I Think We Can
1 Capítulo 1
Notas iniciais
–Jack não te merece, tá? Ele é babaca e só quer mostrar para os amigos que pode reconquistar o ex-namorado.
–Eu já te falei que não gosto dele, droga.
–Não gosta dele mas está quase aceitando o pedido dele de novo, seu idiota. Assim como os últimos namorados.
–É diferente, Adam!
De certo modo, ele estava certo. As pessoas tinham expectativas enormes em cima de mim, por isso, quando algum garoto conseguia ficar comigo, provavelmente devia ficar se gabando para os outros. “Eu estou namorando Ryan Hecht-Perrin, o aluno destaque, irmão de Tristam e Rosemary Hecht-Perrin, o ás do time de basquete. E vocês, huh?”
Talvez todo aquele afeto que me davam, fazia-me me sentir especial. Mas eu não queria mais ser enganado.
A única pessoa que realmente se importava, era Adam. Ele sempre brigava quando eu contava para ele que tinha algum garoto atrás de mim. Adam não se importava com ninguém, era completamente fechado, menos comigo. Às vezes eu me sentia mal por ele, só conseguia ser notado quando estava perto de mim.
–Mas eu não posso fugir deles, posso? – Retruquei, abaixando minha cabeça sobre a mesa gelada da biblioteca. Era o lugar onde Adam sempre estava, e o lugar que eu sempre ia para falar com ele ou busca-lo para as aulas.
–Se você tivesse um namorado ciumento mas que realmente gostasse de você – Ele murmurou, abrindo um dos livros que estava ao seu lado.
Ficamos longos minutos em silêncio, eu pensava no que fazer, e ele provavelmente já tinha apagado tudo isso. Ele só tinha gás para brigar comigo, o resto já não fazia parte de seus deveres.
–Você – Murmurei.
–Eu o que? – Ele nem desviou o olhar do livro.
–Você poderia fingir ser meu namorado, ai voc... – Ele me interrompeu.
–Peça para outra pessoa.
–Não não Adam! Você é a pessoa ideal! Daqui há seis meses nos vamos para a Austrália, então não vou ter que sentir remorso deixando alguém para trás que possa estar gostando de mim – Tentei fazer com que ele me olhasse, mas ele nem parecia querer.
–Eu acho que não podemos. – Ele bufou, fechando o livro.
–Em momento algum eu te pedi em namoro, não é? Só precisamos fingir! Você faz parte do grupo de teatro, não é?
–Pela milésima vez Ryan, eu só corrijo os erros gramaticais do roteiro, problemas na fala e a velocidade que eles falam. Eu não atuo nem faço os roteiros.
–Mas sabe como as coisas funcionam. Por favor Adam! Eu não quero ter que me envolver com eles. Eles nunca vem pra cima quando eu estou namorando. Pelo menos não muitos.
–Se não der certo, ou se você supostamente me “trair”, eu vou espalhar a todos que terminamos, e ai você se vira. Entendido?
Aquilo era uma ideia estúpida. Mas ao mesmo tempo perfeita. De verdade, eu sempre acabava por odiar as pessoas que eu ficava; ou seja, bastante. Eles me usavam para várias coisas, eu pensava ter controle mas eu não tinha. Adam sempre foi meu melhor amigo, e sempre foi aquele que me ajudava quando as coisas não davam certo. Ele poderia muito bem fazer aquela situação dar certo.
As pessoas o conheciam ao olhar de longe, mas não sabiam seu nome. Talvez falassem que era o “A”. Adam Natucci, por mais que fosse atraente, não tinha muita carisma, costumava ser grosso e não sabia conversar direito. A não ser que fosse eu.
Ele nasceu na Itália, mas sua mãe é americana, e o trouxe pra cá depois do divórcio com seu pai, mas ele sempre o visitava. O colégio internacional permitia que ele ainda pudesse ter seus traços italianos, que sua mãe e seu pai resolveram manter nele. Quando o conheci, quando tínhamos sete anos, ele sempre estava feliz, a gente brincava bastante. Ele tinha os dentes bem tortos, e eu sempre achei aquilo adorável, seu cabelo claro nunca combinava com os olhos quase pretos, e a pele parecia nunca ter contato direto com o Sol – por mais que, quando criança, sempre estivesse brincando embaixo de tal estrela. Seu rosto também, tinha pintas irregulares, o que eu achava fofo.
Quando sua mãe se casou de novo, o padrasto o molestava fisicamente e psicologicamente. Acabou que por isso ficamos muito próximos, e ele sempre ficava na minha casa e perto de mim, ele devia se sentir a vontade perto da minha família, que sempre pareceu bem harmoniosa. Um dia minha mãe acabou por descobrir o que acontecia, quando eu levei ele pra casa com alguns machucados no braço, e contou para a mãe dele. Durante o processo de divórcio com o padrasto, ele ficou um mês e algumas semanas na Itália com o pai.
Quando ele voltou, ele já havia se alterado um pouco. Quando ele completou seus dez anos, já não era mais o mesmo Adam de sempre. Ele costumava sempre ficar muito fechado, e sua mãe achando que o problema era a cidade, se mudou. Ficamos um ano sem nos ver; com muita sorte, meu pai ganhou uma promoção, e tivemos que nos mudar para a mesma cidade. Bem quando chegamos, minha mãe ficava o tempo todo no telefone,até conseguir matricular eu e meus irmãos no colégio mais comentado por lá; A Academia Sangster.
–Vocês três já devem ter ouvido dizer da Academia Sangster, não é? Lá eles conseguem levar vocês para o caminho certo na vida. Eu jamais estaria prezando vocês da vida amorosa, só acho que isso vai leva-los a disciplina correta. Afinal, eu e seu pai estudamos em colégios semelhantes, só que muito mais rígidos. Além do mais, é um colégio internacional, então vocês vão poder manter a Alemanha e a França do coração de vocês – Ela disse, com orgulho.
Mamãe era alemã, e meu pai francês, mas eles acharam que viver nos Estados Unidos era a melhor escolha para dois filhos franceses (meus irmãos mais velhos) e um alemão (no caso, eu). Mas por algum motivo, os dois eram muito mais a favor da Alemanha, meu pai sempre contava que conheceu minha mãe lá, foram fazer a faculdade na França, e acabaram por ter os primeiros filhos lá, e voltaram para a Alemanha, e então, eu nasci e vivi por lá até os seis anos.
–Ryan – Ela me chamou, depois de anunciar as novas metas da família – Eu acabei de falar com a mãe do Adam, e ele está estudando no mesmo colégio em que vocês três vão – Ela me puxou para perto, abaixando o tom de voz – Ela me disse que o Adam mudou bastante, e pediu para você “proteger” ele. Você pode cuidar do Adam para a Maggie, não pode?
Eu pensei que eu podia, realmente pensei. Então sorri e concordei ansioso para encontrar meu melhor amigo de novo.
Mas, não foi do jeito que eu imaginei. Quando eu cheguei, as crianças zombavam de Adam. Ele ficava sentando bem no final da sala, lendo livros e brincando sozinho. Estava usando aparelho, e uma das principais zombarias a respeito dele, era falando que ele tinha boca de metal.
Eu pensei que ele não ia ficar feliz em me ver, mas por mais incrível que pareça, ele mostrou a mínima emoção por mim, o que era incrível para alguém tão seco como ele. Eu sempre ficava perto dele, quando alguém vinha zombar dele, eu defendia-o, dizendo que um dia ele iria tirar o aparelho e os dentes dele iam ficar melhores do que o de qualquer pessoa, e que seu sorriso seria o mais bonito. As pessoas riam de mim por eu estar sempre perto dele.
Por algum motivo, meu caminho saiu da linha de Adam. Minhas notas eram altíssimas, e acabei despertando interesse nas pessoas pelo time de basquete. Sempre queriam estar a minha volta. Tristam, meu irmão, era perfeito em relação a tudo que fazia, teve alguns casos com alguns garotos, mas no seu ultimo ano, em que algumas aulas são junto as garotas, ele se apaixonou por uma moça, e o plano dele era pedi-la em casamento na formatura.
Como ele sempre foi um garoto considerado muito bonito, e, todos o queriam, acabou que esse título passou para mim aos meus catorze anos. Tanto os mais novos quanto mais velhos, estavam sempre atrás de mim, e infelizmente, as vezes eu me deixava cair. Não gosto do jeito que me olham. Depois que a minha irmã se formou e foi fazer medicina na França já com um noivo, todos acham que eu e meu irmão vamos seguir o mesmo caminho. Tris já esta quase na mesma, vai se formar no final do semestre, e já esta pensando em ir para a Alemanha ou para a França para fazer engenharia ou algo assim, e tem a belíssima Magdalena, cujo também tem milhares de expectativas sobre ela na academia feminina. E ai tem eu. Que sou quase como um pequeno Tristam. Já até ouvi dizer da minha futura cunhada, que já tem algumas garotas interessadas em mim.
Eu não quero a mesma trilha dos meus irmãos. Para eles, um colégio internacional, com pessoas de todos os países possíveis, sejam homens ou mulheres, era uma chance perfeita para encontrarem seu par ideal, para poderem ter um futuro com choques culturais enormes. Mas eu não. Também não queria ter que achar uma bela alemã ou uma bela francesa para que não tivesse um choque cultural tão grande. Eu também não tinha muitos cursos em mente, acho que eu gostaria de seguir como jogador de basquete ou algo do tipo.
Mas, no começo do ano, deram então a chance para que eu fizesse intercâmbio.
No meio da aula de inglês, me chamaram na direção, falando que eu havia sido indicado para terminar os últimos anos na Austrália. Parecia uma ótima ideia, eu não gostava da América, não queria ir para Alemanha nem para a França, nada me parecia muito atraente. Mas, um país que eu mal conhecia? Parecia perfeito.
–... Você iria com a Carol Souza, ela é uma das melhores alunas do seu ano, vai fazer dezesseis no final do ano. Mas ela recusou, ela disse que quer se formar por aqui. Então, a escola para qual você seria transferido sugeriu que você indicasse alguém.
Obviamente, eu indiquei Adam. E ele e sua mãe e seu pai acharam uma ideia maravilhosa, ainda mais que deixa-lo sozinho sem a minha companhia parecia terrivelmente assustador.
~~
Era o primeiro mês do meu plano com Adam.
Eu estava um tanto quanto assustado, mas eu sabia que eu tinha que fazer aquilo. Também por ele – As pessoas costumavam ficar ao redor dos meus namorados. Queria que vissem as qualidades dele, queria que ele parasse de estar sempre tão sozinho.
Adam estava do meu lado, alguns de seus dedos se prenderam na minha mão: era pra estarmos de mãos dadas, mas isso era o que ele chamava de “mãos dadas”. Afinal, “nossas mãos estão se tocando, não estão? Isso é suficiente a meu ver”. Sua outra mão segurava seu telefone, em que ele lia alguma coisa.
–Oh, Ryan! – Era Jack. Ele veio entusiasmado, até notar Adam ao meu lado, que entrelaçou nossos dedos por completo, logo depois levantando os olhos para o outro – E o Boca de Metal huh.
Cinco anos usando aparelho, para todos, era quase que um caso perdido.
–Então, sobre o que eu te sugeri ontem sabe – Ele dizia tentando afastar Adam, que parecia nem se importar – Eu queria muito saber sua resposta.
–Não – Adam disse. Ele era bem menor do que Jack, que também era mais alto que eu, então provavelmente não queria ter que olhar para cima ao falar com ele.
–Desculpe mas eu estava falando com Ryan, não com você. – Ele olhou para Adam, esperando que ele lhe olhasse de volta, mas ao em vez disso, ele olhou para mim.
–Então Ryan, porque você não da as noticias para ele. – Ele balançou nossas mãos.
–Bem Jack... – Eu olhei para Adam por alguns segundos. Conseguia ver que ele estava me dando apoio para recusar alguém diretamente, pela primeira vez na vida. E então olhei para Jack, alguns poucos centímetros maior que eu – A verdade é que eu estou com o Adam agora.
Jack pareceu enojado, olhou novamente para Adam e riu levemente. Ele sabia que tentar me zoar por causa dele não iria ajudar. Todos sabiam que eu era grudado ao Adam e vice-versa. Ele murmurou e saiu de perto. Ouvi os amigos dele rindo da cara dele, por ele ter perdido para “alguém como Adam”.
–Como foi? – Ele sussurrou, guardando seu celular no bolso e me olhando.
–Melhor do que eu esperava. – Sorri para ele, ele retribuiu levemente. – Obrigado.
–Eu não fiz nada. – Ele soltou minha mão – Eu tenho que ir para aula agora. Meu prédio é mais afastado, então boa sorte com tudo – Tinha pessoas a nossa volta, que nos encaravam. Ele tocou meu ombro e beijou minha bochecha correndo para sua sala.
Eu não tenho certeza, mas senti meu rosto se aquecer. Adam nunca sorria, nunca. Ele estava sorrindo enquanto me ajudava, e ainda concordou em me ajudar demonstrando afeto em publico para mim. Eu acho que nunca percebi o quanto que éramos próximos, e eu estava feliz.
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