I Just Wanna Stop
30 Difícil Decisão
Notas iniciais
Pov. da Lexi
Nos poucos dias que se passaram desde a aparição de Papa Tunde, o clima geral no Quarter era de tensão. Uma guerra entre bruxas e vampiros estava prestes a começar e eu mesmo sem querer estava no meio disso. Infelizmente o meu envolvimento com a família Original fazia de mim parte desse conflito, mesmo que indiretamente. E o que mais me agoniava era o fato de saber que coisas piores estavam por vir e eu não fazia a menor ideia de como impedir as futuras tragédias. E embora eu temesse pela segurança de todos, minhas maiores preocupações eram Cami e Steve.
Os dois eram completamente vulneráveis, principalmente Steve, que sequer sabia da existência do sobrenatural. Horrorizada com a ideia de que ele pudesse estar em perigo, eu sentia a necessidade de estar com ele maior do que o habitual, o que deixava Klaus bastante irritado. A animosidade entre eles só tinha aumentado. Ao que parecia, Klaus era egoísta demais para compartilhar minha atenção com Steve. E Steve não era compreensivo o suficiente para entender minha relação com Klaus. Cabia a mim conciliar esse impasse entre eles da melhor maneira possível.
Agora mesmo, por exemplo, cá estava eu, diante de Klaus, em uma das salas do casarão, tentando falar com Steve enquanto o Híbrido me observava com um sorriso zombeteiro no rosto e um copo de uísque em mãos. Já tinha perdido a conta de quantas vezes tinha ligado para Steve, porém ele não atendia.
— Ora, ora, sweetie. O que foi? O seu príncipe encantado está fora de área? Ou será que ele se transformou em sapo, foi coaxar em outra lagoa e esqueceu de se despedir? – Debochou Klaus. Sua diversão com aquela situação era nítida.
— Isso não tem graça. – Rebati séria lançando lhe um olhar zangado.
— É claro que tem! Como dizem, tudo é uma questão de ponto de vista. – Retrucou com cinismo.
O encarei por alguns segundos, balançando a cabeça em negação logo depois.
— Você não tem nada melhor para fazer? – Indaguei mal humorada o fazendo erguer as sobrancelhas.
— Para ser sincero, eu até tenho. Mas acompanhar esse seu drama adolescente com o Steve me parece bem mais interessante. – Respondeu no mesmo tom de antes, tomando um gole do uísque.
Sem conseguir me conter, atirei uma almofada nele. Klaus apenas se deu ao trabalho de desviar o copo do objeto, rindo em seguida. Vê-lo sorrindo daquele jeito sempre me trazia boas emoções. Quando dei por mim, já estava sorrindo também.
— Você definitivamente sabe ser um pé no saco quando quer. – Resmunguei guardando o celular e sentando-me no sofá em frente ao dele.
— Achei que isso estivesse incluso no pacote de melhor amigo. – Revidou cheio de sarcasmo.
Limitei-me a revirar os olhos. Não estava a fim de discutir no momento, por isso me mantive calada. Ao invés de dar continuidade aquela troca boba de farpas, resolvi me concentrar na verdadeira questão por trás daquilo.
— Qual o seu problema com o Steve? – Perguntei realmente interessada na resposta.
Klaus, que ainda mantinha um sorriso debochado no rosto, pareceu ser pego de surpresa. Sua expressão antes relaxada tornou-se séria.
— Eu não acho que ele sirva pra você. – Disse seco deixando seu copo, agora vazio, sobre a mesinha de centro.
— Você mal o conhece. Como pode ter tanta certeza disso? – Questionei descrente com a sua perspectiva do assunto.
— Eu já vivi o suficiente para saber que isso que vocês têm não vai durar muito. Eu sei bem o que caras como ele querem com garotas como você. Sei do que eu estou falando porque tive mil anos dos fracassos amorosos de Rebekah como exemplo. – Respondeu me encarando.
Levei um minuto inteiro para absorver suas palavras. Klaus era mesmo paranóico. A forma como ele aparentava enxergar Steve, como alguém que somente quisesse se aproveitar de mim, chegava a ser absurda. Estava prestes a contestar sua alegação, mas meu telefone tocou. Por pura coincidência, ou não, o nome de Steve piscava na tela. Troquei um breve olhar com o meu melhor amigo antes de atender.
— Steve! Finalmente! Eu... – Desatei a falar na maior empolgação me levantando, porém a voz do outro lado da linha me interrompeu.
— Lexi! Lexi... Eu não sei o que... – Balbuciou Steve num tom amedrontado. Imediatamente tive um mau pressentimento. A ligação ficou muda por alguns instantes e após alguns ruídos, uma voz feminina e desconhecida se pronunciou.
— Olá, Lexi. – Cumprimentou-me a estranha.
— Quem está falando? – Inquiri alarmada.
— O meu nome não importa. O que importa é que seu adorável namorado está sob meu poder e a menos que você queira que algo muito ruim aconteça com ele, venha o quanto antes até o cemitério. Sozinha. Eu saberei se vier acompanhada de algum dos Originais, por isso sem gracinhas. Ou então o belo Steve pagará por seus erros. – Ameaçou encerrando a chamada.
De repente, o chão parecia ter sumido de debaixo dos meus pés. Desabei sobre o sofá sentindo meu coração bater fora de compasso. Arrisquei olhar para Klaus e vi que ele também me olhava.
— Isso só pode ser mais uma investida das bruxas. – Murmurou ele mais para si mesmo do que para mim.
— Você escutou? – Indaguei ainda em choque.
— Não sei qual é o objetivo delas com esse plano sórdido, mas darei um jeito de descobrir. – Afirmou ficando de pé.
— De jeito nenhum! – Protestei levantando em um pulo. – Você não ouviu o que ela disse? Sem Originais envolvidos. Eu irei a esse encontro e descobrirei o que querem comigo. – Declarei.
— É uma armadilha. Você não vai sair daqui. – Ordenou Klaus autoritário encurtando a distância entre nós.
— Jura? E quem vai me impedir de fazer isso? – Retruquei o desafiando.
Não havia a menor possibilidade de eu colocar a vida de Steve em risco. Se era a mim que as bruxas queriam, era a mim que elas iriam ter.
Permanecemos nos encarando em silêncio por alguns minutos. Um misto de emoções faiscava nos olhos dele, assim como nos meus. Passei por Klaus, indo diretamente para porta. A única coisa que passava pela minha cabeça no momento era Steve. Eu precisava dele a salvo do meu lado o quanto antes. Do contrário, eu jamais me perdoaria se algo o acontecesse. Eu estava disposta a dar minha vida por ele se fosse necessário.
Sem prestar atenção em nada, desci correndo a escada e atravessei a passos rápidos o pátio. Quando me vi fora do casarão, corri até o meu carro, entrando nele logo em seguida. Enquanto dirigia pelas ruas da cidade, eu só rezava por uma coisa: a segurança de Steve.
(...)
Assim que coloquei os pés no cemitério, um arrepio tomou conta do meu corpo. Respirei fundo para me acalmar e segui em frente, em meio às lápides. Eu tinha tomado verdadeiro pavor a esse lugar. Além de sinistro, ele só podia ser amaldiçoado a julgar pelas tragédias que eu já tinha presenciado aqui. Seria eufemismo da minha parte dizer que eu estava assustada. Eu daria qualquer coisa para que toda essa situação fosse apenas um pesadelo. Um terrível pesadelo. Aí quando eu acordasse, Steve estaria seguro em casa e eu me acalmaria aos poucos, pegando no sono de novo logo em seguida. Mas infelizmente o que eu estava vivendo agora era real. E dependendo de como isso terminasse, talvez eu não quisesse sobreviver para um novo dia.
Continuei andando até me deparar com uma cripta aberta com um casal de guarda na porta. Mesmo com o coração na boca, avancei até eles. Os dois me olharam sem dizer uma palavra, apenas me deixaram entrar. Havia pelo menos umas seis mulheres dentro do mausoléu. Não reconheci nenhuma delas. Se pelo menos Sophie ou até mesmo Sabine estivessem aqui, talvez elas pudessem me ajudar de alguma maneira.
— Já não era sem tempo, Lexi. – Manifestou-se uma mulher de aparência cigana, na casa dos trinta anos.
— Cadê o Steve? Como sabe quem eu sou? E por que me fez vir até aqui? – Disparei as perguntas tentando expressar o máximo de firmeza na minha voz.
— Fico feliz que tenha aceitado o meu convite, Lexi. – Gracejou a mesma mulher. – As bruxas são servas da natureza, minha querida. Sabemos de muitas coisas, inclusive da sua proximidade com Originais. – Garantiu sorrindo. – É um prazer conhece-la pessoalmente. Meu nome é Sarah. E a propósito, ali está seu amado Steve. – Concluiu abrindo passagem para que eu visse o fundo da cripta.
Steve estava amordaçado, de joelhos em meio a um círculo no chão, rodeado por velas e com os braços acorrentados a parede. Assim que me viu, ele começou a se debater. Tive que dar tudo de mim para não desmaiar naquele exato momento. Eu preferia morrer a vê-lo daquele jeito. Dei um passo em sua direção, porém Sarah e as outras se colocaram a minha frente interceptando meu caminho.
— Por favor, me diga o que querem. Eu faço qualquer coisa desde que vocês o soltem. – Implorei já entrando em desespero.
— Estou satisfeita em ver que você está disposta a colaborar. – Disse Sarah sorrindo perversamente. – Tudo o que eu quero é que nos ajude a derrubar os Originais. – Completou me fazendo arregalar os olhos.
— O quê?! – Exclamei incrédula.
— Isso mesmo que você ouviu. Queremos a nossa cidade de volta, mas isso não será possível com eles por aqui. – Esclareceu.
— Eu não posso! O que te faz pensar que uma mera humana como eu teria algum poder contra os Mikaelson? – Questionei tentando dissuadi-la daquele absurdo.
Depois de me analisar por alguns instantes, ela me lançou um olhar superior.
— Tem razão. – Concordou me arrancando um suspiro aliviado. – Entretanto, há outra coisa que queremos de você. – Emendou com um sorriso traiçoeiro. Senti meu coração errar uma batida.
— E o que seria? – Procurei saber mesmo aterrorizada com a possível resposta.
— Seu sangue. – Revelou num tom baixo causando-me arrepios.
— Meu sangue? – Repeti perplexa.
— Sim, mas não se preocupe. Um pouco é o suficiente. É uma boa barganha, não acha? Apenas um pouco do seu sangue em troca da vida desse jovem e belo rapaz. – Ironizou saindo de onde estava para que eu pudesse ver Steve.
Sem pensar duas vezes, estendi meu braço em sua direção.
— Pegue o quanto quiser, mas me prometa que irá deixa-lo partir. – Pedi olhando para ela.
Sarah intercalou seu olhar entre meu braço e meu rosto antes de responder.
— Você tem a minha palavra. – Prometeu pegando um punhal na mão de uma das suas acompanhantes e um recipiente na mão de outra.
Não demorou muito e eu senti uma forte ardência seguida por uma pontada de dor na minha mão. Sarah havia feito um corte na palma da mesma e o sangue que escorria do ferimento caía diretamente no recipiente.
Levou alguns minutos até que minha mão parasse de sangrar. Enquanto eu doava meu sangue, não sei para quê, eu mantive minha atenção em Steve. Era nítido em seus olhos o quão assustado ele estava com toda aquela situação. Quando Sarah finalmente recolheu a vasilha, que estava cheia até a metade, eu voltei a fita-la.
— Isso deve servir. – Anunciou concentrada no objeto em suas mãos. Cheguei a me perguntar em quê ela usaria aquilo, mas logo esqueci esse pensamento. Isso não importava agora. – Tomem conta deles enquanto eu levo o sangue para vocês sabem quem. – Emendou misteriosa afastando-se de mim e indo em direção à saída.
— Espera! Você disse que... – Comecei a protestar, porém fui interrompida por Sarah.
— Eu disse que os deixaria ir, mas não disse quando. – Refutou me fazendo encara-la indignada.
Antes que eu pudesse fazer alguma coisa, Sarah sumiu das minhas vistas e as outras bruxas formaram uma barreira entre mim e a porta.
Virei-me para Steve completamente abalada. Aproveitei a ausência de Sarah para correr até ele e abraça-lo. Retirei sua mordaça o deixando visivelmente mais aliviado.
— Eu sinto muito... Eu sinto muito. Eu prometo que vai ficar tudo bem. – Sussurrei em seu ouvido com a intenção de acalmá-lo, embora a minha vontade fosse cair no choro.
— Lexi... – Ele murmurou baixinho, chocado demais para falar alguma coisa.
Afastei-me minimamente dele para olhar as bruxas. Elas nos observavam com feições impassíveis. Ao menos não parecia que iriam nos atacar a qualquer momento.
Notei um vulto na entrada da cripta e antes que eu pudesse piscar, as bruxas foram caindo uma a uma ensanguentadas no chão. Quando a última tombou, após ter o seu coração arrancado do peito, eu pude enfim reconhecer Klaus. Além de estar com as mãos, e parte da roupa, sujas de sangue, sua expressão transparecia uma dualidade de sentimentos.
— Você está bem? – Perguntou depois de alguns instantes me analisando.
— Estou. – Afirmei. Pelo menos fisicamente. Completei em pensamentos.
Klaus caminhou até nós e depois de trocar um breve olhar comigo, ele foi até as correntes que prendiam Steve e as arrebentou. Assim que Steve ficou livre, eu voltei a abraça-lo dessa vez sendo retribuída por ele. Klaus distanciou-se de nós.
— Espero que todas as envolvidas nesse show de horrores estejam aqui. – Comentou Klaus indicando os corpos no chão.
— Na verdade falta uma. O nome dela é Sarah. Ela saiu um pouco antes de você chegar. – Informei levantando e ajudando Steve a fazer o mesmo.
— O que é isso? – Inquiriu Klaus voltando para perto de mim e segurando minha mão machucada.
— As bruxas queriam um pouco do meu sangue. – Expliquei.
— E você deu? – Questionou com misto de raiva e incredulidade.
— Eu não tive escolha. – Me justifiquei livrando minha mão do seu aperto.
Klaus me encarou por um tempo antes de assumir sua aparência híbrida. Ele mordeu o próprio pulso e o estendeu em minha direção.
— Beba. Vai cicatrizar o corte. – Instruiu sério.
Levei um minuto inteiro para assimilar que ele estava mesmo me oferecendo seu sangue. Ainda meio confusa, resolvi obedecê-lo. Coloquei minha boca sobre a mordida e tomei um pouco do seu sangue. Essa sem dúvidas foi a coisa mais estranha que eu já fiz na vida. Quando afastei meus lábios do pulso de Klaus, notei que o corte em minha mão havia de fato sumido.
Lancei um olhar impressionado para o meu melhor amigo, mas logo voltei minha atenção para Steve que nos observava catatônico.
— Você está bem? – Procurei saber o examinando com os olhos em busca de algum ferimento.
— Lexi... Lexi, o quê...? – Seu aturdimento com tudo aquilo era mais do que perceptível. Pensei em como explicar o que tinha acontecido para ele, entretanto Klaus foi mais rápido.
— Não temos tempo para isso agora. O quanto antes sairmos desse cemitério, melhor. – Ordenou impaciente.
Assenti sem questionar. Segurei a mão de Steve e o puxei para fora dali. Definitivamente, esse lugar tinha se tornado o mais odiado por mim. Para o meu alívio, não demorou muito até que estivéssemos em uma das inúmeras ruas movimentadas. Sem me conter mais, joguei-me em Steve, o abraçando com todas as minhas forças. Ele pereceu surpreso por um momento, mas logo retribuiu.
— Me perdoa! Me perdoa. Eu nunca quis te envolver nisso. – Me desculpei o beijando.
Eu acho que eu não tinha noção do que eu sentia por ele até aquele momento. Eu jamais conseguiria conviver comigo mesma se Steve tivesse se ferido de alguma forma. Eu já tinha perdido tantas pessoas importantes para mim... Que eu tenho certeza que não suportaria adicionar o nome dele a essa lista. E foi com esse raciocínio em mente que eu tomei uma das decisões mais dolorosas até agora.
Segurando as lágrimas, separei-me brevemente de Steve apenas para fitar seu rosto e gravar cada mínimo detalhe dele em minha cabeça. Ele iria dizer algo, porém o interrompi com outro beijo, dessa vez mais afoito. O mínimo que eu poderia fazer era aproveitar o momento, já que infelizmente aquilo era uma despedida.

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