I Just Died In Your Arms

1 (I Just) Died In Your Arms


Saí de casa naquela noite decidido a acabar com tudo, eu já tava cansado daquela enrolação e incerteza. Sempre que a gente tava junto ela me dizia o quão bom era estar comigo, o quão segura se sentia e eu, otário, ficava todo feliz com isso, ficávamos juntos à noite e de manhã ela me mandava embora. Claro que depois de meses só disso a gente começa a desconfiar — ela nunca me apresentou os amigos e nem família e toda vez que a gente saía era com os meus amigos; quando eu perguntava algo mais íntimo sobre ela eu recebia um “É complicado” e nada mais. Confesso que eu curtia todo esse mistério.

Cheguei a pensar que era casada, mas ela nem rede social tinha, não dava pra saber nada da vida dessa pessoa sem perguntar diretamente. Enquanto eu dirigia ao parque usávamos como ponto de encontro cheguei a pensar que talvez Isabella nem fosse seu nome de verdade, mas aí não sabia se era a paranoia misturada com raiva ou se devia ser uma preocupação real. Fiquei um bom tempo imaginando como ia falar com ela, se ia ser dramático e arrancar o cordão que ela me deu e jogar no chão ou só ser direto. Escolhi ser direto e calmo, eu já tenho 32, não dá pra ficar de drama igual adolescente. Quando eu saí do carro e vi ela sentada, tão linda como sempre, quase pensei em desistir e correr pra um abraço mas me mantive firme, era hoje ou nunca mais. Pelo menos era isso que eu tinha pensado, foi tudo tão rápido, ouvi um estouro alto e senti que tava caindo, só lembro de ter visto ela levantar correndo do banco com uma cara de desespero e gritando “Não!” várias vezes. Acho que eu tomei um tiro.

Na minha cabeça eu caí em câmera lenta, vi Isabella correr como uma onça pra cima de um cara armado e só quando eu já tava no chão que comecei a sentir uma dor aguda no peito. Estava confuso, senti minha boca encher com sangue e sei que tentei tossir ele pra fora, mas quanto mais eu tossia mais sangue eu sentia entrando na minha garganta. Não sei quanto tempo eu fiquei ali no chão, cheguei a pensar em levantar e correr, buscar ajuda, mas meu corpo não respondia, era uma paralisia do sono mil vezes pior, depois de um tempo o desespero foi sumindo mas acho que era minha consciência indo embora. Antes de tudo escurecer, eu senti ela segurar meu rosto, vi seus olhos lindos castanhos e ouvi ela dizer alguma coisa do tipo “Calma, eu tô aqui com você” — ela parecia bem desesperada, eu quis até dizer que ia ficar tudo bem, mas só consegui pensar:

— É. eu morri nos seus braços essa noite.

Já tinha aceitado que aquele era o fim pra mim, não tinha mais o que fazer mesmo, se eu fosse morrer ali pelo menos não ia estar sozinho. Minha memória daquela hora não é a melhor, mas eu acho que ela me pediu desculpas — sei que ela se aproximou do meu rosto e eu pensei:

— Deve ser algum tipo de beijo.

Depois disso meu corpo foi tomado pela melhor sensação que eu já tive, nada injetável no mundo ia conseguir me fazer sentir aquilo de novo, era mil vezes mais poderoso que um orgasmo, era como se eu estivesse sendo enchido de vida própria.

Só quando acordei horas depois, com uma fome sobrenatural e o desespero de um morto, eu entendi o porquê de nunca termos saído de dia.

Notas finais
Obrigado a todos que leram, é a primeira vez que posto algum texto meu na net então tô um pouquinho ansioso, críticas são muito bem-vindas!!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!