Hölle

20 Extra I: Love and Truth


Notas iniciais
sem brincadeira, eu sentei uma noite e escrevi sem parar como se tivesse possuída foi só o filé

Minha vida não é tudo o que eu pensei que iria ser

Seria ela simplesmente ordinária?

Ah, tão distante de todas as minhas fantasias

Eu deito acordada de noite e penso

Em todas as coisas que nunca vou fazer

E em como eu estou perdendo amor e verdade

Mother Mother

Eleonora sorriu e cumprimentou as três enfermeiras. Ao correr os olhos pelas mulheres percebeu, com certo pesar, que ela era a mais jovem entre elas e, com um suspiro de decepção, notou que eram apenas mulheres. Não havia um único enfermeiro no posto a qual ela estava designada.

— Então, senhorita Hoyer, como você está gostando da nossa cidadezinha? – A enfermeira mais velha, Sra. Rodriguez, perguntou e pelas dobras em sua bochecha parecia estar sorrindo. Eleonora forçou os cantos de sua boca a ficarem no lugar. A mulher tinha o mesmo tom benevolente que sua avó e, provavelmente, da mesma forma que ela, iria dissecar cada palavra e apontar defeitos em Eleonora assim que ela virasse as costas.

— É encantadora, mal posso esperar para criar raízes aqui – Ela esperava mesmo que a melancolia em sua voz passasse despercebida. Eleonora deixou seu sorriso deslizar quando outra enfermeira, Srta. Pompeu, deu um novo rumo à conversa.

— O Dr. Malloch não chegou ainda.

— Então provavelmente ele não vem trabalhar hoje. – Srta. Nieng inferiu.

— Ué, estranho. Ele nunca falta! Logo hoje, Nora! – Sra. Rodriguez exclamou.

Eleonora sentiu suas entranhas revirarem com o apelido, mas, pelo bem da convivência que teria com as mulheres pelos próximos meses, fingiu interesse com a expressão mais inquisitiva que conseguiu reunir.

— Quem é o Dr. Malloch?

— Uh, garota. — Srta. Pompeu praticamente cantou, usando o relatório em suas mãos para se abanar.

— É o médico mais lindo, tesão, bonito e gostosão que já colocou os pés neste hospital –

A Sra. Rodriguez ronronou, todas as outras enfermeiras começaram a derramar elogios ao médico e Eleonora dizia Oh e Ah quando achava apropriado. Elas disseram que ele não só era atraente, como também carismático. Segundo elas, ele era completamente dedicado a seus pacientes e mesmo assim tinha tempo para dar atenção a elas e, às vezes, trazia chocolate para o posto. Eleonora pensou consigo mesma que ele deveria ser um senhor simpático de 50 anos, e o chocolate estava afetando o julgamento de suas colegas.

— Ele só tem dois defeitos.

— Como assim? – Ela perguntou.

— Ele é casado e tem um filho. – Srta. Pompeu respondeu com uma expressão sombria.

— Olhar não tira pedaço – Srta. Nieng retrucou com um sorrisinho.

Okay, Eleonora estava completamente desinteressada na conversa.

(...)

Eram duas da tarde e, comendo Cup Noodles com bolacha na sala das enfermeiras, Eleonora se perguntava o que estava fazendo com sua vida. Indo pra casa, ela pensou ao jogar as embalagens no lixo. A caminhada do hospital até o complexo onde ela estava morando levava em torno de 40 minutos. Sob o sol da tarde, o trajeto parecia duas vezes mais demorado. Eleonora amaldiçoava a si mesma por não ter comprado um guarda-chuva para se proteger do sol. Chegar no apartamento minúsculo que ela havia alugado não lhe trazia nenhum conforto. Suas coisas ainda estavam dentro de caixas e o lugar não estava limpo.

Suspirando com resignação, Eleonora prendeu o cabelo em um rabo de cavalo e começou a trabalhar. Seis horas mais tarde, tudo estava em seu devido lugar e o lugar cheirava a pinho-sol. Nem ela sabia por que havia demorado tanto, afinal eram apenas dois cômodos no quarto que ela insistia em chamar de apartamento. Era praticamente uma suíte. O cômodo retangular era dividido por um balcão, de um lado a cozinha e do outro o quarto/sala, com uma porta para o banheiro. O sofá cama era de um turquesa berrante, o criado mudo e a escrivaninha dobravam como penteadeira e, pelo menos, a madeira combinava com os armários da cozinha. Nas paredes, apenas uma estante com seus livros favoritos e diários antigos que ela mantinha longe da Oma

Não era muito, mas nas condições em que havia saído de casa, era tudo o que tinha. Aos 24 anos de idade, ela estava cansada de ter seus movimentos rastreados dentro e fora de casa. Oma, sua avó, era uma imigrante de primeira geração e tão conservadora que sua presença era o suficiente para oprimir qualquer minoria. Depois de brigar e espernear com a mulher, ela conseguiu uma trégua e sua permissão para trabalhar em outra cidade. Dando o maior salto que podia, Eleonora se candidatou e foi contratada em um hospital de outro estado.

Sua avó a deixou ir com a condição que, se depois de nove meses ela não estivesse estabilizada (Eleonora apreciava a ironia do prazo), ela voltaria para casa. Eleonora refletia ao tomar banho. Algo revirava seu estômago, ela não sabia se era culpa ou arrependimento. Era impossível viver com sua avó e arranjar um emprego na mesma cidade, ela não tinha outra saída. A outra circunstância oferecida para que ela pudesse sair de casa sem um emprego seria um casamento e ela se recusava veementemente.

Seu jantar foi metade de uma lata de sardinha. Ela não via a hora de receber seu primeiro salário e fazer uma refeição decente.

Ah, então esse é o Dr. Malloch. Eleonora devia uma desculpa às enfermeiras, pois o Dr. Malloch era, de fato, o homem que elas haviam descrito.

— Sra. Rodriguez, quem é o novo rosto que eu não reconheço? – Ele perguntou, se aproximando do posto das enfermeiras com um sorriso e uma caixa em mãos.

— Essa é Eleonora Hoyer, a nova enfermeira.

O Dr. Malloch se virou para ela e Eleonora sentiu sua alma escorrer pelos pés. De fato, ele era atraente. Alto, bronzeado, com cabelos pretos cuidadosamente bagunçados e um sorriso ofuscante. Eleonora não sentia as palavras saírem de sua boca.

— Prazer. Seja bem-vinda – Ele disse ao entregar a caixa diretamente em suas mãos.

— Obrigada – Ela respondeu tremulamente, observando-o seguir pelo corredor.

— Acho que você tem um pouco aqui – Srta. Pompeu riu e tocou o canto da boca com os dedos. Eleonora ignorou, vendo a cor que o rosto da Sra. Rodriguez estava ganhando. Antes que a mulher pudesse reclamar, ela abriu a caixa e começou a distribuir os chocolates entre elas, esperando que isso as fizessem calar a boca.

— Hmm, acho que ele tem uma favorita. – A srta. Nieng disse e Eleonora revirou os olhos. Eles não tinham trocado mais do que uma palavra e claramente a caixa era para todas elas.

— A gente, a gente não tem trabalho pra fazer? – Ela disse esperando que isso as dispersasse, mas foi como colocar mais lenha numa fogueira. As três começaram a falar de uma vez e esquecendo que ia tentar ser cordial com elas, Eleonora as deixou falando sozinhas.

Elas poderiam se dar ao luxo de ficar a manhã inteira conversando, mas Eleonora queria trabalhar. Tinha que trabalhar. E, tirando o fato de não gostar de seus colegas de trabalho, gostava de trabalhar. O setor no qual ela estava era o geral, o que significava que deveria estar sempre ocupado com triagens e pequenas coisas como suturas, curativos e afins, contudo, já era o segundo dia em que ela trabalhava e tudo o que tinha feito era administrativo.

Mesmo que o hospital fosse relativamente pequeno, era o único da região, então deveria estar sempre com um fluxo moderado de pessoas. Mas, caminhando pelos corredores vazios do hospital, Eleonora se perguntava onde elas estavam. Distraída, ela não percebeu a pessoa vindo em sua direção e, antes que pudesse erguer os olhos, colidiu com um corpo... sólido. O impacto a fez cair no chão, ao olhar para cima e ver que era o Dr. Malloch, ela quis que o chão a engolisse. O médico estendeu a mão e sem olhá-lo nos olhos, ela segurou e se levantou.

— Me desculpe, eu não vi que-

— Não, foi minha culpa. Me perdoe, você está bem srta. Hoyer?

— Nora – Eleonora disse e mordeu a língua assim que fechou a boca. O calor invadiu seu rosto quando ela sentiu a mão ainda contra a sua.

— Nora, você não gostou do chocolate? – O mais casualmente que pode, Eleonora puxou sua mão e lembrou que havia deixado a caixa no posto.

— Eu achei que fosse para as outras também – O Dr. Malloch sorriu. A enfermeira engoliu em seco e as borboletas em seu estômago deram voltas.

— Não, nós precisamos de outro presente de boas vindas então.

Ele já estava seguindo pelo corredor quando Eleonora respirou de novo. Isso poderia ou não ter sido um flerte. Trabalho, trabalho, disse a si mesma ao retomar a caminhada.

Infelizmente para sua mente ativa, o único trabalho do dia foi a caminhada de volta para casa. O Cup Noodles aquecido no micro-ondas do hospital não foi o suficiente para saciar a fome, contudo, Eleonora sentia um peso em seus braços a prevenindo de fazer mais comida. Possivelmente culpa e frustração. Seus jejuns não eram fenômenos raros quando ela estava estressada.

Deitada em sua cama a noite, cansada de esfregar o quarto com cera para gastar energia, Eleonora não conseguia dormir pensando naquele inferno de sorriso.

Notas finais
eu me diverti horrores escrevendo isso acho que minha sina deve ser escrever histórias de romance q não são românticas e tô voltando a minha primeira fic hihi (postada em 2011) colocando música como nome de capítulo bons tempos