PRÓLOGO

Brenda esfregou os olhos, cansada. Estava há oras na frente do computador... e não conseguia que nada criativo saísse de lá. Sua cabeça estava em outro lugar... um lugar distante, sombrio, que ela preferia esquecer que existia.

Um barulho na porta fez com que acordasse de seu transe.

_Brenda, está aí? – A voz feminina ecoou.

_Sim... fale, Julie.

_Estão te chamando... acho que Greg quer falar com você.

_Sobre o que seria? – Brenda desligou o monitor e já foi se dirigindo para o corredor, seguindo a amiga.

_Bem... acho que tem algo a ver com... o oriente.

Brenda sentiu as pernas tremerem. O oriente significava Ásia... e Ásia significava muita coisa, Brenda não estava interessada em pensar. Apertou o passo, com Julie correndo atrás dela, até chegar à sala de Gregory. Entrou meio esbaforida, os papéis da mesa do chefe voaram quando a porta se abriu.

_Entre, Brenda. – Gregory virou-se para a frente.

_Er... mandou chamar? – Ela se sentou, esfregando as mãos.

_Sim, mandei. Entre também, Julie... isso vai interessar a vocês duas.

Julie sentiu a respiração falhar. Aproximou-se da mesa de Gregory, que limpou a garganta e sorriu para as duas.

_Bem... vou direto ao assunto. Tem tudo a ver com o projeto de vocês.

_O projeto? – Brenda engoliu a seco. – Mas... eu pensei que vocês tinham deixado de lado porque era muito caro.

_Sim, é. Mas descobrimos um mercado interessante... e decidimos segui-lo.

_Ai... – Julie sentiu uma pontada.

_Estejam preparadas para partir em uma semana

Brenda e Julie se entreolharam, curiosas. O ar ainda não tinha voltado aos pulmões de ninguém.

_Partir? – Julie, monossilábica.

_Sim... como pretendiam gerenciar o projeto? Daqui?

_Mas... Greg... acho que não estou entendendo. Vamos partir para onde, se nosso foco é exatamente o mercado novaiorquino?

_Como? – Gregory coçou a enorme careca reluzente. – Mas o projeto de vocês não significava vender nosso trabalho no mercado asiático?

_NÃO! – Julie assustou-se. – Era o contrário... era trazer o mercado asiático para vender aqui dentro!

_Bem... lamento, mas nosso interesse está lá. Foi assim que entendemos... E foi assim que aprovamos. Vocês partem em uma semana, ficarão em Hong Kong.

+++

O avião era silencioso, demais para o gosto de Brenda. Ela sentiu frio a viagem toda, não conseguiu dormir, e detestou todas as escalas. Sua vida foi ao paraíso e ao inferno em poucos instantes. Seu projeto, aquele pelo qual tanto trabalhou, deu em nada. Nada do que ela queria fazer ela faria, pois Gregory entendera errado suas expectativas. Ela nunca quis ir até o oriente para realizar seus projetos. Ela queria ter ficado nos Estados Unidos, onde estava segura e feliz. Ao menos ela se considerava... feliz.

E pior, ela estava retornando à Ásia. E pior ainda, se fosse possível, para Hong Kong. Era um pesadelo do qual ela precisava acordar urgentemente. Nada parecia fazer menos sentido do que Brenda retornando a Hong Kong. Aquilo não daria certo... ela tinha pressentimentos horríveis. Do seu lado, Julie dormia, com o fone do ipod meio caído para fora da orelha. Deveria estar sonhando com as maravilhas do mundo oriental... inocente. Se ela conhecesse o lado sombrio do mundo oriental, acabaria como Brenda. Totalmente cética.

_Já chegamos? – Brenda olhou para uma comissária e disse, em voz bem baixa. Estava escuro e ela não tinha se dado ao trabalho de checar o percurso.

_Estamos sobrevoando o Japão agora. – A moça foi simpática. Brenda respirou fundo e puxou um dos fones de ouvido de Julie. A amiga não se importaria. Tentou relaxar, afinal não havia muito o que fazer. Por sua sorte, ela não o veria. Por sua sorte, ela chegaria a Hong Kong tão incógnita que ninguém a notaria. Apesar de ela saber que isso seria impossível, ela ao menos tentaria. Tentaria se enganar.