I Just Wanna Stop
45 Encarando as Dificuldades
Notas iniciais
Pov. da Lexi
Quando finalmente Elijah e eu deixamos o Bayou, eu ainda me encontrava em estado de choque. Por um lado eu queria continuar lá para apoiar os sobreviventes de alguma forma, mesmo sabendo que não havia nada que eu pudesse fazer. Mas por outro, eu estava louca para sair dali. Permanecer naquele lugar depois do que tinha acontecido parecia me sufocar. Achei que Hayley viria conosco, porém ela preferiu ficar. Nem nos meus piores pesadelos eu podia imaginar um episódio tão traumático quanto esse. Mantendo o olhar fixo na janela enquanto o carro de Elijah seguia acelerando rumo à cidade, perguntei-me quando voltaria ao Bayou novamente.
— Tem certeza de que não se machucou? As últimas explosões aconteceram muito perto de onde estávamos. – Perguntou Elijah quebrando o silêncio e chamando minha atenção para ele.
— Não se preocupe. Graças a você, eu não sofri nenhum arranhão. A propósito, muito obrigada. Estou te devendo uma. – Agradeci esboçando um sorriso em sua direção.
— Não por isso. Niklaus jamais me perdoaria se eu deixasse algo te acontecer. E eu também não. – Garantiu desviando os olhos da estrada para mim brevemente, dando um meio sorriso.
Levei algum tempo para absorver sua fala. Não soube como responder aquilo. Elijah às vezes dizia coisas que eu não sabia como interpretar.
O resto do percurso foi feito em silêncio. Embora eu estivesse bem fisicamente, emocionalmente eu me encontrava muito abalada. Os gritos, os corpos e o desespero daquelas pessoas não saíam da minha cabeça. E como se não bastasse essa tragédia, ainda tinha o padre Kieran. Por mais que eu estivesse com um pressentimento ruim sobre ele, preferi manter a esperança de que tinha dado tudo certo. A outra alternativa era terrível demais.
Quando chegamos ao French Quarter, estranhei o fato de Elijah me levar para o casarão em vez de me levar para a igreja. Segundo ele, havia sido um pedido de Klaus. E por mais que eu quisesse ver Cami e o padre Kieran o quanto antes, no instante em que me deparei com o meu melhor amigo com a expressão aflita aguardando por mim no pátio, momentaneamente me esqueci de tudo. Estar com Klaus depois daquele dia horroroso era um grande alívio. Infelizmente a breve volta da minha paz de espírito durou muito pouco. Quando perguntei pelo padre Kieran e o Híbrido me respondeu com um “Sinto muito”, não consegui conter as lágrimas. Hoje sem dúvidas estava sendo um dos piores dias da minha vida. A única coisa que eu conseguia pensar era no quanto Cami devia estar sofrendo. O padre Kieran não merecia o que aconteceu com ele.
Meu primeiro impulso foi querer ir para casa ficar com Cami. Eu imaginava o quanto ela devia estar precisando de mim naquele momento. Porém Klaus me surpreendeu ao impedir que eu o fizesse. Quase não acreditei quando o ouvi dizer que havia suspendido o exílio de Marcel temporariamente apenas para que ele pudesse fazer companhia a Cami. Admirei mais ainda o fato dela ter concordado que eu passasse aquela noite ali. E apesar da minha confusão diante dessas informações, eu me encontrava aturdida demais para pensar muito sobre isso.
Acatei os conselhos de Klaus e após tomar banho e vestir o pijama que Cami tinha separado para mim, joguei-me na cama do meu eventual quarto mais do que disposta a esquecer dos últimos acontecimentos por pelo menos algumas horas. Uma doce ilusão da minha parte. Eu não conseguia dormir. Imagens do padre Kieran em meio ao seu surto e das explosões no Bayou passavam como um filme de terror repetidamente em minha cabeça. Foi impossível não chorar. Continuei assim até as lágrimas acabarem. Não sei quanto tempo depois, tive a sensação de ser observada. Klaus estava parado na porta do quarto e eu não pensei duas vezes antes de implorar para que ele ficasse comigo.
Por um momento achei que ele fosse recusar, mas o meu coração ficou bem mais leve enquanto eu o observava se deitar a meu lado. Não consegui manter qualquer distância entre nós. Eu precisava sentir o seu perfume, tê-lo o mais perto possível. Era impressionante o quão bem e o quão segura eu me sentia com ele. Sua presença era o suficiente para fazer com que eu me sentisse melhor. O gentil carinho que Klaus começou a fazer em meu cabelo só serviu para mostrar o porquê da companhia dele ser tão essencial para mim. Perdi completamente a noção do tempo. Aos poucos o sono foi chegando e o meu último pensamento antes de apagar de vez foi que eu tinha o melhor amigo do mundo.
xXXx
No dia seguinte, acordei mais cedo do que o normal. A claridade que iluminava o ambiente ainda era bem suave. Agradeci a Deus por não ter sonhado com nada do que aconteceu. Precisei de alguns segundos para reconhecer o lugar em que eu estava. Diferentemente da noite anterior, eu me encontrava deitada de lado na espaçosa cama, tendo o braço do Híbrido Original ao redor da minha cintura. Me surpreendi ao constatar que Klaus havia dormido ali comigo. Seu corpo estava praticamente colado ao meu e foi impossível não me arrepiar diante dessas circunstâncias. Virei o rosto para poder olha-lo e não consegui conter um sorriso ao ver a expressão serena e angelical do meu melhor amigo. Continuei o observando, completamente encantada com a sua beleza. Eu só conseguia pensar em uma palavra para descrevê-lo naquele momento: Lindo.
Saí dos meus devaneios ao perceber uma mudança no semblante de Klaus. Algo parecia perturba-lo em seu sono. Com o máximo de cuidado, me mexi ficando de frente para ele. Toquei o seu rosto com a intenção de tranquiliza-lo. Antes que eu pudesse tomar alguma atitude mais efetiva, ele acordou sobressaltado, prensando meu corpo contra o colchão com o seu, segurando com firmeza a mão eu tinha usado para acaricia-lo. O choque me preencheu completamente. Permanecemos nos encarando por algum tempo, o suficiente para fazer o meu coração acelerar. Klaus aparentava estar tão atordoado quanto eu. A posição na qual nos encontrávamos só contribuía para o aumento do meu nervosismo. Após recuperar o foco, o Híbrido afastou-se abruptamente de mim, sentando na cama. Mesmo um pouco desorientada com seus movimentos bruscos, o imitei, sentando ao seu lado.
— O que aconteceu? – Perguntei recuperando a voz que eu tinha perdido alguns segundos atrás.
— Sonhei com meu pai. – Respondeu ainda transtornado.
Instantaneamente compreendi o seu comportamento. Eu sabia muito bem o que Mikael representava para ele.
— Foi só um pesadelo. Está tudo bem. – Garanti colocando a mão sobre a sua tentando lhe passar conforto.
Klaus desviou seu olhar das nossas mãos juntas para os meus olhos. Mais uma vez em um curto intervalo de tempo, senti meus batimentos cardíacos oscilarem. Eu tinha até medo de descobrir por que meu corpo reagia desse jeito sempre que Klaus e eu ficávamos perto demais um do outro. Também aparentando estar em um debate interno, meu melhor amigo lentamente distanciou-se de mim.
— Prometi a Cami que a levaria cedo para casa. Mas se quiser descansar mais um pouco... – Disse mudando totalmente de assunto enquanto levantava.
— Não. Eu quero vê-la o quanto antes. – Afirmei o interrompendo. Eu tinha certeza de que Cami estava precisando da minha companhia. Klaus assentiu.
— Vou deixa-la se arrumar. Me encontre daqui há uma hora no pátio. – Informou antes de sair.
Assim que me vi sozinha, respirei fundo, sacudindo a cabeça para clarear meus pensamentos. Sem querer refletir sobre esse atípico início de dia, tratei de levantar da cama e ir me ajeitar. Depois de pronta, desci para o pátio. Como de costume, ele estava vazio. Decidi não esperar por Klaus. Ele já tinha feito demais por mim e eu também preferia voltar para casa sozinha. Eu meio que estava uma bagunça por dentro e necessitava de um momento a sós comigo mesma para me reorganizar. Eram muitas emoções diferentes para lidar em tão pouco tempo. Deixei um bilhete para Klaus no minibar e saí do casarão. A despeito do meu humor, o dia estava lindo. Quando finalmente cheguei em casa, foi difícil segurar o choro ao me deparar com Cami. A expressão dela era tão chorosa quanto a minha. Não hesitei em abraça-la. Eu tinha uma noção do que ela estava sentindo. A perda dos meus pais foi algo que me despedaçou por dentro. E foi Cami quem me ajudou a superar. Agora era minha vez de fazer o mesmo por ela.
— Eu não tenho como expressar em palavras o quanto eu lamento. – Falei enquanto nos separávamos. – Eu sei que ele era o seu último parente próximo, mas eu quero que saiba que você não está sozinha. Você ainda tem a mim e sempre vai ter. – Completei segurando suas mãos, a olhando nos olhos.
Cami se emocionou ainda mais. Sem consegui conter as lágrimas, ela voltou a me abraçar, dessa vez com mais força. Quando nos afastamos novamente, me dei conta que éramos as únicas presentes.
— Onde está Marcel? Klaus me disse que ele estava aqui com você. – Perguntei estranhando a ausência do vampiro.
— Ele saiu para cuidar do velório. Vai ser no Rousseau's. Eu fiquei te esperando para que fôssemos juntas. – Explicou.
Apenas larguei minha mochila sobre a cama, troquei de roupa e peguei meu celular antes de seguir com Cami para o Rousseau's.
Levei algum tempo para associar a ideia de um velório com o ambiente onde Cami trabalhava. Um bar não era o lugar mais comum para se velar o corpo de alguém. Entretanto em New Orleans os costumes com relação a isso eram diferentes. Aqui os enterros eram transformados em celebração. O cortejo fúnebre, por exemplo, era um desfile ao som do jazz pelas ruas da cidade. E por mais que fosse um momento tão triste, eu admirava Cami por seguir essa tradição. Padre Kieran amava essa cidade. Tenho certeza de que ele gostaria que a última homenagem prestada a ele fosse seguindo os costumes daqui.
Mesmo estando ciente de que provavelmente encontraria uma festa, não pude deixar de me surpreender. O lugar estava lotado. Um grupo de violinistas tocava uma música animada e as pessoas bebiam e conversam normalmente. O caixão fechado com o corpo do padre Kieran estava em um canto, assim como algumas velas e retratos dele junto com Cami e Sean. Me distrai tanto observando aquelas fotos e imersa em meus pensamentos que perdi a percepção das coisas ao meu redor. Procurei Cami com os olhos e a encontrei sentada em uma mesa no canto oposto conversando com Klaus. Fiquei surpresa ao vê-lo ali. Pensei em ir até eles, mas desisti. Era bom ver que talvez os dois tivessem feito às pazes. A conversa entre eles foi breve e depois que Cami saiu, deixando o Híbrido sozinho, tomei seu lugar, me sentando diante dele.
— Fico feliz em ver que vocês se entenderam. – Comentei.
— Ela veio me agradecer por ontem. – Respondeu de maneira displicente.
Percebi que havia algo de errado com ele. Seu humor não parecia dos melhores.
— Aproveitando o momento, eu também quero te agradecer. – Afirmei olhando em seus olhos, o pegando desprevenido.
Klaus retribuiu meu olhar, mas logo desviou para o copo vazio que estava sobre a mesa.
— Vou lhe dizer o mesmo que disse a Cami. A não ser tenha vindo encher isso, nada mais é necessário. – Retorquiu girando o copo em uma das mãos.
O encarei chocada. Quando nos despedimos mais cedo, ele não estava assim.
— Okay... Eu tinha esquecido da sua bipolaridade. – Retruquei esperando arrancar alguma reação dele. Como ele se manteve quieto, mudei de tática. – Klaus, sério, o que aconteceu? Você...
— É o sonho com o meu pai. – Confessou me interrompendo. – Essa noite não foi a primeira vez. Eu sei bem o que está por trás disso. Meu medo da paternidade e de traumatizar a minha filha como meu pai me traumatizou. – Concluiu.
Fiquei sem reação por alguns segundos. Agora eu entendia o motivo da sua mudança súbita.
— Eu... Estou surpresa. Você nunca conversou sobre isso comigo antes. Eu imagino que a ideia de se tornar pai seja assustadora para você, mas eu tenho certeza de que vai se sair bem. – Assegurei com firmeza para lhe passar confiança.
— Será mesmo? Eu tive uma experiência parecida antes e não creio que tenha feito um trabalho muito bom. – Contestou olhando para o lado.
Segui seu olhar e vi Marcel próximo ao balcão. Não soube como responder aquilo.
Assisti Marcel se colocar a frente do caixão, pedindo silêncio batendo um copo vazio contra uma garrafa de uísque. A banda parou de tocar e todos se calaram para ouvi-lo.
— Sei que não estive por esses lados ultimamente. Isso é uma prova ao padre Kieran que podemos compartilhar uma bebida e algumas histórias. Kieran andava pela cidade em um carro velho depois que o pai dele morreu, vinte e cinco anos atrás. E caramba, ele sabia se divertir. – Disse Marcel fazendo todos rirem. – É claro que foi antes dele fazer os votos. Mas até nessa época, ele era comprometido com o Quarter. Ele sabia que a cidade precisava dele. E ainda precisamos. Ao padre K. – Emendou ele fazendo um brinde.
— Ao padre K. – Repetiram os demais erguendo seus copos.
Me emocionei com o discurso de Marcel e Cami também. A vi passar apressada em direção a cozinha, e não pensei duas vezes antes de segui-la. Não me surpreendi ao flagrar ela chorando. Apenas a abracei apertado. Infelizmente isso era tudo que eu podia fazer por ela naquele momento. Me segurei ao máximo para não chorar. Era a minha vez de ser forte por nós duas.
— Parece que tivemos a mesma ideia. – Manifestou-se uma voz feminina.
Afastei-me de Cami e fiz uma expressão confusa ao dar de cara com Francesca. Não tinha a menor ideia do que ela estava fazendo ali. Cami enxugou as lágrimas, se recompondo.
— É Cami, certo? E você Lexi? Fui informada que o colar do Kieran está desaparecido. E a chave que ele sempre usava? Presumo que a tenha deixado para mim. – Pronunciou na maior naturalidade.
Troquei um olhar com Cami e minha tutora parecia tão abismada quanto eu. Eu nunca tive uma boa impressão de Francesca, mas agora eu tinha certeza de que minha cisma com ela não era infundada.
— Como é? – Interpelou Cami incrédula.
— Que falta de educação a minha. Sou Francesca Correa. Assumi a posição do seu tio como representante da facção humana quando a capacidade mental dele foi comprometida. – Apresentou-se Francesca.
— Não foi comprometida. Ele foi enfeitiçado. – Retrucou Cami cruzando os braços.
— Por um dos nossos inimigos. – Enfatizou Francesca. – Quero proteger as pessoas dessa cidade. E para isso, preciso da chave. – Atestou.
— Deve ter caído durante os eventos que o levaram a morte. Sinto muito. – Cami objetou irônica antes de me levar com ela para fora da cozinha. Seguimos para uma área isolada do bar.
— Isso realmente acabou de acontecer ou eu estou ficando maluca? – Indagou Cami soltando o meu braço.
— Estou tão chocada quanto você. Além de ter sido completamente sem noção, eu não gostei nada do tom que ela usou. – Compartilhei minha desconfiança sobre a abordagem abrupta da empresária.
— Eu nem a conheço, mas já a detestei. Espero que essa megera não volte a me perturbar com esse assunto. – Desabafou respirando fundo.
— Não se preocupe. Se ela vier te atormentar novamente, nós damos um passa fora nela. – Prometi arrancando um sorriso de Cami.
— Eu não sei o que faria sem você. – Afirmou tocando o meu rosto.
— No que depender de mim, você nunca vai precisar descobrir. – Assegurei a abraçando.
Cami sempre esteve do meu lado quando eu precisei. Agora era minha vez de retribuir. Eu a ajudaria a passar por esse momento difícil, assim como ela me ajudou.

Fale com o autor