I Want To Be Your Girlfriend
6 You know I'm right
–Espero que tenham trazido os trabalhos que pedi para hoje – a sra. Clavier, professora de geografia, era idêntica a uma tartaruga centenária, e até se portava como tal. Riza a detestava, e só a odiava menos que à matéria que ela lecionava.
Riza era uma aluna inteligente e aplicada. Jogava handebol para a equipe da escola, adorava redação, tinha um grupo enorme de amigos, era animada e popular. Apesar de ser mais amiga dos garotos da sala do que das garotas, dava-se bem com todo mundo. Seu único problema era com a professora de geografia, que adorava fazer coisas do tipo passar trabalhos enormes para as férias ou o fim de semana e dar provas-surpresa.
–Professora, eu tenho uma observação sobre o seu trabalho – Riza ergueu a mão para falar – A senhora passou questões sobre um capítulo que ainda não tínhamos visto.
–A idéia era que vocês pesquisassem para responder – disse a professora, com uma voz irritada – Se a senhorita não fez, basta dizer.
–Por acaso eu disse que não fiz? – ela deu um sorriso malicioso, e tirou uma pasta impecável de dentro da mochila – Aqui está. Só queria saber se a senhora preferia que fizéssemos a partir do livro-texto ou que pesquisássemos em outras fontes.
–Um a zero, Riza – sussurrou um dos seus amigos, Maes, um rapaz de óculos – Sabe que ela te odeia por fazer isso, não é?
–Sr. Hughes, por acaso tem algo que o senhor queira compartilhar com o resto da sala? – a voz de aspirador de pó velho soou retumbante pela sala. Maes endureceu, assustado, e gaguejou:
–Eu só estava dizendo que o meu trabalho ficou do mesmo jeito que o dela.
–Um a zero, Maes, essa foi brilhante – foi a vez de ela sussurrar, sorrindo. Foi então que sentiu que alguém cutucava suas costas.
–Pelo amor de Deus, Riza, será que dá para você colocar o meu nome no seu trabalho? – era Roy, um rapaz alto e bonito, com cabelos negros brilhantes e olhos escuros que faziam boa parte das meninas suspirarem. Ele era um garoto inteligente, mas seu forte sempre foram as matérias exatas. Ele e Riza tinham um pacto: um segurava as pontas do outro nas matérias em que pudesse. Ela o ajudava com geografia, história e redação, e ele a ajudava com física, química e matemática.
–Cara, você nem tentou fazer o trabalho? – mesmo assim, ela sempre censurava o excesso de cuca-fresca do amigo – Como é que você quer passar nas provas, hein?
–Simples, colando de você – respondeu ele.
–Você me dá vergonha, sabia? – ela disse, mas, discretamente, escrevia o nome do amigo na capa do trabalho.
–Não diga isso, eu sei que você me ama... – ele disse, com um sorriso zombeteiro.
–Cala a boca ou eu mudo de idéia – ela retrucou, fingindo-se aborrecida – Professora, aqui está.
Depois que a aula acabou, os dois saíram. Os corredores estavam fervendo de alunos, e estavam cheios de faixas e cartazes alardeando o grande baile de fim de ano que se aproximava. Seria o primeiro baile da turma de Roy e de Riza, e estavam todos excitadíssimos. Logo, Maes se juntou aos dois, e foi perguntando:
–E aí, com quem vocês vão ao baile?
–Pra dizer a verdade, não tenho a menor idéia – respondeu Roy – Pensei em chamar a Soraya Morgan, sabe? Mas aí ouvi dizer que ela vai com um idiota do segundo ano, e estou sem idéias.
–Eu vou com a Gracia Gibbs – disse Maes, suspirando – Ela é perfeita! Aceitou assim que eu a convidei... E você, Riza, com quem vai?
–Ninguém me convidou ainda – respondeu ela – Sinceramente, não dou a mínima para esse baile idiota. Talvez eu vá sozinha, ou talvez...
–Oi, Riza – de repente, chegou um rapaz alto e louro, muito bonito, e a cumprimentou – Ouvi a sua conversa. É verdade que ninguém te convidou ainda?
–É... é sim – até mesmo ela, conhecida por ser senhora de si, fraquejou diante de Marcus Connor. Também, considerando que ele era o cara mais bonito de toda a escola, quem não fraquejaria?
–Você quer ir comigo? – ele disse, fazendo com que todos em volta se virassem – Acho que seria ótimo, que tal?
–Eu? Bem, é que... claro que sim! – recuperando a velha pose, ela aceitou. Ele sorriu, deu um beijo em sua bochecha e saiu. Maes e Roy ficaram a encarando, e o primeiro disse:
–Como você conseguiu?
–Eu sei lá! E quem se importa? – ela não cabia em si – Vai ser perfeito! Perfeito!
–Não sei se é uma boa idéia, Ri – disse Roy – Não quero que me leve a mal, não estou dizendo que você não mereça, mas ele é um cara do terceiro ano, é meio estranho ele te convidar.
–Relaxa, eu sei me cuidar – ela deu de ombros – Acho que você deveria arrumar um par, isso sim. As meninas da sala são capazes de sair no tapa para ir com você.
–Acho que vou convidar a Samara Baxter, a ruiva – disse ele. Logo no segundo seguinte, ele a viu passando e, em menos de cinco segundos, convenceu-a a ir com ele – Pronto. Vai ser ótimo!
Os três seguiram, conversando animadamente sobre o baile. Roy, porém, estava apreensivo. Sabia que Riza era mais forte que metade dos garotos daquela escola, mas ainda assim não queria que ela se magoasse. Ela era sua amiga mais leal, e nunca se perdoaria se deixasse qualquer coisa acontecer à ela. \"Bem, ela diz que sabe o que está fazendo, e eu vou acreditar\", ele decidiu, por fim. \"Mas, se algo sair do controle, eu vou ter que me meter\".
Riza não era o tipo de garota que tinha o costume de usar vestido e salto alto, mas naquela noite ela teve que abrir uma exceção. Sua mãe havia comprado um lindo vestido longo preto, de frente única, com pequenos detalhes prateados. A saia era levemente rodada, e permitia movimentos ágeis, e o corpete era bem justo, realçando suas formas, Os cabelos, cortados na altura da base do pescoço, estavam escovados com as pontas para fora, e havia fios entremeados com delicadas presilhas de strass. Usava também um colar de strass, presente da avó. O salto, não muito alto, era apropriado para dançar. Ela estava se sentindo uma princesa, toda linda e leve, pronta para arrasar.
Pela janela do seu quarto, ela podia ver os casais se dirigindo ao ginásio da escola. Roy estava entre eles, e assim que a viu na janela acenou. A garota que o acompanhava estava bonita, e também acenou, pois era amiga de Riza. E, ao lado deles, havia um outro casal, um pouco menor do que eles. Era uma garota, aparentando ter uns doze ou treze anos, acompanhada por um outro garoto, do mesmo tamanho de Mellie mas muito parecido com ele. Ela estava vestindo azul, e ele um chamativo terno laranja.
–Você trouxe seus irmãos, Roy? – berrou Riza, lá de cima, rindo.
–Mellie começou a gritar e a dizer que se eu não a levasse, ela destruiria meu quarto – respondeu Roy, dando de ombros – Ela está aprendendo alquimia, sabia? E, acredite, ela é mais destrutiva que uma erupção vulcânica! Então, pedi para o Arthur acompanhá-la.
–Divirtam-se! E você, Melissa, vigie o seu irmão, tá bem? O mesmo para você, Arthur – a loura acenou, e todos responderam, antes de continuar o caminho.
Pouco depois, surgiu outro casal. Maes, vestindo um elegante terno preto, acompanhava Gracia, uma garota bonita com cabelos castanhos bem lisos e longos, vestindo um vestido verde bem rodado. O rapaz acenou para ela, exultante, e Riza fez um sinal de positivo. Era fato sabido que ele tinha uma queda por ela há muito tempo, e que aquela noite era a mais gloriosa da vida dele. Olhou para o relógio da parede. Sete e vinte. O baile começaria dali a dez minutos. Então, alguém bateu na porta. Era ele. Trançando os saltos das sandálias um no outro, ela correu até a porta. Ele estava lindo e perfeito, e deu o braço a ela gentilmente. Riza despediu-se de seus pais e saiu.
Os dois conversaram pouco, mas nada precisava ser dito. A garota estava com um dos rapazes mais cobiçados de toda a escola. Ele era bonito, simpático, engraçado e educado, e a noite tinha tudo para ser perfeita. O céu estava todo estrelado, e uma bela lua cheia brilhava. Ao longe, ela podia ver as luzes do ginásio da escola, e os casais entrando. Assim que eles chegaram, ela sentiu que as coisas ficavam ainda melhores, pois a decoração do salão estava perfeita, a banda estava perfeita, enfim, perfeito era a palavra de ordem da noite.
–Riza, fique aqui, eu vou buscar algo para a gente beber – disse Marcus, educadamente, e ela concordou. Imediatamente, algumas garotas a cercaram e a metralharam de perguntas sobre como era sair com ele, se ele era legal, simpático. Ela não conseguia responder nada, apenas acenava com a cabeça e sorria. A música que tocava era animada, e ela viu seus amigos dançando, felizes. Eles também estavam achando a noite perfeita. E até mesmo Arthur e Mellie dançavam, indiferentes ao resto. Eles atraíam olhares de todos, e não davam a mínima, só dançavam e riam alto.
\"Droga, ele tá demorando...\", Riza se flagrou pensando. Talvez ele tivesse se perdido, ou as bebidas acabaram, não dava para saber. Então, olhou em direção ao bufê e viu que ele não estava lá. Começou a olhar em volta, a procurar, a perguntar, mas ninguém sabia onde ele havia se metido. \"Eu não vou bancar a possessiva\", ela se decidiu. \"Deixe que ele volte, talvez ele só tenha ido tomar um pouco de ar fresco\". Droga, isso não era desculpa, eles tinham chegado há dez minutos... Foi então que, ao olhar para perto da porta, sua noite perfeita se despedaçou como um vidro sob a ação de uma pedrada.
Marcus estava lá, mas não estava sozinho. Com ele, havia uma garota alta, morena, de olhos verdes amendoados. E os dois estavam se beijando. Riza ficou sem ação, só assistindo aquela cena. Então ela dava as costas por alguns instantes e ele começava a se agarrar com outra menina? Sentiu os olhos queimarem, de ódio, de decepção e de mágoa, mas decidiu que não choraria. Sem saber o que fazer, saiu batendo os pés em direção à mesma porta onde eles estavam, para ir embora.
Mas não foi. Percebeu, então, que ele a vira, e que se separara da tal garota no mesmo instante. Então, a loura tomou uma decisão. Qualquer outra menina teria ido embora correndo e chorando, mas ela era Riza Hawkeye, e jamais tomaria uma atitude dessas, jamais levaria uma batatada daquelas sem dar o troco. Voltou até ele e, com a voz controlada, disse:
–Quer me explicar que palhaçada é essa, Marcus?
–Riza, eu... – ele começou, mas parou. Olhou para a garota e disse – Olha, essa é a minha namorada, Emily Harris. A gente tinha brigado, sabe? Então, convidei você, mas ela veio ao baile, eu a encontrei e nós fizemos as pazes, é isso.
–Fico feliz que você e a sua namorada se dêem bem agora – retrucou ela, com cinismo na voz. As pessoas começaram a se aglomerar em volta deles – Mas acho que seria de bom-tom você me dispensar antes de se atracar com ela.
–Olha, eu vou ser bem sincero com você – ele perdeu a paciência. Não estava acostumado a ser tratado daquele jeito, ainda mais por uma garota duas séries abaixo dele – Vim com você para fazer ciúmes a Emily. Você é bonitinha, eu admito, mas...
–Mas o quê? – agora ele estava passando dos limites. Ela subiu o tom de voz, e ele recuou – Não sou boa o bastante para você, não é? Eu sou apenas uma primeiranista idiota que achou que tinha chance com Marcus Connor, desejado por 11 entre 10 garotas. Era isso que você ia dizer?
–É... – ele já não estava tão seguro – Quer dizer, não, quer dizer... Droga, você é tão complicada!
–E você é patético! – exclamou ela, apontando o dedo para o rosto dele – Você é arrogante, pedante, burro e ainda por cima cego! E eu sou complicada, você diz? Por quê? Porque ao invés de sair correndo e chorando eu preferi ficar aqui e te dizer umas verdades? RESPONDA!
Ele ficou mudo, paralisado. Riza sorriu, um sorriso estranho de triunfo e orgulho, e com altivez deu as costas a ele. As garotas aplaudiam-na, assobiavam, gritavam. Aquele estava sendo um baile muito, muito interessante. Até a música tinha parado para dar margem à discussão dos dois. Marcus já não parecia mais tão bonito: ele estava vermelho, os cabelos desalinhados, e uma gota de suor pingava de sua testa.
–E você? – de repente, ele resolveu revidar – Até agora, quem ficou se achando a última bolacha do pacote foi você! Ela é minha namorada, droga! Se você não é capaz de aceitar isso, o problema é seu! Eu devia saber que seria idiotice convidar alguém do primeiro ano, ainda mais alguém tão cheia de neuras e metida a certinha! Você é ridícula!
Roy estava lá, ao lado de Samara, seu par. Ele não podia ver o rosto de Riza, mas sabia o que ela estava sentindo. Eles eram amigos há tanto tempo que ele já sabia perfeitamente o que ela sentia mesmo sem poder vê-la. E, sabia, Marcus fora muito infeliz em sua escolha de palavras...
POF! De repente, sem que ninguém percebesse, ela se virou e acertou um tremendo soco no olho esquerdo dele. Ele cambaleou alguns passos para trás, a mão onde o punho pequeno e ossudo da garota o havia acertado, e começou a gritar e a xingar:
–VOCÊ É LOUCA?
–NÃO! – ela gritou em resposta – É VOCÊ QUE É UM INSENSÍVEL – e ergueu o punho de novo – E SE DISSER MAIS ALGUMA COISA, EU O ACERTO DE NOVO!
–Eu vou lá – Roy, então se decidiu – Impedir que um dos dois faça uma besteira.
–Acha mesmo que ela precisa? – Samara deu um sorriso – Olha só o tamanho que o olho do Connor ficou!
–É exatamente para impedir que o outro fique igual – disse ele, indo até lá. Maes viu e foi atrás do amigo, pois sabia que talvez ele mesmo precisasse ser impedido de fazer qualquer bobagem. Gracia e Samara ficaram, apenas assistindo àquela cena, deliciadas.
–Bem que eu devia saber... – Marcus tinha um sorriso estranho. Riza o encarava com uma expressão dura, o punho ainda erguido – A garota do handebol, não é? Bem que eles dizem que você é um osso duro, mas eu não acreditava... até agora. Então, parece que eu não vou ter problemas em resolver isso de igual para igual com você.
–Você não é homem o bastante pra isso – ela riu, debochada – Mas pode vir... Só não sei se a sua mãe vai te reconhecer depois.
–Ora, sua... – e ele ergueu a mão para acertá-la, mas não a desceu. Olhou para trás e viu Roy segurando o punho dele, dizendo:
–Antes de acertá-la, vai ter que bater em mim primeiro.
–Isso não é da sua conta! – disse Marcus, puxando o braço.
–Olha aqui, imbecil, você estragou uma noite que tinha tudo para ser perfeita – disse ele, ficando ao lado da amiga – O soco que ela te deu foi merecidíssimo, e adoraria vê-la te acertando de novo – aplausos e assobios varreram o salão – Então, antes de tocar nela, vai ter que brigar comigo, ouviu bem? Comigo! – virou-se para Riza – Desculpe por estragar sua diversão, mas eu tinha que intervir.
–Não se preocupe – disse ela, dando de ombros – Ele já vai se lembrar de mim por muito tempo.
Roy tirou o paletó, e entregou para Maes. Marcus, vendo que a coisa era séria, fez o mesmo. Todo o salão mergulhou num profundo silêncio. O diretor chegou, mandou que parassem com aquela bagunça, mas nada adiantou. Os dois ainda se encaravam, tensos, e então, sem que ninguém esperasse, partiram para a briga.
–Ainda tá doendo muito, Roy?
–Não muito. Pelo menos vai combinar com o outro olho roxo que a minha mãe vai me dar quando eu chegar em casa.
Vamos explicar as coisas. Roy e Marcus começaram a brigar feio. O segundo, porém, era maior, mais forte e estava morrendo de raiva do primeiro, então praticamente o espancou. Roy também fez um belo estrago em Marcus, e fez a cara dele virar uma massa roxa e ensangüentada duas vezes maior do que o rosto original. Então, os três – os dois rapazes e Riza – foram expulsos do baile, por brigarem. Ela saiu sob uma salva de palmas, em especial das garotas, que nunca haviam visto nenhuma menina acertar um garoto como ela havia feito. Eu não falei da briga porque... ah, gente, eu não suportaria ver o Royie apanhar! Agora, os dois amigos estavam numa sorveteria, ela atacando um sundae duplo de chocolate, ele com um bloco de gelo colocado sobre o rosto. Ela não derramara uma única lágrima, mas ele sabia que a garota estava magoadíssima.
Os dois estavam em silêncio. Então, de repente, ele viu que a maquiagem dela começava a borrar. Apesar de a expressão facial estar intacta, lágrimas rolavam incontidas. Roy sentiu-se inútil, pois sabia que nada do que dissesse poderia consolá-la. \"Droga, aquela era a noite dela, e ela estava linda como uma princesa!\", ele pensou, sentindo-se cada vez mais revoltado. \"Aquele imbecil do Marcus Connor não tinha o direito de roubar algo tão especial de Riza, e foi merecidíssima a surra que ele levou\". Então, ele lembrou-se de uma canção de que ela gostava muito.
–\"I wanted to you know, I love the way you laugh...\" – ele começou a cantar, mas ela o cortou.
–Ah, Roy, pode parar!
–\"I wanna hold you high and steal your pain away...\"
–Pára com isso, caramba!
–\"I keep your photograph, and I know it serves me well, I wanna hold you high and steal your pain...\"
Então, ela começou a chorar de verdade. Ele a abraçou, e disse, baixinho, só para ela ouvir:
–Pode chorar à vontade, Ri. Você não merecia ser tratada assim. Se eu puder levar sua dor para longe... animar você, de alguma forma... Quero que saiba que eu o farei – e cantou, só para ela – \"Cause I\'m broken when I\'m lonesome, and I don\'t feel right when you\'re gone away...\"
–Me leva pra casa, tá? – ela pediu – Fiz você perder o baile, não vou estragar o resto da sua noite.
–Estragar o quê? – ele sorriu – Se quer saber, adorei bater nele. Você me fez ganhar o dia, isso sim.
Os dois foram embora, Roy escoltando Riza gentilmente até a casa dela. Quando já estavam na porta, ela disse:
–Obrigado, tá? Por tudo.
–Não por isso – respondeu ele – Só não quero você se martirizando por aquele idiota, tá?
–Pode deixar, eu vou ficar bem.
Ela entrou. Sua mãe a esperava na porta, e ficou surpresa por ela ter chegado tão cedo. Ao vê-la com a maquiagem toda borrada e os olhos inchados, quis perguntar o que havia acontecido, mas Riza não respondeu, só subiu para sue quarto, deixando as sandálias no meio do caminho. Uma vez lá, ligou o rádio e colocou a fita com a música que Roy cantava. Sobre sua cama, havia uma caixa de bombons, presente da sua mãe. Ela aumentou o volume e começou a comer os chocolates, um por um, chorando sem parar. Lá não havia ninguém para censurá-la.
Como ele pôde ser tão insensível e idiota? Quanto mais pensava no que havia acontecido, mais deprimida ficava. Aquele fora seu primeiro baile e já havia sido um desastre total. Se tivesse dito \"não\"... se tivesse percebido qualquer coisa antes... Não era justo, não era certo! Até mesmo Roy, o seu eterno amigo Roy, havia se dado mal e perdido a chance de aproveitar o baile, por causa dela. Ele havia dito que queria deixá-la feliz, mas infelizmente era impossível.
Sentia-se humilhada, e não queria nem pensar em como seria voltar para a escola, na semana seguinte. Talvez não precisasse mais ir... havia entregado os últimos trabalhos e feito as últimas provas, e podia tranqüilamente matar os últimos dias de aula para não ser obrigada a encarar os colegas. O chocolate lhe dava uma sensação estranha de conforto, e mesmo sabendo que aquela não era a resposta dos seus problemas, ela não queria parar. Sem querer, acabou dormindo, ainda com o vestido e o penteado do baile, o rádio ligado e a caixa de chocolates virada no chão.
Roy e Maes foram visitá-la no outro dia. Maes, que continuou no baile, contou que a namorada de Marcus saiu de lá em lágrimas quando o seu namorado foi expulso. O assunto fora comentado por toda a noite, e todos concordavam que o que ele fizera a Riza fora uma maldade sem tamanho. Mellie foi com eles, e disse, animada:
–A namorada do Marcus saiu vaiada do ginásio! Pelo menos a reputação dos dois acabou...
–Grande coisa, eles vão sair da escola esse ano – retrucou Riza, dando de ombros. Ela mordiscava um bombom, um dos últimos da caixa do dia anterior – Eu não quero mais falar disso, tá bem? A noite foi uma droga. Espero que vocês tenham se divertido, pelo menos.
–Eu me diverti – disse Maes, com um sorriso bobo no rosto – Gracia disse que gosta de mim... Ah, foi perfeito! Dançamos a noite toda, conversamos muito... Foi lindo!
–Arthur pisava no meu pé o tempo todo! – reclamou Mellie – Ele parece calçar ferraduras ao invés de sapatos. Aí, resolvi dançar sozinha. A mamãe veio nos buscar às dez.
–Falando em mamãe, como a sua mãe reagiu? – vendo a deixa para mudar de assunto, Riza perguntou.
–O que você acha? Ela quase me jogou pela janela! – respondeu Roy, meio debochado – Ela disse que eu tinha que manter a classe e não perder a cabeça com gente desclassificada e blá, blá, blá... Já nos primeiros dois minutos eu resolvi entrar em off e deixar que ela falasse até se cansar. Se quer saber, ela que fale à vontade, porque eu não dou a mínima. Já meu pai foi mais compreensivo, disse que eu não deveria ter partido para a ignorância, mas que também não deveria deixar que ele tocasse em você. Quem dera que meu pai fosse a minha mãe...
–Falei com minha mãe hoje de manhã – disse a garota – Ela disse que eu fiz bem, e que não se zangou por eu ter socado o Connor porque ele mereceu. Não importa mais – ela sorriu, um sorriso estranhamente amargo – Agora já passou. Acho que vou antecipar as minhas férias.
–Você tá legal? – perguntou Maes, compreensivo. Ela acenou a cabeça em resposta, sem parecer convincente – Se eu puder fazer alguma coisa...
–Não, pode deixar. Agora já passou – ela respondeu – Não tem lógica ficar pensando mais nisso...
O único problema era que lógica nada tinha a ver com aquilo. Ela podia ser forte, destemida e segura de si, mas ainda era uma garota, ainda tinha sentimentos, sentimentos esses que foram muito feridos. Ela tentava passar para os amigos a imagem de alguém que não dava a mínima, mas sabia que estava falhando miseravelmente.
Anos depois, ela seria conhecida pela austeridade, pelo autocontrole, por ser uma rocha à prova de sentimentos. Não foi por causa daquele baile que ela se tornou uma pessoa tão fechada, seria criancice demais da parte dela. Muita coisa aconteceu desde então: ela se juntou ao exército, seguindo um sonho muito antigo, depois foi à guerra de Ishbal, e agora era a respeitável primeira-tenente do Quartel-General Central. Continuou sendo amiga de Roy e de Maes, mas essa amizade pelo coronel cresceu e evoluiu até se tornar o que era atualmente, um sentimento profundo e envolvente. Na época do baile, não soube interpretar a atitude de Roy, se ele fizera aquilo porque ela era sua melhor amiga ou se ele sentia algo mais por ela. Na época, a tal música de que ela gostava se tornou ainda mais especial na voz do amigo. \"Se eu puder levar sua dor para longe... animar você, de alguma forma... Quero que saiba que eu o farei\", ele disse. E, nos olhos dele, havia carinho e compreensão. Da noite do baile, só sobraram a lembrança e o gosto, digamos, excessivo, por chocolate, algo que a acompanhou a vida inteira desde então.
Talvez aquela fosse a hora de retribuir, de salvá-lo de uma vida infeliz ao lado de alguém que não o merecia. Talvez seus métodos não fossem lá muito corretos, mas preferia pensar que os fins justificavam os meios. Talvez tudo aquilo fosse para o bem de todos, não é?
\"Ou talvez eu é que estou sendo egoísta demais...\", ela pensava, mas logo afastava essa idéia tola da cabeça. Não era egoísmo, era um favor que estava fazendo a Roy e a toda a sua família. Talvez não à mãe dele, mas quem liga para uma velha mal-amada como Odete Mustang? Então, decidiu ignorar seus temores e continuar com o planejado. Pegou o telefone e ligou para Arthur Mustang.
–Alô, Arthur? É você? – ela disse, assim que uma voz masculina atendeu – É a Riza, tudo bem?
–Oi, Riza! – ele a cumprimentou, animado – E então, o que você manda?
–Lembra que no dia do jantar na casa do Maes eu te convidei pra gente ir ao festival de música no parque? – disse ela – Bem, não vai dar para ir ao festival, mas o que você acha de a gente ir ao cinema? Sexta-feira, sessão das seis e meia?
–Claro! Que ótimo, vou adorar ir com você! – ele concordou, animado, e a primeira-tenente sentiu-se ainda mais culpada – Vai ser incrível, eu prometo.
–Incrível, eu sei... Até lá, então – disse ela, então, e ele se despediu e desligou.
Ela colocou o fone de volta no gancho, meio animada, meio culpada por fazer aquilo com Arthur. Sexta-feira... o aniversário de uma semana de seu plano infalível de conquista. Agora só precisava se garantir de que Roy também cumpriria o seu papel, mas se bem o conhecia seria mais fácil do que somar dois e dois. E também seria engraçado ver Mellie e Ed juntos... A noite seria cheia de promessas, e ela torcia muito para que todas elas fossem cumpridas.
\"You\'ve gone away... you don\'t feel me here anymore...\"
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