I Am The One

1 Uma Aventura de Trevelyan


Notas iniciais
Eu já postei essa OS em outro site (spirit), tô no começo do processo de trazer minhas histórias pra cá, espero que gostem dessa.

Confesso que sempre preferi o Inquisidor elfo, mas jogando com o Trevelyan mago eu me diverti tanto que simplesmente PRECISEI escrever essa one shot.

Forte Suledin – Emprise Du Lion

— Dez mil moedas, eu tenho certeza que o senhor pode me vender isso por dez mil moedas! Olhe só, isso não é couro de raposa do deserto? Devia se envergonhar por cobrar quinze mil!

A voz exaltada do Arauto de Andraste, escolhido pelo Criador para salvar Thedas e o mundo inteiro, chamava a atenção de quem circulava dentro do forte. O mago de cabelos loiros e olhos cor de turmalina insistia que as perneiras oferecidas pelo mercador estavam superfaturadas, e só não ameaçou expulsá-lo do forte – o qual havia tomado para si há alguns dias – porque Vivienne foi mais rápida em interrompê-lo.

— Querido, não é bom para a moral da Inquisição ver seu líder barganhando por mixarias – A encantadora colocou um saco de moedas sobre a mesa do mercador – As perneiras, por favor, por minha conta.

O Arauto olhou perplexo.

— Não é tudo sobre dinheiro, Viv.

— Vivienne, querido.

— Se o mercador continuar vendendo a esse preço como outras pessoas vão comprar?

— Seu senso de justiça é um charme, Inquisidor, com certeza não tem nada a ver com o boato de que perdeu todas suas moedas apostando uma partida de graça perversa com Lady Montilyet, não é?

— C… Claro que não tem a ver com isso – Ele desviou o olhar. Não sabia mentir – De qualquer forma, viemos à Emprise du Lion restaurar a ordem…

— E caçar os dragões! – Touro de ferro gritou de longe.

— E caçar os dragões – Travelyan repetiu com menos empolgação.

O messias de Thedas pegou suas perneiras novas e foi embora, mas não sem antes ouvir Vivienne lhe dizer que ele devia ter mais cuidado para não queimar suas perneiras de novo. A verdade é que o mago estava farto de perder suas armaduras como se fossem feitas de papel, já não lhe restava nada do que havia mandado trazer de Ostwick, sua cidade natal, então decidiu que iria pôr um fim nesse drama de uma nova armadura toda semana. Com a ajuda de Harritt, o melhor ferreiro da Fortaleza do Céu, faria a armadura perfeita para um mago que vivia constantemente com o risco de ser incendiado vivo, e o que seria melhor do que uma armadura feita de escamas, ossos e dentes de dragão? Jamais teria problemas com fogo novamente.

Faltava apenas o essencial para fabricá-la: Matar os dragões.

Apesar do constrangimento, Adrian Trevelyan se sentia satisfeito ao caminhar com suas novas botas quentinhas por cima da neve, visto que a última havia sido destruída quando pisou na mina de fogo de um Venatori. É, esses magos de Tevinter também eram um saco – apenas um deles prestava, inclusive era seu amante.

Estavam a caminho da Torre dos Ossos, um lugarzinho de nome questionável e péssima localização. Touro de Ferro ia na frente procurando por inimigos como uma criança atrás de doces; o Arauto e Vivienne o seguiam alguns passos atrás, cada um com seu cajado na mão e olhos atentos; e Sera havia se perdido em algum arbusto congelado após tropeçar em raízes de Embrium.

— Arg… – A maga, que possuía uma personalidade curiosa, torceu o nariz enquanto via Touro parar para fazer xixi na beira da estrada.

Eu devia ter trazido Dorian” Era o que o Arauto pensava cada vez que Vivienne olhava com reprovação para seus outros dois companheiros, mas o homem ao saber que o próximo destino seria Emprise Du Lion fugiu de todas as formas possíveis. Dorian odiava o frio. Solas também seria uma alternativa boa para a viagem, mas ele e Sera juntos sempre resultava em dor de cabeça para quem estivesse perto, ele era élfico demais e ela élfica de menos. Poderia por Varric no lugar de Sera nesse caso… Mas não estava a fim de aturar o jogo de xadrez mental que ele fazia com Solas e o Touro, pois sempre se perdia tentando acompanhar a partida e precisava perguntar pra alguém quem estava ganhando.

É impossível agradar todos eles sem ter um surto…

A atenção do mago se dissipou quando uma flecha vinda de trás passou raspando por seu ombro e derrubou um inimigo tão longe que ele sequer tinha notado até aquele momento.

— Toma essa! – Sera apareceu correndo com seu arco na mão e folhas no cabelo.

Havia sobrevivido ao arbusto.

— Essa foi boa – Touro pegou seu martelo – Há mais inimigos à frente!

Adrian olhou para suas botas novas em perfeito estado e criou uma barreira de proteção com magia. Não queria arriscar ter que comprar outra tão cedo.

E foi assim que chegaram na torre dos ossos, abrindo caminho em meio aos templários corrompidos e tentando não esbarrar nos cristais de lyrium vermelho que brotavam do chão congelado. A torre estava tomada por uma horda de inimigos com armaduras que pareciam impossíveis de quebrar, recuperar aquela área seria no mínimo exaustivo e se levassem em conta que as poções de cura estavam acabando… Alguém provavelmente iria se dar mal. Eles estavam em desvantagem.

— Me parece um ótimo lugar para acampar – Vivienne comentou enquanto observava o caos.

— Não me diga.

Adrian esticou a mão com a âncora pra cima e, sem esperar pra ver qual era o plano de seus companheiros, abriu uma fenda em cima de suas cabeças, a qual sugou os inimigos para o imaterial como se fossem um punhado de poeira. Sera saiu de perto para não ser levada junto, odiava aquela coisa e todo o resto que tivesse ligação com o imaterial. Quando a intensa luz verde se comprimiu até explodir tudo o que restou foram as pegadas na neve, e o Arauto de Andraste exausto pelo gasto da energia.

Toda a cena não durou nem dez segundos, mas foi tempo suficiente para mostrar que ele não era O Escolhido à toa.

— Exibido – Sera cuspiu no chão, e o Touro também pareceu decepcionado pela resolução simples que o chefe usou.

— Pratico, Sera… Apenas prático – O Inquisidor deu uma piscadela.

Ponte Judicael – Emprise du Lion

Adrian tinha uma expressão séria e pensativa, enquanto os olhos claros estavam fixos na ponte quebrada à sua frente.

Havia montado acampamento na Torre dos Ossos como Vivienne sugeriu, e por sorte encontraram pelas redondezas uma enorme ponte que levava exatamente aonde eles precisavam ir, seria perfeito se não fosse o empecilho da cratera no meio do caminho. Se não tivesse tão frio tentaria ir nadando, era muito bom de nado, uma das vantagens de ter crescido em Ostwick, não dava para não saber nadar quando se mora em meio à tanta água.

— E se o Touro de ferro arremessar eu e Sera pro outro lado? – O Inquisidor propôs de repente.

— Ninguém vai me arremessar pra lugar nenhum, merda!— A arqueira deu um passo pra trás.

— E você, Viv, consegue fazer uma ponte de gelo?

— Você é tão mago quanto eu, querido.

— Sim, mas eu sou melhor com relâmpagos – Adrian suspirou derrotado, estava faltando cooperatividade naquela equipe – Ok, pedirei a Cullen que conserte a ponte. Vou aproveitar para reabastecer nossos estoques na Fortaleza do Céu, isso vai demorar.

Essas viagens de ida e volta sempre eram um saco, mas dessa vez o Arauto tinha um motivo a mais para voltar. Estava decidido a arrastar Dorian consigo da próxima vez, pois precisava de mais poder de fogo – literalmente – e não aguentava mais a acidez nas palavras de sua amiga. Vivienne podia ser uma companhia maravilhosa para ir em Val Royaux e discutir com a nobreza ao lado de Lady Montilyet, mas em campo aberto ela se tornava alguém que não gostaria de estar próximo.

— Um ótimo plano – Vivienne concordou, ansiosa para voltar à civilização.

Quem não gostaria disso, obviamente, seria Dorian.

Algumas Semanas Depois

Trevelyan segurava firme nas rédeas de sua montaria, mas o olhar estava vagando pelo topo do monte do qual se aproximava, curioso para saber que tipo de inimigos encontraria ali.

— Isso é ridículo – O mago de bigode charmoso comentou enquanto se segurava na cintura de Trevelyan, incomodado com a carona – Como podemos parecer respeitáveis montados em um Nug… Por Andraste, isso é um Nug!

— Um Nug gigante e majestoso, Dorian, não o subestime – Adrian fez carinho na lateral do bicho.

— Eu devia ter ido com o Touro e a Sera, me pouparia desse vexame. O que faremos se alguém resolver pintar essa imagem de nós dois em um Nug? É esse tipo de moral que quer dar para seus seguidores?

O Arauto ria, diferente das reclamações de Vivienne, as de Dorian ele adorava ouvir, como se fosse música para os seus ouvidos. Estavam indo em direção ao lugar onde ninguém com algum amor próprio iria de propósito – provavelmente a ponte quebrada servia para impedir que desavisados fossem até ali – mas alguém precisava dar um jeito naqueles dragões, pelo bem da cidade e de sua nova armadura.

Touro e Sera haviam ido na frente para limpar o caminho e se livrar dos bandidos e templários vermelhos, então quando Trevelyan enfim chegou ao ponto de encontro eles já estavam prontos para matar o primeiro dragão. Podiam ouvir o bater das asas de longe, aquilo seria grandioso.

— Não tem como esse dia ficar pior – Dorian resmungou ao descer do Nug, esfregando as próprias mãos para se esquentar, usando um pouco da sua magia de fogo.

— Se anime, Dorian, ainda tem dois dragões depois desse.

— Esse pode ser o melhor dia da minha vida, chefe! – Touro de Ferro, o amante de dragões, não podia estar mais feliz.

A pequena equipe subiu por dentro das ruínas que levava ao topo do monte congelado, onde o frio era significativamente mais doloroso e só um louco sobreviveria ali, ou no caso um dragão de gelo, o terrível Hivernal.

Como líder o Arauto era sempre o primeiro a atacar, dessa vez não tinha energia suficiente para abrir uma fenda na cabeça do dragão distraído – e mesmo que tivesse não seria o bastante – então o surpreendeu com uma jaula de energia, a qual parecia uma teia de aranha feita de relâmpagos e faíscas violetas. Dorian por sua vez encheu o chão com minas de fogo e Sera atirou um punhado de flechas explosivas enquanto pulava para uma distância segura, e o Touro fez o que sabia fazer de melhor e correu com seu martelo pra cima do bicho, urrando quase tão alto quanto a fera para mostrar que seria um adversário a sua altura. O Tal-vashoth era incrível.

Mas o Dragão também era incrível. Ele se ergueu em duas patas e pulou contra a neve, derrubando os que estavam ao redor e ricocheteando as flechas de Sera, que foram parar na barreira do Arauto. Haviam subestimado um pouco o poder de Hivernal, ele não era nada parecido com os outros que já havia matado, e agora tinha certeza que não conseguiriam matar os três de uma única vez, na verdade seria sorte se conseguissem matar pelo menos um sem ter nenhuma baixa no time.

— Eu sou muito bonito pra morrer! – Dorian gritou quando uma bola de gelo acertou sua barreira mágica e a destruiu.

— Dorian precisa de ajuda! – Sera se preocupou ao perceber que a fera mirava no homem de bigode.

Adrian, que lançava raios sem parar em direção ao animal, procurava uma brecha para jogar a granada caseira que estava presa em seu cinto, junto as demais poções que carregava feito um burro de carga. Deviam ter pensado melhor na estratégia antes de atacarem, mas a verdade é que nunca havia se dado bem com movimentos táticos, ele apenas usava todo seu poder e torcia pra ganhar a luta.

— Sera! O frasco de relâmpago! – O Touro gritou, e a elfa fez uma careta antes de usar o tal frasco. Será que ele sabia como dava trabalho conseguir aqueles frascos? Se soubesse não mandaria ela gastar com tanta frequência.

Ela atirou a flecha com o frasco junto, vendo o tempo praticamente parar ao seu redor por uma fração de segundos, tudo ficou lento graças à magia arcana que ela carregava em frascos, e ela só precisou usar esse tempo de vantagem para arremessar todas as granadas possíveis que estavam ao seu alcance, explodindo-as nas patas da criatura. Quando o fluxo do tempo voltou ao normal Adrian enfim conseguiu usar o fogo antivano que estava guardando, e os ferimentos no bicho já eram perceptíveis graças a neve manchada de sangue por todo o lado. Sua armadura azul que havia sido tão cara não estava diferente em questão de sujeira– e não queria nem pensar na situação das perneiras novas, que infelizmente não conseguiu proteger tão bem.

A fera se preparou para voar e fugir devido a desvantagem, mas os magos estavam pacientes para isso. Dorian lançou uma magia negra que acertou o dragão por baixo e o desequilibrou, dando a deixa perfeita para Adrian correr pra cima dele e materializar uma espada de pura energia na sua mão esquerda, e com um golpe preciso e fatal cortou o pescoço do dragão ao mesmo tempo que um enorme raio caia na cabeça chamuscada, partindo-a ao meio. Hivernal parou de se debater e caiu sobre a neve, morto.

O Arauto sorriu. Precisava contar essa história para todos na Fortaleza do Céu.

— Isso sim é uma boa luta! Próximo! – Os olhos do Touro brilhavam de excitação.

Acampamento da Torre dos Ossos – Emprise du Lion

— Me lembre porque ele tem que dormir com a gente? – Dorian perguntou de novo, tentando cobrir os ouvidos para não ouvir os roncos do Touro de Ferro.

— Porque está frio e não há barracas suficientes pra todo mundo – Adrian resmungou por baixo do cobertor fino. Havia levado Dorian e o Touro para sua barraca na esperança de conseguir ser esquentado por eles, tendo em vista que ambos eram quentes naturalmente, mas tudo o que ganhou foi uma dúzia de reclamações. Haviam decidido voltar e descansar antes de atacar os outros dragões, pois as poções acabaram rápido demais no primeiro, então teriam que levar o dobro no dia seguinte.

— “Vamos para Emprise du Lion, Dorian, vai ser legal” – O mago imitou a voz do Inquisidor – “Vamos estar juntos, o que pode dar errado? Nem é tão frio”

— Tecnicamente estamos juntos, e não é tão frio assim se ficarmos bem perto um do outro — O mago de cabelos loiros se remexeu, ficando de frente para o companheiro — E o que pode ser mais gratificante do que passar um tempo de qualidade com seu Inquisidor? Matar inimigos pelos campos congelados é quase romântico.

— Eu tenho uma lista infinita de coisas melhores do que isso, pode ter certeza, como por exemplo: eu e você tendo realmente um tempo de qualidade nos seus aposentos reais.

Adrian riu, também sentia falta daquilo, mas resolveu desconversar para evitar uma cena. Já conseguia imaginar as fofocas no dia seguinte: O Arauto de Andraste, o magistrado demoníaco de Tevinter e o Qunari mercenário dividindo a mesma barraca, todos com uma certa inclinação para práticas pervertidas. A Chantria queimaria os três na fogueira.

— Vamos lá, Dorian, você não quer perder a diversão de sermos queimados vivos por dragões.

— Eu posso queimá-lo de muitas formas adoráveis, Trevelyan.

Mexer com Dorian certamente poderia ser equiparado a brincar com fogo, porém um fogo muito mais cheio de complicações e irresistível.

— Me lembrarei disso quando voltarmos para a Fortaleza, por enquanto apenas use essa sua magia toda para me esquentar.

— Para um mago tão poderoso você depende demais da magia dos seus companheiros, Amatus. Ouvi um boato de que era preguiçoso, estou chocado ao confirmar isso.

Mas apesar das provocações, Dorian garantiu que Trevelyan não passasse frio naquela madrugada.

Na manhã seguinte o cheiro do café da manhã havia infestado o acampamento – uma sopa quente gordurosa que não se comparava a mordomia que tinham na Fortaleza do Céu – e a primeira coisa que o ‘Vinter viu ao abrir os olhos foi um emaranhado de cabelos loiros contra o seu rosto. O Touro já não estava mais na barraca, mas podia ouvir a voz dele do lado de fora passando uma cantada nas batedoras do acampamento, e a risada estranha de Sera.

— Amatus, creio que é hora de acordarmos para mais um dia terrível de frio.

Os olhos cor de turmalina se abriram devagar, e um sorriso discreto surgiu no rosto do Arauto. Não fazia ideia do que o companheiro estava falando, mas sempre era bom acordar e ver um rosto tão bonito, nem parecia que estavam ali para salvar o mundo de um magistrado louco e criaturas sombrias.

— Seu bigode fica lindo de manhã.

Dorian revirou os olhos e usou sua magia para arrumá-lo, assim como o cabelo desgrenhado que rapidamente se ajeitou em um topete perfeito.

— Ao trabalho, Inquisidor!

O Destruidor dos Planaltos – Emprise du Lion

— Temos pistas de Corypheus em todos os cantos de Sepultura Esmeralda e ainda sim estamos aqui caçando um monstro que está dormindo. Dormindo!

— Se continuar gritando ele não estará mais dormindo, Dorian – A arqueira se armou, apontando a flecha para o dragão adormecido na frente deles. Se ele se mexesse ela estaria pronta.

Adrian estava coberto de sangue do elmo até os pés devido o combate com o segundo dragão – é, eles mataram o segundo sem grandes sequelas – mas agora não sabia o que esperar do terceiro, embora houvesse a certeza de que ele estava em um nível diferente dos outros. Apesar de todo o gelo envolta, a respiração quente da fera o deixava com calor, nessa hora ele se pegava pensando em como seria bom ter Viviene ali.

Devo parar de ficar trocando os magos de lugar e começar a andar com os dois… E se eu trouxer Solas junto melhor ainda. Uma equipe toda de magos, como eu nunca tentei isso?— Seus devaneios vinham nas piores horas, pois nem percebeu que o dragão abriu os olhos.

A fera começou a se erguer, fazendo sombra sobre a figura do Arauto, que parecia tão pequeno em comparação. Ele levantou a cabeça, encarando seu inimigo nos olhos e vendo o próprio elmo refletido neles, tão bonito. Sentiu quando o calor veio de dentro da criatura, e quando ela abriu a boca pra urrar as chamas vieram em sua direção como um tsunami de fogo.

— Oh… Merda.

O fogo bateu em uma barreira invisível de magia e se espalhou para os lados, enquanto Dorian protegia o Inquisidor, segurando o cajado na frente dele.

— Sei que é difícil se concentrar perto de alguém tão estonteante como eu, Arauto, mas tente não se machucar – Dorian não precisava de elogios para saber que ele era incrível, podia ter certeza disso cada vez que olhava para si mesmo – Mexam-se! Não esperem que o Tevinterano salve a todos.

— Touro, pegue as patas de trás! – Adrian recuperou o senso de líder – Dorian e Sera, cuidado, fiquem longe o quanto puderem.

E dito isso Adrian fez o que não era esperado de um mago, deixou de lado o princípio básico de usar magia a distância e empunhou sua espada de energia, indo para baixo do dragão. Seus companheiros já deviam estar acostumados a assistir aquelas manobras suicidas, mas era impressionante toda vez que ele inventava uma nova forma de se pôr em risco em prol de suas estratégias estranhas.

Ele acreditava no potencial daquele plano. Assim que conseguiu ficar embaixo da criatura o mago de Ostwick abriu um campo de força ao seu redor, deixando a fera mais lenta enquanto acertava sua barriga com a espada de energia. Ele não havia calculado que o sangue cairia bem em cima dele, mas o que eram alguns litros de sangue de dragão na cara para quem já havia caído em poças com cadáveres no Atoleiro Inculto?

Mas a fera não cairia por qualquer coisa. O Destruidor dos Planaltos não tentava se esquivar e fugir como Hivernal, ele estava furioso com aqueles homens miseráveis que perturbaram seu sono.

O Touro balançou o martelo, girando como um tornado desenfreado e acertando as patas traseiras do bicho, que cambaleou e pulou para cima deles, lançando uma chama poderosa que por pouco não os torrou. Aquela altura Sera já havia gastado todas suas granadas e poções, as flechas estavam acabando, então ela tentava acertar em pontos mais vitais em vez de agir como uma metralhadora; Dorian teve que deixar sua magia de fogo de lado, considerando que não fazia efeito nenhum no dragão, e apoiou-se apenas no poder de necromante, lançando um feitiço atrás do outro e praguejando pela falta de corpos ao redor, pois teria sido muito útil se pudesse levantar um exército de mortos-vivos para lutar ao seu favor.

Adrian já estava na última poção de lyrium, havia virado o frasco de uma vez como se fosse água e já podia sentir os efeitos da sua magia ficando mais forte, a energia aumentou como um sopro de vida e ele gastou tudo em seus relâmpagos, iluminando a clareira com as luzes e faíscas que saíam de seu cajado e suas mãos. Trevelyan havia investido tanto em poder ofensivo que não se preocupou em manter sua própria barreira, e só percebeu a falta dela quando o dragão o puxou para perto com o bater das asas e lhe acertou uma patada no meio do peito, arremessando-o para longe com uma fenda na pele, feita pela garra da criatura.

— Pare de morrer!! – Sera gritou nervosa.

— Aguenta firme, Chefe! – Touro queria resgatá-lo, mas estava muito ocupado cravando suas próprias garras nas escamas do dragão.

Adrian tateou o cinto a procura de uma poção de cura ou qualquer coisa que lhe ajudasse a ignorar a dor e continuar lutando, mas já não havia nada além de frascos vazios. Sua magia estava esgotada e ele sentia que o sangue espalhado pelas roupas não era mais apenas da fera, mas estava otimista sobre a vitória iminente, havia causado um bom dano antes de cair.

Com a visão turva o Inquisidor viu Dorian correndo em sua direção após o dragão urrar pela última vez com um golpe do Touro de Ferro, em seguida a enorme cabeça rolou pela clareira até parar aos pés de Sera. A elfa gritou uma dezenas de palavrões, aliviada.

— Não ouse morrer e me abandonar aqui ou eu vou revivê-lo apenas para acertar um soco nesse belo rosto – Dorian ameaçou enquanto tentava cuidar dos ferimentos do Inquisidor.

— Seu cabelo fica bonito chamuscado – Adrian murmurou entre uma tosse e outra. Havia sangue pra todo lado, queria ter mais frascos para guardar um pouco caso precisasse fazer alguma magia de sangue em um futuro próximo.

— Cale a boca, Amatus!

— Oh… Merda, acho que eu vou desmaiar – O Arauto sentiu a consciência se esvaindo. Sabia que seus companheiros não deixariam que morresse ali, seria ridículo o líder da inquisição morrer caçando um dragão, os bardos sequer escreveriam músicas sobre isso. Mas não conseguia deixar de ficar um tanto preocupado com a morte, como qualquer pessoa normal.

Andraste, sei que disse na última oração que queria lhe encontrar… Mas não desse jeito, certo?

Fortaleza do Céu

Adrian havia acabado de acordar, e para seu total desespero ele estava em casa, em seu quarto e na sua cama, isso só poderia significar que havia apagado por tempo demais… Tempo suficiente para saírem de Emprise du Lion e chegarem à Fortaleza do Céu. Isso era péssimo de tantas formas que nem conseguia calcular o tamanho do problema! Era péssimo para a moral da inquisição, além de mostrar a Carypheus que não era tão forte quanto parecia, pois com certeza havia boatos, e Dorian provavelmente terminaria o trabalho do dragão e o mandaria pro mundo dos mortos.

Trevelyan vestiu suas roupas mais simples por cima das ataduras, mas ainda muito encantadoras, e penteou os cabelos loiros com a ponta dos dedos, antes de sair de seus aposentos com a expressão mais natural que conseguia fazer. Haviam dois batedores na porta esperando para o momento de seu despertar, os pobres coitados pareciam cansados, teve até medo de perguntar quanto tempo havia se passado pois já tinha um certo trauma com saltos de tempo, mas precisava se situar.

— Vossa excelência – Ambos curvaram-se.

— Reportem a situação atual.

— O Senhor chegou há uma semana na fortaleza e o senhor Solas tem cuidado dos seus ferimentos. Rouxinol pediu que avisássemos assim que acordasse.

Solas, sempre salvando sua vida enquanto ele dormia. Precisaria agradecê-lo melhor pelo bom trabalho, talvez devesse levá-lo nas próximas missões em ruínas élficas para sair um pouco daquela sala abafada.

— Espalhem que o Arauto de Andraste está em perfeito estado e mais forte que nunca, apenas tirei um momento para descansar e me conectar com o criador – Mandou a primeira desculpa esfarrapada que lhe veio a mente.

— Sim, senh0r!

— Mais uma coisa, onde estão os outros?

— No lugar de sempre, excerto Lady Pentaghast que está na sala de guerra há algumas horas com os conselheiros e o senhor Dorian que se encontra no espaço de oração do jardim.

Trevelyan franziu o cenho, confuso. Não era comum Dorian estar na chantria, embora soubesse que ele era Andrastiano, sempre foi difícil imaginá-lo rezando ou fazendo qualquer coisa que não fosse abominada pelos clérigos.

O Arauto decidiu que encontraria primeiro quem mais importava e se esgueirou pelo palácio em direção ao jardim, usando corredores inutilizados e passagens pelo alto, a fim de evitar contato com outras pessoas. No final acabou chamando atenção de qualquer forma ao chegar pulando do telhado e caindo de pé sobre um banco ao lado de suas plantações. Ser discreto não era algo que ele conseguia fazer.

De longe ele viu Dorian sentado em outro banco, com um copo de vinho nas mãos e o olhar fixo na imagem de Andraste. Podia jurar que ele estava intimidando ela e não fazendo uma prece.

— Me avise se ela responder – Trevelyan falou em tom afetuoso ao escolher sentar-se ao lado do mago – Eu sou seu Arauto, mas nunca escuto o que ela supostamente tem a dizer… Como eu poderia espalhar sua palavra para o povo?

Dorian deixou a bebida de lado.

— Não precisa de uma voz para saber que ela está falando com você, suas decisões corretas falam por si só, Adrian Trevelyan. Alguém com sua incrível vontade de ser um mártir com certeza é o escolhido de Andraste, suas histórias combinam.

— Está muito bravo?

— Eu poderia queimá-lo vivo agora se não adorasse tanto você – Dorian enfim lhe olhou nos olhos – Por Andraste, o que estava pensando?! Achei que aquele seria o fim de tudo, da inquisição, de Thedas, e de nós dois.

— Não estava nos meus planos ser ferido pelo dragão, eu juro.

— Claro, você achou que chegaria lá e tomaria chá com uma criatura chamada Destruidor dos Planaltos, e depois vocês fariam compras como bons amigos?! Não.

— Não faríamos compras! Você sabe… Eu perdi minhas moedas para Josephine.

— É uma ótima oportunidade de encerrar essa carreira de caçador de dragões e se aposentar, já há canções suficientes sobre suas façanhas.

Trevelyan mordeu os lábios e evitou dizer em voz alta que o principal objetivo na caça àqueles dragões era, na verdade, obter material suficiente para que Harritt forjasse sua nova armadura e não apenas conquistar mais um título para sua lista.

Inclusive, esperava que algum dos companheiros tivesse sido sensato em catar os dentes do animal e as escamas antes de correrem de volta para Fortaleza do céu, pois não voltaria a Emprise du Lion tão cedo, estava começando a odiar o frio também.

— Certo… Sem caçadas. Mas seja positivo, ao menos foi um bom treino para enfrentar Corypheus, tenho certeza que dessa vez consigo acabar com o dragão dele.

— Gosto do seu jeito de pensar, Amatus.

— Então creio que estamos prontos para a próxima missão! – Adrian ficou de pé, estendendo a mão para o seu amante – Vamos, temos que falar com Cullen.

— Para onde vai me arrastar dessa vez?

— Desertos Sibilantes, você disse que não gosta de frio, certo?

—Não quer dizer necessariamente que irei amar um deserto cheio de serpes.

— Eu quero muito algumas peles de serpe… E talvez comprar perneiras novas. Ouvi dizer que lá existe um mercador tão bom que poderia ser considerado o melhor da região.

— E lá vamos nós de novo – Dorian suspirou, mas foi de alivio por seu Inquisidor já estar de volta ao normal.

Dessa vez não deixaria nenhuma criatura tocar nele, nem que precisasse usar toda sua magia até que seu cajado ficasse em brasas. Iria protegê-lo dos males menores enquanto ele se esforçava para proteger o mundo inteiro com uma mão.

Porém talvez Dorian precisasse se preocupar consigo mesmo nos próximos minutos. Como contaria para Adrian que achou a armadura de Harritt tão feia que a destruiu? Mas não podia viver no mesmo mundo que aquela armadura, definitivamente escamas de dragão eram a coisa mais feia de Thedas… Depois do rosto de Carypheus.

:)

Notas finais
E era uma vez uma armadura.

Espero que tenham gostado, não há muitas fics de Dragon Age (infelizmente) e eu quis fazer minha contribuição como uma grande amante desse universo ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!