Aquelas coisas ricas que a vida simples trazia. A chuva de vento que batia irritada na janela e sacudia as árvores e plantas lá fora fazendo um som agradável aos que se encontravam no calor de um cobertor, de um abraço e de uma bebida quente. Jogos totalmente estúpidos que com companhia eram capazes de se tornar a melhor coisa para se passar o tempo numa queda de energia elétrica. E até num dia nublado a praia poderia ser agradável, mas quando a chuva viesse furiosa, todos correriam para algum abrigo, com medo de ser atingido por um raio. E nas chuvas de verão, ela ainda não atrapalhava. Brincadeiras infantis demais para a idade daquele grupo, machucados por tombos ao escorregar do jeito mais ridículo. Ou simplesmente assistir à chuva cair e conversar sobre esses acontecimentos em um momento de calma, todos juntos, com os ruídos de sossego que a chuva trazia.

Quando fechava os olhos, via lá se destacando o encantador escarlate de seus cabelos. Via-os se movendo para lá e para cá e seus lábios se movimentando ao brigar, liderar aquela turma. Ao entrar junto daquelas bagunças e repreender a si mesma depois. Via seus olhos sorrirem ao chamá-lo para junto dos outros. Eles sempre acabariam juntos depois daquilo. Podia até senti-la deitando a cabeça em seu ombro quando o dia acabasse. E então, o conforto de um abraço e palavras carinhosas que saíam espontaneamente causando acanhamento depois. E então, um beijo tímido, porém seguro, que se aprofundava. Estes eram encontros escondidos, mas que todos sabiam sobre.

Todos se reuniram na casa de Natsu Dragneel para as normais confraternizações. Lá estava o grupo que se conhecia desde a infância.

Sem dizer nada, o dono da casa, saiu distribuindo folhas para todos.

— Não vou brincar de stop. – disse Gray Fullbuster.

— Não é isso, cueca. – disse empurrando um pequeno baú com o pé. – Vamos fazer uma cápsula do tempo!

Todos se entreolharam confusos.

— Eu vi isso na TV. A gente escreve como acha que a vida vai estar daqui a dez anos. Eu, com 26 anos, vou estar rico!

Depois de um tempo de conversa e insistência, todos cederam e escreveram os bobos sonhos de adolescente e colocaram na tal caixa, enterrando perto de uma mangueira no grande quintal.

Como seria o mundo se não existisse piora? Piora de tempos, de situações, de doenças, de pessoas. Temos a oportunidade de sonhar com tudo isso, mas nem sempre somos capazes de realizá-las. Se há a melhora pra alguém, consequentemente a piora estará lá para outra pessoa.

Ela havia mostrado para ele como ver o lado bom, como seguir em frente, como enxergar beleza no que os demais não viam. Era uma tortura ver essa pessoa simplesmente murchar de tempo em tempo e deixar de lado todos os próprios ensinamentos.

Ela estava sempre lá, mas ao mesmo tempo havia deixado de estar há muito tempo. O peso do mundo em seus ombros havia tirado de si a liberdade. A frieza e a crueldade do mundo haviam levado o calor que ela sempre transmitia aos outros.

Quando a chuva de vento batia na janela, ela chorava e ele a abraçava, tentando confortá-la com aquelas coisas simples que antes traziam tantas felicidades. Ela jogaria os estúpidos jogos de tabuleiro calada, não brigaria com os outros pela algazarra e, às vezes, sorria amarelo. Ele seguraria sua mão ou afagaria os cabelos e ela daria um singelo beijo em sua bochecha dizendo que estava tudo bem. Todos correriam pelo medo de ser atingido pelo raio, mas ela ficaria parada olhando para o mar agitado e ele, sem conseguir tirá-la de lá, ficaria consigo. E nas brincadeiras em meio à chuva de verão, ela não ousava se juntar.

Todos notaram sua mudança, mas agiam normalmente. Ninguém dizia ou fazia nada. Ela estava quieta, mas gritando por dentro. Tinha ciência daquilo.

— É bom estar de volta. – ela dizia se jogando na cama dele. – Você já vai? – seus olhos acompanhavam o movimento do outro.

— Sim. Vou resolver os assuntos da minha transferência. Volto daqui três dias. – disse se aproximando da garota deitada – Erza, até ano que vem vou conseguir um apartamento em outro lugar. Você vem comigo, certo?

Um pequeno e delicado sorriso surgiu nos lábios dela e ela assentiu.

— Ótimo. – ele se sentou e se inclinou por cima dela, depositando um beijo em seus lábios. Sua mão escorregou até a mão dela, segurando-a. Ele olhou para o dedo com o anel que lhe dera há alguns meses. – Nos casaremos logo. – e depositou um beijo ali mesmo.

Após os ditos dias, voltou. Estranhou ver a porta de seu apartamento entreaberta, mas entrou mesmo assim. E o desespero bateu. Tudo estava revirado, móveis quebrados e janelas abertas.

Chamou pelo nome da noiva e não obteve resposta. Correu desesperadamente pelos cômodos, vendo que nem toda a casa estava bagunçada. Seu quarto e sala de estar estavam irreconhecíveis, mas não era isso que o preocupava. Via ali faixas amarelas que isolavam o local.

Saiu do apartamento e deu de cara com o síndico que dissera já esperá-lo.

— Aconteceu hoje de manhã. O pai de sua noiva apareceu aqui e, eu não sei o que aconteceu, apenas chamei a polícia por conta da bagunça. – explicou. – A senhorita Erza foi levada para o hospital novamente. Ela havia acabado de sair, certo?

Quando a viu cheia de hematomas naquela cama de hospital, apenas chorou. Chorou por ser inútil, por não ser capaz de protegê-la, por ter tido a coragem de deixá-la sozinha.

Sabia da vida que Erza levara. Mas não sabia o que ela passava. Ela e sua mãe fugiram da violência de seu pai que entrava e saía da prisão. Ele sempre voltava para atormentá-la, até levou a mãe dela embora. Queria ser os olhos e ouvidos dela quando ela havia sido os seus. Prometeu estar sempre ao lado dela e ele o fez? Apenas se preocupou com o futuro e deixou de lado o que mais amava naquele mundo.

Sentiu o peso da mão dela em seu ombro.

— Jellal... Eles me doparam... – disse meio risonha – Eu mal consigo te enxergar... – riu balançando a mão no ar.

Jellal agarrou a mão dela e levou até seu rosto.

O sorriso sumiu dos lábios da mesma.

— É minha culpa, certo? É minha culpa minha mãe ter morrido... É minha culpa meu pai ser como é...

— Eu não vou mais deixar que ele encoste em você. – soluçou.

— É meu castigo. Onde eu estiver ele vai me perseguir, Jellal... Está tudo bem.

— Não está! – gritou.

A enfermeira apareceu na porta pedindo silêncio.

Erza era, para ele, um presente para o mundo que ele não merecia ter. Algumas pessoas são selecionadas para sofrer, a maioria delas, boas pessoas. Queria tomar para si todo o sofrimento, toda a dor que ela comprimia no peito, queria fazê-la sorrir de verdade. Levá-la consigo para longe dali. Queria fazê-la acreditar que tudo acabaria.

O tempo chuvoso já estava para acabar.

Demorou até que ela fosse liberada do hospital psiquiátrico. Iria visitá-la todos os dias. Não queria que ela se sentisse sozinha.

Ela parecia bem. Dizia estar bem. Comia bem. O abraçava e beijava normalmente. Viviam juntos uma vida pacata.

Jellal evitava trabalhar para cuidá-la, mas por insistência dela, acabou cedendo. Não queria mostrar que não confiava. Uma semana, duas semanas, três semanas. Tudo corria bem.

— Jellal. – ela sorriu – Eu quero ir à praia.

Ele a abraçou e prometeu levá-la no final de semana. Mas já fora de casa se lembrou que haveria uma reunião pela manhã no sábado. Durante essa reunião, seu celular tocou duas vezes e não atendeu. A terceira vez que tocou, foi ao final da reunião. Um caminhão atropelara alguém em sua rua. O egoísmo o preencheu. Poderia ter sido qualquer um, qualquer pessoa poderia ter sido atingida. Mas havia escolhido levar o destino de sua noiva.

Ele estava deitado daquele jeito, com um cigarro pendurado na boca. Tirou e amassou no cinzeiro junto com outras dezenas de bitucas.

A campainha soou pela terceira vez naquele dia. Ele ignorou se confortando no sofá, bebendo um pouco de sua cerveja. Levantou a cabeça assustado quando escutou o barulho da porta abrindo.

Lá viu Gray, Natsu, Lucy, Meredy e Ultear entrando e falando baixo. Passou a mão entre seus fios e deitou novamente. Não havia lhes dado atenção até agora e não daria.

— Você está ficando igual a ela. – ouviu a voz de Ultear.

— Ultear! – Lucy vociferou – E se fosse você?

— Me levantaria e pararia de arrumar desculpas.

Jellal tentou resgatar um cigarro e olhava fixamente para a televisão, não realmente ligando para o que passava.

— Jelly... – Meredy se aproximou e colocou um envelope enfeitado em seu colo – Achamos que você deveria abrir isso...

Ele finalmente olhou. Viu na frente a assinatura de Erza. Ficou a observar aquilo até tomar coragem. Ele se sentou e rasgou a borda, com as mãos tremendo. Mas não a abriu. Teve o papel tomado de sua mão por Natsu.

"21/08/2005

Eu sou a Erza. Estou atualmente com 16 anos de idade! Como estão as coisas por aí? Vocês estão felizes?

Lucy, você já publicou algum livro? Ou vários deles? Realmente gosto do que você escreve. Leio tudo em segredo. Quero que você realize seu sonho.

Natsu, já amadureceu? E aquela ideia de ganhar dinheiro se machucando? Você deve tomar juízo, seu idiota!

Gray, você deve tomar conta do Natsu. Melhores amigos sempre olham um pelo outro. Você não sabia muito sobre o que quer ser quando crescer, mas espero que tenha finalmente decidido e que esteja feliz.

Meredy, você sempre foi tão calada. E tão inteligente também. Você não precisava ter tanto medo de mim.

Ultear, sei que você nunca gostou de mim. Me desculpe por tirar o Jellal de você, por roubar seu futuro. Eu sempre achei você incrível por ser tão madura e independente, cuidar de sua irmã...

Jellal, quando eu estava machucada, você me abraçaria e diria que tudo iria ficar bem.

Você sempre esteve lá por mim. Nunca me senti sozinha. Me desculpe por te abandonar. Quero que todos sejam felizes. Não quero atrapalhar sua vida. Por favor, não fique triste. A trilha que precisava pegar já havia sido apagada há muito tempo.

Eu te amo e quero o melhor pra você. Tudo dói muito e sinto que eu passava essa dor para você. Mas eu quero levar tudo isso embora. Não há um dia que passe sem que eu pense em deixar esse mundo. Se eu aguentei até aqui, foi por sua causa, pelo seu apoio. Mas não posso mais fazer isso com você. Não consigo me perdoar e seguir em frente. Me desculpe. Eu te amo!

Nós vamos nos ver de novo num lugar onde não há dor ou sofrimento. Mas quero que você tenha a oportunidade de viver verdadeiramente primeiro."

Era aquilo. Não havia sido um acidente.

Erza não pensava em seu futuro. Ela não pensava em si. Queria fazer o bem ao próximo, mas não se conformava de incomodar os outros. Era só mais uma das pessoas que tinham uma bagunça interna, uma tempestade dentro da cabeça. Alguém que não pôde lidar com o passado, alguém que já vira pessoas amadas se esforçarem por si e não aceitava isso. Alguém que trouxera tanta felicidade, mas era incapaz de enxergar o bem que fez. Mas já não era possível. Havia acabado.

“Me desculpe, Erza.”

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!