I Love You
1 I Love You
Mais um dia cansativo de trabalho. Vinha sendo assim desde que voltara do País das Maravilhas pela última vez. Eu trabalhava com o antigo sócio de meu pai, assim como ele fazia em vida, durante todo o dia. Acordava cedo, dormia tarde. Mas estava valendo apena.
Só o que me fazia falta era o País das Maravilhas. Sentia saudades dos gêmeos, do coelho, da Rainha Branca, do Chapeleiro... Ah, o Chapeleiro...
Desde que nos despedimos, ele ronda minha mente com uma incrível frequência. Recusei os pedidos de noivado que se seguiram, pois não acho justo nem com ele nem comigo mesma eu me casar com outro alguém se quem eu amo está logo ali, no País das Maravilhas...
Lavei-me e me deitei em seguida. Pensei no Chapeleiro uma última vez antes de cair no sono.
Estava no meio de um jardim exótico, com flores de todas as cores ao meu redor. O céu era de um azul escuro impressionante, pontilhado de estrelas e com a Lua cheia iluminando as flores. Soube imediatamente que eu estava no País das Maravilhas. Mas como? Eu não havia caído no buraco do coelho, como das vezes anteriores. Eu estava dormindo e...
-Alice?
Congelei. Era a voz dele.
-E-eu. Cadê você?
Ele veio de trás de um aglomerado de árvores ao norte do jardim, o início de um bosque, talvez. Eu o observei caminhando em minha direção, me certificando de que ele se mantinha como eu me lembrava.
Quando ele estava a alguns passos de distância, me joguei em seus braços e o abracei forte.
-Eu senti tanto a sua falta Chapeleiro, você não acreditaria... De todos, você é o que mais me faz falta.
Separamo-nos e eu o olhei nos olhos. Aqueles grandes e expressivos olhos escuros brilhavam pra mim, e eu retribuía da melhor forma.
-Eu sei como foi Alice, eu também senti falta de você e de sua muiteza.
Ele sorria e eu podia ver o espaço entre seus dentes superiores, do mesmo jeito que eu me lembrava.
-Chapeleiro, eu não caí aqui, como...
Ele colocou um dedo sobre meu lábio, interrompendo-me.
-Ah, eu pedi à Rainha Branca que te trouxesse aqui um pouco. Precisava muito te ver Alice, já faz tanto tempo desde a última vez... Precisava saber que você ainda estava bem, que ainda se lembrava de nós. Que ainda se lembrava de mim.
-Mas é claro que me lembro! Eu queria tanto voltar! Ainda bem que você me trouxe! Onde estão os outros?
-Eles não vão vir, não sabem que você está aqui. Somos só eu e você Alice. Só nós dois.
Sorri e ele também. Era um sonho, literalmente. Eu e ele, a sós.
-Alice, eu queria te falar algumas coisas antes de você partir novamente lá pra cima. Queria que você soubesse que eu venho tentando melhorar. Por você. Porque quero ser não tão maluco assim, mas ainda sim maluco. Porque sei que você merece alguém que te ajude e não alguém que te enlouqueça ainda mais. E eu quero ser esse alguém. Mesmo sabendo que você tem opções melhores do que eu...
Olhávamo-nos nos olhos e eu me sentia a cada segundo mais e mais feliz. Via o brilho naqueles orbes negros aumentando cada vez mais, fazendo-me mais feliz do que jamais estivera. Era tão bom que chegava a ser irreal, assim como me encontrar com ele num sonho ou até mesmo o próprio País das Maravilhas era irreal. Mas existia sim, e me fazia feliz.
-Eu escolhi este lugar pra dizer, olhando nos teus olhos, pela primeira vez, que eu te amo Alice. E quero te dizer que mesmo que se eu te desse todas essas flores e todas as outras mais que existem nesse e em outros mundos, eu não chegaria nem perto de demonstrar meu amor por você. Eu entrego meu coração a você Alice.
Senti as lágrimas arderem em meus olhos, lutando para saírem. Limpei a garganta e respondi:
-Não posso aceitar seu coração assim...
Seus olhos perderam o brilho, a cor de seu cabelo desbotou, sua gravata se recolheu, seu sorriso desapareceu...
-... Sem lhe dar o meu também, porque eu também te amo. Muito. Tanto que este tempo todo me esquivei de todos os pedidos de noivado, de todos os pretendentes e todos os namoradinhos que me apareceram... Porque você é o único em minha mente. Eu te amo Chapeleiro, te amo.
O brilho voltou com tudo, assim como o sorriso e a gravata. Só então notei que estávamos segurando as mãos uns do outro.
Inclinei-me na direção dele e ele na minha. Selamos nossos lábios e, nossa, nunca me senti tão leve em toda minha vida!
Levei uma de minhas mãos à sua nuca e me aproximei dele, aprofundando o beijo.
O meu primeiro beijo. Perfeito.
Acordei suada na manhã seguinte. A sensação suave dos lábios dele nos meus era a única prova de que aquilo havia sido real.
Fui até o espelho e lavei o rosto. Enquanto o secava, vi o chapéu dele no reflexo, em cima do criado mudo. Sorri e caminhei até lá, pegando o chapéu.
Preso à fita, um cartão branco dizia “Eu te amo, nos veremos em breve.” em letras escritas à mão.
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