Notas iniciais
Capítulo atualizado e revisado em 09/07/2021.

Deadlock — Capítulo XV

Emma havia notado que naquele dia Ilka estava mais calada que o normal, e parecia também bastante cabisbaixa, sem o seu típico semblante de superioridade.

Algumas semanas haviam se passado desde o ataque aos estudantes de Hogwarts, o culpado havia sido descoberto e expulso, um meio-gigante da Grifinória que a ruiva não conhecia.

O profeta diário durante todo o mês estampou suas páginas iniciais com Hogwarts e sua falta de segurança. E, vez ou outra, com o bruxo Gellert Grindelwald. Este, havia retornado à Europa e estava solto pelas ruas, recrutando novos bruxos e formando um exército com o intuito de derrubar o ministério da magia.

Grindelwald havia ganhado uma enorme popularidade entre bruxos puro-sangue desde o início do ano, tudo devido a uma onda de atos bárbaros nos Estados Unidos, os quais ele afirmava ser por “um bem maior”.

Desde que as notícias começaram a circular pelos jornais e pela boca do povo do mundo bruxo, o professor Dumbledore começou a aparentar estar mais nervoso em suas aulas, e ninguém entendia o porquê, a única pessoa que tinha suspeitas era a menina Bagshot.

— Está tudo bem, Ilka? Você está meio estranha hoje – finalmente se pronunciou Emma, depois de alguns longos minutos de silêncio entre as duas.

— Como assim estranha? Estou do mesmo jeito de sempre – respondeu Ilka, forçando um sorriso para a ruiva.

— Ilka, nós dormimos no mesmo quarto, conversamos todos os dias e dividimos a mesma mesa em todas as aulas e refeições por um ano, eu posso afirmar que te conheço. Você está agindo diferente desde o retorno das aulas, parece estar mais sensível e aérea.

— Não deveria se preocupar, Emma. São só alguns problemas familiares, nada demais – explicou a garota.

Não estava mentindo, eram de fato alguns problemas familiares. Seu pai não havia entrado em contato desde seu aniversário de 16 anos, não mandou nenhuma carta durante suas férias, e Ilka sabia que ele estava em algum lugar da Europa, não mais em Nurmengard, e mesmo que agora ambos estivessem no mesmo continente ele não havia se importado de dar um mísero sinal de vida.

— Ilka... Você sabe que não precisa esconder as coisas de mim, não sabe? – perguntou Emma.

Ao finalmente virar-se completamente para a ruiva, Ilka percebeu algo diferente, a menina Macmillan a olhava com compreensão, como se ela soubesse tudo o que estava passando em sua vida, e a loira não sabia como reagir a isso.

— O que quer dizer com isso Macmillan, está sabendo de algo que eu não sei?

— Eu só queria que você soubesse que não precisa me esconder as coisas. Se eu quisesse te prejudicar espalhando seus segredos para toda a população de Hogwarts eu já teria feito.

— Que segredos?

— Eu ouvi algumas conversas suas com o Riddle, Ilka. Sei que você e ele estão envolvidos com a morte daquela corvina de um mês atrás – explicou a garota e a loira arregalou os olhos, surpresa – Não vou contar a ninguém, eu apenas gostaria que você confiasse um pouco mais em mim.

Naquele momento, a conversa das sonserinas foi interrompida pela professora, que entrou na sala repentinamente. A professora Galateia Merrythought era uma mulher já de idade, com longos cabelos loiros parcialmente grisalhos. Costumava usar sempre vestidos longos e de cores apagadas, Ilka gostava de dizer que a professora em si era apagada.

Era conhecida por todos os estudantes por ser antiga na escola, completando seus quase 50 anos de carreira. Bastante alta e magra, andava com confiança pelos corredores, como se soubesse de sua autoridade. Desde que ocorreram os ataques aos alunos há quase um mês a professora Meerythought parecia mais retraída, até mesmo assustada. Alguns alunos diziam que ela fugiria de Hogwarts na primeira oportunidade que surgisse.

— Conversaremos mais tarde, tudo bem? Então vou esclarecer tudo que quiser perguntar – sussurrou Ilka para Emma – Sem mais mentiras, sem mais segredos.

Professora Galateia deu uma aula teórica naquele dia, algo bastante superficial e monótono sobre dementadores, sua natureza e como se defender deles. Assim que a aula teve o seu fim, as duas amigas juntaram seus materiais apressadamente para chegar a tempo de sua segunda aula, já que uma boa quantia de escadas e corredores separava a sala de Defesa Contra as Artes das Trevas da sala de Transfiguração.

Ilka estava receosa. Nos últimos dias ela vinha se sentindo cansada de tantos mistérios ao seu redor, sua vontade era de gritar para o mundo suas origens e os motivos de suas frustrações e inseguranças.

A garota sentia que Alvo Dumbledore sabia sobre sua verdade, mas não sabia se podia confiar no professor para conversar.

Antes de entrar em Hogwarts, seu pai havia lhe contado superficialmente sobre seu passado. Portanto, Ilka sabia que Dumbledore havia sido amigo de seu pai durante um bom tempo e havia lhe ajudado com algumas coisas, tanto em sua caça às relíquias quanto em sua ascensão ao poder. Sabia também que os dois haviam entrado em discordância há quase 20 anos atrás, o que resultou em um duelo, onde um feitiço acabou ricocheteando e acertando Ariana, a irmã caçula de Alvo, resultando em sua morte.

Desde então, Alvo e Gellert haviam cortado relações. Durante esse tempo em que estiveram brigados, Dumbledore se tornou professor em Hogwarts e Grindelwald construiu um castelo, o qual serviria de prisão para os seus inimigos, nomeando-o Nurmengard e, claro, teve uma filha, sem o conhecimento de seu antigo amigo.

Era visível que naquele dia Dumbledore estava cansado e melancólico, bem, e não somente naquele dia. Desde que a notícia de Grindelwald formando um exército na Europa saiu nos jornais, o professor parecia assim. A verdade é que todos os eventos do ano haviam abalado toda a população mais velha de Hogwarts.

Dumbledore ensinou somente um feitiço simples na aula do dia, onde os alunos aprenderam a conjurar uma flor de orquídea na ponta da varinha, tentou brincar com a sala dizendo ser para preparar para o dia dos namorados, que se aproximava, enquanto ensinava. Assim que os alunos foram dispensados da aula, Ilka disse a Emma que depois a encontraria no quarto, pois precisava conversar em particular com o professor.

A garota esperou até que todos da sala se retirassem, guardando seus materiais de anotação dentro de sua bolsa. Alvo permaneceu sentado em sua cadeira, aparentemente distraído, lendo um livro o qual Ilka não reconheceu pela capa.

— Professor, posso conversar com o senhor por um minuto? – perguntou a loira, levantando-se e caminhando em direção a mesa em que ele estava.

— Claro, em que posso ajudar? – respondeu ele, sendo simpático, como o usual.

Dumbledore fechou o livro que estava lendo e levantou o olhar para sua aluna.

— Eu percebi que o senhor anda diferente nesses últimos dias, está tudo bem?

— Está tudo bem Ilka, obrigado pela preocupação – tentou a tranquilizar.

— Professor, eu sei que não está tudo bem – explicou, enquanto puxava uma cadeira de uma das mesas da frente, para sentar-se de frente ao professor de transfiguração – Eu sei que você tem suas suspeitas sobre mim então presumo que o motivo de seus comportamento distante é o mesmo que o meu.

— Suspeitas? – o professor disse, parecendo refletir sobre tudo que ele pensava sobre a garota, e recostou sobre a cadeira em que estava sentado, cruzando os braços sobre o peito – Isso significa que você vai responder as minhas suspeitas?

— Eu acredito que estamos preocupados com a mesma pessoa, e por isso deveríamos ser honestos um com o outro.

Dumbledore pareceu pensativo, ponderando se deveria ou não confiar na garota, afinal, ela mesma havia admitido, de forma indireta, que estava sim omitindo a verdade do professor. Ele desviou o olhar por um momento da garota para a porta da sala, onde um vulto passou ali rapidamente, e ele percebeu que alguém tentava os ouvir.

O professor se levantou, com calma, e afastou um quadro negro com seu respectivo suporte do lugar, revelando uma porta discreta logo atrás dele. Ilka sabia que os professores moravam em Hogwarts, mas não fazia a mínima ideia de onde ficavam seus aposentos. Imaginava que por ser uma conversa delicada, Dumbledore não queria tê-la ali, em uma sala de aula onde qualquer outro estudante poderia entrar.

Sem pestanejar, Ilka se levantou e passou pela porta a qual o professor fez questão de lhe dar a preferência para entrar.

O lugar não era muito grande, sendo uma sala que mais se parecia com uma biblioteca. Praticamente todas as paredes eram cobertas por estantes, e as únicas paredes livres eram opostas, a qual a primeira possuía uma lareira instalada e uma pequena porta, que Ilka imaginava que era a passagem para o banheiro, e a segunda tinha uma cama de solteiro encostada.

No centro do quarto existia uma mesa baixa, um sofá e uma poltrona que estavam em cima de um longo e grosso tapete. Nada muito extravagante, mas ao mesmo tempo bastante aconchegante.

Alvo se sentou na poltrona e fez sinal para que Ilka se sentasse ao seu lado, no sofá.

— Não vou lhe oferecer uma bebida pois, como pode ver, eu não tenho espaço para muita coisa – disse ele, seguido de um longo suspiro – O que ele lhe disse sobre mim?

— Bem, meu pai me disse que vocês foram bastante amigos durante a adolescência – Ilka começou e Dumbledore parece surpreso. – Está tudo bem?

— Eu imaginei que vocês eram familiares, e próximos pelo seu jeito, mas acho que uma parte de mim não imaginou, ou melhor, não queria imaginar que eram pai e filha – o professor revelou – Acho que é por isso que você me lembrava tanto dele.

— Antes eu consideraria isso um elogio, hoje eu já não sei mais como interpreto. Eu estou assustada com a proporção que tudo isso tomou, professor, temo por meu pai – a garota começou a se explicar, movendo suas mãos de maneira inquieta. Alvo logo identificou que o gesto era uma indicação de seu nervosismo – Sabe, desde quando eu nasci meu pai sempre me ensinou que os trouxas deveriam nos temer e que nada justificava que a gente tivesse que se esconder deles, que todo esse negócio de Estatuto Internacional do Sigilo era errado. Eu sabia que tudo que ele fazia era para que a gente não tivesse mais que temer aos trouxas, mas tudo que eu acredito começou a parecer errado depois que eu vi o massacre que ele fez. Você entende a gravidade das atitudes dele? Não só trouxas morreram, mas muitos bruxos também, bruxos inclusive que o seguiam e apoiavam suas idéias.

— Eu entendo... Gellert costumava dizer que era tudo para um bem maior e que morreria um pouco para que isso fosse alcançado.

— Você acha que ele quis dizer que morreriam alguns de seus seguidores com isso?

— Provavelmente... Ele nunca mediu seus esforços para alcançar seus objetivos. Você chegou a conhecer sua mãe, Ilka? – questionou Dumbledore.

— Claro! Que tipo de pergunta é essa?

Ilka pareceu nervosa com a pergunta do professor e logo ele notou o porquê. Era dolorido para ela admitir, mas sua mãe nunca foi a mais amorosa. A garota somente se lembrava dela durante os seus primeiros anos de vida, durante toda a sua infância a única memória que tinha era da mulher a ignorando e bajulando o seu pai.

É claro que quando se é uma criança você não nota esse tipo de coisa, mas depois que se amadurece e começa a refletir sobre o passado percebe o quão doentio algumas coisas eram para alguém conviver.

— Perdão, eu não queria ofendê-la. Apenas cogitei uma ideia, mas acho que seria além dos limites até mesmo para Gellert.

— Eu acho que reagi de forma desproporcional, sou eu quem deve pedir perdão professor – a garota pareceu sem graça – A verdade é que apesar de ter sido criada próxima de minha mãe, ela nunca me deu abertura para me aproximar, nunca tivemos uma verdadeira relação de mãe e filha e conversar sobre ainda é estranho para mim – se explicou, enquanto abaixava a cabeça, ainda envergonhada por sua atitude.

Dumbledore logo percebeu que a teoria que criara em sua cabeça era na verdade bem real. Gellert Grindelwald tinha um objetivo e havia previsto que talvez não o conseguiria cumprir, por isso teve uma filha.

Conseguiu uma mulher que apoiasse suas ideias e assim teve com ela uma criança, a qual ensinou seus ideais, pois assim, se ele falhasse, teria ela, que seguiria pregando aquilo que ele acreditava.

— Eu poderia ter sido mais delicado ao perguntar também, foi rude de minha parte e pode me chamar de Alvo, se assim preferir Ilka.

— Desculpe professor, mas acho que soaria estranho entre os outros alunos caso eu me acostumasse a lhe chamar de Alvo – respondeu a loira, em tom de brincadeira.

— Até onde você acha que Gellert pode ir para alcançar seu objetivo? – questionou Dumbledore, tentando voltar a conversa ao seu ponto inicial.

— Tenho medo de imaginar, professor. Meu pai não tem muitos limites e eu sei que o ministério não é dos mais maleáveis ou compreensíveis, por isso temo por ele. Provavelmente o prenderiam em Azkaban pelo resto da vida, quem sabe até mesmo o condenasse a um beijo de dementador. Ele pode não ter sido o melhor pai do mundo, mas ainda assim é meu pai, sabe professor?

— Eu sei, é difícil ver alguém que amamos em uma situação delicada como essa – pronunciou, melancólico, parecendo entender muito bem o sentimento da garota – Eu vou tentar fazer o possível para impedir uma sentença dessas, tudo bem Ilka? Agradeço o voto de confiança que você deu em mim ao vir aqui conversar.

Depois da conversa com Dumbledore, Ilka Grindelwald voltou para o seu quarto se sentindo muito mais leve, e contou tudo o que podia para sua colega, Emma Macmillan, inclusive sobre sua conversa com o professor. Naquele dia ela resolveu que não esconderia mais sobre sua vida e o que passava, das pessoas ao seu redor, e aquilo fez uma grande diferença.