I

1 A Sombra


A Sombra

Pra que dissimular?

Se ela me segue aonde quer que eu vá

Melhor encarar

E aprender com ela a caminhar

Não vou mais negar

Ela respirou fundo, quase irritada com a janelinha no topo da porta pela qual estivera tentando espiar. Mas ela zombava de sua altura lá de cima, inalcansável. Já estava na hora, tinha de estar na hora, ela já estava esperando há um tempão! Mas Camila também estava com medo. Não tinha a menor ideia do que estava prestes a acontecer e parada ali, do lado de fora de sua nova classe parecia mais real do que ela tinha imaginado, mais real do que tinha sido o último ano. O que, afinal, iria dizer quando lhe perguntassem de que escola viera ou como fora seu último ano lá? Quem haviam sido seus melhores amigos? Ela não tinha pensado nisso.

- Camila, querida, pode entrar, eles estão prontos para você. — A professora abriu a porta para faze-la entrar. Lá dentro estava uma bagunça: Alguns alunos passavam bilhetes, outros conversavam num murmurinho encomodo e as carteiras estavam totalmente desordenadas. A professora Cristina simplesmente fingia que não os via, voltando sua atenção para a nova aluna que estava quase paralisada perto do corredor, como se ainda estivesse cogitando a possibilidade de voltar. Na verdade, Camila estava mesmo bem assustada.- Ei! Pessoal! Um minuto! — Cristina gritou sobre o som das conversas e risadas que, aos poucos, foram se estinguindo. — Temos uma aluna nova, o nome dela é Camila Barros. Depois acho que deveriam combinar de alguém passar a matéria para ela e explicar nossa rotína. Você já acabou as lições, Tiago?

- Hum? — Um jovem moreno numa das últimas fileiras levantou os olhos verdes para observar Camila lá na frente, avaliando-a. Ele estivera entretido em sussurrar alguma coisa com a garota na frente dele nos últimos minutos. — Eu já.

- Que bom. Então você pode ajudar a Camila a pegar o conteúdo. — Cris olhou para Camila de novo e voltou a lhe instruir com um tom mais suave. — Senta ali no fundo, perto do Tiago que ele te ajuda, meu bem.

Camila endireitou a mochila nas costas e caminhou até a cadeira vazía atraz daquele garoto com um pedido de desculpa nos olhos, por te-lo "obrigado" a ajudar com as aulas, mas ele não parecia frustrado, só indiferente. Por outro lado ela podia sentir os outros olhos todos fuzilando suas costas, cheios de curiosidade e dúvida, a expectativa competindo com a tensão do silêncio.

- Se tiver qualquer dúvida — Tiago falou se virando na cadeira para olhar para ela com uma expressão compreensiva. — é só me falar, tá bem?

- Obrigada. — Ela sorriu de volta colocando seu livro de física em cima da mesa.

A aula foi terrível. Camila não prestava atenção a uma palavra de Cristina e copiara no máximo um parágrafo das compridas anotações. Não por falta de tempo. Mas os olhares desconfiados e os cochichos baixos pareciam todos estar concentrados nela, como se fosse o novo brinquedinho do parque. As janelas perto dela sopravam forte e tudo que ela pode fazer foi olhar por elas para a paisagem de outono amarelada e tímida lá fora. Ela recebera um bilhete da garota com quem Tiago estivera conversando. Eu sou a Alice. anunciava o bilhete, as letras grandes e feias Você parece ser legal. Passe o recreio com a gente, eu te mostro a escola, OK? Camila não respondera nada. Era gentileza da parte dela se oferecer para mostrar as coisas mas ela sabia que as perguntas seriam inevitáveis. Mas... Se fosse assim, ela ficaria sozinha. Não lhe agradava ficar sozinha. Não fez nenhuma pergunta a Tiago.

- Vamos? — No final da aula Alice parou de pé na frente de Camila antes que ela pudesse levantar. Eram exatamente o oposto uma da outra: Alice era muito baixa e seus cabelos eram lisos e loiros, contradiziam os cachos negros e as pernas longas de Camila. Era quase engraçado.

Sem fazer cerimônia, Alice puxou as mão da outra garota conduzindo-a pela sala até a porta, onde Tiago as esperava. Ele devia ser o segundo individuo do "A gente" mencionado no bilhete. Ele acenou, educado e segurou o braço de Alice, dando-lhe um sorriso charmoso.

Eles andaram pelo corredores enquanto Alice gritava:

- Aquela é a quadra e ali fica o laboratório. — Apontava para portas brancas. — Lá é a secretaria. — E apontava para um cubiculo numa esquina do corredor.

Camila não entendia muito bem o tour e Tiago ria todo o tempo dos rodopios e piruetas que a loira espuleta executava. Estava divertido. Demorou menos de um minuto para chegarem ao pátio onde garotos mais novos corriam e alguns veteranos conversavam em rodas grandes, a maioria vestida com roupas de marca. Parecia o lugar mais alegre da escola, apesar de o teto baixo e as manchas de tinta espalhada pelo chão e pelas paredes dessem a ele um ar de desleixo.

- E aqui — Alice se sentou num banco de concreto, encolhendo as pernas e batendo no espaço vazio ao seu lado para que a outra menina se sentasse ao seu lado. — é onde nós passamos nossos intervalos.

- Não me culpe, eu votava pela biblioteca. — Tiago deu de ombros e se sentou na ponta direita do banco, fazendo com que Camila ficasse no meio.

- Mas a escola é chata. Sério, é. — Alice suspirou, esfregando os braços agasalhados para espantar o frio. — Vamos falar de você.

Sentada ali no banco, a nova aluna sentiu o sangue gelar nas veias. Ela já estava esperando, já estava, mas ainda sim não tinha uma desculpa. Não havia como se esclarecer. Respirou fundo.

- De que escola você veio? A Cris não nos falou nadinha sobre você. — A loira continuou, tirando do bolso uma bala de canela.Camila fechou os olhos.

- Não precisa falar nada, se não quiser. — Tiago veio em seu socorro. De certa forma a frase pareceu mais uma repreenção à Alice do que um conforto.

Camila apertou um pouco mais os olhos, depois abriu, piscou duas vezes, fechou e abriu-os de novo. Era difícil. Ela não queria contar, não queria. Afinal, era passado! Ela e todos deviam esquecer. O que passou, passou, certo? Como se nada tivesse acontecido. Ela queria que tivesse sido assim.Mas e se tivesse sido? Talvez, hoje alguém lhe oferecesse alguma droga. Talvez ela, ingênua, aceitasse. Talvez não pudessem trata-la. Talvez ela tivesse aprendido a esconder melhor. E se... Se nada daquilo tivesse acontecido, ela estaria em perigo hoje. Foi uma lição, o que lhe aconteceu. Ela não devia esquecer, concluiu. Estava com ela. Aquilo estava com ela e sempre estaria, e eles precisavam saber também. acabariam sabendo de alguma maneira. Não havia como negar a realidade: Aquilo, incorrigivelmente, tinha acontecido.

- Eu... Eu não vim de uma escola. — Ela falava devagar, respirando fundo. Suas mãos estavam tremendo e isso nada tinha a ver com o frio. — Veja bem, eu... No passado, eu me envolvi com... Não sei como explicar. Meu irmão e uns amigos costumavam fumar. Não era muito e ninguém nunca desconfiou, eu nem achava legal. Foi mais por curiosidade, um dia eu resolvi experimentar. Dizem que nem vicia se você fuma pouco. Mas eu... Acho que... Gostei demais. Foi horrível. Nunca faria de novo. Minha mãe se deu conta do que estava acontecendo e me mandou para uma clínica... Foi de lá que eu vim.

Sem fôlego, ela apertou as mãos. Quase estava arrependida, mas queria contar mais: Descrever cada detalhe, desabafar cada sofrimento, contar cada história... Mas não. Era cedo demais e ela ainda não os conhecia. Preparou-se, então, para todas as críticas. Ela havia, mais de uma vez, sido advertida de que as pessoas não aceitariam muito bem aquela informação.

- Jura? Mas... Quer dizer... Você já está limpa, né? — Tiago perguntou, a voz cheia de receio e desconfiança.

- Eu estou. — Camila balançou a cabeça tristemente com um sorriso amarelo e voz embargada, sua resistência destruida pelo tom dele.

- Nossa, deve ter sido horrível na reabilitação. Tipo, você deve ter conhecido aqueles bêbados assustadores. — A outra menina exclamou do outro lado do banco.

- Alice!

- Não, Tiago, tudo bem. — Camila virou-se para Alice. — Não tinha nenhum alcólatra lá. Era só gente como eu.

- Ah! Legal. Você precisa me contar mais, de verdade. — Alice parecia... Empolgada? Mas por que? Não fazia o menor sentido. Ela devia agir como Tiago. Devia ter receio de continuar a relacionar-se com Camila, devia olha-la com outros olhos, tinha de julga-la, pelo menos um mínimo! Era o que tinham dito à Camila. Que ninguém veria como foi difícil, que todos a julgariam. O que era diferente? — Mas não agora. Sem ofenças, mas eu preciso comer e o intervalo não tem muito tempo.

- Vocês duas podem passar lá em casa mais tarde. Eu aproveito e já ajudo a Camila com a lição de casa e o material e ela te conta a história da vida dela. Tudo bem? — Ele olhou para Camila. Sua voz não tinha mais aquela desconfiança mas seus olhos ainda eram um pouco receosos. Mas ele a estava convidando para sua casa. Isso parecia confiança o suficiente para ela. Como eles podiam estar lhidando tão bem com isso? Ela não entendia nada.

- Ótimo, parece bom. — Respondeu, confusa.

- Ótimo. — Tiago repetiu. — Passarei-lhe o endereço depois.

- Ah, de novo não, senhor colocação-pronominal. Cale a boca ou não dar-lhe-ei um pedaço de sanduíche. — Alice disse desembrulhando um sanduíche de presunto.

- Isso nem está certo, você não usa...

- Cala a boca e come! — A loira interrompeu-o com uma risada partindo o sanduíche.

Camila apenas os observava incrédula enquanto discutiam. Como podiam estar tão tranquilos? Pareciam estar passando alegres por uma rotina trivial, como se nada pudesse altera-la. Como se a menina nova nada mais fosse que uma colegial comum. Nada havia mudado para eles. Eles não pareciam ver absolutamente nada com olhos diferente, pelo contrário: Tudo ao redor não parecia importar agora, eles haviam alterado o pensamento dela. Por que eles a haviam aceitado tão rápido. Por que eles não estavam assustados. Por que ela continuava sendo Camila para eles. Como podia? Ela não parecia mais a Camila para si mesma. Talvez tivesse que mudar essa visão. Afinal, como poderia ser aceita se ela mesma não o fizesse? Talvez precisasse ser um pouco mais como eles, como Alice, como Tiago. Talvez devesse dar mais valor às pequenas alegrias, como aquele banco de concreto cinza manchado que já devia ter escutado tantas histórias. Talvez precisasse de uma mente mais aberta. Talvez precisasse aceitar, precisasse perdoar. Primeiro... Primeiro a si mesma. E ela sorriu. Dali para frente, ela faria as coisas diferente.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!