Sempre acordo com o barulho de Mary cantando. Ela é minha aia. Todas as manhãs, ela me acorda com cócegas nos pés, que por sinal é a parte do meu corpo onde sinto mais cócegas.

- Está na hora, princesa Nádia — diz com uma voz suave. Abro os olhos.

- Mary, você sabe perfeitamente que não gosto que me chamem de princesa — digo, esticando as pernas e jogando-as para fora da cama.

- Desculpe, alteza — diz ela, abrindo meu guarda-roupa — que vestido a senhorita acha mais apropriado para tomar chá com o lorde? — pergunta.

- Eu não vou tomar chá com ele — resmungo. Mary vira-se para mim.

- Ah, mas a senhorita precisa ir! Soube que ele tem um assunto muito importante para tratar com vossa alteza — diz ela, mexendo as sobrancelhas. Franzo a testa. O lorde Fillipe é filho de um grande amigo de meu pai. Nos conhecemos desde crianças, e tenho quase certeza de que ele pedirá minha mão em casamento. Pelo menos, foi o que meu pai disse.

- Mary... eu não quero me casar...sou nova demais -digo. Sento-me na penteadeira e ela escova meus cabelos.

- Mas você precisa, Nádia — gosto quando ela me chama pelo nome — logo fará 16 anos e irá se preparar para se tornar rainha. E não poderá governar um reino sem um rei — diz ela, sorrindo — além disso, aquele lorde Fillipe é bonitão! — não contenho uma risada.

- Mas sou eu quem devo decidir com quem quero me casar. E se eu não quiser casar com ele? Meu pai certamente não aceitará um não como resposta — digo encarando meu reflexo no espelho. Mary prende meu cabelo com um coque e me ajuda a fechar os botões do vestido.

- Vou deixa-lá um pouco sozinha. Não esqueça de descer às 10 para o chá com o lorde — ela pisca um olho e fecha a porta do quarto. Viro-me novamente para o espelho.

- Não é isso o que eu quero — falo para mim mesma. Lágrimas escorrem pelas minhas bochechas. Não consigo mais aguentar isso. Desde que nasci, tudo o que fiz até hoje foi me preparar para ser uma rainha. Nunca fui além dos muros do castelo. Nunca pude interagir com outras crianças. E agora, meu pai quer me obrigar a casar com alguém que não amo. Por que ele não entende que só quero ter uma vida normal? Conhecer lugares diferentes, aproveitar minha juventude... se minha mãe ainda estivesse viva, com certeza me entenderia. Ela morreu quando eu tinha 4 anos. Eu não estava lá, mas meu pai me contou uma vez sobre como ela morreu. Ela estava na praça de Lena, com meu pai, quando de repente o céu escureceu e o portal de Lavos se abriu. Lavos é uma criatura criada por Magus, um mago que trabalhava para o reino, mas acabou fazendo um pacto com um demônio para aumentar seus poderes, e este o consumiu de corpo e alma. Com seus poderes aumentados e guiado por forças malignas, ele reviveu um antigo dragão e colocou o nome dele de Lavos. Porém, Lavos ultrapassou os poderes de seu criador, e temendo o pior, Magus se sacrificou para selar Lavos dentro de um portal. Ninguém sabe quem reabriu o portal, mas este acontecimento gerou um enorme caos na cidade, e meus pais estavam lá. Meu pai conseguiu voltar para o castelo ileso, mas minha mãe foi devorada pelo dragão, assim como muitas outras pessoas. Isso deu início a uma guerra, que durou 2 anos. A batalha terminou com a nossa vitória. Lavos não morreu, mas foi aprisionado novamente no portal. Depois disso, os últimos anos têm sido pacíficos. Gostaria de saber mais sobre Lavos, assim sobre as guerras e tudo o que já aconteceu no reino. Meu pai não gosta de tocar nestes assuntos.

- Princesa! Ele chegou!!! — reconheço a voz de Mary. Não quero passar por aquela porta e descer as escadas. Não quero tomar chá e conversar com o lorde. Tenho medo de que ele me peça em casamento. E não saberei dizer sim.

- Vamos alteza! O lorde aguarda no jardim da frente — não gosto de pessoas me fazendo pressão. Tenho que pensar em algum jeito de não ir ao encontro dele.

De repente, penso em largar tudo isso e fugir. É loucura pensar em fazer isso, mas é minha única escolha. E também, quero saber como é o mundo lá fora. Está decidido.

Pego minha capa e coloco-a, escondendo meu rosto com o capuz. Desço as escadas rapidamente e corro até o jardim dos fundos, na direção oposta de onde o lorde está. Avisto o portão de longe e dois guardas em frente a ele. Escondo-me atrás de uma moita. Tenho que pensar em algum jeito de tirá-los do meu caminho.

Já sei. Pego uma pedrinha pequena e atiro contra um dos guardas. Ele se vira rapidamente e olha para onde estou escondida. Ele caminha até a moita, mas não consegue me ver. O outro guarda vai atrás dele. A incompetência desses guardas é lamentável, mas é uma vantagem para mim. Quando eles já estão a poucos passos da moita, levanto-me e corro até o portão. Eles me seguem. Vou o mais rápido que posso, e quando eles estão prestes a me alcançar, passo pelo portão. Estou em uma floresta. Talvez o vilarejo fique depois dela. Continuo correndo, passo por entre as árvores tentando chegar a algum lugar. Olho para trás. Não estou mais sendo perseguida.

Paro para descansar e deito-me na grama, respirando este ar que tem cheiro de terra molhada. Tiro meus sapatos e solto meus cabelos. Sinto-me mais leve. E livre.

Passados alguns minutos, levanto-me e continuo em frente. Vejo uma chaminé de longe. Ando mais alguns metros e passo por um arco de ferro. A entrada da cidade. Esboço um sorriso. Tento parecer o mais natural possível, tentando agir como uma simples camponesa. Vou andando distraidamente, e sem querer, esbarro em um garoto. Caímos no chão, e o garoto rapidamente se levanta e estende a mão para mim. Sorrio com gratidão para ele.

- Você deveria olhar mais por onde anda — diz ele, passando a mão na cabeça.

- Me desculpe... ando meio distraída esses dias — respondo — qual é o seu nome? — pergunto.

- Crono — ele sorri — é um prazer conhecê-la... qual é o seu nome?-pergunta. Sinto um calafrio. Não posso dizer quem eu sou.

- Bem... — digo — me chame de Marle.

Notas finais
Gostaram? Se sim, comentem e aguardem o próximo capítulo! ~