“A gente já tá chegando?”

Draco riu, pondo uma mão na cabeça de Scorpius sem parar de andar. “Não,” ele respondeu sinceramente, divertido, e seu sorriso só cresceu com a careta que Scorpius fez. “A gente acabou de começar a andar, filho.”

Scorpius encolheu os ombros.

“Mas eu tô ansioso!” ele exclamou.

“Isso,” se intrometeu Harry, mexendo na mochila nas suas costas, “infelizmente não vai fazer a caminhada ficar mais curta.”

Harry sabia que era meio hipócrita da parte dele falar alguma coisa – ele, assim como Scorpius, não tinha a mínima ideia de para onde eles estavam indo, muito menos se o caminho seria longo ou curto. Draco tinha os chamado essa manhã e avisado que eles iriam fazer uma caminhada pela floresta, porque ele precisava os mostrar uma coisa, mas não tinha avisado muito mais. Harry não podia tirar de sua mente, até agora horas depois, como as bochechas de Draco estavam rosadas quando ele se virou para Harry.

“Você vai ir como reforço caso alguma coisa de ruim aconteça, é claro,” Draco tinha dito, a voz só um pouco hesitante demais para Harry realmente acreditar no é claro dele. “Se você quiser.”

Ele queria, morrendo de curiosidade para saber os planos de Draco, e agora eles estavam ali no meio da floresta, subindo para Merlin sabe onde. Scorpius se soltou um pouco de Draco para ir pulando na frente deles, chutando algumas pedras e batendo nos gravetos na frente deles com outro graveto que tinha achado no chão. Harry aumentou o passo para alcançar Draco.

“Então,” ele sussurrou perto do ouvido de Draco, ignorando quando o homem congelou um pouquinho, “uma caminhada na floresta a noite, ein? Eu sinto como se você estivesse indo me assassinar.”

Draco o lançou uma encarada feia, os olhos acizentados parecendo mais impressionantes do que nunca enquanto iluminados apenas pelo brilho pálido da lua. Ele tinha prendido seus cabelos num coque. Harry não sabia porque esse detalhe era tão importante, mas ele não conseguia o deixar de lado.

“Não seja obtuso, Potter.” Draco revirou os olhos. “Se eu fosse te assassinar, eu não iria ter trago Scorpius.”

Harry só riu, o que com certeza era um avanço quando comparado ao tempo na escola deles em que uma ameaça como essa teria levado a verdadeira preocupação de sua parte. Draco, ao ouvir sua risada, o lançou um pequeno sorriso, porém, então Harry sabia que era só brincadeira.

Ele e Draco Malfoy brincavam agora. Quem iria ter imaginado.

Scorpius se virou, levantando seu graveto na direção deles.

“E agora?” perguntou. “Agora a gente já tá chegando?”

Draco o lançou o olhar mais cheio de amor e afeição que um homem podia lançar para alguém, um sorriso suave crescendo em seus lábios. Outros pais talvez tivessem achado o comportamento típico de crianças ansiosas de Scorpius chato ou cansativo, mas não Draco, não depois de passar tantos anos sem poder cuidar de dita criança. Cada coisa que Scorpius fazia, chata ou não, parecia uma lufada de ar fresco para Draco.

“Não,” ele disse simplesmente, ainda sorrindo, e Scorpius bufou, se virando. Ele estava ficando cada vez mais confortável ao redor de Draco. Isso era ótimo. Daqui a pouco, eles nem iriam precisar de Harry mais.

Eles continuaram a andar, Scorpius brincando com seu graveto mais na frente e Harry e Draco mais atrás, de vez em quando trocando uma palavra ou outra, mas, na maior parte do tempo, só ficando em silêncio. De vez em quando o ombro de Draco tocava no de Harry e nenhum dos dois tentava se distanciar desesperadamente. Era uma caminhada bem pacifica.

Então Draco acelerou em direção a Scorpius.

“Ok,” ele disse animado, “agora a gente tá chegando. Fecha os olhos.”

Harry teria perguntando mais informações, mas Scorpius, porque ele era Scorpius, abriu um sorrisão, levando suas mãos para os seus olhos imediatamente enquanto Draco colocava a mão em seus ombros para o guiar e o impedir de cair ou bater em uma árvore. Eles ainda andaram um pouco mais, até que eles pararam numa planície. Era bem bonita, com a grama super verde e o céu aberto, mas Harry não pôde deixar de continuar esperando pela surpresa de Draco.

Draco cutucou o ombro de Scorpius.

“Pode olhar.”

E foi aí que Harry viu a surpresa – bem, ele não viu, não realmente, mas quando Scorpius levantou o rosto, olhando para o céu estrelado, Harry viu como os olhos dele se arregalaram, cheios de encanto, ele percebeu o quão incrível aquilo era pro menino. Scorpius passava tanto tempo no terraço de Harry, olhando para as estrelas numa cidade cheia e poluída onde as estrelas não eram realmente tão visíveis assim, e ele achava aquilo tão incrível, tão absolutamente maravilhoso. Harry só podia imaginar o quão encantado ele estava agora, quando o céu estava tão limpo e as estrelas tão brilhantes.

Não. Ele não podia apenas imaginar. Ele podia ver no rosto de Scorpius, no sorriso gigante deles e no modo como seus olhos pareciam refletir as estrelas, sua cara toda reluzindo felicidade como o sol. Ele se virou para Draco, pegando o braço do homem e pulando de felicidade.

“É tão lindo!”

Draco sorriu. Ele parecia prestes a chorar vendo Scorpius tão feliz.

“Eu percebi que você gosta de olhar para as estrelas,” disse, desajeitado e mais tímido do que o normal, o rosto todo vermelho. “Achei que você iria gostar.”

“Eu gostei um montão mesmo!”

Harry queria poder ter uma câmera para tirar uma foto desse momento, mas ele não tinha, então ele se contentou em apenas os olhar e sorrir. Draco levantou a bolsa que estava segurando. “Eu trouxe marshmallows. Para a gente fazer uma fogueira.”

Foi isso que eles fizeram então, usando madeira que eles acharam por perto e um feitiço bem controlado e cuidadoso de Draco, enquanto Scorpius estava deitado no chão ainda olhando para as estrelas com um olhar sonhador. Harry se sentou na frente da fogueira, mexendo no fogo com um graveto e Draco se sentou do lado dele, olhando para Scorpius do mesmo jeito que Scorpius olhava para o céu.

“A gente deveria fazer smores,” Harry comentou.

Scorpius sentou, olhando para ele com uma careta. Ele disse que nunca comeu um smore antes, e Draco concordou com a cabeça lá trás. Harry ficou escandalizado – ele sabia que Scorpius nunca tinha saído da casa de Todd antes, e que Draco era um puro-sangue superior a essas diversões estúpidas e esse tipo de coisa, mas sério?

“Mas você está queimando o marshmallow!” Scorpius exclamou, soando como a criancinha que ele era. Harry deu uma risadinha, colocando a mão livre em cima do cabelo de Scorpius.

“Acredite em mim,” ele disse, “você vai querer queimar o marshmallow. Agora tente fazer um você.”

Eles comeram smores então, em silêncio. Draco se virou para Scorpius.

“Aquela é a constelação do escorpião.” Ele apontou pro céu, ligando as estrelas com uma linha branca que estava saindo da ponta de sua varinha. “É uma tradição na família Black – a família da minha mãe, apesar de que eles pularam ela por alguma razão, mas bem, é uma tradição para eles nomear as crianças em homenagem as estrelas. Minha mãe me ensinou astrologia antes de me ensinar a ler, então eu sei o nome de todas as estrelas de cor. Se você quer que eu te conte.”

“Tem uma constelação chamada Draco também?” perguntou Scorpius, a voz fininha de tanta curiosidade. Draco sorriu para ele, concordando com a cabeça.

“Ahã.” Ele olhou para cima, procurando. “Ah, ali!”

“Eu não tô vendo,” comentou Harry.

Draco revirou os olhos.

“Sinceramente, Potter, até a criança consegue. Você não prestou atenção nas suas aulas de Astronomia?”

“Na verdade, não. Por isso que eu tirei um Aceitável só.” Harry encolheu os ombros, Draco o lançando um olhar entre ele e Scorpius como se para dizer que Harry estava sendo um mal exemplo. “As aulas eram no meio da noite, Malfoy. Eu e Rony passávamos o tempo todo dormindo no fundo.”

Draco revirou os olhos, pegando a mão de Harry e a levantando em direção o seu.

“Ali,” ele disse bruscamente, engolindo em seco.

Draco soltou a mão de Harry rapidinho, mas Harry ainda sentiu o toque dele pelo resto da noite, então ele continuou a comer seu smore mais rápido e mais bruscamente do que necessário, queimando sua língua e não se importando tanto assim. Draco continuou falando com Scorpius, o que era bom.

Eles estavam voltando já quando aconteceu.

Scorpius estava um pouco mais para frente de novo, então eles viram muito bem quando o menino tropeçou. Harry sabia, logicamente, que ele não tinha se machucado, porque, apesar de ter caído, ele se sentou bem rapidamente, olhando para seu joelho ralado com uma careta irritada ou invés de uma cheia de dor. Isso não impediu Draco e Harry de correrem pro lado dele na mesma hora, morrendo de preocupação.

“Tudo bem?” Draco perguntou, a voz alta em desespero.

Scorpius franziu as sobrancelhas em direção a ele.

“Sim?” Ele deu de ombros. “Só tá ralado. E ardendo um pouco.”

Draco tirou a varinha dele. “Deixa eu te ajudar.”

Enquanto ele fazia o feitiço, Harry perguntou se Scorpius estava bem mais uma vez, só para ter certeza. Scorpius revirou os olhos, repetindo que sim, ele estava bem, não tinha nem sangrado. Draco guardou a varinha.

“Você não deveria andar,” ele disse. “Ainda tá um pouco sensível.”

“Como assim?” perguntou Scorpius. “Não tá não! Nunca esteve! Eu juro que eu tô bem1”

“Eu carrego ele,” Harry se intrometeu. Draco o lançou um olhar.

“Eu sou o pai.”

“Eu sou mais forte.”

Draco parecia irritado, mas ele concordou de qualquer maneira. Foi Scorpius que discutiu, mas, porque ele era Scorpius e ele não gostava de brigar muito, ele acabou aceitando ser carregado por Harry.

“Eu acho,” ele disse, pondo as mãos ao redor do pescoço de Harry, “que vocês dois são superprotetores demais. Só acho mesmo.”

Harry revirou os olhos, mas, de certa maneira, ele concordava.

Não que isso não o impedia de se preocupar.

Melhor prevenir do que remediar, quando se tratava da segurança de crianças.

No dia seguinte, Harry estava, mais uma vez, tomando café com Narcisa em silêncio, esperando por Draco e Scorpius acordarem. Ele não podia deixar de encarar Narcisa com os olhos cerrados, mas ela parecia tão calma quanto sempre, bebericando seu chá. Estava usando um vestido branco e longo, como um anjinho.

Ela tinha mentido para ele, e Harry não conseguia se esquecer disso.

“Então,” ele começou, tentando fingir normalidade. “Eu não sei muito sobre você, Sra. Malfoy. Você parece uma mulher muito interessante.”

O sorriso dela, Harry pensou, era como o sorriso de uma leoa.

“Me pergunte o que quiser, Sr. Potter. Você sabe o que eles dizem sobre Malfoys – nós somos livros abertos.”

Ela tinha um bom senso de humor, Harry tinha que admitir, mesmo que um bem seco. Ele tentou a lançar seu sorriso mais sincero, se lembrando de que todos eram inocentes até que provado o contrário. Ela era apenas uma avó separada de seu neto. Só isso.

“Você foi para escolas com meus pais, não é?”

De repente, o rosto de Narcisa suavizou um pouco.

“Bem, eles eram alguns anos mais novos,” ela disse delicadamente, e apesar de fazer anos desde que o assunto de seus pais machucasse Harry tanto assim, ele apreciou o tato dele, “mas sim, a gente esteve em Hogwarts ao mesmo tempo. Seu pai era… bem… barulhento. Meu primo Sirius o achava bem engraçado.”

Harry não pôde deixar de esconder seu sorriso com sua xícara de café. Ela estava tentando falar coisas positivas, pelo menos. Não era necessário, porém. Ele nunca teria sido estúpido de pensar que Narcisa Malfoy era o tipo de pessoa que apreciaria as piadas e bagunça que todo mundo o dizia serem a marca registrada de James Potter. Ele mal podia a imaginar em reuniões de família com Sirius. Era uma cena incrivelmente cômica, saída de um filme de comédia Trouxa.

Narcisa abaixou o rosto, algo como vergonha em suas feições.

“Eu nunca falei com a sua mãe, é claro.”

Harry não perguntou porquê. Ele não precisava.

“Eu não consigo imaginar Hogwarts naquela época. Deveria ser tão diferente da minha.” Ele fingiu uma cara de quem estava pensando, antes de virar seu rosto um pouco em direção a Narcisa. “Havia alguém mais que eu conheço estudando com você?”

Narcisa fez um abano de mão, toda elegante e aristocrática. Havia algo em seus olhos, porém, algo muito sombrio se escondendo atrás da delicadeza de seu rosto, algo muito Malfoy.

“Haviam seus pais, Sirius, aquele amiguinho Lupin dele que foi seu professor. Eu não sei se consigo pensar em mais ninguém de cabeça.”

Harry concordou, tomando seu café.

“Interessante,” ele murmurou.

Quando Draco entrou, ele não estava com Scorpius. Ao invés disso, ele estava com uma cara de enjoado, segurando o que Harry imaginava ser a mais nova edição do Profeta Diário. Ele o jogou em cima da mesa perto de Harry, se recusando a olha-lo nos olhos. O maxilar dele estava incrivelmente tenso e, agora que Harry pensava nisso, o resto do corpo dele também.

Era como se eles tivessem voltado à estaca zero.

“Você deveria falar com seu chefe sobre isso,” ele disse entredentes. “Pode vir a atrapalhar a investigação.”

Harry entendeu imediatamente quando viu a foto bem grande na capa do Profeta – era uma foto bruxa dele, Draco e Scorpius no dia em que eles tinham ido ao zoológico, Draco se abaixando para entregar um sorvete para um Scorpius muito sorridente e Harry mais atrás, tomando seu próprio sorvete e os observando com afeição mal escondida.

Um pouco de vergonha queimou em seu estômago. Será que Draco tinha percebido o olhar dele e era por isso que estava assim?

Não. A resposta de Harry chegou bem rapidinho, quando ele foi ler a manchete em cima da foto, toda escrita em letras maiúsculas e bem grandes, para chamar a atenção mesmo: Seria o desaparecimento de Scorpius Malfoy uma mentira feita pelos Malfoys para ganhar simpatia?

O sangue de Harry gelou na hora, uma fúria como nenhuma outra fúria que ele já tinha sentido correndo pelas suas veias, e ele se levantou, cadeira raspando contra o chão e quase caindo. Ele não se importou com isso, apertando o jornal nas suas mãos. Não estava nem um pouco surpreso ao ver a frase reportagem escrita por Rita Skeetey na página 10.

É claro. Quem mais a não ser aquela mulher? Como ela ainda tinha algum tipo de credibilidade no mundo jornalístico era além da capacidade de entender de Harry. Era aquele o ponto em que o jornal de maior prestigio do mundo bruxo tinha chegado? Mais fofocas dramatizadas do que reportagens com pesquisa e fundo investigativo? Ele não conseguia acreditar que alguém iria ter publicado dita coisa, sem nem perguntar nada pros Aurores.

“Eu vou falar com Gordon agora mesmo,” ele avisou, dando o Panfleto para Narcisa para que ela pudesse o ler com seus próprios olhos. Ele ficou feliz ao ver a mesma indignação no rosto dela que estava sentindo. “Isso não pode ficar assim. É absolutamente ridículo.”

Ele iria ir correndo para sua lareira fazer a ligação na mesma hora, mas ele foi parado quando Draco disse, bem baixinho: “Eu não sei porque você está agindo surpreso. Eles sempre fazem isso.” A voz dele tremeu, e Narcisa se levantou, o abraçando de lado. Ele apoiou o rosto no ombro dela. “Toda vez. Eles sempre acham um jeito. Eu nem espero que eles acreditem na gente mais.”

Harry parou, encarando Draco congelado. Eventualmente, Draco sentiu isso, levantando o rosto para olhar na sua direção. Estava tremendo um pouco, apesar de Narcisa o segurando. Harry queria a pôr de lado para abraçar Draco ele mesmo, só que ele não fez isso.

Ele teve que se segurar para não fazer.

“Não é justo,” ele disse. “Que eles façam esse tipo de coisa.”

Draco soltou uma risada molhada.

“Depois de tudo que eu fiz.” Ele olhou para Narcisa. “Talvez seja.”

Narcisa passou a mão pela bochecha.

“É claro que não é filho,” ela sussurrou.

Ele balançou a cabeça como se negasse.

“Não é,” reforçou Harry.

Draco não parecia acreditar. Não parecia que nada que eles falassem fosse o fazer acreditar que ele não merecia aquele tratamento.

Então, Harry não ficou lá para repetir o que já tinha dito.

Ao invés disso, ele foi para seu quarto para gritar com Gordon.