Híbrido
9 Shut up heart!
Vesti-me com jeans, tênis, casaco de moletom e fiz um coque mal feito.
Corri para chegar na escola, cheguei bem na hora em que o sinal do terceiro tempo bateu, Sr. Contrin encontrou-me no corredor, era o diretor da escola.
"Katherine." chamou.
"Sim?"
"Você... Você está atrasada."
Bufei e fui até ele.
"Desculpa, mas imagino que o senhor já deve estar sabendo que perdi minha mãe, por isso tenho faltado as aulas. Ainda continuo com insônia devido á todo esse caos, por isso hoje acordei mais tarde, peço perdão, e peço também que me deixe entrar, eu preciso disso aqui." acenei para toda escola "para me sentir ainda um pouco viva, entende? Não me faça voltar para casa."
Ele me avaliou e suspirou.
"Ok, vá, mas mais tarde passe na minha sala, precisamos...conversar." falou.
"Ok." falei andando, mas virei-me "Obrigada Sr. Contrin."
Entrei na sala e todos os olhares se voltaram para mim, era aula de sociologia Sra.Sulivan.
"Oh, Katherine.Entre e sente-se por favor, a aula acabou de começar."
"Obrigada professora."
Emma havia guardado meu lugar lá atrás, ou provavelmente expulsado alguém de tal. Sentei-me e ela me olhou feliz.
A professora explicava sobre sistemas da sociedade, união, família, ótimo, tudo o que eu não tinha e não queria falar, peguei meu ipod e meus fones, meu maior refúgio da realidade.
Na hora do recreio Emma e eu fomos comer na quadra, porque eu não suportava os olhares de pena sobre mim, toda a escola já estava sabendo sobre minha mãe, todos sabiam que agora eu era órfã.Essa palavra me doía, logo meus olhos arderam e lágrimas salpicaram de meus olhos.
"Ei." cutucou-me Emma "O que houve?"
"Ah, nada." enxuguei minhas lágrimas.
Emma ficou me encarando por um tempo e suspirou, sabia o que era, mas entrar naquele assunto só doía mais, e pelo visto não só pra mim, aquilo também andara afetando-a.Ela se virou para pegar alguma coisa na sua bolsa.
"Olhe." falou mostrando-me uma pedra, parecia caramelo derretido dentro, com ondas, e um brilho devido á luminosidade, aquele tom e brilho me lembravam alguém, sorri "Linda né?"
"Sim." falei
"O que foi?" Emma me olhou.
"Nada."
"Você está sorrindo pra uma pedra, fala..."
"Ah nada, é só que me lembra os olhos de James."
"James? Oi?"
"Agente Calton."
"Nossa, de onde veio essa intimidade."
"Hoje de manhã nos encontramos sem querer, ele me convidou para tomar um café, conversamos sobre...você sabe, mas também sem ser sobre essas coisas."
"O que é isso Katherine Savage?" perguntou Emma zombeteira "Está sorrindo só com um pensamento...me conta."
Contei á Emma como James era, e o que sua companhia tinha me causado,vi um brilho de ciúmes no olhar dela, mas ignorei.
"E quantos anos ele tem?"
"Vinte e um."
"Só?"
"Sim."
Emma me avaliou e riu.
"Está gostando dele?" perguntou.
"O que?! Não."
"Sim. Você sorriu durante todo o momento que falava sobre ele.
"Oh. Não delire Em, só tomamos café e gostei da companhia dele, me fez bem."
"Saia com ele de novo."
"Você está se envolvendo com Max? Enfim deu uma chance á ele?"
"Há-há engraçadinha."
Max Tomicha era O Vendedor de drogas nas escola de San Diego, e louco por Emma antes mesmo dessa vida de traficante, mas ele nunca deu uma chance á ele por ele ser muito estranho.
"Não posso sair com ele de novo Emma, ele é bem mais velhos que eu, e meu Tutor no momento, seria muito ilegal."
"Você não usou nojento,sabe porque? Pois daria uma chance pra ele se não se conhecessem dessa maneira. Eu te conheço! Não negue. Pelo o que me falou, ele gosta de piadas, certo? Sabe o Guz, amigo do Rod? Então, ele vai fazer um stand up no Templo quarta, ás 20:00, leve-o, pois se não eu o convidarei."
"Não." me levantei ajeitando-me.
"Onde vai?"
"Tenho que falar com o Sr.Contrin." falei andando "Mais tarde conversamos, e pare de sair com o Max!"
A latinha de coca-cola passou raspando ao meu lado, ri e caminhei até a sala do Diretor.
Sr. Contrin conversou comigo tudo o que eu já imaginava, deu-me pêsames, falou sobre minha questão de mudança, meu boletim, tudo e tentou-me consolar, mas eu não queria.
Mais três tempos de aula se passaram, então fui para casa após deixar Emma no caminho. Como sempre, desde aquele encontro com aqueles caras atrás de Jared, caminhei olhando para todos os lados, me sentia constantemente vigiada, aquilo era horrível, eu estava odiando Jared.
Entrei em casa trancando tudo e joguei-me no sofá.
Havia um parque, as folhagens no chão eram de tom alaranjado, perto de uma árvore havia duas crianças, uma de cabelos negros presos em uma trança e uma de cabelos brancos, eu e Jared.
Fitávamos a árvore, a imagem se aproximou então pude nos escutar.
"Olhe!" apontei para uma ponta dos galhos, Jared olhou
"O quê?"
"Aquela flor." apontei e segui com o olhar.
A flor era linda, parecida com uma lótus, mas não era, suas pétalas sofriam um degrade de azul mediterrâneo até o branco, meus grandes olhos brilhavam, e o pequeno Jared me encarava enquanto eu namorava aquela flor.
"Vou pegá-la." falou.
"É muito alto!Você não é um super-herói Ed."
Eu chamava Jared de Ed?!Ah, era a época em que eu tinha língua presa e não sabia falar Jared direito.
"Vou pegar." falou indo até árvore e começou a escalá-la.O menino era habilidoso e rápido, logo estava no mesmo galho que a flor, se aproximando aos poucos para pegá-la. A pequena Katherine encarava aquela cena quase mastigando os próprios lábios, fazia tempo que eu havia perco aquele tique.
O pequeno Jared alcançou a bela flor, e nesse momento o galho quebrou, fazendo-o cair no chão,e o breve encontro o fez gritar.A pequena correu ao seu encontro assustada.
"Você está bem?" perguntou.
"Não." ele fazia cara de dor, ao tentar levantar, um dos braços não se firmaram, e ele gemeu.
A pequena pegou em seu braço e tentou move-lo, mas Jared gritou fazendo-a gritar também e cair em lágrimas.
"Oh, seu braço.Está quebrado?" chorou.
"Acho que sim.Mas já melhora, não chore." ele a avaliou e olhou em volta,se esticou para pegar a flor á poucos centímetros de distância dos dois e entregou á pequena. "Tome."
A pequena Katherine encarou a flor,em seguida Jared, e fungou.
"Temos que te levar ao hospital." falou
"Não precisa." ele deu um meio sorriso "Pegue." esticou a flor "Você não á queria?"
"Você está machucado." chorou.
"Estou bem." ele cheirou a flor "Ela é cheirosa, cheire." falou enfiando no nariz de Katherine, meu nariz.
Ela pegou a flor e cheirou.
"Você sabe o nome dela?" perguntou.
"Sei." falou
"Qual?"
"Kate."
A menina o olhou com os grandes olhos violetas e sorriu, ele deu meio sorriso, e pôs-se a movimentar o braço antes quebrado, agora parecia normal.
"Oh."
"Não conte para nossas mães." pediu o pequeno Jared.
"Ta bom. Vamos para casa?"
O menino deu um sorriso sem mostrar os dentes e se levantou.
"Vamos."
A imagem foi se desfazendo á medida que iam caminhando, eu saltitava cheirando a flor batizada com meu nome, e o menino ao meu lado me encarava divertido.
Acordei quando beijei o chão após ter caído do sofá. Levantei-me e fui até meu quarto, procurando entre minhas mil caixas meus diários de quando mais nova. Tinha aquela mania de fazer um diário para cada lugar que eu morava, guardando cada detalhe das pessoas, lugares. No fundo do meu armário estava a caixa, a peguei, estava empoeirada, dentro dela havia vários cadernos com capas personalizadas por mim, havia do Brasil, Paris, Itália, Filipinas, Rússia e por fim Romênia.
A capa era pintada em uma listra azul, amarela e vermelha, as cores da bandeira da Romênia, havia o Brasão de Armas, tudo colado, o nome Romênia era recortado em diferentes cores, todas com as cores da bandeira, e gliter, abaixo do nome havia o lema "Nihil Sine Deo", em latim "Nada Sem Deus", o que eu achava idiotice, já que eu vivia e com certeza sem ajuda dele.
Primeira folha havia um relato de como eu tinha chego, o que achei da recepção das pessoas, eram mais calorosas que os franceses e russos, mas não iguais aos cariocas, tinha umas fotos que eu havia recortado da revista de viagens, dos castelos, parques.
Na segunda havia uma foto da minha casa, á frente dela minha mãe carregando uma caixa junto com o rapaz da mudança, meus olhos se encheram d’água. Tinha desenhos feitos por mim, havia sol bem amarelo e com glitter, tudo havia glitter, afinal, eu tinha oitos anos. As folhas seguintes foi sobre afazeres com minha mãe, quais pulei, até que cheguei uma folha com o título Jared, havia papéis de bala, aparentemente um cabelo sem cabeça pintado por corretivo branco, uma boca mal desenhada com uma pintinha acima, e o relato de quando nos conhecemos.
Dali para frente só escrevia sobre ele, como ele agia, como as crianças não gostavam dele, como eu brigava por ele, havia sempre recortes, desenhos, lágrimas, meios sorrisos, cabelos brancos, olhos verdes, com glitter também. Tínhamos visitado os castelos, tinham folhas mortas, manchas, talvez de sangue, xícaras de café desenhadas, nuvens, chuvas, e uma foto de Jared. Ele vestia uma blusa nave branca e amarela, bermudas azuis e estava descalço, brincava com um galho no meu quintal, uma mão no bolso, cabelo sobre seu olho direito, e o outro olhando para foto, eu o deveria te-lo surpreendido. Como ele ainda negava que não se lembra de mim?
Na folha seguinte estava Kate, já morta, mas havia um desenho dela ao lado, em todos meus dezesseis anos, nunca tinha visto um desenho realmente bem feito por fim como aquele, estava quase idêntica á do meu sonho, eu tinha feito o sombreado, o degrade das pétalas. Havia também um braço desenhado com gesso, o suposto braço quebrado de Jared. Aquela página estava cheirosa, aproximei meu nariz, eu já tinha sentido aquela cheiro antes, era Kate, ainda que morta, cheirosa. Sorri.
Mais e mais relatos meus com Jared, até meu desespero quando fiquei sabendo que tinha de ir embora.
"Mais uma vez tenho que me mudar, estou muito chateada pois estou realmente feliz aqui, tenho mamãe, Sra. Sheen e Jared. Oh Jared, vou sentir tanta falta dele. Quem irá proteger ele dessas crianças que pegam no seu pé?Se elas soubesse o quanto ele é legal...Sabe, eu amo Jared, do fundo do meu coração, é o melhor amigo de todos os tempos, não quero deixar ele, queria poder ficar pra ele, pra todo sempre..."
Encarei aquele diário, eu era apaixonadinha por Jared!Como eu tinha me esquecido daquilo?
Passei a tarde inteira lendo meu passado, mesmo nos outros diários havia Jared, mas depois ele foi sumindo, no final só haviam olhos verdes com gliter, mas não havia mais nada sobre aquilo, apenas olhos, olhos e uma pinta na boca.
Tocaram a campainha e eu fui atender, era uma mulher, alta, muito bonita, cabelos loiros ondulados de dar inveja, olhos pretos e um sorriso frio.
"Boa tarde." falou.
"Boa tarde."
"Você conhece Jared Higgins?"
"Ah..." fechei a porta ou tentei, pois a mulher pôs o braço e empurrou a porta, fazendo com que eu caísse no chão.
"Responda." falou.
"Não! Eu não sei!"
Ela me encarou.
"Ok. Obrigada e boa tarde." falou saindo mas voltou assim que me levantei "Caso esteja mentindo, um dia se arrependerá muito por isso." sorriu amarga e saiu andando.
Tranquei a porta e respirei fundo. Se eu visse Jared, seria a primeira á matá-lo.
Notas finais
Comentários porfa, bjs
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