Havia a pouco passado da meia-noite. A lua estava alta no céu, mas não era cheia, e sim minguante. Uma comum lua minguante em meio às estrelas no céu, competindo com a luminosidade dos postes de luz na calçada. Sejamos sinceros, ela estava perdendo de lavada.

Não que Annya se importasse de qualquer forma. Ela não gostava da Lua. A lua era fria e lhe lembrava neve, frio e um pouco de seu irmão psicótico também, além dela mesma. Se pudesse, faria ser sempre dia, assim o sol jamais deixaria de colorir o mundo com aquele vibrante dourado que possuía.

Só que aí a russa pensava nela. Ela era uma mistura de Lua e Sol. Sua pele era branquíssima e seus cabelos brilhantes reluziam como prata, enquanto a personalidade era vívida e expansiva. Julchen não era um mero satélite, emanava luz própria.

Então Annya tolerava a lua.

A rua estava deserta a não ser por ela, que caminhava lentamente, carregando uma enorme pá e três girassóis na mão esquerda, com os lábios levemente arqueados para cima em um singelo sorriso. Mais algumas passadas e finalmente alcançou o cemitério.

Deixou escapar um pequeno suspiro, fechou os olhos. Estava nervosa, ainda que certa do que queria fazer. Levou a mão até a cintura e pegou a pequena faca que havia “pego emprestado” do seu irmão mais novo naquela manhã, partindo em dois o cadeado sem muito esforço. Rússia era um país, afinal, portanto mesmo que fosse mulher, ainda era bem mais forte que mortais comuns.

Teve de forçar um pouco a entrada, pois o ferro estava muito enferrujado e teimava em deslizar. O ranger a incomodou profundamente, levando-a a olhar para os dois lados, nervosa, no entanto não havia o que temer, realmente não havia mais ninguém além dela ali.

Suspirou novamente, desta vez de alívio, e finalmente trespassou o portão da igreja. Apesar de ser apenas sua segunda vez visitando o local, não teve dificuldades em encontrar a lápide que procurava. Isso provavelmente porque estivera ali ainda naquela tarde.

Gravadas no mármore branco liam-se as seguintes palavras:

Aqui jaz Julchen Gilbert Beilschmdt

Que ela descanse em paz.

Apenas isso. Nem sequer havia data, pois alguns humanos poderiam estranhar que ela houvesse vivido por tantos séculos. Rússia achava aquilo um absurdo.

Na verdade a própria mensagem era absurda. Paz? Desde quando Julchen era alguém da paz? Annya ficou imaginando o que ela diria se visse aquilo. Provavelmente algo como “foda-se a paz”, e então começaria a rir com aquela sua risada estranha e característica.

Largou os girassóis longe o bastante para que ficassem seguros e então pôs-se a cavar. Enquanto o fazia, a garota alta começou a refletir um pouco sobre o dia que tivera.

Durante o enterro de Prússia, ela não derramou uma lágrima sequer. Ao invés disso, sorria levemente, tal qual naquele momento. Todos ao seu redor pareciam tristes ou indiferentes, mas apenas ela sorria. Ainda que soubesse o que estavam pensando dela, que era um monstro sem sentimentos e desrespeitoso, incapaz de se comover sequer com a morte de alguém sob seu mesmo teto.

O que sabiam eles, no entanto? Rússia estava quebrada por dentro. Era isso ou se desmanchar em lágrimas, coisa que ela jamais faria em público. Ou Julchen faria. Nesse ponto, eram bastante parecidas.

Havia trocado o usual sobretudo bege por um vestido preto, meio longo. Não que ela visse algum problema em vestir outra cor, para ela não fazia diferença, mas os detalhes eram vermelhos como os olhos da nação germânica, então lhe pareceu apropriado. Para os outros países, ela havia passado todo o velório a com expressão congelado e os olhos vítreos pregados na face sem-vida, parecendo muito satisfeita. “Como pode ser tão sádica?”, perguntavam-se.

Após uma hora e meia trabalhando, alcançou o caixão. Estava exausta, mas prosseguiu até que fosse possível ver todo o corpo da ex-nação, uma vez que a tampa era de vidro. Foi só então que ela se permitiu chorar. Entrou na cova e jogou-se sobre a superfície ainda suja de terra, soluçando, esperneando, murmurando entre lágrimas o nome da albina, sem jamais receber uma resposta.

Duas horas depois, ela se viu mais calma. Deitou-se sob o caixão e ficou observando as estrelas como Prússia às vezes fazia. Por fim, se levantou, espanou a sujeira da roupa, já imunda, e jogou os girassóis dentro do buraco, ajeitando para que não tapassem o rosto da outra.

Não se deu ao trabalho tapar novamente o leito antes de ir embora. O acontecimento saiu nos jornais, claro. Dizia-se que havia acontecido uma invasão no cemitério, mas que nada havia sido roubado, apenas um túmulo arrombado. Que devia ser obra de algum namorado da garota que ali jaziam, uma vez que haviam sido encontradas flores na cova, mas obviamente Alemanha não quis dar entrevista. Rússia, por sua vez, jamais se pronunciou sobre o caso.

Era dia 15 de Abril de 2011 e também dia de Reunião Mundial. Annya estava claramente entediada, aguardando pacientemente com seu chá até que América tomasse a palavra de Finlândia para que finalmente pudesse interrompê-la e, assim, ter um pouco de diversão. Talvez Inglaterra começasse a discutir com sua ex-colônia antes, ou com França, mas para ela realmente não importava desde que aquela monotonia acabasse.

E, falando em França, ela e Espanha estavam atrasadas novamente. Todos haviam comentado, mas não estranhado. Era apenas usual. Ela só não sabia que, naquele dia em particular, havia um motivo especial para isso.

De repente, a porta foi arrombada por três pernas levantadas ao mesmo tempo, indo ao chão pesadamente. Todos no recinto se surpreenderam, virando-se automaticamente para o local e ficando sem palavras diante da visão que tinham, como se vissem um fantasma.

Hungria arregalou os olhos no mesmo instante, prendendo a respiração, Áustria ficou branca como gele e teria até desmaiado não fosse o suporte do ex-marido. Apenas Alemanha sorriu, gentilmente. Rússia ainda não sabia o que pensar.

— Ontem, 14 de Abril de 2011 a minha incrível pessoa tornou-se novamente uma nação! – anunciou o homem que aparentava algo como vinte e três anos – Marquem esse dia histórico nos seus calendários e o tornem em um feriado nacional em seus paisecos! Ksesesesesese – riu-se, daquela sua forma bizarra, megalomaníaca, mas ao mesmo tempo simpática.

Aos poucos, sorrisos foram se formando nos rostos dos presentes. Mesmo aqueles que não haviam tido muito contato com a albina antes podiam sentir uma sensação agradável invadir seus corações. Todos tinham noção da importância daquele momento.

— Micronação, mona mi. – alfinetou a francesa.

— Não por muito tempo! – respondeu, empinando o peito – Um dia ainda vou invadir todas as suas regiões vitais! – anunciou, apontando para todos na sala. Boa parte das pessoas riu, enquanto a austríaca tinha um acesso de tosse.

Annya ficou observando, estática. Aquela não era Julchen. Para começar não era nem mesmo ela, mas ele. Aquele cara era mais alto do que a prussiana havia sido e ainda com alguns músculos, podia-se notar. O cabelo até lembrava a época em que ela o mantivera curto, mas ainda não era igual. Mesmo que ele aparentemente mantivesse o albinismo e a personalidade, ele ainda não era ela. Não era a sua Julchen, então Rússia não sabia como reagir.

— Qual seu nome? – decidiu-se por perguntar afinal, atraindo todos os olhares, inclusive o dele.

— Novo Império da Prússia – respondeu, em tom orgulhoso.

— Eu quis dizer o nome humano – seu tom era aborrecido, mas o que recebeu foi uma expressão que denotava curiosidade.

— Gilbert. Gilbert Beischmdt. Mas pode me chamar de Gil, se quiser, Annya. – disse com um meio sorriso, passando por ela e tomando a cadeira vazia ao lado da nação eslava. Biolorrússia não gostou nem um pouco, mas também não disse nada.

Annya, pos sua vez, seguiu os movimentos do albino sem saber se se sentia irritada por ele ter o mesmo nome que ela, ou se... Rússia não fazia ideia de como nomear aquele sentimento.

— Gostei do casaco.

— O que? – indagou, virando-se para Prússia. Ele ainda sorria.

— É, gostei dele. Sabe, fica bem em você, bem mais do que o bege. Ou o preto. Esse rosa combina com seus olhos.

Annya piscou algumas vezes. Como ele poderia saber do preto, se o havia comprado para a ocasião do velório? Aliás, seria possível que ele tivesse todas as memórias de Julchen?

Essas, porém, perguntas logo sumiram de sua mente, porque Rússia permitiu-se não pensar em mais nada e apenas corar com o elogio. Debaixo da mesa, eles deram as mãos. E então ela sorriu novamente.

Notas finais
Foi mal gente, mas essa foi a primeira coisa que eu pensei quando vi aquela pá LOL Quero escrever essa one desde então, desculpe por ser tão doente xD Mas eu espero que gostem, anyway. E o New Prussiam Empire realmente existe :D E foi fundado dia 14 de Abril de 2011. MESMO.
http://www.microwiki.org.uk/index.php?title=New_Prussian_Empire
Mereço reviews ou só pasadas? <-- piada MUITO fail *getshot*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!