I Lied...
1 À noite
Ele tinha me traído e me revelou isso pouco depois de receber um lanche que eu preparara para nós dois.
Mais cedo, eu tinha separado duas fatias de pão de fôrma e, entre elas, colocado duas folhas de alface, duas rodelas de tomate, uma fatia de queijo e uma de peito de peru. Pensei em incrementar o lanche com maionese, e foi a melhor coisa que eu podia ter feito, porque deixou o sanduíche molhadinho. Para acompanhar, eu saquei do fundo da minha geladeira uma garrafa de vinho que viera de uma cesta de natal que eu ganhara há alguns meses, um do qual eu ainda não tivera oportunidade de provar. Minutos antes de ele chegar, eu mesma me servi de uma taça da bebida. Não era dos vinhos mais requintados ou “mágicos”, mas cumpria a sua função.
Abri a porta da frente do meu apartamento quando ele tocou a campainha. Até então, eu estivera ouvindo um pouco de música, sem prestar real atenção nela; eu só queria evitar o silêncio, hábito que adquirira desde que passara a morar sozinha. Desliguei o rádio antes de girar a chave na fechadura. Sam entrou e estava um pouco molhado, principalmente nos ombros e no topo da cabeça. Estava chovendo em Lima.
– Deixa que eu cuido do seu casaco – eu disse.
– Por favor, não – Sam retrucou.
A fala dele era seca e seu rosto, agora, era tão desprovido de emoções que parecia o de um manequim, e inclusive era tão perfeito quanto, porque Sam era muito bonito. Ele entrou no lugar, mas não caminhou muitos passos adentro, mudança de hábito que não pude deixar de notar. Sam sabia que podia ficar tão à vontade quanto quisesse naquela casa, sendo assim, ele nunca se impedira de descalçar os tênis e se jogar com um salto no sofá da sala, por exemplo. Mas, naquela noite, nem o casaco ele queria tirar. Eu já sabia o que aquilo podia significar.
– Eu fiz um sanduíche – falei e apontei o corredor que eu chamava de cozinha. Para aproveitar o espaço daquele ovo em que eu vivia, por vezes, eu fazia os balcões de mesa e colocava bancos altos, como os de bar, em frente a eles para que eu e convidados pudéssemos sentar e conversar enquanto comíamos. – Está em cima da mesa.
– Vamos comer, então.
– E beber. Abri uma garrafa de vinho.
Sam sacudiu a cabeça em negativa e riu não como se achasse graça da situação, mas como se achasse tudo aquilo irônico.
– Por favor – eu pedi e tornei a apontar a mesa, e só então ele me acompanhou.
Com uma faca, parti o único sanduíche em dois. Com um guardanapo, entreguei uma das metades a Sam, que o apanhou, mas não demonstrou a menor de vontade de levá-lo à boca. Servi um pouco de vinho em uma taça para ele, e à bebida ele dedicou verdadeira atenção.
– Você disse que precisava falar comigo – ele começou.
– Preciso.
– Nada de bom pode vir disso.
– Você tem razão – eu disse e pousei minha taça sobre o balcão. – Você esqueceu o celular aqui hoje.
– Sim, eu percebi isso assim que cheguei ao trabalho.
– Ele tocou.
– É mesmo?
– Sim. E eu o atendi. Para anotar o recado para você.
– E quem era?
– Eu não sei. Quer dizer, você não tem o número dela salvo no celular, então não sei seu nome. Mas você deve saber quem é, porque, quando levei o celular ao ouvido, ela desembestou a falar sem esperar que eu dissesse quem eu era.
– E o que ela disse?
– Que estava à sua espera no almoxarifado da empresa, com uma garrafa de champanhe e duas taças. E que usava o perfume que você mais gostava.
– Quinn, eu...
– Não, e tem mais: ela disse que vocês poderiam aproveitar o ponto cego do lugar como nunca antes aproveitaram, porque ela tinha preparado tudo e as câmeras de segurança jamais conseguiriam filmá-los ali.
– E em nenhum momento você pensou que a ligação não fosse pra mim.
– Não, porque ela disse o seu nome quando atendi.
– Ela é uma louca. Eu sei de quem você está falando, e ela disse que faria isso. Essa garota é doente.
Sam aproximou a mão da minha, mas eu me afastei.
– Não me toque – foi o que eu disse, apesar de desejar exatamente o contrário.
– Quinn, por favor, você disse que precisávamos conversar sobre isso e eu estou aqui. Não vai me dizer que só me chamou para oferecer um sanduíche, uma garrafa de vinho e então fazer algumas acusações! Você tem que ouvir o meu lado da coisa.
– Pode falar.
– É como eu te disse, essa mulher é louca! Ela me deseja, ela me atrapalha, ela me para nos corredores e diz coisas sujas, mas eu nunca as retribuo, porque não tenho o menor interesse nela. O meu único interesse é você.
– A gente já está junto há três anos...
– E eu jamais jogaria toda essa história fora!
–... então eu aprendi a reconhecer quando você está mentindo.
– Você não acredita em mim.
– Não, nem um pouco.
– Por quê?
– Porque você está implorando pela minha atenção. Você está querendo me convencer de uma mentira da qual nem mesmo você está convencido. – Apertei os olhos antes de dizer: – Ela disse que, agora, “faria melhor do que antes”, e essa foi a última frase que ouvi dela antes de desligar o celular. Achei que eu já tivesse ouvido o bastante.
– Oh, meu Deus...
– Eu queria unir a minha vida à sua. Queria que você passasse a morar comigo. Chegamos até a conversar sobre isso...
– Eu fiz essa sugestão e disse que estava pronto, mas você duvidou.
– Eu disse “Vamos ver”.
– O que significa a mais pura desconfiança.
– Eu não queria me decepcionar. Eu não queria que você partisse o meu coração.
– Eu não me atreveria a fazer isso!
Sam batia na superfície do balcão a cada nova frase. O jeito como se curvava na minha direção me fez pensar em um leão prestes a atacar uma zebra que, tola o bastante para não fugir do ataque, tentava argumentar com o seu predador.
– Eu apostei todas as minhas fichas em você – falei. Eu queria humilhá-lo e tinha plena consciência disso. Todas as horas que tive disponíveis após a ligação só serviram para me ajudar a remoer e sentir ainda mais raiva da situação, ao invés de acalmar os meus ânimos.
– O que está querendo dizer? Que quer se separar de mim por causa de uma ligação?
– É assim que você pensa, não é? Acha que foi porque ouvi meia dúzia de palavras imundas de uma desconhecida.
– Quinn, pense com carinho, não tome nenhuma decisão da qual possa se arrepender depois.
– Eu não vou me arrepender.
– Como pode saber?
– Eu não preciso de você – foi a segunda mentira que eu disse naquela conversa.
– Eu preciso. Eu te amo, Quinn.
– Mas eu não te amo. – E essa foi a terceira.
Sam recebeu minha sentença como se eu o tivesse esbofeteado. Levou a mão ao peito – ao coração – e seu rosto, geralmente lindo e impecável, se contorceu em uma careta de dor. A cena não podia ser mais piegas, e eu senti um pouco de nojo. Aquelas feições, aquela postura, nada daquilo combinava com Sam.
– V-Você... – E sua voz agora soava como a de um adolescente que não sabia lidar com uma rejeição. Quase parecia que ele passava pela puberdade, pela época da mudança de voz, porque, apesar de ter dito apenas uma palavra, cada uma das sílabas soara em um tom diferente. – Você não pode estar falando a verdade. Ontem mesmo, enquanto transávamos, enquanto fazíamos amor – ele procurou se corrigir, provavelmente certo de que “transar” era a palavra que ele usava quando se referia a tal mulher do almoxarifado, enquanto “fazer amor” soava mais romântico e servia como uma luva para aquela conversa –, você disse que me amava. Não era verdade?
Era. Por Deus se era! Sam era o homem que eu amava, que eu venerava, que eu passava o dia inteiro desejando. Fazer amor com ele era uma nova conquista a cada vez que acontecia. Quando seu pênis estava em mim, eu me sentia uma vitoriosa, a recebedora de um prêmio. Quando assistíamos a filmes e ele alisava meus cabelos, era o mundo para mim. Quando ele me beijava, eu me sentia viva.
– Talvez, nem tanto – foi o que eu disse, no entanto.
– Você disse tantas vezes que me amava. Esse não é o tipo de coisa que alguém esquece tão fácil, nem mesmo você, Quinn. Você nunca foi de dizer palavras que realmente não queria dizer.
– As pessoas podem deixar de amar as outras.
– Eu duvido.
Eu também.
– Minha mãe não criou nenhuma idiota, Sam – eu retruquei. – Então não sou como nenhuma dessas garotas com as quais você deve sair aos montes enquanto me engana. Se eu precisasse de proteção, Sam, eu não poderia contar com você, eu teria que me esconder, porque você provavelmente mentiria para mim só para poder sair com outra. – Senti uma lágrima surgir no meu olhar e eu nunca me senti tão desesperada por evitar que ela se soltasse. – Você fez com que eu me apaixonasse tão rápido para então fazer isso?
Ao contrário do que eu imaginava, Sam não me respondeu imediatamente. Seus olhos claros corriam pelos meus, de um para o outro, em uma expressão genuína de espanto. Eu nunca tivera intenção de fazer aquela conversa ser fácil, mas também não imaginava que Sam fosse desistir tão rapidamente.
– Você está mentindo – foi o que ele disse, rouco, pouco tempo depois. – Está mentindo em cada palavrinha do que diz.
– Vá se foder, Sam!
Foi o gatilho que fez com que ele largasse o sanduíche com um baque sobre o balcão, derrubasse sua taça de vinho e disparasse porta afora, sumindo da minha vista.
E eu chorei.
Com o rosto escondido nas mãos. Chorei porque eu estava mentindo não só para o Sam, mas para mim mesma. Chorei porque estava agindo como uma idiota para não ter o coração partido, mas acabara obtendo exatamente aquilo que tanto temia. E por culpa minha, por conta de algo do qual eu nem tinha certeza, por causa de uma ligação, por causa de uma pessoa que eu nem conhecia. Eu confiava em Sam mais do que tudo, então porque estava agindo daquela maneira? Talvez tivesse me irritado o fato de ele permitir que aquilo acontecesse. Talvez me irritasse que ele não tivesse pulso firme, que tivesse argumentado tão pouco, que não tivesse tentado me convencer de que eu estava sendo a idiota da situação.
Terminei a minha taça de vinho em uma série de goles e a larguei em cima do balcão. Deitada, eu achava que seria mais confortável chorar e me sentir a idiota que eu estava sendo, então foi a caminho do quarto que, ao passar ao lado de uma mesa de canto, eu vi o celular de Sam mais uma vez.
Ele o esqueceu aqui, pensei.
Apanhei-o.
Sua tela acendeu, exibindo uma foto de nós dois. O dia em que a imagem fora capturada estava tão ensolarado que nossas peles, nossos cabelos, loiros, tudo parecia ter sido pintado apenas com tons de amarelo, com exceção dos nossos olhos, e os de Sam se destacavam justamente por serem tão azuis. Sorríamos e estávamos felizes naquela foto. Eu sentiria falta daquilo.
Não, eu sentia falta daquilo, já, naquele instante, enquanto ponderava sobre como seria minha vida de agora em diante, certa de que tudo seria um porre, um nojo, um desperdício de tempo, uma vida descartável que podia ser jogada no lixo assim que fosse possível, porque era isso o que eu era sem Sam. Ele dava sentido ao meu ser. Ele fazia com que eu quisesse viver.
Eu o amava.
Eu precisava dele.
Eu queria que ele voltasse a me tocar.
Eu não queria que ele se fodesse.
E ali estava um bom motivo para eu fazê-lo voltar até o meu apartamento e, assim, ter a chance de consertar as coisas: o Sam precisaria buscar o celular em algum momento, não?
Que ele fosse agora, então.
Notas finais
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