Notas iniciais
Mais um capítulo! Desta vez, é narrado pela Scully! Boa leitura!

O carro que Mulder dirige sacode consideravelmente à medida que passamos por um extenso e desnivelado caminho de terra, já dentro da propriedade da família Barden.

Apesar da escuridão da noite, consigo perceber que a fazenda é enorme e se estende por todos os lados, ocupando hectares e mais hectares de terra. Consigo ver também muitas plantações à distância. Pela altura, parece ser um vasto milharal.

Há algumas cabeças de gado espalhadas pela fazenda também, e um dos animais, dentro de um cercado, ergue o pescoço quando o carro passa por ele, mas continua mastigando uma boa quantidade de capim, sem se deixar abalar pela nossa presença.

De repente, avisto o que parece ser um celeiro à minha direita. Apesar da distância e da escuridão, percebo que ele foi construído com um tipo de madeira bem avermelhada.

Quando volto a olhar para a frente, finalmente vejo uma casa. Uma enorme casa, por sinal. Possui dois andares e, ao que tudo indica, um sótão também. As luzes do andar de baixo estão quase todas acesas e reconheço o vulto de um homem abrindo a porta da frente, pouco antes de Mulder estacionar o carro em frente a propriedade.

Neste momento, eu só consigo pensar em duas coisas. Um, estou exausta. E dois, onde foi que Mulder me trouxe mesmo?

Ainda estou me perguntando isso, quando abro a porta e saio do carro junto com ele.

Há um cheiro de terra molhada no ar, provavelmente choveu há pouco tempo, e uma brisa suave me atinge.

Assim que meus sapatos tocam o chão arenoso e endireito minha postura, o tal homem, que aparenta ter uns quarenta anos, tem um corpo robusto, cabelos negros e grossos caindo por sua testa, além de um óculos que lhe dá um ar meio desajeitado, se aproxima, me estende a sua mão direita e me cumprimenta com um sorriso simpático:

— Você deve ser Dana Scully, certo?

Não é preciso muito esforço para deduzir quem ele é.

— Christopher Barden? — digo, apertando a mão dele, que assente com um breve meneio de cabeça. — Prazer em conhecê-lo.

— O prazer é meu — ele retribui. E, olhando para o meu parceiro de FBI e amigo, sorri mais largamente, dá um tapa em suas costas e acrescenta: — Então, ela veio mesmo, não é? — e voltando-se para mim de novo, solta simplesmente: — O Mulder fala tanto de você que é como se eu já te conhecesse, Srta. Scully. Fala bem, é claro. Muito bem, eu diria.

É inevitável. Arqueio as sobrancelhas e olho para Mulder com certa curiosidade. O que será que ele tanto falou de mim para o seu amigo fazendeiro e ufólogo?

Com certeza, deve ter sido algo bem interessante, já que meu parceiro ri um pouco sem graça e desconversa:

— O Chris só está brincando.

Não resisto e, me fingindo de ofendida, indago:

— Então você não falou bem de mim?

Mulder ri mais uma vez, olha rapidamente para Barden, como se lhe perguntasse por que ele teve que deixar aquele detalhe escapar, depois relaxa um pouco, olha para mim e esclarece:

— Eu não falo bem de você para as pessoas, Scully. Eu falo apenas a verdade.

Por essa eu não esperava, mas claro que gostei muito do que ouvi. E claro que isso só me deixa mais curiosa, porém não tenho tempo para aprofundar o assunto, já que Barden sorri e se manifesta de repente:

— Vamos entrar? Minha esposa acabou de colocar a mesa do jantar.

Por um momento, me lembro de como estou cansada e de que tudo o que desejo é um bom banho e uma cama para dormir por algumas horas. No entanto, confesso que uma parte de mim — mais precisamente o meu estômago — se esquece disso e se anima diante de tal convite. Então, observo Mulder retirando a minha mala do carro e, em seguida, nós três caminhamos em direção à casa.

Assim que adentramos uma enorme sala de estar, com móveis um tanto rústicos e um ar bem interiorano e aconchegante, Mulder deixa a minha mala ao lado de uma poltrona.

Quase no mesmo instante, uma mulher de aproximadamente trinta e poucos anos, feições delicadas e simpáticas, com cabelos loiros e presos em um coque no alto de sua cabeça, caminha até mim, passa as mãos rapidamente por um avental xadrez que cobre parte do seu vestido azul celeste, e me cumprimenta sorrindo:

— Olá, eu sou Mary, esposa do Chris.

— Dana — me apresento, apertando sua mão por alguns instantes.

— Seja bem vinda, Dana — ela fala gentilmente, antes de nos indicar um corredor e completar: — Você deve estar com fome, certo? Me disseram que a comida nos aviões é horrível.

Permaneço parada, assim como os demais, apesar do convite de Mary, e procuro evitar certa surpresa que surge dentro de mim, afinal, é difícil de acreditar que uma mulher na casa dos trinta anos nunca tenha viajado de avião antes.

No entanto, me dou conta de que não existe uma regra sobre isso. Algumas pessoas precisam viajar de avião constantemente, outras não. Algumas gostam e viajam sempre que possível. Algumas tem medo e, por isso, evitam ao máximo. E outras, simplesmente, nunca tiveram a oportunidade.

Não sei em que categoria Mary Barden se enquadra, mas resolvo esquecer esta questão e simplesmente brinco:

— Eu nem sei se posso chamar aquilo de comida, mas sim, não é das mais saborosas.

Tanto ela, quanto seu marido, riem do que eu falei. E assim que os risos cessam, Mulder questiona:

— Cadê a Mia?

— Ela não aguentou o sono e acabou dormindo no sofá — Mary explica com um sorriso sereno nos lábios, me fazendo deduzir que Mia deve ser sua filha.

Isso se confirma, quando Barden acrescenta com um carinho quase palpável:

— Eu a levei para o quarto, pouco antes de vocês chegarem.

Um pouco frustrado, meu parceiro de FBI se volta para mim e lamenta:

— Que pena. Você vai gostar da Mia, Scully. Ela é uma garota muito esperta e está louca para te conhecer.

Não resisto e uma pergunta simplesmente escapa da minha garganta:

— Por quê? Por acaso, você falou de mim para ela também?

Mulder me encara um pouco surpreso — sem graça, eu diria — e chega a abrir a boca para responder, mas acaba desistindo de dizer qualquer coisa, quando Mary alerta de um jeito gentil, indicando o corredor novamente:

— O jantar está esfriando. Por aqui.

Dou um passo à frente, porém, me detenho ao lembrar de algo importante, e na sequência pergunto:

— Ah... Por favor, onde é o toalete? Eu preciso lavar as mãos antes.

Prontamente, o seu marido me orienta de um jeito simpático:

— Subindo as escadas, última porta à sua direita. Fique à vontade. Mi casa es su casa.

Sorrio diante do jeito irreverente com o qual ele disse a última frase, assinto com um meneio de cabeça e, em seguida, caminho até a escada, enquanto os três seguem para a sala de jantar.

Ainda um pouco desconfortável por estar em um ambiente completamente novo, subo os degraus sem pressa e um pouco hesitante, passando meus olhos por tudo em volta. Logo, alcanço um corredor no andar superior. Ele é ladeado por várias portas e, em alguns pontos, há pequenas mesas, nas quais vejo enfeites variados, vasos com flores, alguns livros, que variam de receitas de bolos a teorias sobre a existência de alienígenas, e também alguns porta-retratos.

Estou quase alcançando a última porta à direita, quando uma das fotografias chama a minha atenção, me fazendo deter o passo e observá-la mais de perto.

A foto parece ter sido tirada há algum tempo, já que os cabelos de Mary estão mais curtos do que agora. Além dela, encontram-se na imagem Christopher e uma garotinha, que deduzo ser Mia. Os três estão sorrindo em um dia ensolarado, todos sentados em um gramado diante de uma toalha com alguns alimentos e bebidas. Um piquenique tranquilo em família.

Ao lado deste porta-retrato há outro com uma foto bem mais antiga. Christopher devia ter no máximo uns quatorze anos quando ela foi tirada, mas mesmo assim os seus principais traços e o formato quadrado do seu rosto estão lá, bem visíveis, o que me faz reconhecê-lo quase imediatamente.

Christopher não está sozinho na fotografia, há uma garota um pouco mais nova abraçada a ele. Ambos estão sorrindo e a semelhança gritante em alguns traços me faz deduzir que os dois são irmãos.

Olho uma última vez para as duas fotografias e, em seguida, me dirijo ao banheiro.

XXX

Poucos minutos depois, quando adentro a sala de jantar e me sento à mesa, Mulder e Christopher estão conversando com empolgação sobre o que o meu parceiro de FBI disse ter presenciado no caminho até a fazenda. O estranho clarão e os nove minutos que Mulder alega que nós perdemos de alguma forma misteriosa.

Sobre tais minutos, minha aposta continua sendo um possível defeito na bateria. Quanto ao clarão, não sei o que pensar, já que apenas Mulder o presenciou. Mas, com certeza, existe milhares de explicações possíveis para tal fenômeno. Provavelmente, foi só um relâmpago.

Nem Christopher nem Mary viram o tal clarão de onde estavam, mas mesmo assim ele está visivelmente empolgado com o relato de Mulder e parece convencido de que o ocorrido tem mesmo origem alienígena. Claro, afinal Christopher é um ufólogo.

Mary não parece crente nem descrente em relação à teoria, apenas intrigada. Atenta a cada detalhe da conversa.

Enquanto saboreio o jantar, analiso ela e o marido discretamente. Eles parecem tão diferentes. Mary parece ser uma pessoa extremamente gentil e sensata. Já Christopher... Bem, de alguma forma, ele me lembra Mulder.

Não é surpresa alguma que os dois tenham ficado amigos. Além da semelhança entre os temperamentos, os dois acreditam na mesma coisa, que nós não estamos sozinhos no universo. Mais do que isso, que seres de outros lugares do espaço, por algum motivo, estão vindo até nós com frequência, nos espreitando constantemente.

A comida está tão saborosa e estou tão cansada da viagem que resolvo não me intrometer na conversa de Mulder e seu amigo.

Amanhã eu terei a oportunidade de ver o que meu parceiro tanto quer mostrar, algo que aconteceu nessas terras bem antes do tal clarão. E então eu pensarei em tudo com calma, investigarei a fundo, analisarei cada fato e o ajudarei a solucionar este mistério. Se é que ele realmente existe. Aposto que não deve ser nada empolgante, muito menos alienígena.

XXX

Depois do jantar, tomo um banho relaxante, mas rápido, pois não quero abusar da hospitalidade da família Barden.

Além disso, tenho pressa em me deitar e dormir. O dia foi longo, a viagem exaustiva e cada parte do meu corpo clama por um pouco de descanso, por uma boa cama e uma justa noite de sono.

Estou pensando nessas coisas, quando adentro o quarto, vestindo um roupão que Mary me cedeu antes do banho e secando meus cabelos com uma toalha.

Levo um susto e detenho o passo, ao ver que Mulder está deitado sobre a minha cama, bem tranquilo, balançando os pés — calçados com os sapatos que ele não tirou desde que chegamos aqui e próximos demais do lençol, para meu desespero —, e folheando uma revista qualquer, como se fosse a situação mais natural do mundo ele estar no meu quarto, na minha cama, como se não houvesse nada de estranho nisso.

Tudo bem, Mulder já fez coisas assim antes. Eu já devia estar acostumada e, no fundo, nem acho mais tão estranho assim, mas ainda me sinto um pouco desconfortável quando ele ignora os limites da nossa amizade e invade a minha privacidade e o meu espaço. Não sinto raiva, mas um certo temor de que, em algum momento, eu também acabe me esquecendo de tais limites.

Não sei por que pensei nisso agora, mas afasto este pensamento e então pergunto com certa indignação:

— Mulder, o que você está fazendo aqui?

Finalmente notando minha presença, meu parceiro fecha a revista, a joga sobre o criado mudo ao lado da cama, se levanta tranquilamente, indica a minha mala perto do guarda-roupa e responde, enquanto se aproxima de mim:

— Eu vim trazer as suas coisas. Ah! E claro, saber se está tudo bem. Você estava tão calada durante o jantar.

Mulder para na minha frente e eu franzo o cenho, me perguntando o que ele quer dizer com essa observação. Em seguida, replico calmamente:

— Eu só estou cansada. E ainda não sei o que pensar sobre este caso. Se é que é um caso realmente.

— Eu te garanto que é — afirma resoluto. E, depois de me analisar atentamente e talvez percebendo que eu não tenho tanta certeza assim, ele questiona: — Você está achando isso maluquice, não é? Perda de tempo?

Respiro fundo e respondo pacientemente, tomando cuidado para não magoá-lo de alguma forma:

— Foi como eu disse, eu ainda não sei o que pensar. É cedo demais para cogitar qualquer teoria, mesmo porque eu ainda não vi o que você quer me mostrar nesta fazenda, então eu não tenho nenhuma base para opinar a respeito — e após um breve instante em silencio, concluo: — Mas, não. Eu não acho que isso seja uma perda de tempo. Ajudar você nunca é uma perda de tempo, Mulder.

— Obrigado — ele agradece com um leve sorriso e com uma sinceridade que me toca.

Por um instante, desejo que haja algo realmente interessante e que mereça atenção acontecendo neste lugar. Não quero ver Mulder desapontado no final. Já vi isso acontecer tanto que, às vezes, desejo estar errada e que ele esteja certo.

Claro que desejar isso nesta situação significa acreditar que nós não estamos sozinhos no universo. E mesmo que eu queira acreditar, não sei se consigo.

Não faz sentindo para mim que seres inteligentes de outros planetas existam e nos visitem regularmente. Não faz sentindo para mim que eles, existindo, tenham algum interesse neste lugar, neste planeta, em nós. Talvez nos filmes, mas na vida real... Não, definitivamente, eu não acredito.

Estou pensando nessas coisas, quando percebo que o silêncio reina entre mim e Mulder, que continua sorrindo de um jeito discreto, enquanto me encara de uma forma indecifrável.

O que será que ele está pensando? E por que ainda está aqui?

Me sentindo desconfortável de novo, olho tudo em volta, avisto a minha mala, depois volto a fitá-lo e agradeço, esperando que Mulder entenda o que eu quero dizer:

— Obrigada por ter trazido a minha bagagem.

— Sem problemas — ele diz simplesmente e continua parado diante de mim.

Pigarreio discretamente e tento outra coisa:

— Sabe... Eu adoraria dormir um pouco agora.

Para minha surpresa, Mulder concorda, mas permanece parado:

— Sem problemas.

Isso está começando a ficar estranho... E o pior é que eu nunca sei quando Mulder está tentando me tirar do sério ou quando está simplesmente distraído mesmo.

Tentando solucionar este verdadeiro impasse, penso por um instante, depois abro um pouco os braços, indicando os meus trajes de banho, e decido ser mais direta:

— Eu preciso vestir um pijama primeiro, se você não se importa.

O sorriso do meu parceiro de FBI se alarga, quando ele repete com um olhar sugestivo na minha direção:

— Não, eu não me importo. Sem problemas. Vai em frente.

O espanto toma conta de mim e eu exclamo constrangida, checando se o roupão está bem atado:

— Mulder!

Para me alívio, ele ri um pouco do meu visível embaraço, depois se aproxima mais, dá um beijo carinhoso na minha bochecha, recua e esclarece:

— Eu só estava brincando, Scully. Eu vou te deixar sozinha agora, não se preocupe. Eu só queria ver o que você diria para me enxotar.

— Eu não estou te enxotando — protesto indignada. — Eu só... — paro de falar, quando percebo que Mulder está rindo de mim. — Você só estava brincando, certo? — deduzo com um resmungo e cruzo os braços contra o peito, sem gostar da brincadeira.

— Sim — ele confirma, ficando sério aos poucos, enquanto me encara por algum tempo. Em seguida, finalmente voltando a si, Mulder me olha uma última vez, caminha até a porta e me deseja: — Bons sonhos, Scully.

— Pra você também, Mulder. Até amanhã — retribuo, sentindo um estranho vazio quando ele fecha a porta atrás de si, me deixando finalmente sozinha no quarto.

Rio levemente de toda aquela situação e, quase sem perceber, levo a mão à minha bochecha, sentindo que a região que Mulder beijou está um pouco quente e formigando.

Em seguida, afasto a mão, respiro fundo, paro de pensar nessa sensação e olho para a minha mala perto do guarda-roupa.

Eu devia abrí-la e procurar pelo meu pijama, mas, ao invés disso, passo os olhos pelo quarto novamente e me detenho na revista que Mulder largou sobre o criado-mudo.

Curiosa, caminho até lá e a pego. É uma revista segmentada. O tema? Ufologia, é claro.

Tenho a ligeira impressão de que meu amigo e parceiro não a deixou aqui por acaso. Talvez ele quisesse conversar sobre alguma matéria em específico. Ou talvez... Mulder quisesse me dar uma pista sobre este caso. Uma pista sobre o que verei amanhã.

O que será, afinal? O que está acontecendo nesta fazenda que chamou tanto a atenção de Mulder e me fez pegar um avião às pressas?

Olho na direção da minha mala mais uma vez e, embora eu esteja realmente cansada, resolvo adiar um pouco a minha noite de sono. Então, simplesmente me sento na cama e abro a revista.

Percebo que Mulder marcou uma página em específico, a procuro e me concentro nas imagens que ela reproduz.

Logo, começo a entender o que está acontecendo nesta fazenda. Ou pelo menos, o que Mulder acredita que está.

Notas finais
Huummm.... O que será que está acontecendo nesta fazenda, hein? Respostas (e mais perguntas) no próximo capítulo... Ah! Uma coisa que eu adooooooooro na série é esse climinha de chove não molha entre Mulder e Scully. Shippo forte eheheheheheheh Sendo assim, teremos bastante climinha entre eles nesta história também, maaaaaaas, isso não significa que vai ter romance de fato. Bem, inté o próximo capítulo! Beijos de luz! Reviews?