I Hate You Too!
60 LX - O Bar
Notas iniciais
A noite já começava a cair e eu ainda estava ali, pensando.
Desde que Jonathan saiu, eu fiquei o tempo todo deitado no sofá, olhando pro teto e pensando… A bagunça de livros e cadernos continuava ali no chão, o vento forte que entrou a tarde quase que inteira e constante pela porta da varanda, agora se resumia a uma brisa leve que dava lugar para o começo do cair da noite.
Acabei quase nem comendo, apenas tomando um café e comendo dois pães. Tudo com o Jonathan tinha sido tão bom e tão ruim ao mesmo tempo… Era complexo demais e minha cabeça sempre ficava pensando em todas as possibilidades e variantes que aquilo poderia me trazer… Ser racional era uma merda. Uma grande merda.
Saquei o celular na perspectiva de que mexendo nele eu não iria pensar tanta merda. Fui até o Whatsapp e a maioria da mensagens eram em grupos, quase nenhum contato tinha me mandado alguma mensagem. Felipe havia mandado uma mensagem, lembrei que ele ainda deveria estar esperando minhas respostas sobre as perguntas que ele havia feito. Peguei o meu caderno de anotações e comecei a reler o pequeno resumo que havia feito e logo mandei um áudio explicando toda a parte da matéria que ele me pedia.
Logo, Felipe começou a ouvir o áudio e me agradeceu.
—Valeu Has, tua voz tá estranha, tá tudo bem?
—Não muito… Jonathan esteve aqui…
—Porra, eai? Vocês discutiram?
—Não… —Que vergonha de assumir certas coisas para Felipe. —Nós ficamos… Felipe, eu queria falar contigo pessoalmente, fica foda de tu vir pra cá?
—Um pouco… —Imaginei que sim. —Mas eu tô indo pra uma festa que vai ter naquele clube lá perto do Centro, te falei, lembra?
Era uma festa de carnaval, que muito possivelmente estaria lotada e que eu iria detestar pela música alta, esbarrões e multidão. Eu sabia que eu era um chato de galocha, mas eu estava precisando não pensar, principalmente ao saber que os meus pensamentos eram os grandes vilões de tudo e o que me faziam ficar ainda pior do meu juízo já devastado. Drama, eu sei.
—Que horas?
—Você vai?
Sabia que o comentário surpresa apareceria.
—Sim.
—Ok, nos encontramos em frente ao bar às nove, pode ser?
—Sim. Ótimo.
[...]
Já estava quase pronto.
Estava apenas decidindo se ia com uma camisa básica preta, junto com a calça jeans justa e também preta, ou se eu ia com uma camisa estampada de cores néon. Nenhuma das duas parecia bem carnaval o suficiente, mas eu não era uma pessoa carnaval. Resolvi ir mais básico do que mais néon… Ok, aquela decisão era no mínimo desnecessária.
Peguei a pomada modeladora e passei no cabelo. Tentei levantar o topete o mais alto que dava. Meu cabelo tava muito grande já. Ok, já tava na hora de sair. Saquei o celular e ele estava bem carregado. Ótimo, abri o aplicativo e comecei a fazer o pedido. Seria o tempo de eu fechar todas as portas e janelas. Logo depois disso, eu vi que o carro já estava selecionado e chegaria em três minutos.
Perfeito. O tempo que eu levaria para chegar até lá embaixo. Peguei o elevador com um senhor que morava em algum andar mais acima e ele me olhou de cima a baixo. Enfim, uma pessoa irrelevante. Peguei o carro ao chegar no térreo e logo ele começou a andar pelas ruas em destino ao bar do Centro onde eu encontraria Felipe. A maioria das ruas estava pouco animada. Raras eram as que tinham algum festejo. Algumas praças tinham alguns moradores e talvez turistas curtindo com grandes caixas de som e roupas soltas.
A noite estava gostosa. Não tinham nuvens e o vento era de um dia de verão, firme e agradável. O motorista era bem simpático e fez algumas perguntas sobre o carnaval e como tudo estava. Ao chegar no bar, vi que já era nove e dez e Felipe estava lá. Em pé, próximo a entrada e sorriu ao me ver.
Sinceramente… Aquele garoto era muito bonito.
Felipe estava usando uma camisa preta meio acinzentada com uma caveira de estampa, mostrando os braços fortes porém não tão malhados assim, uma calça jeans também acinzentada com grandes rasgos nos joelhos, que deixava boa parte da perna dele de fora e um sapato branco, além de umas pulseiras no pulso esquerdo e um cordão pendurado no pescoço. O cabelo estava mais curto, ele havia cortado um pouco, agora estava na altura do ombro e a maior parte dos dreads estavam presos no topo da sua cabeça, apenas uns quatro ou cinco que estavam soltos.
—Demorei? -Falei ao me aproximar e trocamos um abraço.
—Não. Fiquei preocupado achando que você viria bem carnaval, sendo que vamos pra um bar mais de rock do que de qualquer coisa.
—Você não me conhece, né? Sabe que eu sou a pessoa mais sóbria quando se trata de cores. -Ele riu e concordou.
—Eu sabia que você viria no máximo de vermelho.
—Tu cortou o cabelo?
—Foi... Curtiu? -Falou logo entrando na pequena fila que se fazia na entrada.
—Ficou bem legal. Confirmando ficando atrás dele.
Logo passamos pelo segurança que nos revistou de leve e conferiu nosso documento. O típico processo para entrar nos estabelecimentos fechados. Felipe passou pela entrada e logo entramos no bar. Já tinham algumas pessoas lá dentro, não muitas, porém um número considerável.
O bar estava decorado com luzes escuras, tinha um grande salão com muitas luzes azuis escuro e verdes, mal dava pra ver quem estava à sua frente, mas vai ver esse era o interesse. O fundo um pequeno palco estava sendo organizado com homens mexendo em instrumentos e organizando as luzes, talvez fosse haver algum tipo de show ao vivo. Passamos pelo balcão do bar e Felipe cumprimentou um garoto que estava lá, os dois deram um aperto de mão e Felipe pediu dois drinks avermelhados com um limão preso no copo. E logo nos encaminhamos para uns sofás pretos que tinham ali perto.
Aquela parte era a mais calma do espaço todo. Ali também tinha uma pequena escada que dava para o primeiro andar, porém um segurança na base da escada indicava que apenas os VIP’s poderiam subir. Aquele bar era ótimo.
—Já vamos sentar? -Dei um gole fundo na bebida e logo comecei a tossir.
Caralho, aquilo era forte pra porra.
—Eita, calminha… -Felipe falou rindo do meu engasgo. -Isso é forte!
—Isso é álcool etílico! -Reclamei com ele e ele continuou rindo.
—Vamos ficar por aqui sentados, afinal a galera ainda tá entrando e nós temos que conversar, não?
—Não. -Falei me sentando e ele me encarou sem entender e logo sentou-se também, do meu lado.
Felipe era muito gato e porra… Meu amigo... E hétero!
Certo, nada de pensamentos libidinosos…
Bebi outro gole e ele acompanhou bebendo também.
—Jonathan veio pedir desculpas…
—Sério?
—Surpreendente, né? -Falei cruzando a perna e ficando meio de lado, enquanto Felipe seguia com as pernas abertas e os cotovelos apoiados nos joelhos e bebendo seu drink. -Enfim, a gente meio que conversou… -Comentei tímido.
—Conversaram? -Ele me olhou sugestivo. -Apenas conversaram?
—Nos beijamos… -Comentei relutante.
Não precisava ser nenhum gênio pra saber que eu sempre ficava derretido quando Jonathan era o assunto. Aquilo era quase como as constantes recaídas nos pontos fracos que nós possuímos. Jonathan era meu ponto fraco. Será que era tão errado gostar de alguém assim? Considerado errado, talvez não fosse, mas saudável, era outra história.
—Pode me julgar…
—Eu não, faz nem sentido fazer isso… Mas então vocês se acertaram? Porque não tá com ele agora?
—Na verdade, eu ainda estou bem confuso com tudo o que houve, entende. -Ele seguiu como se sugerisse que eu continuasse.
Ok, talvez não fosse nem o lugar nem o momento de ter essa conversa, mas desde a situação mais cedo com Jonathan, eu achei que estava precisando de uma segunda opinião e também para melhorar minha ansiedade. Ansiedade…
—Ele chegou lá e eu não estava esperando que ele viesse. Acabou que eu deixei ele entrar e ele disse coisas, tipo que sentia minha falta e que gostava do meu cheiro e também pediu desculpas, mas eu não sei se eu tô preparado pra perdoar…
—Especificamente porque você acha que não tá preparado pra perdoar?
—Eu não queria me decepcionar outra vez, entende? -Felipe concordou. -O Jonathan é assim, ele vem todo carinhoso quando quer algo, mas fica todo nervosinho quando é confrontado.
—É… Tu conhece ele melhor do que eu, certo? -Felipe olhou para a pista e eu fiz o mesmo.
A maioria das pessoas estavam ali conversando ou dançando a medida que a música alta tocava. Era algo como um rock alternativo, a maioria passava pelos outros com copos nas mãos e rindo e flertando com os outros. Dava para ver que era um público bem variado, desde héteros e gays, homens e mulheres.
—Será que não é disso que tu tá precisando? Conhecer outros caras, ver se existe vida amorosa além de Jonathan. -Ele foi sugestivo, aquilo era uma paquera?
Óbvio que não! Felipe era hétero, aquilo só podia ser a minha cabeça novamente pregando uma peça, sempre era isso que ocorria. Felipe levantou dizendo que iria no bar pegar mais bebida. Eu bebi novamente o meu copo e vi que já estava perto de acabar. Ele pediu que eu esperasse ali e eu fiquei. Aquilo era forte, a música estava alto e as pessoas daquele bar eram muito belas.
Logo ele voltou e eu levantei.
Má ideia, minha cabeça rodou e eu quase caí… Um único drink e eu já estava alto. Ok, aquilo não deveria ser um bom sinal, né?
—Tá tudo bem? -Felipe segurou meu corpo com um braço e me entregou um drink. -Acha que deve?
—Claro que devo! -Falei pegando o drink e saindo do “abraço” dele. Bêbado e toques não são uma boa junção.
—Não sei você, mas eu já vi meu alvo… -Falou olhando para a pista onde tinha a maioria de pessoas. -Até mais, Has.
—Até… -Antes que eu pudesse me despedir, ele já estava a caminho da multidão.
Eu poderia ficar no sofá, beber mais e só curtir o ambiente. Ou eu podia ir até a galera e tentar ver o que poderia rolar. Porque não? Dei um gole da bebida e novamente senti minha cabeça… O próximo dia seria uma segunda de carnaval, não teria aula, mas eu estava planejando estudar muito ainda…
Comecei a caminhar pela multidão e vi que a banda já estava tocando. Eles tocavam alto, mas tocavam bem. Era alguma música de rock em inglês que eu não estava entendendo bem, talvez nem conhecesse. Ao olhar pela multidão deu pra ver uma mulher agarrada a Felipe. Ela era um pouco menor do que ele, talvez da minha altura, tinha um cabelo curtinho e pintado de loiro, que contrastava com a sua pele marrom. Era uma bela imagem, os dois se beijando ali perto de uma parede, enquanto as luzes néon verde e azul ficavam brincando pelo corpo deles.
Continuei andando e logo cheguei no bar. Ali tinha uns bancos altos e antes que eu sentasse, eu senti uma mão passando pelo meu cabelo e bagunçando tudo.
—Ei! -Reclamei alto e logo levei uma das mãos ao meu cabelo para tentar ajeitar.
—Desculpa, gatinho. -Virei o rosto pra onde vinha a voz e nossa…
Aqueles olhos negros estavam me enfeitiçando. O homem branco de cabelos e olhos escuros com um sorriso lindo estava me olhando. O cabelo dele era meio curtinho, mas era bonito. Ele estava com uma jaqueta jeans bem escura e uma bermuda curta, mais ou menos no meio da coxa. Tinha as pernas grossas e com pelos. Ele não parecia ser um jovem da minha idade, mas também não parece ser velho. Talvez, tivesse próximo de vinte e cinco anos. Ele bebeu um gole da própria bebida e pegou o celular.
—Eu peguei no seu cabelo porque foi o segundo lugar mais interessante que eu achei… -Falou me encarando.
—E qual foi o primeiro? -O moreno sorriu e se inclinou para frente um pouco e olhou direto pra minha bunda.
Virei rápido e colei a bunda contra o balcão do bar. Era mais seguro. Se aquele maluco se sentia à vontade pra pegar e bagunçar meu cabelo, vai saber o que ele iria fazer depois…
—É a sua primeira vez aqui, não? -Perguntou ao meu lado, porém sem tirar os olhos do meu. E aquilo era bom. -Pelo menos você não deve ser menor de idade.
—Sim, é sim.
—Imaginei. -Ele sorriu divertido. -Você parece deslocado.
Ok, o maluco além de engraçadinho era desbocado.
—Você tem uma abordagem bem única né?
Ele se mexeu rápido.
Logo ele estava de frente pra mim, com uma perna enfiada entre as minhas duas pernas e as mãos me fechando contra o balcão. Ele era poucos centímetros mais alto que eu. Eu conseguia o olhar nos olhos sem ter que levantar a cabeça.
—É sempre bom pegar os novos do bar, sabia? Fidelizar eles.
—E quem te disse que você vai me pegar? -Falei sugestivo. E eu senti os lábios dele se aproximando.
—Eu já te peguei e tu nem sabe! -Falou e foi entrando com a língua na minha boca.
Nós trocamos um beijo rápido, foi inevitável não pensar em Jonathan na hora, mas o beijo dele era completamente diferente. A pegada era outra, ele parecia mais certo do que estava fazendo… Era bom, ele deveria ser muito experiente. Estava beijando um maluco. Um maluco que eu não tinha a menor ideia de como se chamava.
—Espera… -Falei separando ele de mim, mesmo nos mantendo ainda muito próximos um do outro. -Eu não sei nem quem você é... Eu não costumo beijar gente que eu não conheço!
—Eu me chamo Rico, podemos voltar aos trabalhos? -Falou sorrindo e eu apenas acenei que sim e logo Rico voltou a me beijar. Agora o maluco tinha um nome.
[...]
Fiquei umas boas horas com Rico. Ficamos entre o bar e o sofá. Por algumas vezes fomos interrompidos quando estávamos conversando por homens e mulheres, jovens e velhos. Rico parecia ser um frequentador bem assíduo do bar e muito querido pelo público do bar também.
Ele falou que trabalhava com administração e que já tinha terminado a faculdade de Administração, que tinha vinte e quatro anos e que costumava ir para o bar com muita frequência. Nós ficamos por um tempo entre amassos e conversas e Rico era bem simpático e atencioso e ainda tinha pagado algumas bebidas para mim, mesmo que eu estivesse bastante relutante a isso. Eu também falei para ele que tinha dezoito anos e que estudava Medicina.
Depois desse tempo, Rico disse que precisava ir e me deu um beijo de despedida.
Por mais que eu tivesse gostado, não parecia que sairia daquilo. Rico era quase uma celebridade daquele bar e se nenhuma daquelas pessoas lindas que falaram com ele conseguiram ficar com ele, isso apenas reforça que ele não passa de uma alma livre. Saquei o telefone e vi que já era quase três da manhã. Meu corpo já estava completamente cansado e o sono começava a bater, aliado com o tanto de álcool que eu bebi.
—Eai, Has? -Felipe chegou e me abraçou segurando meu corpo com um dos braços.
—Você não devia segurar um cara gay assim…
—Principalmente depois que vi você se agarrando daquele jeito com o Rico.
O que? Até ele conhecia?
—Esse cara é uma celebridade e eu tô por fora? Todo mundo que chegava perto, conhecia ele e ele conhecia todos de volta. Eu pensei que todos eram ex-peguetes deles. -Felipe riu e foi caminhando comigo para fora do bar.
—Rico é o dono do bar, Has. -Falou e eu arregalei os olhos, como assim? -Ele é apenas um jovem que herdou o bar quase falido do pai e começou a investir no negócio e fez um bar mais temático e foi agradando até conseguir um público fiel.
—Público fiel agarrando os clientes? -Comentei indignado e Felipe riu de novo.
Passamos pela entrada e pagamos a comanda. Eu basicamente não paguei nada, já que todas as bebidas que bebi foram compradas por Felipe ou Rico e não foram poucas. Ao chegar lá fora. Felipe me sentou no chão e pegou o celular.
—Basicamente Rico é um cara bem sucedido e bissexual que pega qualquer carne nova que agrada a ele no bar. Numa das primeiras vezes que eu vim, ele tentou ficar comigo também, mas eu dei um chega pra lá nele, mas uma amiga disse que ele transa muito bem.
—Passo! -Falei baixando a cabeça.
—Você tá bem? -Felipe se abaixou perto de mim. -Se importa se eu for pra sua casa?
—Não, até prefiro. -Falei sacando o celular e entregando pra ele. Já desbloqueado. -Pede no meu celular, afinal tu pagou minhas bebidas, nada mais justo que eu pague a volta.
Felipe não reclamou, apenas pegou o celular e foi pedindo.
—Foi gostoso pelo menos ficar com ele?
—Foi bem bom, mas eu vi que você ficou com uma gatinha também.
—Eu sempre fico com a Carla. Vamos, o carro chegou. -Felipe me ajudou a levantar e logo fomos entrando no carro, eu acabei deitando no colo de Felipe enquanto o caminho era feito. Por vezes fechei os olhos e deixei apenas o caminho rolar.
Depois de algum pouco tempo chegamos lá em casa e novamente Felipe me ajudou a levantar e sair do carro.
—Eu nunca te vi tão bêbado. -Fomos até o elevador e logo subimos.
Felipe me deixou no sofá e eu deitei e ele foi beber um copo com água e trouxe pra mim. Ele basicamente era de casa, já sabia onde estava tudo e tinha total abertura.
—Eu fiz certo em vir pra cá, você tá bem mal. -Felipe me ajudou a levantar um pouco para beber água. -Acha que vai vomitar?
—Não. -Respondi engolindo a água. -Não agora, pelo menos… -Encostei a cabeça no encosto do sofá e suspirei. Ouvi o Felipe rindo. -Qual a graça, seu idiota?
—Se você pudesse olhar pra você mesmo… Cara, tu tá mal! -Riu de novo…
Peguei uma das almofadas e o joguei nele sem nem ver. Nem sabia se pegou nele ou não, afinal eu só joguei para onde a voz vinha.
—Eu quero cafuné. -Falei me jogando pro lado e caindo no colo dele e logo senti seus dedos passando pelo meu cabelo. -Tô pensando no Jonathan…
—E eu na Isa.
Isa? Sorri sozinho e virei a cabeça ficando com ela pra cima e o olhei. Ele estava com uma cara de cachorro que caiu da mudança e eu sorri.
—Na Isa? Isabela? E a tal Carla?
—E o Rico? -Me perguntou sugestivo.
—Touché! -Sorri vencido. -Por que Isabela?
Peguei o copo de água que ele trouxe para si que estava na mesa de centro e bebi o restante e logo sentei para o encarar.
—O que se passa?
—Sei lá, Has. -Felipe falou suspirando. Talvez fosse a primeira vez que ele fosse se abrir realmente. -Isa e eu vivemos em mundos muito diferentes. O que os pais dela iriam pensar em ver ela com um cara tipo eu?
—Um outro estudante de Medicina? Acho que eles iriam gostar!
—Um negro? Não é tão simples assim…
—Mas assim você já tá presumindo que eles são racistas, Fê. Isso não se faz. Você realmente acha que alguém como a Isa foi criado por racistas?
—Vai ver ela teve uma babá negra enquanto os pais dela estavam ocupados demais fazendo fortuna?
Eu ri, mesmo sendo completamente errado. Felipe tinha um senso de humor muito estranho, mas agradável.
—É sério, Hassan!
—Eu sei disso, mas mesmo assim, não é como se você tivesse que se martirizar tanto por isso… — Olha que era eu, o rei do auto-martírio que estava dando esse conselho. -Primeiro, o que tu sente pela Isa?
—Ahh… Eu gosto dela. Sabe, a gente fica dando patada um no outro e rindo e somos bem próximos virtualmente também. Ela sempre vem reclamar de alguma futilidade e eu fico chamando ela de branquinha riquinha e ela fica muito puta, enfim…
—E o seu medo todo é só por causa de uma possível reação negativa dos pais dela?
—Não é tão simples assim, Has.
—Me explica então.
Felipe suspirou de novo. Mexi no meu cabelo e segui olhando pra ele. Eu ainda estava bem tonto, mas eu conseguia acompanhar tudo que ele falava.
—Tem muito haver com o motivo de eu vir embora do Rio.
—Sou todo ouvidos. -Falei cruzando as pernas.
—Eu vim para cá com meu irmão mais novo e minha mãe. Ele é dois anos mais novo que eu. Ele se chama Fernando e quando ele estava na escola ele conheceu uma garota, na época ele era bolsista de uma escola cara do Rio, cheio de filhinho de papai e basicamente ele se envolveu com ela e eles se gostavam muito. Só que os dois foram muito inconsequentes e acabaram transando sem camisinha e rolou toda uma confusão com a possibilidade da menina ter ficado grávida, o que acabou não acontecendo pelo menos. Só que os pais dela proibiram ela de ver meu irmão, depois que descobriram tudo e mudaram ela de escola e enfim. O Rio é uma cidade infinitamente maior que essa e aí, ele saiu da escola, caiu no mundo das drogas e foi uma confusão toda. Meus pais se separaram e nós acabamos decidindo trazer ele para um lugar longe, onde… -Felipe suspirou, seus olhos estavam avermelhados e eu fui até ele abraçando ele forte. -Ele pudesse começar do zero, ele tá em tratamento agora e eu aproveitei e coloquei a faculdade pra cá, onde não seria tão foda de passar e pra ter um motivo para ficarmos por aqui.
—Isso é foda, Fê! -Segui abraçado a ele e ele chorava baixinho.
Eu estava chocado e realizado… Parecia que agora poderíamos contar um com o outro.
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