Notas iniciais
Mereço apanhar? Mereço. Mas antes... Peço para que antes pensem bastante porque eu ainda não escrevi o capítulo Bônus. Então vocês precisam ser muito bonzinhos e me deixar inteira até lá. Vou deixar vocês lerem e, por favor, não deixem de ler as notas finais. Tenho coisas importantes pra falar. Boa leitura.

No velho calabouço do castelo, uma mulher idosa, mas de aparência consideravelmente rejuvenescida recebera uma notícia que parecia tê-la deixado contente. Ela desceu as mãos, fazendo com que as chamas retornassem ao chão de onde haviam surgido e se elevado, o cheiro forte da combustão logo se extinguiu, de forma que somente o odor de bolor e essências exóticas, as quais estavam permanentemente impregnadas no lugar, permanecesse.

Ela caminhou de um lado para o outro, esfregando uma mão na outra enquanto a bainha de seu vestido de veludo verde-musgo se arrastava pelo chão de pedra lisa e fria; avaliou a sala por um momento, como fizera tantas vezes ao longo de suas centenas de anos, mas havia algo diferente, ela podia sentir. Eram as mesmas paredes e chão de rocha maciça, as prateleiras de madeira com milhares de loções, poções e ingredientes, a mesma cama com dossel e um velho bengaleiro de madeira que ela usava para guardar seus vários chapéus. Não havia nada de errado ou estranho na mobília. Tudo parecia em perfeita ordem, como a rústica cômoda do final do século XVIII, o pentagrama marcado no chão, o qual ainda soltava um leve filete de fumaça por conta do uso recente.

Seus olhos alaranjados então pareceram notar algo por fim. Dançaram até o antigo caldeirão, que não usava há pelo menos meio século.

Acho que finalmente terei um motivo para usá-lo de novo... pensou, um sorriso cadavérico nascendo em seu semblante, exibindo seus dentes afiados e as rugas marcadas ao redor dos olhos e nos cantos da boca.

Houve uma batida na porta, o que interrompeu seu momento de reflexão. Fez seu caminho até lá maldizendo toda e qualquer criatura rastejante, expressando sua irritação. Abriu a porta e olhou para baixo, para uma jovenzinha que não parecia ter mais de doze anos. Ela usava um vestido de Poá branco e bege até os joelhos, o cabelo dourado preso num rabo de cavalo tão apertado que se assemelhava à exagerada moda oriental.

“Boa noite Senes.” A menina sorriu timidamente para a velha senhora, que simplesmente a encarou com indiferença. A menina olhou timidamente para os próprios pés, balançando-se em seus calcanhares com suas botinhas pretas e bem polidas. “Eu só vim buscar as notícias diárias” murmurou.

Senes encarou a menina com os olhos estreitos e a pegou pelo queixo, fazendo com que a menina a olhasse nos olhos. A criança estremeceu.

“Quero que entregue essa mensagem diretamente ao Vis.” Aproximou seus lábios velhos e enrugados da orelha da menina e sussurrou. “Entendeu, criança?” perguntou ao fim da mensagem, afastando-se um passo.

A velha sorriu com deleite enquanto observava a criança se afastar, levando sua mensagem ao seu destino. A menina simplesmente assentiu e correu para longe, visando cumprir sua missão rapidamente.

Subiu vários lances de escada e desviou de todas as pessoas que tentaram pará-la para arrancar-lhe as informações diárias. Amaldiçoou Duvessa por ter-lhe dado aquela missão; ela sabia que, se falhasse, seu fim seria funesto. Deu graças a Luna quando finalmente chegou ao topo da torre, onde esperava encontrar Vis; para sua sorte, ele estava lá. Era um homem alto, tinha os ombros largos e fortes, embora seu sobretudo azul-petróleo disfarçasse suas formas. Ele olhava distraidamente para o vitral diante dele, suas mãos unidas em suas costas, sua postura firme como a de um militar, o que ele era, de certa forma.

Na sala não se ouvia um único barulho sequer; nem mesmo o vento passou para cumprimenta-los com o ruído de seu sopro e bagunçar o cabelo — um dia ruivo — grisalho do homem chamado Vis. Ao contemplar o homem, a menina se sentiu repentinamente menor do que realmente era.

“Suponho,” disse Vis de repente, com sua voz grave, pegando a menina de surpresa “que não tenha vindo até aqui para assistir um velho observar um vitral empoeirado.” Seu tom bem humorado por pouco não foi notado, se a menina não tivesse tido a coragem de se aproximar mais e ter um vislumbre do meio sorriso no rosto do homem.

“Ah, ah...” Ela engoliu em seco quando começou a gaguejar. “Senes pediu para dizer ao senhor que a Venéfica Aloi... Ateliv... Avio...” ela quase nunca ouvia aquela palavra. Era comentada em histórias bem antigas que sua mãe costumava lhe contar antes de dormir.

Vis se virou para a menina com o cenho franzido, com estranheza, mas ela se encolheu ao interpretar aquela expressão como se ela estivesse, de alguma forma, encrencada.

“Ateloives” ele a corrigiu calmamente, olhando-a nos olhos para que ela não se esquecesse. Ela umedeceu os lábios e engoliu em seco, agarrando as laterais do vestido e assentindo como a boa menina que era, sentindo o poder daqueles olhos azuis sobre ela. “O que mais ela disse?” Vis perguntou e se virou novamente para o vitral.

“Ela disse que a Venéfica A-te-loives” sorriu por ter conseguido pronunciar o nome corretamente dessa vez “está a caminho”.

Depois de um vasto silêncio, houve um suspiro profundo. Seus olhos dançaram pela superfície do vitral, mas sem de fato vê-lo; havia uma confusão de emoções, pensamentos e lembranças acontecendo em sua mente. De pouco a pouco, conforme ele recobrava sua clareza mental, um sorriso nasceu em seu rosto.

“Ela está finalmente conhecendo suas raízes.” A voz de uma mulher invadiu a sala, a voz que sempre fizera a menina querer correr, a voz daquela que lhe deu aquela infeliz missão pela manhã. Duvessa.

Vis se virou lentamente para a menina mais uma vez, antes de dar sua atenção para a mulher que acabara de chegar.

“Mais alguém sabe sobre isso?” ele quis saber. A criança apenas negou fortemente com a cabeça. “Ótimo. Vamos manter assim: um segredo nosso. Você não vai contar isso a mais ninguém, entendeu?” ela assentiu e ele sorriu. “Agora pode ir. Obrigado por trazer a mensagem”.

A menina sorriu timidamente e se virou para ir embora, encontrando por um breve instante os olhos cor-de-vinho de Duvessa, olhos flamejantes e aterrorizantes.

“É bom que tenha entendido, criança” disse a mulher com um arrogante sorriso de canto. “Do contrário,” ela se inclinou um pouco para a frente, em direção à menina, que se encolheu. “Eu mato você”

Um arrepio percorreu todo o corpo da pobre garotinha, que com uma súbita vontade de chorar, saiu correndo para longe daquele monstro em forma de mulher.

“Duvessa, precisava espantar a menina daquele jeito?” ele rolou os olhos, deixando clara a sua opinião em relação à atitude da outra, a qual simplesmente gargalhou.

“Convenhamos, Vis. Pelo menos agora sabemos que ela não vai sair por aí contando pra todo mundo o que ela sabe. Não sem pensar duas vezes no próprio pescoço.” Ela fez um exagerado gesto de enxotar com a mão. “Além disso, dessa forma ela não põe em risco a sua joia preciosa”.

Vis deu alguns passos em direção a ela, a expressão endurecida em seu rosto, fazendo com que parecesse mais velho do que geralmente aparentava.

“Eu não gosto desse tom na sua voz, Duvessa. Qual é o seu problema? Por acaso tem medo por ela estar finalmente conhecendo suas raízes? Tem medo de que ela se torne uma Venéfica melhor que você?”

“Desde que ela esteja do nosso lado,” a voz da mulher se elevou, indo de encontro à afronta do outro bruxo “eu não tenho o que temer. Embora eu duvide que ela ou qualquer outra venha a ser melhor do que eu. Então, por favor, apenas faça a sua parte convencendo-a a vir para o nosso lado e deixe de falar asneiras”.

A carranca de Vis se aprofundou.

“Pode ter certeza de que a minha parte irei fazer.” Respirou fundo algumas vezes e tornou a encarar o vitral. “Não será fácil com Emily por perto, mas eu vou conseguir. Logo Katherine estará em casa, com sua verdadeira família”.

“Assim espero” disse Duvessa.

Notas finais
Gente, este é o último capítulo de Híbrido. Eu estou muito chorosa e emocionada, mas é um orgulho ter chegado onde chegamos. A Musa fez um trabalho incrível com essa história e eu me sinto honrada por ela ter confiado em mim pra caminhar com ela até aqui. Porém, a partir de agora, ela vai seguir sozinha. Nós já conversamos sobre isso nos capítulos anteriores, então nada de drama, ok? Eu já li um pouquinho do que está vindo por aí (morram de inveja) e Venéfica tem TUDO pra arrasar com essa bagaça. Eu quero ver todo mundo fazendo algazarra por lá, hein. Eu vou sentir saudades de vocês, mas continuarei pertinho porque eu serei uma leitora também. o/ uhul! Quanto ao capítulo Bônus, vou fazer a contagem dos votos e vocês verão o resultado quando ele sair. Tchã tchã tchã tchããã!! Não vou me despedir agora porque poderei fazer isso no Bônus. Então, nada de choro! Um beijo, galera. Até o próximo :')