I Never Learn
10 Sleeping alone
Notas iniciais
Antes
— Eu me sinto muito culpado por estar fazendo isso — falei, deitado na cama com a cabeça de Rafa apoiada em meu peito nu.
— Você não a ama? — perguntou ele.
— Não — aquela palavra pesava em minha boca, sobretudo porque era verdadeira. — Eu preciso terminar com ela. Mas não sei como.
— Nós dois temos culpa nisso — disse ele. Eu não pude ver sua expressão, pois ele encarava o lençol que nos cobria. — Eu também me sinto mal por ela. Mas é que as coisas fluíram desse jeito. Aconteceu assim.
Ficamos em silêncio por um instante, apenas ouvindo o barulho dos carros que passavam na rua em frente ao prédio.
— Posso fazer uma pergunta audaciosa?
— Claro que pode.
— Você vai terminar com ela por minha causa?
Demorei alguns segundos, pensando nas palavras certas.
— Eu tenho essa ideia em mente já faz algum tempo. Digamos que você está sendo o estopim pra tudo isso. É como se meus olhos estivessem semiabertos e você fosse o responsável por abri-los completamente.
De fato era o que estava acontecendo.
— Poxa, me sinto importante — disse ele, e pude senti-lo sorrir.
Mas logo em seguida o clima voltou a ficar pesado. Pois as coisas ainda precisavam ser resolvidas, e eu sabia que viria uma tempestade à frente.
— O que eu devo fazer então? — perguntei, mais a mim mesmo do que a Rafa.
Ele suspirou, acariciando meu braço com os dedos, suavemente.
— Não há muito o que fazer, pra falar a verdade. Se você esperar mais, poderá ser pior. Poupe-a de sentir mais dor do que a situação exige, Kevin. É a coisa mais sensata.
*
Agora
Acordei com muita dor de cabeça no dia seguinte. Abri os olhos com muita dificuldade, a lentidão da ressaca dificultando meus pensamentos. As cortinas estavam fechadas, o que aliviava minha vista de ter de encarar a luz da manhã. Estava me sentindo amassado, com os ossos rígidos, como se tivesse passado horas na mesma posição.
Vagamente, acabei me lembrando de alguns acontecimentos da noite anterior. Então os pensamentos vieram como uma queda d'água, despertando-me para uma realidade da qual eu queria escapar.
Rafa não me amava como eu o amava, Rafa não ficaria comigo. Eu estava sozinho de novo, e essa situação não mudaria tão cedo. Eu nem sabia se queria mudá-la. Quem sabe essa fosse a minha sina.
Levantei-me com muito desconforto, indo até o banheiro enquanto me segurava pelas paredes. Despindo-me, entrei debaixo do chuveiro e fechei os olhos, imaginando todas as coisas que poderiam ter acontecido.
Em um universo paralelo, eu ainda estaria com Carol e minha vida não teria mudado. Eu seria apenas um amigo de Rafa e seu colega de trabalho, continuaria com minha existência de merda. Se ela pudesse me ver agora, estaria sentindo-se recompensada. Duvido que ficasse feliz com meu sofrimento, porém talvez isso conseguisse aliviar a péssima sensação que eu a fiz sentir.
Ao sair do banho, voltei direto para a cama acompanhado de um pacote de Cheetos. Então me lembrei de Paulo. Ele tinha me ajudado em todos os momentos, tinha me trazido até o meu apartamento em segurança. Devia estar irritado por eu tê-lo feito sair desse jeito. Vlw pela força ontem, cara, digitei na nossa conversa do Whatsapp. Sério.
Sete minutos depois, ele respondeu. Não foi nada.
Foi sim. Vc é meu parceiro, sei que posso contar com vc.
Paulo mandou um emoticon de paz e amor.
Em seguida, recebi uma mensagem de Rafa. Vamos conversar?
Conversar. Pra falar o quê, na realidade?
Por favor, eu preciso falar com vc, insistiu ele.
Fiquei olhando para a tela do celular, subitamente desejando estar longe de tudo aquilo.
Ok, respondi, finalmente. Já passara da hora de eu querer fugir dos meus próprios problemas. Vc vem aqui?
Pode ser.
Arrumei a cama e limpei meu apartamento. Deixei o celular de lado, e não sabia dizer exatamente se eu estava esperando pelo momento que se seguiria. Talvez por isso eu quisesse ocupar minha mente com outras coisas, mesmo que aquele fosse um momento importante.
Quando o porteiro me avisou pelo telefone de que Rafa queria entrar, pensei por um instante em dizer não. Mas logo em seguida o autorizei a subir, não querendo prolongar aquela situação mais do que deveria.
— Oi — disse ele ao entrar.
Eu não respondi. Apenas fechei a porta e nós dois nos sentamos no sofá, não tão perto quanto de costume. É incrível como as coisas tinham mudado com rapidez.
— Eu não me esqueci do que você disse ontem — começou ele, a voz baixa.
Assenti com a cabeça, olhando para o chão.
— E o que eu queria dizer é que...— prosseguiu ele, suspirando. — Realmente, eu não queria que as coisas acontecessem assim. Sinto raiva que acabe desse jeito, você não faz ideia. Não pense, nem por um momento, que eu não gosto de você... pelo contrário. Eu e você desenvolvemos algo que eu não sei explicar. Gosto da sua presença, de te sentir perto de mim... tudo isso que passou, valeu muito a pena. Mas não posso fazer com que você sinta mais dor do que deve. Preciso ser sincero com você, como fui desde o começo.
Não voltei a encará-lo. Eu queria que tudo aquilo acabasse logo.
— Kevin, por favor — disse ele. — Você precisa me entender.
— Eu entendo — falei, finalmente encontrando as palavras que queria dizer. — E é justamente por isso que eu estou com raiva, raiva da situação. Eu tenho direito de me sentir chateado por causa disso. Sei que essa é a melhor escolha, que é a coisa mais madura a se fazer, a mais sensata. Sei disso. Por isso, acredite, eu te entendo. Principalmente porque já estive na mesma posição que você há pouquíssimo tempo. Sei como é. Mas eu simplesmente não consigo me sentir bem, pelo menos agora, e creio que você também não. Então, acho que não há muitas coisas que podemos fazer a não ser seguir em frente.
Rafa ficou em silêncio. Talvez eu tivesse conseguido convencê-lo de que aquilo era verdade. Depois de um tempo, sem que dissesse qualquer coisa, ele chegou mais perto e segurou minha mão. Quase tive o ímpeto de soltá-la de seus dedos, mas por alguma razão que se abrigava em uma parte bem profunda de mim, não o fiz. Também não o impedi quando ele passou as mãos por trás das minhas costas e enterrou a cabeça ao lado da minha, abraçando-me com a leveza que sempre fora característica de Rafa. Quando percebi, minhas mãos também se enlaçaram em volta dele, e estávamos lá, como dois amigos que iriam se separar, envolvidos em um simples abraço.
Quando nos afastamos, vi que os olhos dele estavam levemente vermelhos. Rafa abriu um sorriso pra mim, um sorriso feliz e triste ao mesmo tempo. Nossas mãos ainda se tocavam.
— Obrigado — falei, descobrindo sentimentos em meu interior que eu nem sabia de onde vinham, e que ofuscavam a raiva e a dor que eu estava sentindo. — Por todos esses momentos.
Ele apenas continuou a olhar. Eu sabia que seria o último momento daquele tipo que teríamos juntos. Mas precisava ser assim. Não se deve negar a uma pessoa o direito que ela mesma tem de amar quem quiser. Sobretudo quando não se escolhe por quem você vai sentir esse amor. Eu não escolhi nada do que tinha acontecido comigo, e Rafa também não, e Carol também não. Aquela era a natureza das coisas e devíamos nos adaptar a ela da maneira que podíamos, da maneira que conseguíamos.
*
À noite, eu estava sozinho de novo. Resolvi ficar no apartamento mesmo. Pensei em ir até o Christian's, mas era domingo e com certeza estaria fechado. Por isso, assisti um pouco de TV, pedi uma pizza e fui tomar banho. Dei uma lida nos meus livros da faculdade logo depois. Pensei seriamente que dessa vez eu iria me demitir de vez do trabalho na loja. Mas acima de tudo, senti que uma etapa da minha vida se encerrava.
Quando fui dormir, reparei no vazio da cama ao meu lado. Carol já estivera ali, Rafa já estivera ali. E agora não tinha ninguém. Eu precisaria me habituar a dormir sozinho.
Fale com o autor