I Lost My Heart to a Starship Trooper
3 Parte III
Notas iniciais
15:25 — SEGUNDA-FEIRA
– E então eu tava lá feliz e contente na fila pro concurso de cosplay e me aparece um moço do tamanho de um armário dizendo pra eu ir pra outra fila — Charlie tagarelava, enquanto Cas tirava o pó de alguns livros na biblioteca — Daí tá, beleza, eu fui. Só que só tinha criança naquela fila. Sabe por que, Cas?
– Por que era a fila do concurso infantil?
– Porque era a fila do concurso infantil! — ela repetiu o que ele disse, porém com uma intonação diferente — Dá pra acreditar? Só por causa da minha altura.
Cas deu uma risadinha. — Mas e o trailer, como foi?
– Ai, Cas... — Charlie arrastou as mãos sobre o rosto e fez barulhos ininteligíveis — Eu tô arrepiada até agora. Você quer que eu conte ou você prefere ver primeiro?
– Bem, se você... Ah, merda!
– O que foi?
Sem dar muita explicação, Cas largou o espanador e foi para o outro lado da estante, o lado que não ficava de frente pra porta e que portanto ficava fora do campo de visão de Dean, que adentrava o estabelecimento naquela hora.
Por uma fresta entre um livro e outro, Castiel conseguia acompanhar os movimentos de Dean. Ele sentou-se à mesa ao lado de Charlie e abriu um dos notebooks ali dispostos.
– Fala sério, esse menino vai vir aqui todo dia? — Meg bufou, fazendo Cas pular de susto.
– Meg, o que você tá fazendo aqui?
– Trabalhando, e você? Já terminou de tirar o pó dos livros que eu pedi?
– Não exatamente. Eu preciso terminar, só que eu deixei o espanador cair e não dá pra ir lá pegar agora. Não dá.
– Bem, você tem duas perninhas e dois bracinhos, acho que dá sim.
– Meg, por favor... — fez um sinal com a cabeça indicando Dean
– Olha, Cas, não dá pra você ficar se escondendo do garoto pelo resto da vida. E daí que ele te deu uma playlist de amor? Você não devia estar felizinho?
– Não, não deveria. — Castiel sussurrou, indignado — Aquilo não foi uma playlist de amor. E depois você me chama de iludido...
– Bon Jovi, Air Supply, U2?! — Charlie se aproximou, sem ser percebida — Por favor, é claro que foi uma playlist de amor.
– Charlie, que susto. — Cas colocou a mão sobre o peito — Gente, vocês podem parar de falar "playlist de amor"? Não foi nada disso, tá? Foi uma playlist de agradecimento.
– Hmm, agradecimento... — Meg e Charlie trocaram um olhar lateral desnecessário.
– E o que você fez pra ele? — Meg ficou levantando as sobrancelhas sugestivamente.
– Um favor. Não dá pra explicar direito sussurrando... Mas não façam essa cara vocês duas!
– Se eu não fizer essa cara, eu vou rir.
– Pelo amor de Deus, Charlie...
– E aí, galera, por que estamos sussurrando? — Dean abriu um espaço entre os livros, dando de cara com o grupinho sussurrante do outro lado da estante, fazendo os três gritarem em uníssono — Vocês estão se escondendo?
Castiel tentou falar alguma coisa, mas um nó horrível tinha se formado na sua garganta. Charlie finalmente soltou seu riso, que agora era mais um riso de nervoso do que de qualquer outra coisa, e Meg teve que tomar conta da situação.
– Isso é uma biblioteca, é esperado que se sussurre aqui dentro.
Dean assentiu e olhou para Cas, que, vermelho, vermelho, virou o rosto pro lado oposto na mesma hora.
– Bem... Tudo bem, eu não quis atrapalhar a conversa de vocês... É só porque o diretor passou aqui na porta e ele quer falar com o Cas.
– Comigo? — a voz de Cas finalmente saiu. Os olhos de todos se voltaram para ele — M-mas por quê?
– Ah, não deve ser nada sério. — Dean tentou sorrir — Eu posso ir junto, se você quiser...
Sendo assim, os dois meninos percorreram os corredores lado a lado, sem falar palavra alguma, até o destino diretoria. Quando Cas colocou o primeiro pé lá dentro, viu que Dean tinha parado no corredor.
– Ué, você não vai entrar?
– É... não. Eu menti, Cas. Não tem nada de diretor. — Dean deu um sorriso torto. Cas bufou, meio aliviado e meio zangado. — Eu só queria falar com você a sós, mas parece que você tava me evitando hoje na aula.
– Parece, é?
– Você ao menos ouviu a playlist?
– Não. — tossiu. Ele tinha ouvido sim. E várias vezes. — Era isso que você queria perguntar? Eu já posso voltar pra biblioteca?
– Calma. É que... ah, sei lá, depois que você saiu da minha casa ontem, eu fiquei pensando no que você disse e Cas, eu não quero ser um desperdício de tempo na sua vida.
– Hm. — Cas ficou com medo de perguntar — C-como assim?
– Eu não quero que você se dê mal na escola por minha causa.
– Ótimo. Então você concorda em parar de tentar ser meu amigo de uma vez por todas?
– Wow, não precisa ser tão rude. — Dean franziu o cenho — Por que você é assim o tempo todo?
– Assim como?
– Que nem o stormtrooper da minha história. Emocionalmente vazio. Você não pensa nos sentimentos dos outros?
– Por favor, não traga a sua história embaraçosa à tona.
– Tá vendo? Rude. — Dean balançou a cabeça em negativo — Enfim, a gente tá perdendo o foco.
– É, parece que eu sempre perco o foco nessas nossas conversas. Mais um motivo pra gente se afastar.
– Eu também reparei isso. Você já checou se você tem algum tipo de déficit de atenção? Por que talvez...
– Agora você que tá sendo rude, Dean.
– Não, cara, é sério. De boa mesmo. Talvez seja por isso que suas notas não são boas. Você deveria mesmo checar isso. — Dean apoiou as mãos nos bolsos — E é por isso que eu queria falar com você. Pra me oferecer caso você queira ajuda pra estudar... Enfim. Era isso.
– Ah... — pela primeira vez naquela conversa, fizeram uma pausa contemplativa — Mas eu só saio da biblioteca às seis.
– Sem problemas, a hora que você puder.
– E você não sabe onde é a minha casa.
– Eu posso ir direto da escola com você.
– Na verdade, eu... eu comecei a ler um livro e eu tava pensando em terminar ele hoje. — tentou inventar alguma coisa
– Então fica combinado pra amanhã.
– Mas amanhã...
– Cara, quer parar de me esnobar? Amanhã às seis, eu te encontro na biblioteca. Adeus. — e foi se afastando de costas, até sumir pela entrada do corredor.
17:47 — TERÇA-FEIRA
Era a quinta vez que Castiel passava pela frente da mesa onde Meg estava folheando uma revista.
– Não que eu me importe, Cas, mas você vai fazer um buraco no chão se continuar andando nessa reta.
– Desculpa. — sentou-se em uma cadeira e checou a hora no celular — Meg, eu posso sair mais cedo? Tipo, agora?
– Você tá tentando fugir do seu encontro com o Dean?
– Não é um encontro! — bateu o pé no chão — Ele só vai me ajudar a estudar. E contra a minha vontade.
– Estudar o quê? Anatomia?
– Não tem graça. — olhou mais uma vez a hora, debruçou-se sobre a mesa e quando levantou a cabeça, encarou seu reflexo na tela apagada do celular — Wow. Meu cabelo tá uma droga.
– Que tragédia. Cancela tudo.
– Nem brinca, — Dean entrou na biblioteca e no meio da conversa — cê não sabe como foi difícil convencer o carinha.
– D-dean. — Cas levantou rápido e começou a ajeitar o cabelo por impulso.
– Imagino, essa gente quietinha é fogo. — Meg disse, sem desviar os olhos de sua revista.
– Meg!
O caminho para o metrô foi levemente insuportável, pelo menos para Cas, que estava tentando ficar em silêncio.
– E então, como foi a leitura do livro?
– Que livro? — Cas levantou uma sobrancelha
– O de ontem. Você falou que ia terminar de ler um livro ontem.
– Ah. É... foi legal.
– O que você tava lendo?
– Eu tava lendo... — Cas era um péssimo mentiroso — Poxa, o que eu tava lendo mesmo?
– Talvez O Diário da Princesa, não? Você pegou na biblioteca, lembra? — Dean sorriu — O dia da detenção foi legal.
– Ah sim. — Cas sorriu um pouco com a lembrança, mas logo retomou o semblante sério — Mas não, foi outro livro... Depois eu vejo o nome.
Já no vagão, Cas se segurou em uma das barras e Dean fez a linha "eu não preciso me segurar, eu tenho equilíbrio", o que foi um completo desastre, pois assim que começaram a andar, Dean quase caiu várias vezes.
– Dean, você não quer sentar?
– Não, não, eu tô bem. — disse Dean, a essa altura com as duas mãos na barra e ainda tropeçando um pouco.
– Você não anda muito de metrô, né?
– Meu pai tem um carro, então... — o metrô deu uma freada brusca — Ok, cê tem razão, vamos ver um lugar pra sentar.
Acharam dois assentos vagos logo perto da porta. E era um lugar ótimo, até que um moço com um violão entrou, se posicionou logo em frente aos dois e começou a tocar. Castiel fez uma cara insatisfeita.
– Algum problema, Cas? — Dean o encarou, legitimamente confuso — Você não gosta de música?
– Não das barulhentas.
– Hm. Foi por isso que você não ouviu a playlist que eu fiz?
– Não, até que as músicas de lá eram bem calmas.
– Sim, elas eram. — Dean deu uma cotovelada de leve no braço de Cas — Ah, então você ouviu a playlist sim, hein...
– N-não vem ao caso. — desconversou e virou o rosto pra janelinha.
Ficaram um tempo em silêncio. A música do violão não estava nem um pouco irritante, muito pelo contrário, Cas estava começando a gostar bastante do fundo musical.
– Qual a nossa estação mesmo? — Dean perguntou
Cas não virou o rosto. Era como se não tivesse nem ouvido. Estava absurdamente focado naquela bonita e levemente triste melodia que o moço tocava.
– Cas? — indagou mais algumas vezes — Cas?!
Dean então teve que virar o rosto de Cas para si com a mão, para a surpresa do moreno, que arregalou seus olhos azuis ao encontrar o par de olhos verdes lhe encarando tão próximos e tão fixamente. A música de fundo parecia ter ficado mais intensa naquela hora.
– Seus olhos... — Cas falava meio travado — são... são bem bonitos.
Os lábios de Dean se moveram para um sorriso lateral.
– Você acha, é?
O coração de Cas disparou.
– O-olha, é a nossa estação. — cortou a tensão do momento com uma faca — Vamos, Dean.
Cas sabia que tinha acabado de perder uma senhora chance de beijar o garoto que ele gostava. Manter o foco no que importava estava custando caro demais.
Quando Cas abriu a porta de casa, todos os seus irmãos mais velhos pararam tudo o que estavam fazendo para prestar atenção no outro garoto de rosto desconhecido que estava entrando. Mas antes que Dean começasse a ser sociável, Cas o puxou rápido para o seu quarto.
Não demorou muito, eles se sentaram na cama de Cas, abriram o livro de matemática e começaram a estudar. Assim mesmo, direto ao ponto. Do jeito que Cas sabia que ia ser.
– Então se a gente pegar a altura do triângulo e igualar a do triângulo menor, daí a gente vai... Cas? — Dean chacoalhou a mão na frente do rosto do outro — Cara, eu tô preocupado com você.
– O quê? — Cas interrompeu seus pensamentos.
– Vamos tentar mais uma vez. Eu vou ler o problema de novo e eu não quero que você tire os olhos de mim, tá certo?
– C-certo.
– Então tá. — Dean umedeceu os lábios e começou mais uma vez — Dois triângulos isósceles são colocados...
Castiel continuou olhando para o rosto de Dean. Era impossível se concentrar com aquele par de olhos verdes pousados nos seus. Não estava mais aguentando aquela situação.
– Espera, para tudo. — Cas o interrompeu — Olha, eu sei que a sua intenção é boa, mas não vai dar...
– Mas a gente mal começou! Eu sei que é confuso, mas você vai entender.
– Não é isso, Dean, eu... — Cas olhou para o lado procurando palavras. Não tinha como ele dizer o que queria dizer sem morrer de vergonha. — Eu acho que... eu acho que eu me importo com você.
– Eu também me importo com você.
– N-não desse jeito, ai... — passou a mão pela testa — Do outro jeito. Daquele jeito. Eu não sei explicar mais que isso, mas você já me entendeu. P-pode ir embora agora.
– Você tá dizendo que você gosta de mim?
– Sim. Por favor, vai embora antes que eu comece a chorar na sua frente. Vai ser embaraçoso pra nós dois.
– Sério? — Dean arregalou os olhos — Eu... eu pensei que você me odiava. Mas por que você não disse antes?
– Porque eu pensei que você queria ser meu amigo.
– E eu quero! — a mão de Dean tocou levemente o rosto de Cas, trazendo-o para perto — Mas a gente não precisa parar por aí... se você quiser...
Cas foi se movendo de acordo como Dean o puxava. Quando seus lábios se tocaram e a mão de Dean escorregou para o pescoço de Cas, num intuito de tornar o beijo mais profundo, o garoto se afastou subitamente.
– Espera, Dean. — a respiração de Cas estava rápida — V-vamos com calma.
– Foi só um selinho, não foi nem...
– Eu sei, eu sei.
– O que tem de errado? Você nunca beijou ninguém?
– Não, já, já... Mas foi a minha prima Hannah. E a gente tinha tipo uns oito anos.
– Tudo bem, não fica nervoso. — Dean segurou a cabeça de Cas e acariciou sua face com os polegares — Confia em mim.
Castiel então engoliu em seco e fechou os olhos. A próxima coisa que sentiu foi mais uma vez os lábios de Dean sobre os seus, suas mãos firmes abrindo espaços entre seus cabelos e a partir daí tudo só foi ficando mais intenso.
Quando as mãos de Cas já percorriam as costas de Dean pela parte de dentro da camisa e o cabelo do moreno já estava mais bagunçado do que nunca, Dean parou para lembrar um ponto importante.
– Ei, a gente não deveria estar estudando?
– Ah. — Cas suspirou, desanimado — É verdade.
Então eles levantaram da cama e depois de vinte minutos procurando o lugar obscuro para onde o livro de matemática tinha sido chutado, voltaram para a atividade inicial.
– E é por isso que a resposta não pode ser negativa, você entendeu?
– Sim.
– Não, você não entendeu. Você passou a última meia hora olhando pra minha boca.
– E-eu não... Olha... — Cas ficou acanhado — A-a culpa é sua. De você ser assim. Tão distrativo.
– Nossa, que gracinha. — Dean zombou, apertando a bochecha de Cas — Mas nenhum beijo pra você até esse problema estar resolvido.
– Seu método de estudo é bastante questionável.
– Mas ele funciona, você vai ver. — Dean levantou as sobrancelhas — E a gente vai ter muito tempo pra testar.
– Muito tempo?
– Muito. Não vou sair daqui até você aprender isso. Inclusive, vou vir aqui todo dia até você aprender isso.
– Não tem jeito mesmo, né?
– Não. — Dean sorriu, achando graça — Eu vou cuidar de você, e não tem nada que você possa fazer. Agora de volta pro exercício.
Castiel pegou a caneta, se debruçou sobre o caderno e sorriu consigo.
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