I Hate You, Potter
1 I Hate You, Potter
Eram as férias de Natal em Hogwarts e havia um belo café da manhã sobre a mesa, no Grande Salão. Harry, que estava em seu sexto ano, tentava pensar em tudo menos em como o clima estava frio, como Snape era um tremendo de um idiota, lhe dando detenções em praticamente todas as aulas, e como Draco Malfoy desaparecia quase sempre no Mapa do Maroto. Essas eram questões que ele, Ron e Hermione já tinham discutido por muito tempo e já não tinha mais vontade de pensar nos amigos. Os dois haviam viajado, nestas férias. Hermione para algum lugar da Escócia, com os pais, e Ron estava tendo uma maravilhosa véspera de Natal com o restante da família Weasley, que insistiram em convidar Harry, mas este recusou. Não queria trazer mais pânico a eles. Já não basta ter feito uma confusão, no começo do ano... Além do mais, ele não queria ver Ginny, não queria fazer com que aqueles olhos incríveis junto aos maravilhosos cachos ruivos, cor de cereja, o deixassem mais culpado de não a ter chamado para sair à muito tempo. Que Dean aproveite a sorte.
Ele estava tão deprimido, que mal comeu a torta de nozes, sua preferida, que estava sobre a mesa. Não desejou um "bom-dia" a ninguém, nem mesmo à professora McGonagall que lhe acenou brevemente com a cabeça. Ele queria que o deixassem em paz. Além disso, Dumbledore não o chamara mais para o seu escritório, para nenhuma aula ou reunião, sejam lá o que forem, nova.
Era como no ano passado. Tudo estava indo errado. Tudo estava no lugar errado. Era como se de repente, Harry atravessara em outra dimensão, durante os sonhos, num conto em que não fazia parte. Ele suspirou e começou a caminhar para o salão comunal, quem sabe lá ele não encontre algo para fazer... Estava tão absorto em seus pensamentos, que só se deu conta de que subira até o sétimo andar, no corredor do quadro dos trasgos dançarinos, quando ouviu um barulho estranho vindo do banheiro mais próximo. Harry encarou o quadro, sem querer se mover. Não acreditava que fizera aquilo de novo. Já seguira Draco tantas e tantas vezes, depois do café, nos intervalos das aulas e até à noite, até ali, que seu cérebro já havia decorado o caminho sem precisar de comandos diretos.
O barulho era como um resmungo e Harry se perguntou se Murta-Que-Geme não estaria espiando no banheiro dos garotos mais uma vez, ao mesmo tempo em que fazia suas matutinas sessões de choro. Ele deu um passo até o banheiro sabendo que com toda certeza arrepender-se-ia depois. Ele olhou, do canto da porta, para o reflexo no espelho.
Era Draco Malfoy, para surpresa de Harry.
O que ele estaria fazendo ali? A satisfação do menino com a cicatriz cresceu vendo o louro chorar daquela maneira, aquele ser desprezível, que o reconheceu como um, desde a primeira vez que trocaram poucas palavras na loja de Madame Malkin's, quase seis anos atrás.
Foi quando Malfoy, que estava debruçado sob a pia, resmungou, como uma criancinha perdida:
—Ele vai me matar. Eu sei que vai.
O sorriso de Harry escorregou, pois ele sabia de quem Draco falava. Sabia de tudo de ruim que o levara a isso. Mas não compreendia.
—Ele está se vingando do meu pai. —Draco sussurrou de novo, para si.
Harry chegou mais perto, querendo ouvir mais, almejando saber tudo sobre os desejos de Lord Voldemort e suas ordens para que Malfoy os concretizasse.
—Potter?! —perguntou o outro, com o máximo de desprezo que conseguira carregar em sua voz —Não tem mais nada para fazer?! —ele limpava as lágrimas, depressa.
Um feitiço de luz vermelha foi jorrado contra a parede. Harry saltou e revidou. Quando Draco Malfoy havia aprendido aquele feitiço?
—Aprendendo magia-das-trevas com o seu mestre, Malfoy? —Harry provocou.
Malfoy fez uma expressão de escárnio, mas conforme este se lembrava dos problemas, foi escorregando ao chão. Harry o achara tão patético que desistiu de fazê-lo ficar com raiva.
—Por que ele quer te matar? —Harry perguntou, irritado, ainda de pé, caso o pálido perdesse a cabeça novamente.
—Uau, Potter. Sabe começar uma conversa tão bem. —disse o outro, sarcástico —Por que será que você não tem mais amigos além daquele ruivo da família sem-teto e aquela sangue-ruim da Granger? Realmente impressionante...
—Não fale deles assim! —Harry esbravejou.
Draco deu de ombros.
—Tanto faz. Quer me matar agora mesmo? Pouparia um grande trabalho para um monte de gente.
—Como assim? —Harry estava confuso. Draco devia estar muito deprimido, e mesmo assim, não conseguia deixar a arrogância de lado.
—Ah, me desculpa, Potter. Eu esqueci. Você é "Harry Incrível Potter", como iria saber o que é ter uma vida mundana qualquer? —ironizou Malfoy, ainda sentando no azulejo prata do banheiro. —Ninguém precisa te odiar, para querer te matar.
O menino com a cicatriz ofendeu-se, mas não se deixou abalar por causa disso. Malfoy estava acabado. Harry agachou-se em frente ao outro:
—Olha, não querendo estragar seu "bom-humor" todo, mas desde a noite em que me deixaram na frente da casa dos meus tios eu sei exatamente o que é ser odiado. —Harry suspirou —Onde está Voldemort?
Draco estremeceu brevemente a esse nome.
—E acha que eu sei? Mesmo embarcando na ideia, e eu sei que você sabe, de que eu seja um comensal-da-morte e tudo mais, por que acha que eu te contaria? E melhor ainda, por quê Você-Sabe-Quem me contaria? Eu só não sou a droga de um adolescente de dezesseis anos que não sabe fazer absolutamente nada? —Malfoy, irritado, soprou os fios de cabelo louros, quase brancos, que caiam sobre os olhos cheio de olheiras roxas. Pelo jeito, Draco não andava cortando os cabelos ou ao menos dormindo direito.
Harry sabia que tinha que sair dali. Queria jogar algum feitiço em Malfoy, agora que tinha a chance, queria fazê-lo sofrer por todas as coisas ruins que fizera a todos, queria que ele pagasse por todos os "sangues-ruins" que dissera ou diminuíra alguém com sua arrogância. Mas ele não conseguia dizer um feitiço qualquer. Só conseguia encarar os restos que sobraram de Draco Malfoy, o menininho assustado com todas as escolhas que sempre acreditara ser aquilo que queria. Um menininho medroso, tentando ser forte com a dor iminente de que tudo estava ruindo em sua cabeça.
Harry só tinha um problema. Enfrentar Lord Voldemort e acabar com todo o sofrimento bruxo. O resto era... Tão fútil. É claro que Harry sabia que Voldemort seria difícil, e pelo que parecia, a coisa mais assustadora e poderosa que enfrentaria em sua toda sua vida. Mas por algum motivo, ele não tinha medo, ele não estava assustado, pois sabia que de alguma maneira esse era o seu destino e se ele reservava algo assim, era porque ele, Harry, era capaz. Ele tinha de ser. Só sentia-se mais forte quando pensava em Lord Voldemort e todo o seu exército de comensais, apesar de não ver nenhuma maneira possível de derrota-lo. Era como... Um fio de esperança que despertara nele desde o dia em que seu primeiro ano em Hogwarts havia terminado, quando descobriu que as coisas que só eram alegres e possíveis em contos-de-fadas, realmente existiam.
Mas e Draco Malfoy? Em todas as pessoas daquele castelo, nunca pensara que seria justo Malfoy que estaria sentindo a mesma coisa que ele. O mesmo peso sobre os ombros de que o mundo estava cobrando algo dele, algo que ele não sabia como resolver. Mas Draco não era como Harry. Draco tinha medo, medo por sua vida, pois sempre, em todos os casos, ele parecera o garoto que queria provar a si mesmo quem era. E se você não sabe quem é, é muito complicado não sentir medo do resto do mundo.
Você precisa saber quem é para saber como enfrentar as coisas, pois um dos nossos piores inimigos é aquilo que não podemos entender, pensou Harry, naquele silêncio, nós mesmos.
—Você sabe o quê vai fazer agora? —Harry perguntou, encostando-se à parede, ao lado de Malfoy. Ele nunca imaginara que isso aconteceria.
—Não. —disse o outro, sem emoção nenhuma na voz. —Potter, por que está aqui?
—Eu não sei. Não tenho nada mais útil para fazer.
—Com certeza há.
—Talvez.
—Você sabe que a minha missão, com... ele, é algo ruim, não sabe?
—É... Eu sei.
—Então me mate, se quer ser o herói da história.
Harry riu, não sabia o motivo.
—Desde o primeiro ano estou esperando por este momento, mas não. —Harry suavizou o sorriso, com melancolia —Você vai ter que viver com fardo de que você é você e não pode mudar isso nem com uma poção polissuco eterna.
—Grande torturador. Já pensou em se candidatar para uma vaga de comensal?
—Ah, não. Não faz o meu estilo.
—Entendo. A máscara de terrorista não combina com seus óculos?
Harry riu.
—Acho que estou num pesadelo. Estou num banheiro, tendo uma conversa sobre comensais com um Malfoy. —Potter sussurrou, pois não era necessário dizer num tom mais alto para ser ouvido pelo outro.
—Experimente sonhar com você mesmo, Potter, o pesadelo vai ficar mais pavoroso ainda. —Draco esboçou um sorriso, mas ele não parecia seguro em sorrir ou rir, também.
—Olha... —Harry revirou o bolso de sua capa —Eu tenho umas balas de alcaçuz, da Dedosdemel. Quer uma? Aproveite que estou num espírito natalino.
—Não, eu odeio esses doces.
—Por quê? —Harry parecia incrédulo.
—Me lembra comer um pedaço de sapato. —Malfoy se divertira com a reação de Potter.
—Você só pode ter provado o sabor errado! Tome, esse é de morango.
O garoto de óculos estendeu o doce.
Malfoy revirou os olhos e pegou o alcaçuz, levando direto a boca.
—Bom... —Malfoy começou —Pelo menos não está envenenado.
—Talvez essa seja ideia. —Harry ergueu uma sobrancelha, malicioso —Envenenar o segundo para não estar preparado para ele.
—Ah, pode deixar. Não vai haver segundo. —cortou Draco.
Depois de uns minutos em silêncio, os dois olhavam para frente, sem saber o que viria depois.
—Você... Quer que eu vá? —Harry perguntou, guardando o doce —Pode dizer, juro que não vou ficar chateado com isso. Estou morrendo de vontade de te largar aí e ir me divertir com o resto das pessoas normais desse castelo.
Draco, do chão, olhou pra Harry, que já tinha se levantado.
—Potter, o que você vê, como você se sente quando olha para o seu reflexo?
Draco não mostrara nenhum sinal de que estava brincando e de alguma forma, Harry parecia até seguro em dizer algo verdadeiro.
—Eu... Eu vejo uma pessoa que não pôde escolher como seu futuro será. Ou ao menos planejar umas férias de verão decentes. —ele deu de ombros. —Mas mesmo assim... Feliz.
—Feliz? —Malfoy parecia ultrajado mais com a parte do "feliz" do que com a parte do "escolher", pois sobre não poder escolher o futuro era algo que ele compreendia, apesar de não querer ter isso em comum com Potter.
—Feliz, Draco. Isso acontece quando você tem pessoas que... Gostam de você e você gosta de volta. Amigos.
—Uau, Potter é um sentimental.
—Não... Eu sou humano. Assim como você.
Harry estendeu a mão para Draco Malfoy e este, com receio, a pegou. Ele se levantou. Draco era só alguns poucos centímetros mais alto que ele.
—Você já fez um boneco de neve?
—Fala sério, Potter.
—Ah, eu estou.
. . .
Harry Potter e Draco Malfoy estavam na neve, olhando para o lago.
—Como eu vim parara aqui? —Perguntava o louro, quase verdadeiramente incrédulo. —Sério, Potter, você envenenou meu alcaçuz?
—Não. —este sorria, mas apenas olhando para o chão, encoberto pela neve—Talvez seu cérebro apenas tenha desistido de trabalhar para uma pessoa tão vazia quanto você e quis se divertir um pouco.
—Vou anotar isso como desculpa à McGonagall, quando ela reclamar de novo que minhas notas estão baixas.
O silêncio, que era tão fácil cair sobre os dois, finalmente derreteu por cima deles. Draco havia deitado na neve e brincava, sem muita concentração com a lã solta em seu cachecol verde e prata, e de vez em quando, fazia seu distintivo de monitor refletir a luz do céu. Enquanto isso, Harry cavava um pequeno buraco na neve, com uma pedra, sem muita razão aparente. Foi quando o pálido disse, com uma falsa casualidade na voz:
—Ei, Potter.
—O quê?
—Não que eu realmente queira... Mas... Ah, dane-se. Quero mais uma daquelas balas.
Harry gargalhou, e sua risada ecoava perfeitamente, no silêncio dos arredores.
—Eu sabia! dizia —Não há como resistir ao poder de uma bala destas.
Ele chegou mais perto, para lhe entregar o doce.
—Ei. —Draco repetiu, sussurrando, tão petrificado em seu lugar que não ousava dizer qualquer coisa mais longa.
—O quê? —o outro perguntou, como uma fala programada para o seu cérebro que não funcionava mais. Talvez estivesse congelando, com a neve. Ele se aproximou, muito mais perto do que realmente era necessário para entregar a bala ao outro.
—Eu te odeio, Potter. —ele sussurrou.
—Ah, e como eu sei que é verdade.
. . .
A boca de Draco tinha um gosto doce, o doce gosto de sabor morango daquele alcaçuz.
A boca de Harry estava fria.
Eles eram os únicos ali.
Os dois carregavam uma dor que era muito mais do que eles poderiam carregar de uma vez só.
Harry e Draco eram inimigos desde o primeiro ano.
E eles sabiam, que nada mudaria isso.
. . .
Quando os dois descolaram as bocas, Draco Malfoy se levantou, e em seguida, se foi.
. . .
Quando amanhecera, Draco acordava em seu dormitório vazio, pelas férias. Foi então, que ele notou. Era Natal.
Havia três caixas de presente em frente à sua cama.
Uma, era de sua mãe.
Outra, era de Pansy Parkinson.
A última não tinha assinatura, mas continha um grande pacote de alcaçuz sabor morango.
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