I Hate You Then I Loved You
29 EXTRA 02
Wang Lee Hom em Hong Kong – uma ligação.
Noite de 2001, em Hong Kong.
O telefone de Wang Lee Hom tocou, e já passava de duas horas da manhã. Ele acordou sobressaltado, derrubando o celular que estava sobre a mesa de cabeceira. Esfregou os olhos, conseguiu alcançar o aparelho no chão, acendeu o abajour e atendeu, olhando o número.
_Brenda? – Ele estava sonolento. – O que houve? Brigou com Dong Wan?
_Oi... olha, eu estou com esse celular... e disquei esse número porque estava à mão... meu nome é Shou, e eu estou ligando do hospital central de Hong Kong.
_Hospital? – Lee Hom pulou da cama, seu coração disparado. A respiração não acompanhava os batimentos cardíacos. – O que você faz com o celular de Brenda??
_Brenda é a mocinha ocidental... bem... eu estava passando perto da faculdade e a encontrei, sabe? Ela estava ferida... e eu precisava ligar para alguém. Tinha um nome coreano aqui, mas o telefone não atendeu. E o seu nome veio logo depois na lista... você é parente dela?
_Sim, eu sou! – A voz de Lee Hom estava desaparecendo. – Eu vou praí, não saia daí!
Ele não se lembraria do que vestiu, simplesmente colocou a primeira roupa que estava à frente. De chinelos, cabelos despenteados, dirigindo pelas ruas escuras e frias de Hong Kong como se estivesse em uma pista de corrida, Wang Lee Hom chegou ao hospital em tempo record. Nada que acontecesse com Brenda o deixaria menos preocupado. A sua imagem ficava piscando em sua frente, indo e vindo, aparecendo e desaparecendo.
Entrou recepção adentro, sem fôlego, jogou-se no balcão para ter onde apoiar.
_Brenda Fonseca, por favor... ela foi trazida...
A pessoa iniciou a consulta pelo nome de Brenda, um tanto quanto desanimada em fazê-lo.
_Ela é uma ocidental... acabo de receber um telefonema dizendo que ela foi trazida pra cá ferida... – Lee Hom insistiu. Uma pessoa se aproximou. Um chinês franzino, sorridente, que o abordava de maneira amistosa.
_Olá... fui eu quem te ligou.
Lee Hom segurou-o pelos braços, nervoso.
_Onde ela está? Como ela está? O que houve??
_Er... eu não sei. – O rapaz arregalou os olhos. – Ela estava ferida... na rua... eu a achei, falei com ela, mas ela parecia em choque. Então eu a trouxe... precisa conversar com os médicos.
Lee Hom decidiu mostrar quem era, e usar usa fama para conseguir o que queria. Em poucos instantes, falava com o médico. Foi levado até Brenda, que estava em um quarto. Ela parecia bem, deitada na cama... não estava cheia de tubos, como Lee Hom pensou em vê-la. Aproximou-se, procurando alguém que deveria estar ali.
_Brenda... – Ele se sentou ao lado dela. – O que houve? Cadê Dong Wan?
_Eu não quero saber do musgo. – Ela disse, lágrimas nos olhos. – Alex, me leva embora?
_Brenda, o que houve?? Como assim... como isso foi acontecer?
_Alex, me leva pra casa! – Ela disse, jogando-se em seus braços e desabando em um choro profundo. – Eu quero ir embora... quero esquecer... me leva pra casa.
_Eu levo... mas você ainda não teve alta. Estão fazendo exames...
_Eu quero ir para os Estados Unidos.
_Mas Brenda...
_Eu quero! – Ela chorava, compulsivamente. – Eu quero... por favor, me leva embora.
_Eu levo. – Lee Hom respirou fundo. – Você vai sair, eu te coloco no avião. Não, eu te levo pessoalmente, ok? Eu te levo pessoalmente aos Estados Unidos. Pode ser?
_Sim, pode.
_Vou ligar para Dong Wan. – Lee Hom pegou o celular.
_Eu disse que não quero falar do musgo! – Brenda atirou o celular longe. – Eu não quero! Ele tinha que estar comigo, ele é o que sempre foi... um covarde que não assume suas responsabilidades.
_Brenda...
_Eu não vou falar com ele, Alex!!
Wang Lee Hom nunca pensou que enfrentaria uma barra tão pesada, ainda mais com a mulher que não era dele. A mulher não era dele... aquele sentimento o fez doer. Perder Brenda era algo que doía... mas ele sabia que jamais a perderia. Ela acabaria sempre sendo dele, porque era para ele que corria sempre que necessário. Mas as coisas tendiam a só piorar. Brenda foi liberada dois dias depois, com um fardo ainda mais pesado nas costas. Os exames revelaram que o estupro lhe havia deixado sequelas. Ela estava grávida. Data aproximada da concepção era coerente com o estupro... a margem de erro era de no máximo uma semana, então o filho era do estuprador. Era só isso que passava por sua cabeça.
Mas ao contrário do que Lee Hom pensou, ela não desejou abortar imediatamente. Ela faria isso facilmente em Hong Kong, mas não...
_Eu não vou matar uma criança. – Brenda rodava de um lado para outro. – Nem pensar!
_Pode tê-la, se quiser... sabe que te darei todo apoio.
_Não vou ficar com ela, Alex! – Brenda continuava rodando. – Não vou matá-la,nem criá-la.
_O que fará?
_Darei em adoção.
_Teria mesmo coragem de pegar em suas mãos o seu filho, e dá-lo a alguém?
_Não é meu filho. – Brenda deixava as lágrimas rolarem. – Eu vou para os Estados Unidos... fico lá até próximo da data do nascimento. Depois volto a Hong Kong e tenho a criança aqui.
_Por que aqui? – Alex achava difícil acompanhar o raciocínio de Brenda.
_Porque a criança será chinesa. Terá melhores chances de ser adotada aqui.
O nascimento do filho de Brenda
Tarde de outono, Taiwan.
*Wang Lee Hom POV*
Eu tinha avisado a Brenda que era complicado viajar no nono mês de gravidez... ela não acreditou. Eu disse a ela, avisei... mas ela não ligou. Eu fui obrigado a ir aos Estados Unidos atrás dela. Eu tive que fretar um vôo para trazê-la, porque nenhuma companhia aérea do mundo a transportaria. E um médico foi comigo... imaginem se o menino nascesse?
Era um menino. O filho de uma violência, do sexo masculino. Certamente ele seria adotado... meninos eram preferidos na Ásia. Se fosse menina, teria dificuldades. Eu até falaria para ela deixar a criança nos Estados Unidos mesmo, se fosse menina. Mas era menino. Brenda não quis dar nome a ele, mas eu dei. Eu chamei de Joseph a criança que ela rejeitava. Ela levou a gravidez até o fim, mas eu sabia que Joseph sabia que ele não era querido. Pela mãe, ele não era.
Em Taiwan, não demorou a que ela entrasse em trabalho de parto. Ficou algumas semanas comigo e as contrações começaram. Eu tinha mudado toda a minha rotina por causa dela, de novo... eu ainda amava aquela mulher! E Dong Wan me ligando, Dong Wan sempre querendo notícias dela... eu sem ter o que dizer... Brenda era Brenda, sempre tão difícil!
_Eu vou ligar para o Wannie... não vou agüentar você sozinha!! – Eu disse, já pela milésima vez em que Brenda dava um grito escandaloso, ou fazia alguma grosseria.
_Não se atreva, Alex... eu não quero mais nem ver o musgo!!
_Essa briga tem que acabar...
_NÂO!
Sim, ela era difícil. Mais fácil desistir. As contrações aumentaram, a dilatação também... eu estava ficando nervoso. Os médicos perguntaram se eu queria entrar com ela na sala de parto, e eu nem tive escolha. Fui arrastado por ela, que tinha as mãos agarradas em minha camisa.
Vestiram-me, desinfetaram-me, esterilizaram-me... eu parecia um boneco, e todo cheio daquelas toucas e coisas azuis... nem em filmes eu ficaria tão ridículo. Brenda me chamava, eu tive que ir até ela. Bendita hora que ela inventou aquele parto natural... sem anestesia... eu queria drogas, muitas drogas! Queria Brenda completamente fora de sim, assim não teria que ver... tudo aquilo.
Os médicos não sabiam que eu e Brenda não estávamos juntos, menos ainda que Joey não era meu filho. Eles sabiam que era um bebê nascendo, e que eu estava ali, com aquela cara de bobo, como se fosse mesmo o pai. Eles me deram o cordão umbilical para cortar... e colocaram a criança nos braços de Brenda. Ela recusou-se a olhar para ele. Eu expliquei ao médico que ela tinha depressão, e ele fingiu que entendeu. Peguei o menino nos braços e levei-o até a enfermeira que terminaria de cuidar dele. Os olhos... fechados. Tão pequenos... Joey parecia tão diferente!
Eu não podia negar que me apaixonei instantaneamente pela criança. Brenda foi para o quarto, então sedada... eles tiveram que enchê-la de remédios, porque ela parecia uma histérica. Foi ótimo... eu fui para o berçário, e lá estava o pequeno Joseph. Sim, pequeno... ele tinha mãozinhas, pezinhos... ele era lindo! Eu não sabia quem era o pai dele, mas podia jurar que ele me lembrava alguém. Brenda, provavelmente. Mas aqueles olhos, não eram olhos... eu ignorei os pensamentos estúpidos, porque nada daquilo faria diferença. Brenda não olharia aquela criança, não mais.
No dia seguinte, eu fui até o quarto dela. Ela dormia... eu pensei sinceramente em chamar Dong Wan. Ele a amava, eu sabia. Ele tinha que estar ao lado dela naquele momento... não eu. Mas eu podia ser egoísta, e fazer exatamente o que Brenda me mandou... eu podia mesmo ser egoísta. Teria Brenda só para mim, não?
_Onde ele está? – Ela disse, quando eu saía já do quarto. Então, estava acordada....
_Ele quem, Brenda?
_Dongwannie... – então ela o chamava...
_Você quer que eu o chame?
_Não...
_Você está dormindo, Brenda. Vamos, continue dormindo... vou cuidar do seu filho para você, ok?
_Ok, Alex... obrigada. Pode dizer a ele que o amo?
_Ama quem, Brenda?
_Os dois.
Sorri, canto de boca, e beijei-a. Saí do quarto finalmente, e a enfermeira tinha Joey nos braços para me entregar.
_Vai levá-lo para a mãe, Senhor?
_Não... vou levá-lo para sua casa.
Saí do hospital com todas as mil recomendações, e peguei um táxi até minha casa. Segurava aquele pequenino comigo, e sorria. Era impossível não sorrir... ele realmente tinha muito da Brenda. Em casa, minha mãe me esperava ansiosa. Eu disse que lhe levaria algo... ela devia estar esperando um diamante. Mas eu cheguei com uma criança.
_Lee!! – Ela disse, assustada.
_Mãe... você sabe que nunca te pedi nem um cãozinho. – Eu a olhava, cúmplice.
_Mas é um bebê!! Quem é esse bebê??
_Eu me apaixonei por ele, mãe. Esse é Joseph Lee... a partir de hoje, ele é meu irmão.
_Mas... – Ela não entendeu, claro.
_Mãe, por favor... Joseph Lee, meu irmão... será criado assim. Ninguém nunca vai ficar sabendo de nada diferente, ok?
_Ok, meu filho... mas você vai me explicar isso direito, não vai?
_Sim, eu vou. Um dia... um dia ele reencontrará a mãe. Ela precisa estar pronta para recebê-lo.
Entreguei Joseph à minha mãe, e voltei ao hospital. Brenda não podia desconfiar... para ela, o menino estava sendo adotado. Para mim, ele estava se tornando uma das coisas mais preciosas que eu já poderia imaginar ter.
Fale com o autor