I Think We Can
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Alex estava com outro garoto. Estava beijando outro garoto, quase que na minha cara. E não era Yaj.
Não sei como fui parar ali, mas eu estava, junto de Phill e Lucas. Os dois riam e apontavam para ele, que estavam apoiados em uma parede perto da cantina. Phill tinha me puxado pra lá enquanto eu voltava da aula de basquete. Agora, eu tinha que voltar para o dormitório e contar isso pra Adam. Isso iria acabar com nosso acordo?
–Eu realmente tenho que ir. – Falei pela milésima vez.
–Não espera! Vamos ficar aqui olhando, ele vai ficar sem graça, e vai ser muito engraçado. Você vai ver! – Lucas me cutucou com o cotovelo, segurando uma risada.
–Não quero ter que ver isso.
–Mas temos que descobrir quem é aquele garoto, para enchermos o saco dele! – Phill falou, me cutucando também.
–Realmente eu... – Parei de falar quando eles dois riram alto, e quando olhei, Alex estava nos olhando, com a mão na cabeça, se possível sua pele pálida parecia ainda mais clara, os cabelos cacheados e loiros escuros pareciam mais bagunçados que o normal, e os olhos azuis claros, mesmo de longe, estavam lindos e assustados. – Ah não.
Os dois começaram a gritar para Alex, os outros garotos em volta ficaram olhando e o menino que estava até então distraído com Alex nos olhou. Eu conhecia ele, era Giulio. Ele era da minha sala de Geometria, bem inteligente até, mas desistiu quando entramos no ensino médio.
E agora, lá estava ele com Alex, e acabando com meus restos de chances com Adam bem provavelmente.
–Eu vou embora, não quero ser morto por Aleksey hoje. – E sai andando o mais depressa possível, mas ainda ouvia os gritos de Phill.
~~
Adam não estava no quarto. Porque Adam não estava no quarto às sete horas da noite?
Seu celular estava em cima da escrivaninha. Adam nunca saia sem celular, que droga. Alguém começou a bater desesperadamente na porta, só faltava ele ter esquecido as chaves do quarto também.
–Adam? Adam?! – Aquela voz parecia familiar, mas não sabia quem era. Mas mesmo assim, abri a porta – O Adam já voltou? – Era o garoto asiático que andava com Adam, ele parecia preocupado, mas ao mesmo tempo estava engraçado: todo cheio de tinta e borrões de carvão no rosto, e usando um avental todo manchado, como seu nome estampado “Viktor”.
–Não sei nem onde ele está.
–Ah meu deus... – Ele passou as mãos sujas pelo cabelo, e mordeu os lábios.
–O que houve?
–Eu estava com Adam na cantina, ele estava me ajudando a fazer um trabalho e então viemos pro quarto pra pegar alguma coisa... E quando entramos um garoto apareceu aqui e disse que queria conversar com você, ai acabou falando que podia ser o Adam e não sei pra onde foram...
–Quem era? – Queria parecer calmo para ele, que estava quase arrancando suas unhas, mas eu estava mesmo desesperado – Quer dizer, se lembra de como ele era?
–Não sei, não lembro. Ele parecia conhecer você muito bem, e devia ter rancor com Adam? Não sei.
–Você nem me conhece. E eu não me envolvo.
Ele queria argumentar mais, mas provavelmente estava pensando o mesmo que eu: temos de achar Adam e saber o que está acontecendo.
–Eu acho que eles estão nas quadras. – Viktor falou.
–Por quê?
–Lá é afastado dos blocos, ninguém ouviria eles... Ou Adam.
Ele estava certo, e apenas comecei a andar praquela direção, e ele foi correndo atrás de mim, sem falar nada. Nunca imaginei Adam com mais amigos além de mim, e estava até feliz por esse garoto estar tão preocupado com Adam... Com meu precioso Adam.
Tinha vários garotos pelos blocos, comendo ou estudando, mas as quadras estavam vazias e até bem iluminadas. Eu e Viktor fomos até a quadra que ficava mais nos fundos, a de beisebol. Não estava tão iluminada, no ultimo jogo um menino conseguiu quebrar algumas das luzes, e de noite não eram todas que ficavam acessas.
Continuamos andando por ali, até Viktor sair correndo na minha frente, em direção à segunda base. Tinha alguém deitado com a cabeça apoiada na base, Viktor se ajoelhou e o pegou nos braços.
Eu estava com medo demais para ir ver Adam. Ele estava inconsciente, não mexia um único músculo enquanto Viktor o chamava e balançava-o. Eu estava a menos de dois metros dele, mas não queria vê-lo. Era pra eu estar no lugar dele, não era pra ele estar machucado, não era pra ele ter sofrido. Estavam atrás de mim, não dele. Eu fiz isso com ele.
Eu machuquei Adam.
–Ryan! Manda chamarem uma ambulância! – Viktor berrava comigo, nem um de nós dois estávamos com celulares – Vai logo!
Demorei um pouco, e acabei me aproximando para ver Adam, e Viktor continuava a me repreender, seus olhos estavam inchados e arroxeados, sua boca estava suja de sangue, parecia que tinham quebrado todo seu aparelho, braket por braket. Sua blusa, de uma banda que eu dei pra ele de aniversário, estava encharcada, provavelmente de suor e sangue.
–Ryan! – Viktor gritou.
Dei as costas e sai correndo para os blocos.
~
Fui à enfermaria, pedi para chamarem a ambulância, mas ele não acreditou em mim. Tive que levar ele até a quadra, e ai entrou o desespero: me mandou chamar os coordenadores, e criou um grande tumulto. E eu, estava com medo. Uma das coordenadoras me conhecia, e me mandou voltar pro quarto e relaxar – eu sabia que ela ia me chamar mais tarde com meus pais.
Por algum motivo, me deitei na cama de Adam. Tinha dois livros do lado de seu travesseiro, o lençol estava quase fora do colchão e a coberta totalmente bagunçada pela cama.
Fiquei imaginando vários garotos chutando Adam, a mãe dele, Maggie, chorando quando o visse. Viktor o segurando nos braços morrendo de medo. Ele acordando assustado, e perguntando o que houve.
Eu não devia estar ali, me reprimindo na cama de Adam. Eu deveria estar com ele.
Levantei-me e sai do quarto, tinha alguns garotos parados perto do meu quarto, entre eles Joshua e Phill. Não estava bem o suficiente para conversar então sai andando. Era incrível como as noticias se espalhavam tão rápido. Alguns garotos vieram atrás de mim, me perguntando o que tinha acontecido, quem tinha feito aquilo, se eu tinha algo haver, se Adam estava bem.
–Ryan! – Phill parou do meu lado.
–Eu não sei. – Essa é a resposta para qualquer pergunta que ele pudesse me fazer. Ele fechou a cara.
–A ambulância chegou agora pouco. Aquele asiático idiota não vai dar conta, estão te procurando por acharem que você tem algo haver com isso tudo. É melhor você ir atrás deles.
–O que eu poderia ter feito? Estava ocupado demais com vocês para pensar que Adam podia estar apanhando.
–Ryan. – Phill me fez parar de andar, parando na minha frente – Foi o Jack.
–O quê?
–Jack, seu ex, ex do seu irmão – Phill era amigo do meu irmão de algum jeito – Ele que foi até seu quarto e levou Adam pra quadra e o espancou com ajuda de outros garotos.
–Como você sabe? Você estava comigo na cantina nessa hora. – Os outros garotos que me seguiam já tinham ido embora, mas Joshua continuava atrás de mim.
–Eu vi. – Ele disse agonizado, seus olhos pretos pareciam estarem cheios de culpa, a pele escura parecia estar arranhada, ele se arranhava quando ficava nervoso – Eu tava por aqui quando vi o Jack andando com o Adam, e ele não foi forçado nem nada. Ele só foi. Eu fiquei olhando com cara feia, e Adam me encarou e botou um dedo na boca, em sinal de silencio. Ele não queria que você soubesse. – Ele passou a mão pela cabeça, em seu cabelo bem raspado – Ele tinha consciência do problema que tava se envolvendo.
–Por que você não vai até o coordenador contar isso? – Ótimo, todos já sabiam o que tinha acontecido menos eu.
–Eu já contei. E eles estão com umas ideias idiotas que você teve algo haver com Jack bater nele. Sei lá. Eles acham que você pediu pra Jack bater nele.
Olhei para Phill, ele passava a mão em sua barba rala e ruiva, o cabelo estava preso em um rabo de cavalo curto, e suas sobrancelhas claras se contraiam.
–Só Adam sabe o que realmente aconteceu – Phill falou – Mas o máximo que sabemos é que você não tem nada haver com isso tudo.
Na verdade, tenho. Tenho culpa sim, e a culpa que eu tenho, é de ser irmão de Tristam – que quebrou o coração de Jack, que o fez querer que eu me apaixonasse por ele, para ele fazer o mesmo; pelo menos é isso que Magdalena sempre me fala, por isso ela sempre me falava isso, e pedia para eu não ficar perto dele, porque um dia isso ia se virar contra mim. Mas eu sempre dizia pra ela que ele não seria capaz disso.
E eu devia ter acreditado nela. Me ver apaixonado por Adam, e ver que ele não poderia mais fazer o pequeno Tristam sofrer, deve tê-lo deixado com raiva. E essa era minha culpa, de ter me apaixonado por Adam.
Minha única culpa era de amar Adam.
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