I Can See You
1 But Can't Touch You
Notas iniciais
Eu lhe observava, cauta, sob as cobertas esverdeadas de meu novo lar. Você estava incrível como sempre, assistindo à TV enquanto degustava a pipoca que acabara de preparar. Com seus dedos robustos você envolvia, um por um, os milhos estourados, e trazia-os novamente à boca sem nem mesmo olhar. Qualquer um faz isso nos sábados frios após uma inesgotável semana de labuta, mas você, você podia fazer qualquer coisa se tornar passível de fascínio. Porque você era especial.
Eu sorri, ocultando-me mais em minha manta. O que faria se me visse sorrindo à toa daquela forma? Mas era sua culpa que eventos como aquele tornaram-se comuns. E você nem mesmo me pediu desculpa. Mas estava tudo bem, eu não me importava. Só o prazer de lhe observar dia após dia fazia-me feliz.
Você se remexeu no sofá azul e rapidamente fechou um punho, recostando-o em sua boca. Talvez você tenha se engasgado com uma casquinha, mas você sabe que não deve se preocupar. Se fosse preciso a tiraria daí com minhas próprias mãos para lhe salvar. Novamente calmo, você cruzou os braços sobre o peito, os olhos ainda vidrados naquela caixa preta que tanto lhe entretinha. Seus feixes de luz coloridos pareciam lhe envolver em sua magia virtual, retendo toda sua atenção a si. É tão engraçado como você foi capaz de, nesse momento, me fazer desejar que aquela TV fosse eu. Ter seus olhos vidrados em mim, lhe abraçar com minha explosão de cores tórridas, foi tudo que mais quis.
Minha boca até mesmo pesou um tanto com a intensidade de tais desejos cruzando minha mente travessa.
Lembrei-me por algum tempo do movimento sequente de sua escova vermelha em seus dentes alvos. Tão alvos quanto as pipocas que trespassavam barreiras que eu nunca poderei. E então você molha o rosto, escorando as mãos nas bordas da pia por alguns segundos. Sua mente divagava por seus próprios mundos oblíquos, cada qual com seu registro reservado no livro de capa turquesa. Lê-los todos por mais de três vezes, deslizando vagarosamente meus dedos por sobre as tênues curvas que sua grafia deixava nas páginas, me fazia alguém ruim?
Eu sempre estive com você, mesmo quando ela lhe deixou. Conferir-me de tais privilégios não é nada mais que eu não mereça. Naquela tarde sombria, onde você chorava, exaurido das falácias dela, eu estava com você. Munida daqueles orbes azuis famintos, ela não hesitou em arremessar objetos, seus objetos, em seu próprio rosto. Gritando, encharcada pela própria hipocrisia, apontou-lhe o dedo e condenou-lhe de atos horrendos, nojentos, os quais você nunca, em quaisquer circunstâncias, teria cometido. Vibrei quando você bateu o pé contra o solo e varreu toda aquela sujeira vomitada ali por ela. E então ela se foi. Transpôs a porta e abandonou a sua vida para sempre.
Desejei que aquela meretriz cruzasse a esquina do inferno e fosse surpreendida por uma lâmina mutilando sua jugular aplainada. Queria que cães alimentassem-se de sua carne espalhada sobre becos escuros, mas nem mesmo eles atentar-se-iam a abocanhar tal podridão mefítica. Abutres rasgariam seus globos oculares e larvas verteriam suas vísceras. Ela se dissolveria ao ar por ter rasgado seu coração, comido seu amor, atormentado suas raízes. Você me perdoaria por ter hesitado no reles momento do abate? Suei frio, minha garganta secara e minhas mãos tremiam. O grito hediondo dela sacudira meus sentidos e me recolhi como um cão amedrontado. Quando voltei você estava arrasado, largado no chão e quebrado como os cacos que lhe rodeavam.
Eu tomei um gole de sua dor e deixei-a corroer-me um pouco por dentro, desatar os nós da minha culpa. Você chorou. Nós choramos. Estiquei meus braços em sua direção, mas você não me abraçou. Como poderia? Recuei, reclusa a meu próprio fardo e sorvi as últimas gotas daquele dia truculento, esperando que, ao se deitar sobre sua cama macia, você pudesse ouvir minhas palavras lhe amaciando os sentidos. Você conseguiu me ouvir naquela fria noite de julho?
Agora você cedia aos poucos aos apelos de seu corpo para que descansasse. Seus olhos já quase se fechavam. E estava tudo bem, você devia descansar. Já faz uma semana desde então, e estamos em mais uma noite caliginosa de julho. Me ergui, chegando mais perto da parede de vidro que me separava de você. Fora aturdida pelo ímpeto atroz de estilhaçá-la em milhões de pedacinhos para, finalmente, poder jogar-me a seus braços e me aconchegar ao seu lado nesse sofá quentinho. Alarguei os olhos, estupefata, quando uma lágrima rolou pela minha bochecha. Eu não podia mais ludibriar-me, é verdade. Cerrei um punho sobre o peito e desci o rosto, expurgando o sofrimento para fora de meus olhos. Os soluços não demoraram a cooperar e em poucos segundos senti como se derretesse diante daquele excruciante vidro.
Eu só entrava quando você saia, e isso virara lei para mim. Entretanto eu precisava naquele momento, eu tinha de entrar e escutar os sons que você escutava, ver as imagens que via, sentir o que sentia. Você ainda pensava nela? Sentia vontade de esfaqueá-la brutalmente? Arremessá-la nas chamas de um incêndio, ou fazê-la ser consumida pelas dela própria? Reergui meu rosto, você dormia serenamente. Eu queria lhe ser uma cúmplice e ajudar em seus desejos. Eu queria me sentar ao seu lado naquele sofá e deitar minha cabeça sobre o seu ombro.
Você me odiaria por sentir tais blasfêmias?
E me condenaria por estar entrando sem um convite?
Era rápido e silencioso. Você sempre esquecia a janela do banheiro aberta e meu corpo esguio não tinha dificuldades de cruzá-la em silêncio.
Usei de todas minhas forças para caminhar até você sem que pudesse ouvir e, realmente, seu rosto conseguia ser ainda mais aprazível de perto. Senti o calor arrebatar o meu e arfei, incapaz de refrear meus sentimentos. Era uma felicidade supliciada, um éden assolado. Acomodei-me cautelosa ao seu lado. Você remexeu-se minimamente e virou o rosto para o meu lado. As pontas dos meus dedos formigaram, atentadas em tocar-lhe a pele, mas eu não podia. Se você acordasse meu mundo rebaixar-se-ia a um báratro escuro e vazio. Infinito. Eu teria de correr para fora de sua casa, de volta às ruas, desesperada para que não me alcançasse ou que não se lembrasse de mim. Eu faria de sua vida uma trincheira que lhe auto mutilaria e não me perdoaria jamais por tal. Não seria como aquela garota, eu era diferente. Você acreditaria em mim se lhe contasse?
Sorri, triste por estar atracada no paradoxo de estar tão próxima e tão distante de você. É bem mais bonito nos livros, eu teria lhe dito e você teria rido como fazia quando seus amigos lhe contavam piadas triviais.
— Eu... – Sussurrei por entre a diminuta fenda aberta pelos meus lábios. – te amo.
Suas sobrancelhas franziram-se e você voltou a se virar para cima, ciciando o nome dela. Cerrei meus punhos ainda emocionada demais para pensar alguma coisa, qualquer coisa. Ouvir o nome dela sacudir-se para fora de sua boca estalou minha bolha fantasiosa e percebi que precisava sair dali.
Me levantei, mas continuava ali. Com você. Podia estar andando nas pontas de meus pés para fora, mas nunca havia penetrado tanto suas barreiras. Eu sou um monstro, mas sentia-me abençoada. Como alguém poderia acampar entre opostos tão contundentes? Eu ladeava minha própria mazela sem escorar-me em qualquer apoio e você atiçara-me os escopos.
Mais uma vez refugiei-me aos cobertores selvagens, olhando para você. E, enquanto acompanhava a dança luminescente sobre seu rosto, não podia evitar de me indagar.
Você conseguiu me ouvir nesta noite fria de julho?
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