I Knew You Were Trouble
2 Trouble
Notas iniciais
"ninguém pode subestimar como o passado explica o presente"
Se há algo que posso dizer que vivi pra contar e confirmar em meus quase dezessete anos de vida é que nunca se deve reclamar porque as coisas não estão correndo nos conformes. Tudo sempre pode ( e na maioria das vezes irá ) ficar pior do que você é capaz de imaginar. É uma das leis básicas da vida, algo que deve sempre ser lembrado e em minha opinião, algo totalmente dispensável e que lamentavelmente se aplica quase que perfeitamente a mim.
Lá estava eu estava no que parecia ser a maior corrida da minha, a uma velocidade alta o suficiente para causar preocupação a Usain Bolt, o maior velocista de todos os tempos. A vaga na equipe de ginástica do Colégio e os treinos de karatê que tenho desde os cinco anos de idade não foram suficientes para me preparar para momentos como aquele. Eu nunca fui uma boa corredora e nessas horas é que tenho a certeza disso.
Meus pulmões ardiam implorando por ar. A pressa somada aos meus pensamentos negativos pareciam me fazer esquecer de puxar o ar para dentro do meu sistema respiratório. Eu já havia aderido o costume de me manter ocupada com mais de uma coisa, mas não significa que sempre dava certo.
Tudo graças ao meu despertador ( que neste momento jazia no chão do meu quarto em pedaços ) e uma noite de sono mal dormida.
Não que eu realmente fizesse questão alguma de manter meu emprego em uma cafeteria cujo o nome era Morning Express, mas era isso ou tosar Poodles em uma Pet Shop no único Shopping da cidade e após trabalhar durante quase dois anos driblando os sermões de Honda, a gerente, aquela parecia ser minha melhor opção. Sem contar que eu já havia tentado tosar a cadela de estimação do meu irmão caçula e o resultado não havia sido nem um pouco satisfatório.
Atravesso outro sinal aberto ignorando completamente xingamentos de motoristas raivosos e a expressão horrorizada de uma senhora que caminhava tranquilamente com seu spitz alemão.
Eram seis da manhã e ao invés de estar aproveitando mais uma maravilhosa hora de sono eu estava cruzando a cidade formulando desculpas que eu poderia usar para justificar meus trinta minutos de atraso.
Viro mais uma esquina e logo a frente do outro lado da rua estava a não tão gloriosa fachada da cafeteria onde eu passava oito horas do meu dia anotando e servindo pedidos ( isso quando Honda não tinha a brilhante ideia de me por para ajudar nosso cozinheiro a preparar bombas calóricas de açúcar ).
O letreiro em tons claros de azul se encontrava acima das portas. As mesas e cadeiras ainda vazias jaziam na calçada.
Ao passar pelas portas ouço o leve e irritante tilintar do sino anunciando minha chegada ao estabelecimento.
Uma garota me encarava do outro lado do balcão com seus belos olhos verde ciano arregalados que mostravam desespero e um certo alívio. Aquela era Kora Foster, que nós havíamos apelidamos carinhosamente como novata.
— Esta atrasada e cheirando a bacon e ovos fritos, Kimbs. — ela disse entortando o nariz em uma careta ao dizer a última parte enquanto retirava um embrulho vermelho com detalhes brancos, que logo reconheci ser meu avental, e o lançou em minha direção. — Vista e pegue o pedido da mesa sete. Honda teve um atraso e pra sua sorte ainda não esta aqui.
Lhe lancei um olhar agradecido e sem dizer uma única palavra me dirigi aos fundos do café.
[...]
— Por hora é só, Crawford. — a voz de Honda reverbou assim que anotei meu último pedido a caminho de informar o cozinheiro. — Pegue suas coisas e suma daqui.
Com um suspiro de alívio retiro o avental e me encaminho em direção a uma porta metálica com uma placa onde letras vermelhas diziam:
APENAS FUNCIONÁRIOS
Guardo o avental em meu armário e pego minha mochila para logo depois me direcionar a saída dos fundos.
Um Audi azul me esperava estacionado bem a esquina do beco ( pra onde dava a saída da Morning Express ).
— Você está cheirando a ovos com bacon. — Contastou Mika, assim que fechei a porta de seu carro e me sentei no banco de couro do carona — Sabe que não precisaria ter percorrido uma maratona se tivesse me ligado mais cedo, não é mesmo? Quer dizer, as vezes até parece que não importa a rota que cruzemos sempre acabamos passando por aqui.
O ronco do motor ganhou vida enquanto Mika ascendia a chave na ignição. Logo o carro estava em movimento pelas ruas da cidade.
— Cidade pequena. — murmurei enquanto recostava a cabeça na janela. Aquele era um dos problemas de se viver em Seaford. Pelo menos pra mim.
— Não mesmo, Kim. — ela contrapôs — Não a esse hora da manhã e antes do terceiro período.
Soltei uma risada sem humor.
— Vai me dizer que você gosta disso? Não tem vontade alguma de sair daqui e não voltar nunca mais? — aquela era a verdadeira questão pra mim. Seaford nunca foi grande o suficiente pra mim e não importava o quanto eu tentasse me convencer disso — Não se sente sufocada aqui? Como se houvesse um limite pra tudo?
— Só mais uma ano, Kimmy. — Mika repetiu o que parecia ter se tornado seu mantra há cerca de dois meses — Só mais algumas semanas e você faz dezessete. Depois disso em menos de um ano estaremos na Faculdade longe de empregos de segunda mão, madrastas, irmãs e qualquer coisa nessa cidade. Mais um ano e...
— ... estaremos vivendo nossas vidas por conta própria. — conclui.
— Viu? Você já tem um sorriso no rosto. — ela disse desviando o olhar darua para mim por alguns segundos — Mínimo, mas é um sorriso.
Ela tinha um sorriso radiante no rosto. Daqueles que acabavam te contagiando de uma forma ou de outra. Esse era o jeito Mika de ser.
Sorrisos sempre verdadeiros, os melhores conselhos, as palavras mais reconfortantes e o dom de apaziguar ( ou tentar ) qualquer situação. Eram características naturais dela. Que só a deixavam ainda mais linda. Mika possuía um exterior tão velo quanto o interior.
— Que seja.
[...]
Como eu já havia dito anteriormente a vida é tremenda pregadora de peças perturbada. Ela parece amar a sensação do mais puro e prazeroso divertimento que lhe é proporcionado ao ferrar completamente com alguém. Quando você acredita que já esta no fundo do poço ela é capaz de te mostrar que ainda é possível cavar um buraco ainda maior.
Eu realmente havia cogitado a hipótese de que o ponto da minha falta de sorte teria tido início logo pela manhã com meu belo atraso para o trabalho ( que por sorte nem passa pela mente de Honda ). Como eu estava engada.
Após chegar juntamente com Mika no colégio minha maior preocupação era como me manter acordada pelo resto do dia levando em consideração que eu não havia dormido nada bem noite passada. As olheiras em baixo dos meus olhos confirmavam isso uma vez que nunca fui muito boa tentando disfarçar ou corrigir qualquer falha com base, pó, corretivo ou algo do gênero.
Até que ele apareceu.
Seaford era uma cidade pequena localizada ao Oeste da Califórnia e pouco conhecida, então quase nunca tínhamos novos moradores e os únicos turistas que passavam por ali tinham a intenção de fazer apenas uma pequena parada ou passar uma noite.
Não que fosse alguma surpresa pra mim ou qualquer um que morasse ali. Era o tipo de cidade em que grande parte das pessoas se conheciam. Todos sabiam de tudo.
Mas já faziam quatro anos desde de a última vez que o vi. Quatro anos desde que ele havia ido embora.
E de repente todas as memórias que eu me forcei a esquecer voltaram. Todas as lembranças que eu me obriguei a esquecer. Páginas que eu havia me me forçado a virar.
E é nesse momento que mais uma vez as coisas se confirmam. a vida é tremenda pregadora de peças perturbada.
Foi como se durante aqueles poucos segundos em que meus olhos recaíram sobre ele — que até então não havia me visto — o tempo houvesse congelado. Inúmeros pensamentos se passaram em minha mente.
Com tantos corredores na Seaford ele tinha que estar justo ali, bem na minha frente?
Vários pensamentos internos onde eu tinha vontade de me enforcar por ter ignorado a ideia de Mika de passar na única filial da Starbucks que tínhamos na cidade e comprar dois copos de cappuccinos, onde eu me repreendia por ter ligado pra Mika e pedido uma carona. Eu podia muito bem ter faltado aquele dia na terceira semana de aulas e continuado trabalhando na Morning Express algumas horas a mais mesmo com os gritos de Honda.
Maldita hora em que eu havia desviado o carro e batido acidentalmente em um poste no fim de semana passado. Não é como seu eu realmente fosse ter atropelado Heather Clarke, no máximo ela tomaria apenas um susto e nem saberia que eu havia sido a maluca que podia ter passado com o carro por cima dela. Eu não era a única loira a ter uma caminhonete vermelha em Seaford. Minha caminhonete não estaria na oficina mecânica e eu não teria me atrasado hoje cedo e muito menos precisado de uma carona. Por que diabos eu tentei desviar? Eu nem se quer gostava de Heather! Poderia seguir minha vida sem peso algum na consciência por tê-la assustado.
E por tudo isso e mais alguns motivos ali estávamos nós.
Era como se a vida gostasse de nos fazer imaginar como as coisas seriam se esse momento nunca tivesse acontecida ou como seriam se pudêssemos evita-lo.
Mas agora ele havia voltado e trazendo na bagagem todo um passado. Um passado que eu havia me esforçado ao máximo para deixar trás, mas agora, com ele bem ali, percebi como havia fracassado.
Jack Brewer estava de volta.
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