não o tivesse trazido...

- Não diga isso. Você nem mesmo queria me trazer, fui eu quem insisti. – Ele tocou novamente o colar, em um gesto de afeição. – Tudo isso é culpa minha.

- Nós iremos para casa, Dante. – Eu coloquei minha mão no colar, sobre a dele.

- Você irá para casa. – Ele me olhou sério. – Eu sei que você não têm forças para levar nós dois para o mundo humano. E mesmo que tivesse, as chances de eu sobreviver seriam mínimas. Você irá me deixar aqui, e não iremos discutir sobre isso.

- Eu não vou permitir algo assim, seu cabeça-dura!

- Tem certeza de que irá usar essa expressão justo comigo? – Ele falava fraco, mas eu sabia que ele pensava com malícia, como era característico dele.

- Eu não posso fazer isso...

- Mas irá. – Ele fechou os olhos e ficou em silêncio por alguns segundos. Um terrível desespero tomou conta do meu coração enquanto ele tomava uma expressão de paz.

- Dante!

- Se acalme, eu ainda não morri, doçura. – Ele sorriu.

- Eu preciso te falar uma coisa. – Tentei segurar as lágrimas por alguns minutos e fazer que minha voz voltasse ao seu tom decidido e forte de sempre. – Eu não esperava que fossem em condições como essas, mas eu acho que não tenho escolha.

Seus olhos claros estavam grudados nos meus, e eu não queria que fosse diferente. Senti que o fim estava cada vez mais próximo, a escuridão nos rodeando e destruindo coisas que estavam mais próximos de nós.

- Eu sempre estive guardando este sentimento, pois não queria te afastar... – As lágrimas com quem eu havia lutado ressurgiram. – Mas eu sempre... Eu sempre... Te amei, Dante.

- Eu sabia. – Ele sorriu calmamente. Com dificuldade levou mão machucado e tocou minha cabeça, a puxando para baixo, de encontro com a sua que se levantava com lentidão. – Eu sempre soube, Lyanna.

Nossos lábios se tocaram com delicadeza em um primeiro momento. Segundos mágicos em que eu pude me esquecer de nossas circunstâncias e tudo que ocorria. Eu podia sentir sua mão acariciando meus cabelos e mais imagens divertidas surgirem em meus pensamentos. Todas aquelas emoções misturadas em poucos segundos. Então Dante aprofundou o beijo e eu correspondi com a mesma intensidade, sentindo o gosto salgado de minhas lágrimas, do sangue e suor. Por mais estranha que fosse nossa posição, por mais estranho que fosse a situação que nos encontrássemos: suados, machucados e no meio de um abismo sem saída, eu sabia que aquele seria o melhor beijo que eu teria. A intensidade aumentou cada vez mais, e então estávamos nos beijando com desespero, em meio a um frenesi. Dante se retorcia para conseguir ficar de joelho a minha frente enquanto eu segurava seu pescoço e puxava seu corpo para cada vez mais perto de mim. Suas mãos tocavam minha cintura e deixavam um rastro de sangue e eletricidade por onde passavam. Mas lutando contra toda a minha vontade, tive de me separar dele para respirar. Nossas testas encostaram se em mútuo apoio.

- Você só vai sofrer mais se ficar nessa posição. – Falei enquanto segurava seus ombros que pareciam prestes a desabar.

- Ao menos me deixe aproveitar meus último momentos. – Ele se afastou um pouco e sorriu. – Eu já disse o quão bonita você fica corada?

Senti meu rosto ficar ainda mais quente, mas eu não sabia dizer se era pelas palavras dele ou pelo calor que sentia depois daquele beijo. Um estrondo me fez acordar, me lembrou de onde estávamos e de que nosso tempo estava chegando ao limite.

- Você ainda precisa repetir isso diversas vezes, ou eu não acreditarei.

Ele riu, e nossos olhos se encontraram compartilhando pensamentos com a mesma intensidade. Dante ergueu uma de suas mãos e a depositou com delicadeza sob meu coração. Eu sabia que ele batia intensamente, exprimindo o desespero, ansiedade e toda a adrenalina que eu sentia naquele momento.

- É isso que os humanos chamam de... Coração?

- Não. – Eu coloquei minha mão sobre a dele, sentindo que o calor começava a se extinguir de seu corpo. Poucos segundos nos restavam, mas eu ficaria ao seu lado até o último momento. Tudo ao nosso redor havia se tornado uma escuridão infinita, mas eu não tinha medo. O que importava era que ele estava ao meu lado. – Isso é o que os humanos chamam de amor, Dante.

- E você acredita que um demônio como eu possa saber o que é isso?

- Você não é um demônio, Dante. – Eu senti o Limbo me puxando, me obrigando a desaparecer, mas eu insistia em lhe negar tal. – Você é humano. – Eu apertei sua mão com mais força e senti que ele devolvia o aperto. Nossas mãos estavam ligadas, assim como nossos corações. – Você sabe o que é o amor.

Ele sorriu uma última vez.

- Talvez eu saiba.

No momento seguinte eu usava minhas habilidades com o restante de força que tinha. As garras do Limbo me procuravam e tentavam me agarrar, me levar para o desespero; mas eu sabia me defender e fugia de todas elas. As mãos de Dante não estavam mais juntas a minha, porém eu ainda sentia o calor que emanava e sentia as lágrimas rolarem pelo meu rosto. A escuridão foi desaparecendo aos poucos e quando abri meus olhos novamente vi belíssimas estrelas enfeitando o céu escuro. Senti areia pinicar os meus machucados e incomodar meu corpo; além da água salgada que batia em minha cintura e voltava para os meus pés em um ciclo infinito. O calor de antes havia desaparecido, e meus olhos se fechavam, sem forças para resistir ao cansaço. Novamente eu estava sozinha.

A luz me cegou e fechei meus olhos mais uma vez. Depois de alguns minutos lutando contra a claridade, finalmente consegui distinguir um pouco das coisas ao meu redor. O teto era branco, assim como as paredes e a cortina flutuante na janela aberta. Senti que respirava com um tubo no meu nariz e percebi as máquinas que reproduziam o som do meu coração. Abri a boca para falar alguma coisa, mas senti minha garganta seca e só consegui reproduzir alguns resmungos. Meu corpo inteiro doía, assim como minha cabeça; mas pelo menos estava viva.

- Dante. – Consegui chama-lo com dificuldade e senti meu corpo se agitar. Aos poucos conseguia me movimentar. O som dos meus batimentos cardíacos aumentava enquanto eu lutava para me mexer. – Dante.

A porta foi aberta com rapidez e entraram dois médicos e uma enfermeira. Eles me deitaram novamente, mas eu lutava para me mexer, para ficar acordada. Precisava ir atrás de Dante. Ele não podia estar morto.

- Dante!

- Está tudo bem. – O médico disse com tranquilidade. Eu quis dar um soca na cara dele. Nada estava bem. Dante estava morto. – Vai ficar tudo bem.

E no momento seguinte, senti uma picada no meu braço e meu corpo ficou fraco, meus olhos lutavam para ficarem abertos. O maldito havia aplicado morfina em mim. Lutei por mais alguns segundos, até que a inconsciência me atingiu novamente.

Na segunda vez em que acordei, já estava um pouco mais tranquila. Alguns médicos conversavam perto de mim, mas eu não conseguia entender o que falavam. Até que um deles se aproximou e deu um sorriso gentil para mim enquanto se sentava.

- Está mais tranquila agora?

Acenei com a cabeça. Falar parecia exaustivo demais para mim.

- Nós não conseguimos contatar nenhum parente da senhorita, nem mesmo sem nome. Poderia me dizer algo que ajude?

- Dante. – Exclamei com dificuldade. Sentia sede, muita sede.

- Você ficou repetindo esse nome durante todo o tempo, mas não conseguimos encontra-lo. Saberia dizer seu sobrenome?

Agitei a cabeça em negativa.

- E quanto a senhorita? Qual é o seu nome?

- Lya... – Tossi. – Lyanna.

- Certo. – Ele escreveu em um papel. – Sente alguma coisa senhorita Lyanna?

- Sede.

- Eu trarei um copo de água. – Ele chamou uma das enfermeiras que rapidamente se retirou. – Como você está consciente tentarei conversar com você. Nós a encontramos em uma praia com diversos machucados e desmaiada. Tivemos de induzir o coma, pois encontramos sinais de derrame. Você está seguindo meu pensamento?

Concordei com a cabeça.

- Você está no hospital por volta de três semanas. Quais são suas últimas memórias?

Sangue, escuridão e o rosto de Dante. O gosto de seu beijo, sua voz rouca e seu sorriso belo. E então a destruição, a morte e a solidão. A enfermeira entrou no quarto com uma jarra de água e serviu no copo. Então os dois funcionários do hospital ajudaram a me acomodar de uma maneira que eu pudesse matar minha sede. Depois de quatro copos cheios, finalmente eu estava satisfeita.

- Eu estava em casa... – Menti usando minhas melhores habilidades. No momento até me arrependia de ter dito meu nome verdadeiro. – Descendo as escadas e então... Não me lembro de mais nada.

O médico escreveu mais uma vez naquela folha.

- Quem seria Dante?

Segurei o choro e respirei fundo.

- Meu marido. Ele estava comigo, mas... Vocês não o encontraram, não é mesmo?

- Infelizmente não. – Ele anotou mais algumas coisas. – Acredito que a senhorita não esteja com nenhum tipo de sequela além de perda de memória recente, algo normal em casos como o seu. Ficará em observação por mais uma semana e fará mais alguns exames, e então poderá voltar para casa.

Olhei para a janela e a imagem da loja de Dante veio a minha cabeça. Devil May Cry era minha casa, mas ele não estaria mais lá, o que era o mais importante para mim.

- Se precisar de algo, é só me chamar.

Acenei com a cabeça e dei um sorriso fraco. Ele e a enfermeira saíram me deixando sozinha. Fechei os olhos em um gesto de fuga e quando percebi já estava dormindo novamente.

A semana passou mais rápido do que eu esperava e quando percebi já havia saído do hospital. Andando pela cidade eu não sabia muito bem para onde ir, ou o que fazer. Sem Dante, eu me sentia completamente solitária, o que não acontecia há muitos anos. Quando percebi estava em frente a loja, a luz brilhante vermelha evidenciando o nome do lugar e a sombra de Dante segurando Ebony e Ivory.

Com insegurança andei até a porta e puxei a maçaneta, encontrando-a aberta. Entrei e fechei a porta atrás de mim, observando cada detalhe daquele canto em que havia passado tanto tempo. Andei até a escrivaninha de madeira e toquei o telefone com melancolia. Dante estava morto, e nunca mais atenderia ao telefone. Nunca mais faria suas piadas maliciosas, nem comeria pizza ou pediria para que eu fizesse um sundae de morango para ele, nem lutaríamos juntos novamente. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto e eu dei as costas para a escrivaninha; estava quase indo embora quando ouvi o telefone tocar. Receei por alguns segundos, mas acabei atendendo.

- Devil May Cry, como posso ajuda-lo?

- Eu estou procurando por uma pessoa. – Uma voz masculina respondeu. – Ela desapareceu há mais ou menos um mês.

- Sinto muito, mas no momento nosso... – Procurei pelas palavras certas. – Atendente não está trabalhando.

- É uma pena. – Ele respondeu em um resmungo. – A pessoa que procuro é muito importante para mim.

- Eu sei exatamente como se sente, senhor.

- Sabe mesmo? – Senti um arrepio percorrer minha espinha quando notei que a voz vinha do telefone e de alguém próximo de mim. Segurei com mais força o aparelho e respirei fundo. Contei até três e me virei encontrando o homem segurando um aparelho de celular, com um sorriso travesso no rosto.

Não consegui segurar minhas lágrimas.

- Dante! – Larguei o telefone e corri até ele pulando em seus braços, agarrando seu pescoço e seu casaco; tentando fundir nossos corpos por alguns minutos e então permitindo que ele se afastasse. – Como?

- Você não se lembra? – Ele segurava meu corpo com apenas um braço graças a sua força sobre-humana e tocava meu rosto com a outra. – De alguma maneira você conseguiu tirar nós dois do Limbo, mas algo aconteceu e nós nos separamos. Quando acordei estava em um hospital do outro lado do país, mas estava vivo. Consegui me recuperar mais rápido graças ao sangue demoníaco.

- Isso não importa. – Eu voltei a colocar meus pés no chão, sem soltá-lo. – Eu nunca mais vou deixar você se afastar!

- Era exatamente o que eu esperava. – Ele deu um sorriso malicioso e me beijou. Dessa vez começou com um beijo calmo onde nós aproveitávamos o tempo para explorar cada pedaço do outro, para descobrir novas sensações. Dante tocava minha cintura e levantava minha blusa em um movimento sensual enquanto eu segurava seus cabelos e puxava-os.

No momento seguinte eu estava em cima da escrivaninha, com ele entre minhas pernas. Seu toque me encorajou a arquear as costas e soltar um gemido baixo. Ele sorriu e colocou seus lábios em meu pescoço, repetindo movimentos circulares com sua língua e sugando minha pele com força e de uma maneira que deixaria marcas. Eu arranhei suas costas e voltei a puxar sua cabeça para cima, incitando mais um beijo. Então, coloquei minha mão em seu rosto carinhosamente e quando nos separamos, não pude evitar um sorriso de alívio.

- Bem vindo de volta, Dante.

Notas finais
Espero que tenham gostado e se puderem comentem!
Apenas uma palavra ou duas já fazem uma diferença enorme para mim!
Aceito críticas, elogios e sugestões!
Muito obrigada por lerem!

Créditos da capa da história: http://iridelity.deviantart.com/art/Art-Trade-Dante-X-Phoebe-362143482
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!