I Bet My Soul
5 V
Notas iniciais
Creio que se passaram trinta segundos de completo silêncio na sala enquanto eu encarava o Rei do Inferno e ele retribuía o mesmo olhar. Os outros demônios que nos cercavam olhavam de mim para ele, esperando uma reação, movimento, palavra ou até mesmo um ataque. Já que Crowley não demonstrava indícios de que tomaria uma decisão, eu o fiz.
— Vocês podem sair. – falei sem desviar o olhar.
— Senhor? – um deles pediu permissão e Crowley assentiu.
Então todos saíram da sala mais rápido do que o necessário, incluindo Terence, e fecharam as portas gigantes para nos dar privacidade.
Não duvido nada que tenham ficado ouvindo como velhas fofoqueiras.
— Creio que tenha um bom motivo para toda essa entrada triunfal. – Crowley falou em tom despreocupado.
— Você sabe meu motivo.
— Aquele palerma abriu a boca, não foi? – revirou os olhos.
— Ele não precisou... – dei um passo casual em sua direção – Aconselho que da próxima vez que for tramar pelas costas de alguém, faça isso de portas fechadas.
— Oh! Vou anotar a dica, obrigado. – ele deu seu sorriso irônico – Essa é a hora que você me exige respostas?
— Com certeza! Quero saber tudo! Como você conseguiu esconder meu passado? O que pretende? Quanto Abaddon sabe? O Céu sabe? Quem é meu pai? De quanto eu sou capaz? – o bombardeei com todas as perguntas que foram surgindo na minha mente.
— Ah... Eu não creio que seja uma boa ideia saber de tudo de uma vez...
— Responda! – exasperei e a sala inteira tremeu.
— Que intensidade... Tudo bem! – Crowley levantou-se e foi até sua mesa de bebidas, colocou whisky e gelo em um dos copos, olhou para o nada e franziu o cenho como se tentasse lembrar de algo – Eu te encontrei quando você tinha 20 anos, assim que Lúcifer saiu da jaula para brincar e fez com que todos os Anticristos espalhados por aí ficassem mais fortes... A maioria foi morta pelos anjos, com exceção de você e outro garoto aí que nunca fora encontrado, que eu saiba.
— Como você me encontrou? Achei que criaturas como eu ficassem fora do radar de anjos e demônios. – cruzei os braços e me apoiei em uma das mesas.
— E ficam. Mas... Sua mãe não teve coragem de abandoná-la como as outras, pessoas normais e sensatas, fizeram. Foi muito fácil.
— Como você conseguiu chegar nela antes dos outros?
— Eu nunca tirei os olhos dela desde o dia em que... Eu saí dela.
Uma pausa. Não...
Crowley parou de falar ao notar minha expressão que certamente era de pura descrença e horror.
— Você não fez isso...
— Ah eu fiz.
— NÃO!
— Eu sou tão ruim assim?
— VOCÊ NÃO... Você... – estapeei minha própria testa – Me diga que eu entendi errado.
— Se você entendeu que eu fui o demônio responsável por sua concepção, então entendeu certo. – ele explicou naturalmente – Acho que, tecnicamente, eu sou seu pai.
Não era possível... Tá, era sim! Pelo o que eu conhecia das histórias sobre Anticristos, eles eram concebidos quando um demônio possuía uma mulher, geralmente virgem, e simplesmente a fecundava! Nunca entendi direito essa parte e sinceramente, naquele momento, não queria entender mais.
— Ok, ok! – ergui as mãos – Continue enquanto eu tento processar essa parte.
— Onde eu estava? – tomou mais um gole – Ah sim! Então, eu a sequestrei numa noite chuvosa de quinta-feira, tive que matar sua mãe, obviamente. E quando você me viu segurando a cabeça decapitada dela gritou tão alto e com tanta força que todos os vidros da casa quebraram!
— E por que eu não me lembro de nada disso? – questionei.
— Vou chegar lá. – ele ergueu o dedo indicador – Nesse momento eu tive a ajuda de uma velha amiga, bruxa, que morava nos arredores. Ela te colocou pra dormir antes que uma tragédia acontecesse e te trouxemos para o Inferno. Assim que chegamos aqui, fizemos um feitiço muito eficiente de transferência de memórias, tudo que você acha que foi sua vida, na verdade foi de outra pessoa.
— Então eu nunca fiz um pacto aos 10 anos de idade para ter uma casa da Barbie?
— Não. Você nunca fez um pacto, nunca foi morta por Cães do Inferno e nunca se tornou um demônio após anos de tortura... Tudo isso aconteceu com a dona das “suas” memórias.
— E o que aconteceu com minhas memórias reais? Eu posso reavê-las?
— Não, o demônio em que a colocamos foi morto... Por medidas de segurança. Veja bem, você é muito poderosa e pode moldar a realidade de acordo com o que acredita... E estava acreditando ser um demônio, esse plano deveria ser à prova de falhas.
— Tudo bem... Isso foi esclarecedor, um pouco mais perturbador do que eu imaginava. Responda o resto.
— Você quer saber o que eu pretendo? Achei que fosse o mais óbvio! Você é minha garantia de que ninguém vai me tocar, você é um muro, uma arma, proteção.
— Essa parte você pode esquecer... E se Abaddon quiser o mesmo, diga a ela que pode ir tirando o Cão do Inferno da chuva!
— Ela acha que poderá te levar por mal se não conseguir persuadi-la.
— Como assim?
— Sabia que você tem uma alma? Metade humana, intocada, poderosa e que te permite ter sentimentos. – Crowley gesticulava com as mãos enquanto explicava – Ela vai usar isso contra você.
— Era só o que me faltava... – resmunguei e me afastei da mesa – Olha só, tudo isso foi bem... Mais do que eu esperava, eu vou dar uma volta por aí e talvez eu volte para saber do resto.
Dei as costas para o Rei do Inferno e marchei para fora da sala, se os outros demônios escutaram algo, eu não sabia, mas eles abriram caminho para mim e até evitaram me encarar. Subi as escadas no final do corredor e logo estava fora do Inferno sem saber direito o que faria a seguir.
Foi aí que lembrei que naquela altura do dia era provável que Sam já tivesse anunciado aos quatro ventos, ou aos quatro céus, que eu estava atrás de informações sobre Anticristos e assim iriam deduzir a verdade sobre mim. Oh, Infernos! Eu precisava voltar lá antes que Castiel chamasse todo o Esquadrão de Deus para me capturar.
Me teletransportei para a pequena cabana, mas não havia ninguém lá, o Impala não estava do lado de fora e nem parecia que um dia alguém frequentou aquele lugar. Tentei me concentrar em achar a localização deles, mas algo estava me bloqueando, talvez já tivessem feito algum feitiço.
Mas quando procurei por Castiel, minha mente mandou visões dele andando por uma estrada no Kansas, nem perdi meu valioso tempo e fui imediatamente para lá. Surgi alguns passos atrás dele.
— Castiel! – o chamei e ele virou já com a espada em mãos.
— O que você quer? – rosnou dando um passo em minha direção.
— Não! – ergui as mãos – Espere, eu só quero conversar.
— Sam já me contou sobre o que você é! E você sabe que criaturas assim não podem existir!
— Cass! – o chamei pelo apelido que os Winchesters usavam – Eu não quero brigar... E você sabe que eu poderia te derrubar se quisesse. Por favor, eu sei que você é misericordioso e não é um troglodita como os outros macacos alados.
Castiel ficou parado, seu maxilar estava trincado e ele ergueu a cabeça levemente.
— Me diga exatamente o que pretende. – pendeu a cabeça de lado.
— Na verdade eu mal processei o que acabei de descobrir, estou um pouco perdida pois passei muitos anos acreditando que era um demônio! – comecei a andar de um lado por outro, fingindo estar nervosa – Crowley nem me contou tudo!
— Eu acho melhor falarmos com os Winchesters antes. – ele ergueu uma sobrancelha e me deu as costas.
Vi que ele pegou um celular do bolso, mantive distância para não alertá-lo, onde quer que aqueles dois estivessem parecia ser seguro o suficiente para mim por enquanto e Castiel me levaria até lá. Alguns minutos se passaram em que o anjo esteve discutindo, aparentemente com Dean, ao telefone, mas eles concordaram em vir.
— Logo estarão aqui.
— E por que não vamos até eles? – questionei.
— Porque ninguém confia em você. – Castiel falou pausadamente.
— Eu entendo. – dei de ombros – Mas se é o caso, por que não me mata aqui e agora?
— Como você disse, não sou como meus irmãos.
Assenti e dei de ombros, a misericórdia do anjinho já era um ponto conquistado e talvez eu tivesse conseguido o benefício da dúvida também. Não demorou mais que alguns minutos para avistarmos o Impala se aproximando de nós na estrada. O carro parou e Dean desceu o vidro.
— Olha só, alguns minutos no mesmo lugar e não se mataram... Claramente uma vitória.
Os irmãos desceram do carro e vieram até nós, Castiel se aproximou novamente e Sam começou falando.
— Você é realmente um Anticristo?
— Sim... Achei que isso já tivesse ficado bem claro.
— Tá, o que sabemos sobre você é que – Dean começou a contar nos dedos -: Você é filha de um demônio, é uma das coisas mais poderosas existentes, tem grande potencial para o mal e sua força triplica quando Lúcifer anda solto na Terra.
— Dessa última eu não sabia. – sorri para ele e Castiel o fuzilou com o olhar por falar demais – Mas até onde eu saiba, ele está bem guardadinho em sua jaula.
— E que seria burrice soltá-lo. – o anjo falou com firmeza – Ele odeia criaturas como você tanto quanto aos humanos.
— Não se preocupe, bonitinho, eu não pretendo fazer isso.
— Cass, você acha que o nível do demônio que a... – Sam procurou pelas palavras certas – Concebeu vai influenciar nos poderes?
— Não muito... – ele se virou para mim – Você sabe quem...?
— Crowley.
Os dois irmãos trocaram um olhar surpreso com a minha resposta e Castiel apenas revirou os olhos pois não parecia tão chocado com aquele fato.
— Ele está tramando algo... E há muito tempo. – o anjo voltou-se para os dois – Ele virá atrás dela e fará de tudo para pegá-la de volta.
— Assim como Abaddon. – falei – Ela também andava no meu pé nos últimos meses, eu não sabia direito o motivo até então.
— Veja só, Sammy, estamos no meio de uma guerra... De novo! – Dean sorriu ironicamente.
— O que importa é mantê-la longe dos dois! – Sam exasperou – Se a mantivermos segura, você promete não tentar nos matar?
— Claro, desde que me mantenham longe disso tudo. – dei um meio sorriso — E tem mais coisas que eu gostaria de saber sobre mim, tenho certeza de que não faltará assunto.
Eu e o anjo entramos no banco de trás do carro, Dean nos olhou pelo retrovisor e mandou um olhar tipo “comportem-se” para nós. Ele deu meia volta na estrada, em um determinado ponto do trajeto, Sam abriu o porta luvas e tirou um saco preto de tecido, um par de algemas velhas e se virou para mim.
— Er... Não podemos deixar que você veja para onde estamos indo.
— Isso é sério?
— Muito. – Dean assentiu – É do nosso jeito ou de jeito nenhum.
— Tudo bem. – revirei os olhos.
Sam entregou tudo para o mocinho alado e depois tirou uma corrente bem velha, com um tipo de coleira de ferro cheia de sigilos marcados ao redor, também entregou para o anjo e eu deduzi que fazia parte dos acessórios. Castiel puxou minhas mãos com força e as algemou.
— Uh... Você leva jeito com algemas, Cass... – o provoquei e recebi apenas um olhar duro como resposta.
Em seguida ele colocou a tal coleira no meu pescoço, afastando meu cabelo para prender o cadeado no lugar, não era nada confortável e por fim cobriu minha cabeça com o maldito pano preto. Pensei em questionar o fato de que eu poderia escutar o caminho, mas aí eles dariam um jeito de abafar minha audição e seria irritante demais.
Não sei ao certo quanto tempo levou, mas senti quando o carro parou e me puxaram para fora, pelo toque nada gentil, com certeza havia sido o anjo. Parecia ser um lugar fechado e amplo, dava para ouvir os nossos passos ecoando, então descemos algumas escadas e andamos mais um pouco, esbarrei em alguns móveis no caminho, paramos e ouvi uma porta ser destrancada, deu para perceber que entramos em um local mais escuro e com cheiro de papéis envelhecidos e caixas de papelão mofadas. Escutei algo pesado e de ferro se arrastando e fui puxada novamente e colocada sentada em uma cadeira. Sam sussurrou algo para o Dean, mas mesmo assim pude ouvir:
— Será que isso vai segurá-la? Ela não é exatamente uma criatura...
— Vamos torcer para que sim. – Dean respondeu, em seguida tirou o saco da minha cabeça e pude ver o local.
Era um tipo de sala, com uma luz direta no meio do teto e eu estava dentro de uma grande Chave de Salomão, havia mais correntes como a que estava no meu pescoço penduradas pelas paredes.
— Lugar interessante... – comentei, cruzando as pernas e encostando relaxadamente na cadeira – Devem dar altas festas aqui.
— Você nem imagina. – Dean sorriu ironicamente, puxou uma cadeira e sentou de frente para mim – Que tal começarmos a conversar?
— Claro.
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